Tuesday, January 31, 2006

Onze de Setembro, o filme

Os estadunidenses demorarão ainda muito tempo para deglutir - e compreender em sua totalidade - aqueles que foram os mais impressionantes e sangrentos ataques terroristas da história recente da humanidade.  Mas para o cinema de Hollywood bastaram quatro anos para que o trauma fosse superado e os incidentes do dia 11 de setembro de 2001 começassem a ser usados como enredo de filmes-catástrofe e dramas os mais diversos baseados nas histórias recolhidas dos sobreviventes e familiares das vítimas daqueles terríveis acontecimentos. 

O primeiro destes filmes a chegar aos olhos do público é “Flight 93″ (sem título definitivo em português), um telefilme que retrata os eventos ocorridos no vôo Newark-San Francisco, o último a ser seqüestrado pelos terroristas da rede Al-Qaeda naquele dia e cujo destino final planejado pelos seqüestradores seria o Capitólio, em Washington DC.

Os produtores do filme afirmam que as situações retratadas em “Flight 93″ foram coletadas de depoimentos de parentes das vítimas que, de alguma forma, tiveram contato telefônico com passageiros daquele vôo, bem como de informações coletadas pelas comunicações gravadas na caixa preta do avião e nos contatos via rádio.  Contudo, há cenas no filme que levam o expectador mais crítico a questionar a veracidade de tais ocorrências em uma situação de tamanha comoção como deve ter sido aquela dos minutos vividos entre o anúncio do seqüestro e a queda final do avião. (…)  O contraponto entre os terroristas e os passageiros, contudo, é corajoso em tempos de politicamente correto:  os vilões vestem negro e evocam o nome de Alá enquanto matam pessoas de tempos em tempos; os norte-americanos  rezam o padre-nosso e defendem-se do ataque inimigo com bravura - uma coragem que, em que pese qualquer crítica ao patriotismo de encomenda do filme, foi real e salvou vidas ao provocar o desvio do vôo para a Pensilvânia, onde iria se chocar contra o solo de uma fazenda.  Não há nenhum temor dos produtores e do diretor em retratar os seqüestradores da forma que eles realmente eram: terroristas cruéis, radicais islâmicos que usam o nome de seu Deus como justificativa para suas ações tenebrosas a bordo da aeronave seqüestrada.  Também não há o temor de mostrar os passageiros como eles realmente eram, em sua exata diversidade, sem a tentativa tola de incluir esta ou aquela etnia entre os atores escalados à guisa de cumprir cotas; tampouco o diretor se esquiva de mostrar a fé das vítimas - há cenas em que a oração cristã do Pai Nosso é recitada com o fervor que se pode imaginar em alguém que vislumbra a morte que chega.  E não, não há nenhuma menção de judeus orando suas preces ou passageiros muçulmanos fazendo o mesmo, como seria de se esperar em um filme hollywoodiano, para não ferir suscetibilidades; e isso ocorre por conta da decisão dos produtores, a bem da veracidade do que ocorreu naquele específico episódio.

“Flight 93″ é, contudo, apenas o primeiro de uma série de filmes relacionados aos atentados terroristas de 11 de setembro a serem exibidos nos próximos meses - e talvez seja o mais verossímil de todos.  (…)

Meu medo é que o Onze de Setembro venha a ser tratado, em função da enxurrada de filmes e teledramas que começam a surgir sobre o assunto, com a mesma estúpida leviandade de alguns rebeldes sem causa que vemos por aí, andando por nossas ruas brasileiras com camisetas que ostentam louvores a Osama Bin Laden ou fazendo troça com a queda das torres gêmeas do World Trade Center - como se o simbolismo anti-imperialista  e a necessidade de parecer engajado fossem mais importante que as vidas destruídas covardemente nos ataques terroristas que diariamente assolam o mundo, e que encontraram naquela data fatídica um novo e macabro exemplo que muitos ainda lutam dolorosamente por esquecer. (LEIA O TEXTO COMPLETO ABAIXO)

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Os estadunidenses demorarão ainda muito tempo para deglutir - e compreender em sua totalidade - aqueles que foram os mais impressionantes e sangrentos ataques terroristas da história recente da humanidade.  Mas para o cinema de Hollywood bastaram quatro anos para que o trauma fosse superado e os incidentes do dia 11 de setembro de 2001 começassem a ser usados como enredo de filmes-catástrofe e dramas os mais diversos baseados nas histórias recolhidas dos sobreviventes e familiares das vítimas daqueles terríveis acontecimentos. 

