Cuspir na escarradeira
Os antigos referiam-se a alguém que sabia se comportar em sociedade dizendo que aquela pessoa sabia “cuspir na escarradeira”; afinal, era costume no século XIX mastigar tabaco nas reuniões sociais e nas casas mais requintadas era comum ter ao lado dos sofás e poltronas pequenas peças de porcelana com um estratégico furo para coletar os dejetos desse hábito questionável - a escarradeira, ainda possível de ser encontrada em museus e alguns antiquários. Os que tinham trato social sabiam da existência de tal objeto e o usavam para desfazer-se do tabaco mastigado; os que não conheciam os costumes em sociedade, acabavam cuspindo no chão - ou errando a mira na escarradeira.
Graças ao avançar dos tempos, essa diversão nada agradável aos olhos foi abolida dos salões e do cotidiano das pessoas, mas o hábito desagradável de usar o mundo como sua lixeira pública parece perseguir a humanidade. A agência de notícias Xinhua, da China, noticiou hoje medidas governamentais a serem tomadas naquele país que parecem corroborar essa observação que, em verdade, faz parte do cotidiano de qualquer brasileiro. (…)Parece-me que o povo brasileiro é avesso demais ao regramento e, como diz uma grande amiga, fez uma “opção pela bagaceirice”: prefere viver na sujeita e na desorganização a ter que se submeter a qualquer tipo de regra. A conseqüência disso é notória: ruas sujas, prédios públicos destruídos pela pixação e pelo vandalismo, descaso com o direito do semelhante em diversos sentidos (desde ouvir no último volume a canção que certamente não é do gosto de todos até “furar” a fila, mesmo quando a ocasião não exige pressa), destruição de monumentos e pontos turísticos e uma incapacidade já proverbial dos brasileiros de se aterem às normas. Discordo dos que vêem nisso tudo muito natural, próprio à natureza de todos os povos. (…)(LEIA O TEXTO COMPLETO ABAIXO)
Os antigos referiam-se a alguém que sabia se comportar em sociedade dizendo que aquela pessoa sabia “cuspir na escarradeira”; afinal, era costume no século XIX mastigar tabaco nas reuniões sociais e nas casas mais requintadas era comum ter ao lado dos sofás e poltronas pequenas peças de porcelana com um estratégico furo para coletar os dejetos desse hábito questionável - a escarradeira, ainda possível de ser encontrada em museus e alguns antiquários. Os que tinham trato social sabiam da existência de tal objeto e o usavam para desfazer-se do tabaco mastigado; os que não conheciam os costumes em sociedade, acabavam cuspindo no chão - ou errando a mira na escarradeira.
Graças ao avançar dos tempos, essa diversão nada agradável aos olhos foi abolida dos salões e do cotidiano das pessoas, mas o hábito desagradável de usar o mundo como sua lixeira pública parece perseguir a humanidade. A agência de notícias Xinhua, da China, noticiou hoje medidas governamentais a serem tomadas naquele país que parecem corroborar essa observação que, em verdade, faz parte do cotidiano de qualquer brasileiro.
A cidade de Pequim, capital daquele país, realizou uma pesquisa de opinião com dez mil moradores para estabelecer quais os cinco hábitos mais desagradáveis de seus cidadãos. O objetivo era estabelecer uma lista de prioridades de que costumes combater no intuito de melhorar a vida das pessoas e preparar Pequim para o grande evento internacional que está a surgir em seu horizonte próximo: os Jogos Olímpicos de 2008.
Entre os cinco hábitos pouco higiênicos a serem abolidos pela população da cidade estão: jogar lixo nas ruas, cuspir nas calçadas e no interior do transporte público, atravessar ruas fora da faixa de pedestres, amontoar-se na entrada de ônibus coletivos (desrespeitando as filas) e, tendo animais de estimação, deixar pelas ruas os dejetos de seus bichinhos sem a preocupação de coletá-los. O governo municipal decidiu que será implementada uma campanha de erradicação desses hábitos, que incluirá a distribuição de sacos plásticos para os que quiserem se livrar de sua inconveniente saliva e de instruções sobre como usar de forma higiênica os restos de papelão e plástico para recolher os excrementos de cães e gatos deixados hoje pelas ruas da capital chinesa. Além disso, serão estabelecidas pesadas multas para os cidadãos que forem vistos praticando qualquer uma dessas atitudes consideradas pela pesquisa como “indesejáveis à higiene pública e à ordem”. Há dez anos a cidade de Pequim tem um “código de ética do cidadão”, no qual serão incluídas e detalhadas essas novas regras.
Há quem lerá esta notícia nos jornais e pensará no “quão sujas as ruas de Pequim devem ser” ou em “como o povo chinês deve ser mal educado”. Fico a imaginar o quão saudável seria a implementação de algo semelhante às iniciativas da prefeitura da capital chinesa em diversas cidades brasileiras, mas confesso que me desanimo ao imaginar qualquer tentativa nesse sentido. Parece-me que o povo brasileiro é avesso demais ao regramento e, como diz uma grande amiga, fez uma “opção pela bagaceirice”: prefere viver na sujeita e na desorganização a ter que se submeter a qualquer tipo de regra. A conseqüência disso é notória: ruas sujas, prédios públicos destruídos pela pixação e pelo vandalismo, descaso com o direito do semelhante em diversos sentidos (desde ouvir no último volume a canção que certamente não é do gosto de todos até “furar” a fila, mesmo quando a ocasião não exige pressa), destruição de monumentos e pontos turísticos e uma incapacidade já proverbial dos brasileiros de se aterem às normas.
Discordo dos que vêem nisso tudo muito natural, próprio à natureza de todos os povos. Quero crer que não é tão “darwiniana” assim esa condição do brasileiro, de ser um povo que não sabe seguir normas que não estejam sob o cajado da lei - digo das leis que ainda são aplicáveis no Brasil, o país das “leis que pegam” e das “leis que não pegam” - e a ameaça da multa. Há ainda os que jogam lixo nas lixeiras (poucas) que ainda há em nossas ruas e praças, recolhem os dejetos de seu cão do chão das calçadas e não assume ser o mundo a sua latrina particular depois de uma noitada de cervejas e excessos. Mas temo que o Brasil tenha realmente feito a opção pela “bagaceirice” e que nossa fama seja espalhada pelo mundo pelas mãos dos brasileiros que viajam para o exterior e, como já presenciei, aplicam sem maiores pudores o tal “jeitinho brasileiro” em outros países - países “de otários”, que seguem regras, vêem a coisa pública como pertencente a todos e que conseguem discernir sobre os limites existentes nos direitos individuais.
Está na hora de nós, brasileiros, à exemplo dos moradores de Pequim, reaprendermos a “cuspir na escarradeira”.