Thursday, January 5, 2006

Futuro possível

Ainda acredito em um futuro melhor para o país onde viverei meus próximos anos de vida.  Confesso, contudo, que me causa um desconforto assolador, uma revolta quase incontrolável, uma tristeza profundíssima ao ler notícias como a que acabo de conhecer por meio de um jornal local.

Trata-se da história de um menino que, na ausência do irmão mais velho, resolveu assumir as funções deste, de imensa periculosidade, para manter em família o ganha-pão conseguido com dificuldade.  Mas não há nada de edificante nesta ocorrência que soa tão banal: a grande e assustadora revelação é que a polícia civil da cidade paulista de Sorocaba descobriu o tal menino, de apenas dez anos, atuando como líder de um ponto de tráfico de drogas em um bairro da periferia daquele município.  A criança foi presa em 03 de janeiro de 2006 portando armas, munição e grande quantidade de maconha preparada para distribuição.  Ao ser questionado pelos policiais, já na delegacia, o menino, que mora com os pais, revelou que havia herdado o negócio de um irmão mais velho, de apenas dezesseis anos de idade, o qual encontra-se detido em uma unidade da Fundação do Bem-Estar do Menor (FEBEM) em São Paulo. (…)(LEIA O TEXTO COMPLETO ABAIXO)

Ainda acredito em um futuro melhor para o país onde viverei meus próximos anos de vida.  Confesso, contudo, que me causa um desconforto assolador, uma revolta quase incontrolável, uma tristeza profundíssima ao ler notícias como a que acabo de conhecer por meio de um jornal local.

Trata-se da história de um menino que, na ausência do irmão mais velho, resolveu assumir as funções deste, de imensa periculosidade, para manter em família o ganha-pão conseguido com dificuldade.  Mas não há nada de edificante nesta ocorrência que soa tão banal: a grande e assustadora revelação é que a polícia civil da cidade paulista de Sorocaba descobriu o tal menino, de apenas dez anos, atuando como líder de um ponto de tráfico de drogas em um bairro da periferia daquele município.  A criança foi presa em 03 de janeiro de 2006 portando armas, munição e grande quantidade de maconha preparada para distribuição.  Ao ser questionado pelos policiais, já na delegacia, o menino, que mora com os pais, revelou que havia herdado o negócio de um irmão mais velho, de apenas dezesseis anos de idade, o qual encontra-se detido em uma unidade da Fundação do Bem-Estar do Menor (FEBEM) em São Paulo.  

Dez anos de idade, é preciso frisar e, com isso, peço que os que me lêem pensem em alguma criança que conheçam e que tenham também apenas dez anos de idade.  Lembrem-se dela agora, e de quando tínhamos dez anos de idade, e talvez possamos mensurar melhor sobre a gravidade de tal descoberta sinistra feita pelos policiais sorocabanos.

Por ser menor de doze anos de idade, o menino-traficante de Sorocaba não poderá sequer responder ao crime, mesmo para encaminhamento a uma unidade de recuperação de menores como aquela na qual seu irmão se encontra.  Sei que há os que gritaram mentalmente, de imediato, pela necessidade urgente de reduzir-se a idade criminal no Brasil.  Mas, de minha parte, confesso que não sei mais se tal situação é benéfica ou ruim para a sociedade, já que as FEBEM em quase todo o Brasil tornaram-se, ao longo dos últimos anos, depósitos cruéis de menores e autênticas escolas de criminalidade, cujo intuito parece mesmo ser apenas o de afastar dos olhos dos pagadores de impostos (e dos sonegadores, é bom recordar) aquela pústula desagradável que nos grita aos olhos a incompetência do Estado no trato de suas crianças.

 
Há culpas suficientes para todos em histórias como a deste menino de Sorocaba, que se repetem em tantos outros centros urbanos deste país de incongruências.  Há o Estado ausente, mas também a corrupção que compra legisladores e desvia verba de ações concretas em defesa da cidadania, a desestruturação de famílias que sobrevivem com salários de miséria, a paternidade e maternidade precoces e irresponsáveis que poderiam ser evitadas com programas efetivos de planejamento familiar e controle de natalidade.  Mas, para ser sincero e amargo, sinto-me um tolo ao repetir por escrito as soluções que já ouvi tantas vezes serem ditas e prometidas por tantas autoridades com as quais convivi ou que pelos meios de comunicação ouvi falarem de criminalidade e violência estando tão distantes da realidade das ruas e favelas.
 
Ainda acredito em um futuro melhor para o país onde viverei meus próximos anos de vida.  Mas tomo a liberdade de ser pessimista e me perguntar se conseguirei viver meus próximos anos de vida neste país em que nasci e pretendia morrer de velhice.
Posted by Frizero at 00:22:39
Comments

One Response to “Futuro possível”

  1. Tatiana Pereira says:

    E aí, marido? Quantos filhos nós NÃO vamos ter? Eu quero é ir embora do Brasil…

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