O primeiro destes filmes a chegar aos olhos do público é “Flight 93″ (sem título definitivo em português), um telefilme que retrata os eventos ocorridos no vôo Newark-San Francisco, o último a ser seqüestrado pelos terroristas da rede Al-Qaeda naquele dia e cujo destino final planejado pelos seqüestradores seria o Capitólio, em Washington DC.

Os produtores do filme afirmam que as situações retratadas em “Flight 93″ foram coletadas de depoimentos de parentes das vítimas que, de alguma forma, tiveram contato telefônico com passageiros daquele vôo, bem como de informações coletadas pelas comunicações gravadas na caixa preta do avião e nos contatos via rádio.  Contudo, há cenas no filme que levam o expectador mais crítico a questionar a veracidade de tais ocorrências em uma situação de tamanha comoção como deve ter sido aquela dos minutos vividos entre o anúncio do seqüestro e a queda final do avião.  Uma dessas cenas, já no terço final do filme, mostra o momento em que supostamente os passageiros se deram conta de que precisavam tomar uma decisão sobre que atitude tomar diante do seqüestro e do já anunciado destino fatal: em um momento fílmico no qual se busca uma certa força simbólica relacionada aos valores  da América,  os passageiros - ainda que moralmente abalados por uma situação de tamanha pressão emocional - evocam a importância de manter a democracia nas decisões a serem tomadas pelo grupo e decidem fazer uma votação para saber qual era a opinião da maioria sobre se deveriam ou não lutar contra os terroristas a bordo do vôo 93.  E a luta se dá com os objetos que os passageiros tinham à mão - travesseiros, talheres e copos de bordo, pequenos aparelhos eletrônicos como discman e afins, qualquer coisa que servisse de arma para tentar reverter a situação de coação -, o que em um primeiro momento até pareceria risível se o desfecho do filme (e a realidade do destino dos passageiros do vôo 93) não fosse já conhecido por todos.  

O contraponto entre os terroristas e os passageiros, contudo, é corajoso em tempos de politicamente correto:  os vilões vestem negro e evocam o nome de Alá enquanto matam pessoas de tempos em tempos; os norte-americanos  rezam o padre-nosso e defendem-se do ataque inimigo com bravura - uma coragem que, em que pese qualquer crítica ao patriotismo de encomenda do filme, foi real e salvou vidas ao provocar o desvio do vôo para a Pensilvânia, onde iria se chocar contra o solo de uma fazenda.  Não há nenhum temor dos produtores e do diretor em retratar os seqüestradores da forma que eles realmente eram: terroristas cruéis, radicais islâmicos que usam o nome de seu Deus como justificativa para suas ações tenebrosas a bordo da aeronave seqüestrada.  Também não há o temor de mostrar os passageiros como eles realmente eram, em sua exata diversidade, sem a tentativa tola de incluir esta ou aquela etnia entre os atores escalados à guisa de cumprir cotas; tampouco o diretor se esquiva de mostrar a fé das vítimas - há cenas em que a oração cristã do Pai Nosso é recitada com o fervor que se pode imaginar em alguém que vislumbra a morte que chega.  E não, não há nenhuma menção de judeus orando suas preces ou passageiros muçulmanos fazendo o mesmo, como seria de se esperar em um filme hollywoodiano, para não ferir suscetibilidades; e isso ocorre por conta da decisão dos produtores, a bem da veracidade do que ocorreu naquele específico episódio.

