Qual é o produto?
Há uma história pitoresca que ouvi de amigos professores de língua inglesa e que expressam bem minha presente indignação. Uma visitante estrangeira, de origem européia, esteve em Porto Alegre para uma série de palestras e um breve estágio no Brasil, cumprindo seu ano sabático. Curiosa com a cultura brasileira, ela confessou a sua tradutora que não conseguia entender muito bem algumas propagandas televisivas que via serem veiculadas com insistência. A tradutora explicou, solícita, que as peças publicitárias a que se referia eram advertisements do Governo Federal, da Presidência da República. A estrangeira, que conhecia um pouco de português, mas vinha de um país onde propaganda serve para vender, disse que havia identificado isso, mas mesmo assim não compreendia muito bem que produto o governo estava tentando vender com toda aquela propaganda… (…)
Em janeiro de 2006, estamos a observar uma verdadeira avalanche de publicidade governamental sobre os feitos do Governo Lula, seja na televisão ou mesmo em outdoors espalhados em estradas e nas grandes cidades, como Porto Alegre, virtualmente em todas as principais ruas de trânsito mais movimentado. Em se acreditando nas palavras expostas no site oficial do Governo Federal, o objetivo é dar transparência para os feitos do governo e, vá lá, motivar a população ao debate sobre o que deve ser priorizado no futuro. Mas é de se lamentar que tal quantidade de propaganda paga com os cofres públicos surja bem no início do último ano de seu governo, em meio a uma crise política e moral que faz a população se sentir achincalhada a cada nova notícia divulgada pelos meios midiáticos de todas as colorações políticas - ainda que haja os que insistem em atribuir às comprovações de roubo, desvio de verbas e caixa dois de campanhas eleitorais recentes um caráter de “conspiração da imprensa e das elites” contra o nosso presidente (que, aliás, também não vê nas revelações feitas até o presente momento nenhum motivo para alarde). Será que o Governo Federal realmente precisa usar das ferramentas da publicidade - comerciais televisivos, chamadas radiofônicas, outdoors e afins - para que o povo brasileiro conheça seus feitos? Responder sim a esta pergunta soa como uma negação absoluta ao trabalho da imprensa, que alimenta os cidadãos com informação suficiente para que saibamos bem o que se passa nos eventos oficiais e também nos bastidores da política nacional. Então, qual o sentido de gastar milhões com enormes reclames e cartazes para dizer ao povo que o governo investiu milhões em programas como o Fome Zero? (…)(LEIA O TEXTO COMPLETO ABAIXO)
Há uma história pitoresca que ouvi de amigos professores de língua inglesa e que expressam bem minha presente indignação. Uma visitante estrangeira, de origem européia, esteve em Porto Alegre para uma série de palestras e um breve estágio no Brasil, cumprindo seu ano sabático. Curiosa com a cultura brasileira, ela confessou a sua tradutora que não conseguia entender muito bem algumas propagandas televisivas que via serem veiculadas com insistência. A tradutora explicou, solícita, que as peças publicitárias a que se referia eram advertisements do Governo Federal, da Presidência da República. A estrangeira, que conhecia um pouco de português, mas vinha de um país onde propaganda serve para vender, disse que havia identificado isso, mas mesmo assim não compreendia muito bem que produto o governo estava tentando vender com toda aquela propaganda…
No portal do Governo Federal, site mantido pelo Poder Executivo Federal e que oferece acesso a diversas páginas ligadas ao Palácio do Planalto e a vários ministérios, é explicado que a publicidade do Governo Federal visa a “levar o máximo de informação à sociedade”, para que “a população tome conhecimento do que o Governo faz e o por quê”. Na mesma página, que reproduz as palavras do discurso de posse do presidente Luiz Inácio Lula da Silva - “Não faltarei com a verdade” - para justificar a propaganda do governo como uma forma de “estimular cada cidadão a se inteirar do que acontece no País e a participar da discussão e solução dos problemas nacionais”, são estabelecidas as diferenças entre publicidade de utilidade pública e publicidade institucional: “se o Governo faz uma campanha orientando a população para não deixar água empoçar e, assim, combater a dengue, está fazendo publicidade de utilidade pública. (…) Se o Governo faz uma campanha mostrando como a conscientização da população permitiu o controle da dengue ou uma campanha explicativa sobre a importância das reformas para o País, está fazendo publicidade institucional” (a qual, aliás, desde 2003, passou a ser gerida pela Secretaria de Comunicação de Governo e Gestão Estratégica (Secom) de Luiz Gushiken, recentemente arrolado no escândalo do mensalão e do valerioduto. O discurso oficial sobre publicidade segue dizendo que “a publicidade oficial, seja ela institucional ou de utilidade pública, tem sempre conteúdo educativo, informativo ou de orientação social, por preceito constitucional” e que “em nenhuma circunstância tal publicidade pode fazer promoção pessoal do administrador público”.
Então, vejamos. Em janeiro de 2006, estamos a observar uma verdadeira avalanche de publicidade governamental sobre os feitos do Governo Lula, seja na televisão ou mesmo em outdoors espalhados em estradas e nas grandes cidades, como Porto Alegre, virtualmente em todas as principais ruas de trânsito mais movimentado. Em se acreditando nas palavras expostas no site oficial do Governo Federal, o objetivo é dar transparência para os feitos do governo e, vá lá, motivar a população ao debate sobre o que deve ser priorizado no futuro. Mas é de se lamentar que tal quantidade de propaganda paga com os cofres públicos surja bem no início do último ano de seu governo, em meio a uma crise política e moral que faz a população se sentir achincalhada a cada nova notícia divulgada pelos meios midiáticos de todas as colorações políticas - ainda que haja os que insistem em atribuir às comprovações de roubo, desvio de verbas e caixa dois de campanhas eleitorais recentes um caráter de “conspiração da imprensa e das elites” contra o nosso presidente (que, aliás, também não vê nas revelações feitas até o presente momento nenhum motivo para alarde).
