Sunday, January 1, 2006

Resoluções de Ano Novo

(…) Em tudo o que fazemos em nossas vidas, parece ser de extrema importância estabelecer historicamente o início, a gênese, a pedra fundamental a partir da qual tudo principia.  Creio que a celebração de ano novo reúne algo dessas duas curiosas atitudes das pessoas em geral. (…) O mais interessante das celebrações de ano novo é a determinação que alguns têm de estabelecer ali, naquele primeiro dia do ano, um marco inicial de tantas coisas que deseja há muito realizar mas que ainda, por alguma razão, não foram concretizadas.  São as famosas “resoluções de ano novo”, uma lista mental – ou mesmo escrita, já que para alguns o peso da palavra posta no papel tem um maior valor – de coisas que, no novo ano, sairão do limbo das idéias e vontades para o campo fértil das realizações.

Curioso é relembrar algumas resoluções de ano novo que ficaram registradas na vida dos povos nesses últimos séculos. (…) A história deste dia pode servir de espelho para que tomemos nossas próprias resoluções de ano novo. (…) (LEIA O TEXTO COMPLETO ABAIXO)

            As pessoas em geral têm certa fascinação por números redondos e isso parece ser incontestável.  Outro enlevo algo tolo dos seres humanos diz respeito aos marcos iniciais que estabelecemos para tudo, e o culto que a eles dedicamos.  Em tudo o que fazemos em nossas vidas, parece ser de extrema importância estabelecer historicamente o início, a gênese, a pedra fundamental a partir da qual tudo principia.  Creio que a celebração de ano novo reúne algo dessas duas curiosas atitudes das pessoas em geral.  Por conta da sensação de que se presencia o início de uma nova era, a cada ano espocam-se os fogos de artifício e renovam-se as esperanças – o que é algo, a meu ver, essencial para que sigamos vivendo em um mundo que é capaz de causar decepções tão amargas quanto doces são as alegrias que nele encontramos, já que é em nós que umas e outras sensações são construídas; poder renovar ano a ano as expectativas de futuro é salutar e as festividades de ano novo precisariam ser inventadas caso nosso fascínio por recomeços e pela magia dos números redondos já não tivesse feito isso por nós.

O mais interessante das celebrações de ano novo é a determinação que alguns têm de estabelecer ali, naquele primeiro dia do ano, um marco inicial de tantas coisas que deseja há muito realizar mas que ainda, por alguma razão, não foram concretizadas.  São as famosas “resoluções de ano novo”, uma lista mental – ou mesmo escrita, já que para alguns o peso da palavra posta no papel tem um maior valor – de coisas que, no novo ano, sairão do limbo das idéias e vontades para o campo fértil das realizações.

Curioso é relembrar algumas resoluções de ano novo que ficaram registradas na vida dos povos nesses últimos séculos.  Em um dia primeiro de janeiro, como este de hoje, Roma realizou a última competição entre escravos, chamados gladiadores, cuja função era a luta até a morte em uma arena para a diversão dos súditos dos césares; Maomé iniciou sua marcha para Meca, cidade que iria dominar sem derramamento de sangue; os Estados Unidos da América baniram o comércio de escravos; Mary Shelley fez publicar seu “Frankenstein”, mostrando-se mais habilidosa como escritora fantástica que os colegas homens que a desafiaram em um duelo literário; Formosa declara-se independente da China continental; a Alemanha nazista aprova uma “lei de prevenção dos nascimentos de crianças geneticamente doentes”, uma das aberrações legais geradas pelas idéias torpes de eugenia pregada por seu líder político maior, democraticamente eleito; a Declaração das Nações Unidas é assinada; o governo de Fulgencio Batista é deposto e Fidel Castro assume o poder em Cuba, iniciando uma ditadura de duração imprevisível; os Estados Unidos da América decretam a proibição da propaganda de cigarros na televisão; a Internet é criada; a Tchecoslováquia decide pacificamente dividir-se em duas repúblicas; o Exército Zapatista Nacional de Libertação inicia doze dias de sangrento conflito armado na província mexicana de Chiapas.

A história deste dia pode servir de espelho para que tomemos nossas próprias resoluções de ano novo.  Como as nações do mundo, podemos escolher pela união e cooperação pacíficas – ou mesmo pela separação sem maiores conflitos, se o entendimento é que ela trará mais progresso para ambos os lados; podemos decidir pelo fim de lutas inócuas, ou pelo estabelecimento, dentro de nós, de regras sem sentido e que só mais destruição irão causar; podemos anular de nossa mente o efeito nocivo de certas mensagens externas, que tentam criar em nós hábitos que nenhum benefício trazem às nossas vidas, ou entregarmos nosso ser aos mais desvairados vícios; podemos revogar escravidões, ou inventar novos grilhões; podemos criar novos canais de comunicação com o outro, ou optar por prejudiciais silêncios; podemos declarar independência, ou estabelecer dentro de nós novas e deletérias tiranias; podemos iniciar guerras, ou promover a paz.

Qual ocorre na história das nações, podemos aprender com os erros e acertos dos que nos antecederam, ou simplesmente escolher o caminho cômodo, mas obtuso, da ignorância eletiva, da falaciosa auto-suficiência, da impetuosidade que destrói e torna velho tudo o que poderia ser renovação e recomeço.  Como o tempo que segue sempre em frente – ao menos aos nossos olhos humanos –, deveríamos também seguir a lição do sábio de Tarso, deixando para trás o homem velho e cuidando dos passos futuros do homem novo dentro de nós.

Também sonho com um ano novo, e novo em todos os sentidos.

Posted by Frizero at 15:19:54 | Permalink | Comments (2)