“Flight 93″ é, contudo, apenas o primeiro de uma série de filmes relacionados aos atentados terroristas de 11 de setembro a serem exibidos nos próximos meses - e talvez seja o mais verossímil de todos.  Seus similares vão desde uma outra versão, esta para o cinema, do mesmo episódio do seqüestro do vôo Newark-San Francisco (e também intitulada “Flight 93″) a uma minissérie para a televisão sobre todas as ocorrências do Onze de Setembro.  Há ainda um filme, dirigido por Oliver Stone, no qual Nicolas Cage é um policial que fica preso em uma das torres do World Trade Center.  Somar-se-ão a estes o drama ”Reign O’er Me”, sobre um homem que perdeu sua família na queda das torres gêmeas, com Adam Sandler e Don Cheadle e o filme-catástrofe “102 Minutes”, adaptação de um livro de sucesso que descreve a correria dos sobreviventes que conseguiram escapar das torres do World Trade Center.

Confesso que há questões éticas que me levam a pensar na validade de tais filmes - e no quanto diretores e produtores estarão realmente empenhados em manter viva a história daquele dramático dia ou apenas buscando deslanchar produtos audiovisuais de retorno financeiro garantido e imediato.  Creio que são perguntas às quais jamais encontraremos resposta - e que serão seguramente exploradas pela mídia em geral, suscitando acalorados debates.  Espero, apenas, que a nossa curiosidade ao buscar tais filmes não fale mais alto que a nossa memória afetiva do que foi aquele dia para os que vivemos tal momento histórico e, sobretudo, não apague em nome do entretenimento a realidade do sofrimento das pessoas que ali perderam seus entes queridos por conta da ação injustificável do terror sem fronteiras, qualquer que seja sua coloração política ou religiosa, étnica ou social.

Meu medo é que o Onze de Setembro venha a ser tratado, em função da enxurrada de filmes e teledramas que começam a surgir sobre o assunto, com a mesma estúpida leviandade de alguns rebeldes sem causa que vemos por aí, andando por nossas ruas brasileiras com camisetas que ostentam louvores a Osama Bin Laden ou fazendo troça com a queda das torres gêmeas do World Trade Center - como se o simbolismo anti-imperialista  e a necessidade de parecer engajado fossem mais importante que as vidas destruídas covardemente nos ataques terroristas que diariamente assolam o mundo, e que encontraram naquela data fatídica um novo e macabro exemplo que muitos ainda lutam dolorosamente por esquecer.

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Wednesday, January 25, 2006

A Roda dos Enjeitados

O site Independent Feminists (segundo uma grande amiga, um grupo de feministas “das que não detestam os homens”), publicou em 18 de janeiro de 2006 um interessante artigo, assinado por Carey Roberts, sobre o tratamento diferenciado que homens e mulheres recebem das autoridades policiais, da Justiça e até mesmo dos meios de comunicação quando o assunto é violência - física e sexual - contra crianças e adolescentes. O texto de Roberts, que é professor de psicologia e articulista em vários órgãos de imprensa nos Estados Unidos da América, chama a atenção do leitor para casos recentes, ocorridos naquele país, em que a violência contra crianças perpretada por mulheres sequer chega a ser noticiada pela imprensa - ao contrário das ocorrências em que o agente agressor é um homem.  Ele cita casos assombrosos e que não receberam qualquer destaque nos jornais locais estadunidenses(…) [bem como] as estatísticas que o levaram a tal constatação.  (…)

O que terá mudado nos últimos tempos?  Afinal, a percepção que temos é a de que a mulher é sempre a vítima, nunca a algoz.  (…)  A existência de uma predisposição da sociedade para uma “vitimização da mulher”, da qual fala Roberts, é exemplificada pelo modo como alguns estados norte-americanos estão tratando os casos de abandono de bebês recém-nascidos (…)  Cerca de um terço dessas crianças abandonadas em parques, lixeiras e banheiros públicos são encontradas mortas.  Tim Jaccard, diretor de uma organização não-governamental chamada Children of Hope Foundation, baseada na região nova-iorquina de Long Island, foi um dos ativistas que lutou pela instalação de um programa de governo que resolvesse tal problema.  Sua fundação, cujas ações incluem a adoção legal, o batismo e o enterro das crianças encontradas mortas após o abandono pelas mães (dentro da crença de que todo cristão merece um nome e um enterro digno), fez parte de um movimento no estado de Nova Iorque para a descriminalização do abandono de crianças recém-nascidas e a criação de mecanismos que permitam às mulheres “deixar” seus recém-nascidos indesejados em hospitais públicos e outros lugares “seguros” - garantindo-se o direito de anonimato às mães “casuais” - ao invés de largá-los em locais públicos e nada saudáveis para os bebês.