Será que o Governo Federal realmente precisa usar das ferramentas da publicidade - comerciais televisivos, chamadas radiofônicas, outdoors e afins - para que o povo brasileiro conheça seus feitos? Responder sim a esta pergunta soa como uma negação absoluta ao trabalho da imprensa, que alimenta os cidadãos com informação suficiente para que saibamos bem o que se passa nos eventos oficiais e também nos bastidores da política nacional. Então, qual o sentido de gastar milhões com enormes reclames e cartazes para dizer ao povo que o governo investiu milhões em programas como o Fome Zero? Tais anúncios levam-nos apenas a pensar em quantas famílias seriam beneficiadas com o dinheiro gasto nessas campanhas milionárias, que tem como maiores beneficiários as agências publicitárias e seus donos nem sempre com formação na área - a exemplo de Marcos Valério - e muitas vezes não muito honestos - como Duda Mendonça, idealizador da campanha presidencial que levou Lula ao poder, cujas contas em paraísos fiscais e transações escusas vieram à tona por meio da Comissão Parlamentar de Inquérito que investiga o esquema de corrupção dos Correios e Telégrafos (e que já extrapolou em muito tal propósito) e foram, com mais vigor ainda, desmascaradas na edição da revista Veja de 15 de março de 2006. Quantos empregos poderiam ser gerados se o Governo Federal deixasse de investir fortunas em propaganda eleitoreira e encaminhasse tal montante para projetos de inclusão social? Quantas rodovias poderiam ser recuperadas com o dinheiro que o Poder Executivo e sua Secretaria de Comunicação esbanjam em cartazes para demonstrar ao povo que foram recuperadas esta e aquela estrada federal?
Tudo isso torna-se ainda mais absurdo quando tal campanha foi deslanchada na mesma semana em que se ouviu falar pela primeira vez, através da imprensa, do escândalo referente ao prédio destinado em Brasília, DF, ao projeto Fome Zero, menina dos olhos do atual governo, um imóvel que foi alugado por valores três vezes mais altos que a avaliação feita pela Caixa Econômica Federal para o mesmo prédio. O desmando com o dinheiro público no Brasil beira a um escárnio maquiavelicamente programado com o contribuinte - e uma cruel brincadeira com os milhões de brasileiros que infelizmente dependem do poder público para tentar sair da miséria e da inanição. E antes que os petistas de plantão repitam a desculpa mais comum dada pelo próprio presidente, cabe-nos adiantar o expediente: sim, os governos anteriores faziam o mesmo, talvez pior, talvez um pouco melhor, mas o mesmo descuido com o dinheiro público. Contudo, esta é uma desculpa que em nada alivia a dor dos que poderiam ser beneficiados com os milhões da corrupção e dos gastos impensados dos administradores públicos e com a verba de publicidade exorbitantemente dispendida nesta torpe fogueira de vaidades que é a política nacional.
Wellington Moreira Franco, senador pelo Rio de Janeiro e autor de uma emenda constitucional que limita drasticamente o uso de publicidade pelos governos, assim iniciou a justificativa de seu projeto: “Em abril último a imprensa divulgou números alarmantes no que diz respeito aos gastos de publicidade do Governo Federal. Matéria da Folha de São Paulo, por exemplo, deu conta de que esses gastos tiveram acréscimo de 250 milhões de reais em relação ao ano anterior. ‘Incluindo os valores que não são divulgados de forma consolidada �” diz a reportagem — a gestão Lula tem despesa anual com propaganda da ordem de R$ 1,050 bilhão.’” O referido projeto de lei propõe a seguinte nova redação para o texto constitucional, no que tange à publicidade governamental:
“Art. o 37. …………….. § 1º Ressalvada a publicação de ato administrativo em órgão oficial de imprensa para produção de efeitos legais, informativo estritamente vinculadas à saúde pública e a propaganda de produtos e serviços de empresas públicas e sociedades de economia mista, é vedada a divulgação de atos, programas, obras e serviços por meio de material publicitário de qualquer natureza financiado por recursos públicos.”
Oxalá os senhores congressistas aprovem tal iniciativa, mas é cada vez mais difícil crer, neste país, em legisladores que criem leis que os prejudiquem futuramente, ainda que em prol do bem comum. E, pelo que se vê, a propaganda é vista pelos políticos brasileiros como a alma das reeleições e da conquista do poder futuro. Em minha mente, contudo, repete-se a pergunta da visitante estrangeira: que produto, afinal, os governos querem nos vender?
Algumas horas depois de ter eu escrito e publicado este texto, o Sr. Presidente Luiz Inácio Lula da Silva entrou em cadeia nacional para repetir exatamente a mesma mensagem dos reclames e outdoors: que o Brasil cresceu tantos por cento em educação, em empregos, em exportações, lançou o (famigerado) PRO-UNI e etc. Depois disso, durante a novela das oito, espaço publicitário mais caro da televisão brasileira, a propaganda do governo foi exibida pelo menos três vezes… E continuei sem saber qual o "produto" que eles querem nos vender. (Se é o esquecimento dos escândalos recentes no Congresso Nacional, ou a morte misteriosa do prefeito de Santo André, Celso Daniel - esqueçam, o povo brasileiro está deixando de ser bobo.)
Ele deve ta usando o mesmo "marqueteiro" do Chaves !!!
Beto,
no site da CBN, Arnaldo Jabor faz uma critica interessante no dia 13 de janeiro…da uma olhada.
Abraco