O Diálogo entre os Autômatos e a Arte Carbonizada
“Vivemos uma era em que muitas outras forças, além daquelas que o artista naturalmente dispõe para criar, regem o sistema da arte.”
(Ricardo Resende, diretor técnico do Museu de Arte Contemporânea do Ceará)
Uma contundente crítica ao atual panorama das artes plásticas no Brasil foi trazida à tona, em dez de janeiro de 2006, pelas mãos de alguém que também é parte da própria crítica que faz. Yuri Firmeza - nome artístico do idealizador de tal protesto - é artista plástico em Fortaleza, Ceará, e em conluio com altos funcionários do Instituto Dragão do Mar e o Museu de Arte Contemporânea daquela capital, construiu o que se pode chamar de a maior engambelação jornalística dos últimos tempos no Brasil, na qual estrelam dois dos jornais de maior circulação daquele estado nordestino.
O artista plástico cearense, com o apoio do diretor técnico do Museu de Arte Contemporânea (MAC) do Ceará, Ricardo Resende, decidiu criar, no intuito de denunciar o que chamou de “falta de atenção da mídia para com os artistas locais”, um personagem fictício, um famoso artista plástico japonês de nome Souzousareta Geijutsuka - uma frase que, em japonês, significa literalmente “artista inventado” - cuja mais recente exposição, também fictícia, intitulada “Geijitsu Kakuu”, seria aberta no MAC em janeiro de 2006. No engodo bem urdido, anunciou-se até mesmo a presença do artista em Fortaleza para a abertura da exposição.
A namorada de Firmeza passou-se por assessora de imprensa e enviou elogiosos press releases para as redações dos jornais O Povo e Diário do Nordeste e até mesmo uma entrevista que teria sido dada por correio eletrônico pelo artista nipônico. A farsa, que contou com a bênção do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, bem como do MAC, deu resultados: a exposição virou tema de ampla divulgação nos jornais locais e até mesmo a entrevista foi publicada na íntegra. (…)
Mas a imprensa cearense não pareceu se contentar apenas com os press releases divulgados - publicou também fotografias de algumas obras do mestre japonês da arte-ciência-tecnologia - um gato branco, tirada no quintal da casa de Firmeza, e uma imagem de uma praia cearense contorcida com o uso de um software comum de edição de imagens - e repassou a seus colunistas a tarefa de gerar resenhas para a exposição tão importante que iria acontecer na capital cearense. Na edição do dia 10 de janeiro de 2006, o jornal O Povo publicou, na capa do caderno Vida & Arte, uma matéria, com o título “Desconstruindo a arte”, na qual afirmava que “Souzousareta Geijutsuka não se intimidava com o estranho” e que “o artista plástico nipônico transformava em arte o que nem de longe parecia isso”. No mesmo dia, o “Diário do Nordeste” também publicou matéria sobre a “exposição” em seu Caderno 3. “O sofisticado equilíbrio entre vida e morte na natureza é o fio temático de sua exposição ‘Geijitsu Kakuu’, em que flores e vegetais são revisitadas por meio de objetos carbonizados, em um convite a reflexões sensoriais sobre a fragilidade da vida”, dizia o artigo assinado por conhecido crítico de arte do jornal. No mesmo texto, o articulista afirma que “o pintor e escultor francês Marcel Duchamp (1887-1968) é citado por Souzousareta como uma de suas grandes influências”, e reproduz trechos da entrevista fictícia que a assessora de imprensa fajuta enviara para o jornal como se o próprio Caderno 3 houvesse realizado contato com o pintor fantasma (…)
O que mais assombra em todo o ocorrido é que vem às claras o que o leitor mais atento já desconfiava há tempos: não há critérios, tampouco cuidados, para o que é publicado ou não em nossos cadernos de cultura dos vários jornais brasileiros. Não raro se vê nas páginas desses periódicos artistas que são endeusados nos mesmos termos que o falso press release usa para exaltar o inexistente mestre japonês - e vai sobrando no imaginário popular a noção de que a arte é loucura, é algo incompreensível, é perda de tempo. Fácil imaginar o porquê: estamos em uma era na qual os artistas obtem espaço para exibir sua arte, seja em galerias e museus ou nos jornais e canais de televisão, mais por seu currículo e indicações que por seu talento puro e simples. (…)
Yuri Firmeza tem uma obra artística bastante questionável - em uma de suas performances, intitulada Ação 4 e disponível em vídeo em sua página na Internet, o artista cearense tira a roupa em meio a uma galeria de arte e sai caminhando, como se estivesse admirando as demais obras expostas no lugar, até entrar em outra sala e simular (?) uma relação sexual com outro homem, projetando as imagens para o público - e só, a velha história de usar o sexo e o nu para chocar os pequenos burgueses conservadores que os artistas contemporâneos ainda acreditam existir no Brasil. Por mais tola que sua arte seja, sua recente peripércia jornalística merece aplausos. A “travessura” do artista levanta questões, isto sim, sobre a imprensa brasileira como um todo. (…) E pensar que nem o
eles tiveram curiosidade de usar como fonte de pesquisa para escrever sobre a bela arte de Souzousareta Geijutsuka… (…)(LEIA TEXTO COMPLETO ABAIXO)
“Vivemos uma era em que muitas outras forças, além daquelas que o artista naturalmente dispõe para criar, regem o sistema da arte.”