A idéia, que gerou projetos semelhantes em outros estados norte-americanos, é o retorno à famigerada roda dos enjeitados.  Criada na França do século XVII, o dispositivo era usado para receber crianças indesejadas, desde bebês de colo a outros maiores, de até quatro anos de idade.  Depositados na roda de madeira, colocada em conventos e asilos, as crianças podiam ser recebidas pelas religiosas e serviçais sem que a identidade das mães e pais fosse revelada.  (…) Tornada abjeta pelos tempos modernos, a roda dos enjeitados agora retorna sob a máscara de bondade para com os abandonados pela sorte.  (…)

 Até quando estaremos dispostos a premiar a irresponsabilidade, a violência e a insanidade por conta de um pressuposto contra o qual os próprios movimentos feministas mais sérios lutam - o de que a mulher é sempre a vítima a ser protegida?  (LEIA O TEXTO COMPLETO ABAIXO)

O site Independent Feminists (segundo uma grande amiga, um grupo de feministas “das que não detestam os homens”), publicou em 18 de janeiro de 2006 um interessante artigo, assinado por Carey Roberts, sobre o tratamento diferenciado que homens e mulheres recebem das autoridades policiais, da Justiça e até mesmo dos meios de comunicação quando o assunto é violência - física e sexual - contra crianças e adolescentes. O texto de Roberts, que é professor de psicologia e articulista em vários órgãos de imprensa nos Estados Unidos da América, chama a atenção do leitor para casos recentes, ocorridos naquele país, em que a violência contra crianças perpretada por mulheres sequer chega a ser noticiada pela imprensa - ao contrário das ocorrências em que o agente agressor é um homem.  Ele cita casos assombrosos e que não receberam qualquer destaque nos jornais locais estadunidenses, como os de uma avó que matou sua neta de seis anos de idade ao afogá-la em uma banheira de água quente “como forma de punição” por uma travessura cometida pela menina, e o de uma mulher que foi presa sob a acusação de estupro após ter convencido uma menina a fugir de casa sob a promessa de presentes.

Roberts cita as estatísticas que o levaram a tal constatação.  Estudos estatísticos que computaram dados colhidos nos diversos Serviços de Proteção a Criança localizados nos cinqüenta estados norte-americanos, referentes ao ano de 2003, demonstram que o atual perfil dos crimes de abuso de crianças aponta para uma maioria de mulheres como agressoras naquele país - cerca de 58% (cinqüenta e oito por cento) dos casos; do total de registros, extrai-se ainda o alarmante número de 31% (trinta e um por cento) de casos nos quais a mãe agiu sozinha, enquanto 18% (dezoito por cento) dos casos foi de pais, homens, sem a ajuda de outros.

O que terá mudado nos últimos tempos?  Afinal, a percepção que temos é a de que a mulher é sempre a vítima, nunca a algoz.  Talvez o que precise mudar é justamente essa visão preconcebida sobre a fragilidade da mulher - uma vitimização que, muitas vezes, leva a absurdos como o ocorrido com um estudante do Rio Grande do Sul que teve seu programa de intercâmbio para Bruxelas, Bélgica, interrompido por ter sido acusado de usar drogas.  O jovem, que foi para aquele país plor intermédio de uma famosa organização não-governamental estadunidense de intercâmbio, ligou para a sua mãe biológica dizendo que estava sofrendo assédio sexual por parte da mulher que o hospedava na Bélgica e, ao serem avisados pela família brasileira do ocorrido, os coordenadores do programa de intercâmbio questionaram a  “mãe” belga, que então acusou o rapaz de ser dependente químico.  Os coordenadores do intercâmbio, acreditando nas palavras da “mãe” hospedeira, cancelaram o intercâmbio do brasileiro de imediato, mesmo depois de o jovem ter aceitado passar por três testes toxicológicos, todos negativos.  Ao menos neste caso, a predisposição da ONG em preconceber a mulher como vítima e acatar sua palavra como verdade foi consertada posteriormente: o jovem e sua família irão receber indenização dos organizadores do intercâmbio, por danos financeiros e morais.

