Wednesday, January 4, 2006

Imagem e semelhança

Há quem tenha saudades dos tempos da Inquisição, acreditem, como há os que negam a existência do Holocausto Judeu e os que ainda atribuem às religiões animistas a origem de todo o mal e de toda a maldade.  Parece ser algum descompasso na balança das crenças humanas o que vemos hoje ocorrer: ao tempo em que boa parte dos povos mais ricos do mundo parece mergulhar aos poucos em uma espécie de niilismo torpe, movido por um materialismo alimentado por Estados que provêem tudo exceto razões para viver, outros tantos alimentam (e alimentam-se) de um fundamentalismo religioso que parece anacrônico aos que olham para o século XXI sem se dar conta de que o fanatismo, em verdade, jamais esteve ausente da história do homem moderno.

A última notícia que me estarreceu foi a declaração por escrito, feita por um membro do alto clero da Igreja Ortodoxa Russa, de que Krishna, divindade que milhões de pessoas em todo o mundo hindu reverenciam como seu deus supremo, é “um demônio do mal, a personificação do poder dos infernos em oposição a Deus”.  A destemperança do Arcebispo Nikon, das localidades de Ufa e Sterlitamak, foi registrada em carta datada de dezembro de 2005, na qual ele clama ao prefeito de Moscou, Yuri Luzhkov, que impeça a construção naquela cidade de seu primeiro templo hindu, dedicado a Krishna, que o arcebispo chama de “lascivo ídolo em formas juvenis”.  Para o religioso, a construção do templo representaria uma “desgraça idólatra erigida para a glória do malévolo e demoníaco ‘deus’ Krishna”, pois tal construção se trataria de uma “obscenidade satânica destinada a ser construída bem no centro do Cristianismo Ortodoxo, a Rússia, ofendendo os sentimentos religiosos e insultando a cultura religiosa milenar do país, no qual a maioria esmagadora de pessoas, cristãos e muçulmanos incluídos, consideram Krishna uma força demoníaca”. (…) (LEIA O TEXTO COMPLETO ABAIXO)

Há quem tenha saudades dos tempos da Inquisição, acreditem, como há os que negam a existência do Holocausto Judeu e os que ainda atribuem às religiões animistas a origem de todo o mal e de toda a maldade.  Parece ser algum descompasso na balança das crenças humanas o que vemos hoje ocorrer: ao tempo em que boa parte dos povos mais ricos do mundo parece mergulhar aos poucos em uma espécie de niilismo torpe, movido por um materialismo alimentado por Estados que provêem tudo exceto razões para viver, outros tantos alimentam (e alimentam-se) de um fundamentalismo religioso que parece anacrônico aos que olham para o século XXI sem se dar conta de que o fanatismo, em verdade, jamais esteve ausente da história do homem moderno.

A última notícia que me estarreceu foi a declaração por escrito, feita por um membro do alto clero da Igreja Ortodoxa Russa, de que Krishna, divindade que milhões de pessoas em todo o mundo hindu reverenciam como seu deus supremo, é “um demônio do mal, a personificação do poder dos infernos em oposição a Deus”.  A destemperança do Arcebispo Nikon, das localidades de Ufa e Sterlitamak, foi registrada em carta datada de dezembro de 2005, na qual ele clama ao prefeito de Moscou, Yuri Luzhkov, que impeça a construção naquela cidade de seu primeiro templo hindu, dedicado a Krishna, que o arcebispo chama de “lascivo ídolo em formas juvenis”.  Para o religioso, a construção do templo representaria uma “desgraça idólatra erigida para a glória do malévolo e demoníaco ‘deus’ Krishna”, pois tal construção se trataria de uma “obscenidade satânica destinada a ser construída bem no centro do Cristianismo Ortodoxo, a Rússia, ofendendo os sentimentos religiosos e insultando a cultura religiosa milenar do país, no qual a maioria esmagadora de pessoas, cristãos e muçulmanos incluídos, consideram Krishna uma força demoníaca”. 

A carta do arcebispo Nikon é, indubitavelmente, uma prova do desconhecimento daquela que seria uma das mais antigas religiões do mundo - na qual Krishna é, curiosamente,o deus invocado por seus fiéis para afastar e expulsar os demônios -, mas duvido que seja, em verdade, apenas esta a fonte de tamanha fúria.  As palavras do líder ortodoxo ecoam os tempos do exclusivismo religioso, tão distantes de um mundo que caminha para um pluralismo que me parece inevitável, mas que está longe de ser realidade em tantas partes do planeta.  Diversos países têm políticas, abertas ou clandestinas, de opressão religiosa, algumas motivando a segregação ou o impedimento aos direitos legais amplos a membros de grupos religiosos minoritários, quando não levam até mesmo a massacres consentidos ou promovidos por esses próprios governos contra tais pessoas que querem tão-somente o direito de acreditar em sua própria visão de transcendência. E o que dizer da “guerra santa” em progresso no sempre conturbado Oriente Médio, onde forças fundamentalistas muçulmanas, judaicas e cristãs digladiam-se em um conflito que já perdeu na poeira da história sua gênese para retroalimentar-se, hoje, do ódio e da revanche sem razão ou esperança de solução pacífica.

Ao deus do livro sagrado dos cristãos, como aos de tantas outras crenças do mundo, é atribuída a criação do homem à sua imagem e semelhança.  Mas o próprio Cristo, que Nikon usa como estandarte para sua lamentável intolerância, jamais pregou um deus de cisão e destemperança, de ódio cego e rancor amargo, à semelhança do tal arcebispo moscovita.

Que os deuses nos protejam de nós mesmos.

Posted by Frizero at 01:25:06 | Permalink | Comments (3)