(Ricardo Resende, diretor técnico do Museu de Arte Contemporânea do Ceará)
Uma contundente crítica ao atual panorama das artes plásticas no Brasil foi trazida à tona, em dez de janeiro de 2006, pelas mãos de alguém que também é parte da própria crítica que faz. Yuri Firmeza - nome artístico do idealizador de tal protesto - é artista plástico em Fortaleza, Ceará, e em conluio com altos funcionários do Instituto Dragão do Mar e o Museu de Arte Contemporânea daquela capital, construiu o que se pode chamar de a maior engambelação jornalística dos últimos tempos no Brasil, na qual estrelam dois dos jornais de maior circulação daquele estado nordestino.
O artista plástico cearense, com o apoio do diretor técnico do Museu de Arte Contemporânea (MAC) do Ceará, Ricardo Resende, decidiu criar, no intuito de denunciar o que chamou de “falta de atenção da mídia para com os artistas locais”, um personagem fictício, um famoso artista plástico japonês de nome Souzousareta Geijutsuka - uma frase que, em japonês, significa literalmente “artista inventado” - cuja mais recente exposição, também fictícia, intitulada “Geijitsu Kakuu”, seria aberta no MAC em janeiro de 2006. No engodo bem urdido, anunciou-se até mesmo a presença do artista em Fortaleza para a abertura da exposição.
A namorada de Firmeza passou-se por assessora de imprensa e enviou elogiosos press releases para as redações dos jornais O Povo e Diário do Nordeste e até mesmo uma entrevista que teria sido dada por correio eletrônico pelo artista nipônico. A farsa, que contou com a bênção do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, bem como do MAC, deu resultados: a exposição virou tema de ampla divulgação nos jornais locais e até mesmo a entrevista foi publicada na íntegra.
O press release é, talvez, a verdadeira obra-de-arte da história: nele, diz-se que a exposição do artista no Ceará seria sua “quarta participação em eventos no Brasil” e Geijutsuka é apresentado como “um dos [nomes] mais importantes no panorama das relações entre arte, ciência e tecnologia” e um artista preocupado em revelar “ao público o mundo das flores e vegetais, usando objetos carbonizados(…) [buscando] a harmonia entre a natureza que nasce e a que morre, empregando equipamentos tecnológicos para expor suas obras”
O escárnio continua com a descrição das supostas obras do artista fictício: “Souzousareta também desenvolveu a fotografia Shiitake, uma técnica japonesa que permite a captação dos fenômenos invisíveis ocorridos na atmosfera. Recentemente, o artista vem desenvolvendo um trabalho nos domínios da robótica, explorando as possibilidades de utilização de um autômato num diálogo com a escultura e a instalação ambiental. Seus trabalhos já foram expostos em Tóquio, Nova York, São Paulo e Alemanha.” Shiitake, como todos sabem, exceto os jornalistas cearenses, é o nome de um cogumelo muito utilizado na culinária japonesa.
Mas a imprensa cearense não pareceu se contentar apenas com os press releases divulgados - publicou também fotografias de algumas obras do mestre japonês da arte-ciência-tecnologia - um gato branco, tirada no quintal da casa de Firmeza, e uma imagem de uma praia cearense contorcida com o uso de um software comum de edição de imagens - e repassou a seus colunistas a tarefa de gerar resenhas para a exposição tão importante que iria acontecer na capital cearense. Na edição do dia 10 de janeiro de 2006, o jornal O Povo publicou, na capa do caderno Vida & Arte, uma matéria, com o título “Desconstruindo a arte”, na qual afirmava que “Souzousareta Geijutsuka não se intimidava com o estranho” e que “o artista plástico nipônico transformava em arte o que nem de longe parecia isso”. No mesmo dia, o “Diário do Nordeste” também publicou matéria sobre a “exposição” em seu Caderno 3. “O sofisticado equilíbrio entre vida e morte na natureza é o fio temático de sua exposição ‘Geijitsu Kakuu’, em que flores e vegetais são revisitadas por meio de objetos carbonizados, em um convite a reflexões sensoriais sobre a fragilidade da vida”, dizia o artigo assinado por conhecido crítico de arte do jornal. No mesmo texto, o articulista afirma que “o pintor e escultor francês Marcel Duchamp (1887-1968) é citado por Souzousareta como uma de suas grandes influências”, e reproduz trechos da entrevista fictícia que a assessora de imprensa fajuta enviara para o jornal como se o próprio Caderno 3 houvesse realizado contato com o pintor fantasma, com direito a respostas como estas:
Caderno 3:
“Qual a resposta que vem obtendo do público e das instituições de arte brasileiras quanto à sua arte?”