E que pensar dos casos em que meninos e rapazes são abusados sexualmente por mulheres?  A mídia, então, recorre ao mesmo expediente da mediocridade de sua massa de leitores, considerando que o “estupro masculino” é uma impossibilidade, quando não raro fazendo comentários irônicos ou, como diz Roberts, “sanitarizando” a ocorrência ao dizer que a mulher adulta manteve “contato sexual” com o menino ou adolescente.  Se tais situações ocorrem nos Estados Unidos da América, que dizer em um país como o nosso, no qual a cultura do homem que se inicia sexualmente muito cedo, em geral com uma serviçal ou uma prostituta?  Creio que homem algum, de qualquer idade, jamais iria a polícia dar queixa de uma violência de qualquer sorte causada por uma mulher.

A existência de uma predisposição da sociedade para uma “vitimização da mulher”, da qual fala Roberts, é exemplificada pelo modo como alguns estados norte-americanos estão tratando os casos de abandono de bebês recém-nascidos, um tipo de ocorrência que cresce a cada ano nos Estados Unidos da América. 

Cerca de um terço dessas crianças abandonadas em parques, lixeiras e banheiros públicos são encontradas mortas.  Tim Jaccard, diretor de uma organização não-governamental chamada Children of Hope Foundation, baseada na região nova-iorquina de Long Island, foi um dos ativistas que lutou pela instalação de um programa de governo que resolvesse tal problema.  Sua fundação, cujas ações incluem a adoção legal, o batismo e o enterro das crianças encontradas mortas após o abandono pelas mães (dentro da crença de que todo cristão merece um nome e um enterro digno), fez parte de um movimento no estado de Nova Iorque para a descriminalização do abandono de crianças recém-nascidas e a criação de mecanismos que permitam às mulheres “deixar” seus recém-nascidos indesejados em hospitais públicos e outros lugares “seguros” - garantindo-se o direito de anonimato às mães “casuais” - ao invés de largá-los em locais públicos e nada saudáveis para os bebês.

A idéia, que gerou projetos semelhantes em outros estados norte-americanos, é o retorno à famigerada roda dos enjeitados.  Criada na França do século XVII, o dispositivo era usado para receber crianças indesejadas, desde bebês de colo a outros maiores, de até quatro anos de idade.  Depositados na roda de madeira, colocada em conventos e asilos, as crianças podiam ser recebidas pelas religiosas e serviçais sem que a identidade das mães e pais fosse revelada.  Mas aquela era uma época marcadamente governada por preconceito e discriminação às mães solteiras, sem métodos anti-concepcionais disponíveis e sem acesso à informação aos moldes do que hoje existe.  Tornada abjeta pelos tempos modernos, a roda dos enjeitados agora retorna sob a máscara de bondade para com os abandonados pela sorte.

Roberts coloca, e com propriedade, que leis como esta apenas incentivam a paternidade irresponsável - em que pese o fato de que efetivamente irão salvar vidas.  Mas, para o pensador estadunidense, “em uma sociedade civilizada que faz com que os serviços de adoção sejam amplamente disponíveis, tal prática deveria ser condenada como inconsciente e errada.  Contudo, ao invés de processarmos os que abandonam, nós acomodamos a lei aos imperativos sociais de promover escolhas para as mulheres, não importando as conseqüências morais disso”.  O absurdo da lei nova-iorquina vai além: as mulheres podem abandonar seus filhos indesejados nestes “locais seguros” enquanto eles têm até cinco dias de vida, mas têm o direito de reclamar sua devolução, caso se arrependam do que fizeram, em um prazo de quinze meses, em um sistema que Carey Roberts associa ao “satisfação garantida ou o seu dinheiro de volta” das grandes redes de varejo estadunidenses. 

Até quando estaremos dispostos a premiar a irresponsabilidade, a violência e a insanidade por conta de um pressuposto contra o qual os próprios movimentos feministas mais sérios lutam - o de que a mulher é sempre a vítima a ser protegida?

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Monday, January 23, 2006

Agora é Moda

“Moda é aquilo que nós vestimos. Fora de moda é o que os outros vestem.”
(“Fashion is what one wears oneself. What is unfashionable is what other people wear.”)
Oscar Wilde, dramaturgo inglês

 

Afinal, o que é moda? Dizem os estudiosos que a moda sempre esteve associada diretamente ao status, ou seja, à posição que a pessoa ocupa em determinada sociedade. Não há que se negar que a moda segue certas associações psicológicas, nas quais as cores, por exemplo, carregam mensagens sobre aquele que as veste e dizem sobre seu humor e sua personalidade, bem como podem indicar estilos, etnias, modo de pensar e viver. As vestimentas já serviram - e ainda hoje assim são usadas por alguns - para marcar posicionamentos políticos e ideológicos. Mas alguns apontam a ocorrência de um curioso fenômeno contemporâneo da moda: ela estaria perdendo esses elementos simbólicos em nome de, simplesmente, representar o status de “pertencer a um grupo”. A perda do sentido na moda - que acompanha fenômenos similares em outras artes - faz com que o impensável de hoje torne-se fashionable amanhã, sem que saibamos ao certo as origens dessa ou daquela tendência.

Tais observações tornam-se ainda mais interessantes diante dos importantes eventos do mundo da moda que pontuaram esses primeiros dias de 2006, bem como de outras inusitadas ocorrências que podemos listar à guisa de elementos de comparação. Se o importante é ser fashion, estar antenado, ou seja lá qual termo que se use para expressar a idéia de pertencer ao grupo - parece valer tudo.  (…) O mais curioso é que muitos dos que fazem moda - ou vestem a moda que estes fazem - tentam convencer com um discurso de “fuga da conformidade” ou “guerra ao sistema” - ainda que esta luta ou fuga seja, no fundo, através de um código de conduta transgressora tão rígido quanto aqueles padrões dos quais eles dizem fugir. Tudo isso faz lembrar das cenas finais do curioso filme de Robert Altman sobre o mundo da moda, Prêt-à-porter, nas quais uma estilista parisiense decide colocar todos os modelos completamente nus na passarela, angariando o aplauso de todos, que viram naquele gesto um “ato supremo de genialidade da moda” - exceto da repórter vivida por Kim Bassinger, que pede demissão em plena transmissão do desfile e delega sua função para sua atordoada contra-regra e assistente de produção. Bem, falta pouco para assistirmos cena semelhante em nossas passarelas de moda, quiçá em nossas ruas; e que cada um entenda tais mensagens como quiser - e puder. (LEIA O TEXTO COMPLETO ABAIXO)

“Moda é aquilo que nós vestimos. Fora de moda é o que os outros vestem.”
(“Fashion is what one wears oneself. What is unfashionable is what other people wear.”)
Oscar Wilde, dramaturgo inglês

 

Afinal, o que é moda? Dizem os estudiosos que a moda sempre esteve associada diretamente ao status, ou seja, à posição que a pessoa ocupa em determinada sociedade. Não há que se negar que a moda segue certas associações psicológicas, nas quais as cores, por exemplo, carregam mensagens sobre aquele que as veste e dizem sobre seu humor e sua personalidade, bem como podem indicar estilos, etnias, modo de pensar e viver. As vestimentas já serviram - e ainda hoje assim são usadas por alguns - para marcar posicionamentos políticos e ideológicos. Mas alguns apontam a ocorrência de um curioso fenômeno contemporâneo da moda: ela estaria perdendo esses elementos simbólicos em nome de, simplesmente, representar o status de “pertencer a um grupo”. A perda do sentido na moda - que acompanha fenômenos similares em outras artes - faz com que o impensável de hoje torne-se fashionable amanhã, sem que saibamos ao certo as origens dessa ou daquela tendência.

Tais observações tornam-se ainda mais interessantes diante dos importantes eventos do mundo da moda que pontuaram esses primeiros dias de 2006, bem como de outras inusitadas ocorrências que podemos listar à guisa de elementos de comparação. Se o importante é ser fashion, estar antenado, ou seja lá qual termo que se use para expressar a idéia de pertencer ao grupo - parece valer tudo.