Geijutsuka:
“Muito pequena, como deve ser o caso da maioria dos artistas contemporâneos, pelo menos aqueles que ainda resistem a uma total subordinação dos procedimentos e problemas estéticos aos imperativos de consumo. Não só no Brasil, mas me parece que em vários países desenvolvidos, as atividades da cultura precisam apresentar relevância mercadológica para encontrar linhas abertas de financiamento e incentivo. Acontece o mesmo com o público, sobretudo com a arte eletrônica. Precisamos estar o tempo todo brigando com nossa própria produção para não deixar que os clichês tomem conta de tudo. E é esse o problema, o público, em geral, adora clichês. Espero encontrar coisa diferente no Brasil.”
Caderno 3:
“Como o senhor sintetizaria o conceito e o objetivo da exposição Geijitsu Kakuu?”
Geijutsuka:
“Essa exposição tem várias facetas, justamente para poder lidar com vários problemas. Tudo está integrado a um exercício do simulacro, cujo objetivo é retirar os hábitos de seu estado de evidência. Inclusive hábitos estéticos, do tipo ‘Por que gostamos de arte?’. É preciso ver a exposição”.
O que mais assombra em todo o ocorrido é que vem às claras o que o leitor mais atento já desconfiava há tempos: não há critérios, tampouco cuidados, para o que é publicado ou não em nossos cadernos de cultura dos vários jornais brasileiros. Não raro se vê nas páginas desses periódicos artistas que são endeusados nos mesmos termos que o falso press release usa para exaltar o inexistente mestre japonês - e vai sobrando no imaginário popular a noção de que a arte é loucura, é algo incompreensível, é perda de tempo. Fácil imaginar o porquê: estamos em uma rea na qual os artistas obtem espaço para exibir sua arte, seja em galerias e museus ou nos jornais e canais de televisão, mais por seu currículo e indicações que por seu talento puro e simples. A arte contemporânea vai-se firmando como um grande clube de amigos, no qual entra quem é indicado por um sócio. E para ser amigo de um sócio, não basta ter talento: há que seguir a cartilha e encontrar um caminho para penetrar neste hermético mundo, seja pelas portas da formação acadêmica ou das graças de curadores e descolados marchants.
Curiosamente, no dia seguinte à revelação do vergonhoso papel desempenhado pela imprensa cearense no episódio, o jornal O Povo fez publicar artigos em defesa da imprensa e contra o empulhamento do artista e dos órgãos públicos que o apoiaram na farsa. Em um dos artigos, intitulado “Arte e Molecagem”, o jornal critica veementemente a atitude de Yuri Firmeza, a qual classifica como “molecagem do artista plástico (…) que inventou o pseudônimo de Souzousareta Geijutsuka e divulgou para a imprensa local seu (…) brilhante currículo de exposições no exterior como forma de conseguir espaço na mídia, revelou alguns traços do espírito da arte contemporânea em Fortaleza”. Para “O Povo”, a brincadeira de Firmeza revela que a arte contemporânea cearense é “uma arte pobre, recalcada e alienada, feita por moleques que confundem discurso (ou melhor, as facilidades conceituais de um discurso) com pichação; que acham que estão sendo corajosos quando não fazem mais do que espernear e gritar por uma mesadinha ou por uma berlinda oficial.”
Yuri Firmeza tem uma obra artística bastante questionável - em uma de suas performances, intitulada Ação 4 e disponível em vídeo em sua página na Internet, o artista cearense tira a roupa em meio a uma galeria de arte e sai caminhando, como se estivesse admirando as demais obras expostas no lugar, até entrar em outra sala e simular (?) uma relação sexual com outro homem, projetando as imagens para o público - e só, a velha história de usar o sexo e o nu para chocar os pequenos burgueses conservadores que os artistas contemporâneos ainda acreditam existir no Brasil. Por mais tola que sua arte seja, sua recente peripércia jornalística merece aplausos. A “travessura” do artista levanta questões, isto sim, sobre a imprensa brasileira como um todo. Não raro vemos, aqui mesmo em Porto Alegre, diversos jornais publicando textos praticamente idênticos sobre um novo livro a chegar no mercado ou um espetáculo que estréia, muitas vezes repetindo até o título - sinal de que basta ter um bom “press release” nas mãos certas, hoje em dia, para que qualquer trabalho artístico receba um status de obra-prima.
E pensar que nem o
eles tiveram curiosidade de usar como fonte de pesquisa para escrever sobre a bela arte de Souzousareta Geijutsuka… Nem um autômato, carbonizado ou não, resistiria a tal tentação.
Observem os "links" disponíveis em diversos trechos do texto; eles levam a outros "sites" que ilustram bem a interessante história do "artista fictício" do Japão/Ceará.