Blusão de Evo Morales é moda na BolíviaHá uma fábrica de roupas da Bolívia que está fabricando, “devido ao grande número de interessados, sobretudo entre os jovens”, segundo o empresário Raul Valda, dono da confecção, suéteres que reproduzem o modelo usado pelo novo presidente do país, o recém-eleito Evo Morales, em suas viagens a vários países depois do resultado das eleições presidenciais. O valor das peças deverá oscilar entre R$ 18,00 e R$22,00, estima Valda. O empresário afirmou que as encomendas do exterior já começaram a surgir, sobretudo de países da América Latina como o Brasil e a Venezuela. Ele espera poder acelerar a produção nos próximos dias para poder levar algumas peças para venda ainda nesta edição latino-americana do Fórum Social Mundial, realizada em 2006 em Caracas, na Venezuela.

Betty Lago desfilando pela DaspuCom o slogan “DASPU - a moda da vida”, a griffe, capitaneada por prostitutas fluminenses e cujo nome parodia a famosa loja de departamentos de luxo de São Paulo, promoveu em 13 de janeiro de 2006 seu primeiro desfile, em evento paralelo aos do Rio Fashion Week. A DASPU, que conta até mesmo com uma moderna página na Internet, estreou no alto circuito da moda com um desfile realizado na Praça Tiradentes, famoso reduto de prostituição no centro do Rio de Janeiro, contando com a presença de modelos famosas como a atriz Betty Lago - que caridosamente acedeu ao convite das estilistas da grife, desfilando várias peças da coleção outono-inverno das prostitutas, e aproveitou o ensejo para entrevistá-las para seu programa televisivo.

Curiosamente, no site, que comercializa as peças produzidas pela ONG ‘Davida’, as profissionais do sexo comentam, a meu ver ironicamente, que elas “sempre produziram moda” e que “agora, estão se apropriando de sua competência também nesta área”, produzindo “roupas de batalha (rua e casa), de lazer (praia, parques e jardins), de folia (festas e carnaval) e de ativismo (direitos humanos e prevenção de dst/aids)”. Comentando a coleção apresentada, Gabriela Leite, ex-prostituta, hoje socióloga formada pela USP e diretora da ONG Davida, disse que as roupas são “insinuantes, sensuais, mas sem vulgaridade [pois] queremos resgatar a elegância das meninas do passado”.

Desfile da grife Cavalera no São Paulo Fashion WeekNo São Paulo Fashion Week, por sua vez, o curioso era observar os anônimos que compareceram ao prédio da Bienal de Arte, no Parque do Ibirapuera, com o mero propósito de ver os famosos que por ali transitavam ou serem vistos. Para tal, esses aspirantes a celebridade vestiam o que podiam para chamar a atenção, por vezes reproduzindo a estranheza causada pelos modelos apresentados nas coleções outono-inverno em desfiles realizados a portas fechadas, para convidados, cujos temas variaram desde uma homenagem ao universo do cangaço (com direito a trouxas de roupa, latas d’água e balaios nas cabeças das modelos) aos bordéis dos anos 1920, da Bíblia a Chapeuzinho Vermelho - segundo os estilistas, estas serão algumas das tendências do outono e do inverno de 2006.

Afinal, quais são as mensagens que tais roupas passam para os que, ao andar pelas ruas, se deparam com estes exemplares do mundo fashion? Quando vemos camisetas nas ruas estampando imagens de Che Guevara, devemos entender como apoio aos assassínios que ele cometeu na África ou às execuções em Cuba? As bermudas e T-shirts com imagens do atentado de 11 de setembro de 2001, por exemplo, serão apoio incondicional ao terrorismo mundial ou piada de mau gosto com os que perderam parentes no evento fatídico? E as roupas largas, cordões prateados e roupas de baixo aparecendo por baixo das calças e bermudas sem cinto, imitação tosca do estilo dos rappers da maior potência econômica mundial - serão um elogio ao crime e à cultura de violência das gangues?

Bem, as pessoas do mundo da moda - como as que dominam as artes plásticas contemporâneas - são estranhas em suas escolhas estéticas, mas pródigas em explicações. Raul Valda, dono da fábrica de suéteres, por exemplo, diz que as pessoas querem “o estilo de Evo Morales para se aproximarem da história de um índio que desafiou o sistema e atingiu o poder”; Gabriela Leite, diretora da ONG Davida, declarou que o sucesso da Daspu deve-se ao fato de que “ser puta agora é fashion“; a grife Cavalera afirmou que seu desfile inspirado nos malfeitores do cangaço era uma busca por um estilo “street caboclo” - ou seja, o cangaço seria nosso mais próximo similar do gangsterismo contemporâneo que originou a chamada streetwear; Emilene Galende, por sua vez, teve sua coleção inspirada em Chapeuzinho Vermelho descrita pela imprensa como “uma coleção jovem, quase adolescente, divertida e inteligente como a personagem” - e pensar que poucos suspeitassem que a personagem infantil fosse tão divertida, antenada e inteligente!

O mais curioso é que muitos dos que fazem moda - ou vestem a moda que estes fazem - tentam convencer com um discurso de “fuga da conformidade” ou “guerra ao sistema” - ainda que esta luta ou fuga seja, no fundo, através de um código de conduta transgressora tão rígido quanto aqueles padrões dos quais eles dizem fugir. Tudo isso faz lembrar das cenas finais do curioso filme de Robert Altman sobre o mundo da moda, Prêt-à-porter, nas quais uma estilista parisiense decide colocar todos os modelos completamente nus na passarela, angariando o aplauso de todos, que viram naquele gesto um “ato supremo de genialidade da moda” - exceto da repórter vivida por Kim Bassinger, que pede demissão em plena transmissão do desfile e delega sua função para sua atordoada contra-regra e assistente de produção. Bem, falta pouco para assistirmos cena semelhante em nossas passarelas de moda, quiçá em nossas ruas; e que cada um entenda tais mensagens como quiser - e puder.

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Friday, January 20, 2006

Mulheres no Poder

Angela Merkel, filha de um pastor protestante de Hamburgo, obteve seu doutorado em Física aos vinte e quatro anos, sendo imediatamente admitida como pesquisadora na área de química em uma importante academia científica em Berlim Oriental. Dois meses depois da unificação alemã, em 1990, ela filiou-se ao partido União Democrática Cristã (UDC), e alguns meses depois foi escolhida como Ministra para as Causas Femininas e para a Juventude no gabinete de Helmut Kohl, que a chamava carinhosamente de “das Madchen” - algo como minha guria, minha descoberta. Dez anos depois, Angela Merkel foi eleita líder de seu partido, após um escândalo que demoliu a cúpula da UDC, que então precisava de alguém com força para moralizar sua estrutura política.

Ellen Johnson-Sirleaf nasceu em 1939 em Monrovia, capital de seu país, uma cidade batizada em homenagem ao presidente estadunidense, James Monroe, que estabeleceu uma colônia no continente africano para receber ex-escravos, a qual se tornaria o primeiro país independente da África, a Libéria. Líder do Partido da Unidade (Unity Party), Elen Johnson-Sirleaf estudou na Universidade de Harvard, foi economista sênior do Banco Mundial e vice-presidente do CitiBank, além de Ministra das Finanças da Libéria e consultora da Organização das Nações Unidas para a Economia na África.

Michelle Bachelet nasceu em Santiago do Chile em 1951, filha de uma arqueóloga e de um general-de-brigada do Exército do Chile - posteriormente assassinado em uma sessão de tortura durante o regime militar que depôs o presidente eleito Salvador Allende, nos anos 1970. Médica e pós-graduada em Ciências Militares, fala fluentemente, além do espanhol, sua língua materna, o inglês, o alemão, o francês e o português. Foi consultora da Organização das Nações Unidas para a Saúde na América Latina e, nos primeiros anos do século XXI, foi Ministra da Saúde e também Ministra de Defesa Nacional.

O que une estas três mulheres, além do fato de terem feito história ao se tornarem as primeiras mulheres a atingir o cargo máximo da política em seus respectivos países, é uma curiosa observação que, com raras exceções, se pode aplicar a todas as mulheres que atingem altos cargos na política e nos diversos ambientes empresariais. Todas estas mulheres são sobejamente mais qualificadas que os homens com quem concorreram nas eleições - e não seria exagero dizer que o eleitorado, ainda que subrepticiamente, parece apenas aprovar uma mulher para altos cargos se ela exibir um currículo impecável e acima de questionamentos, como são os de Merkel, Johnson-Sirleaf e Bachelet.

Em pelo menos uma dessas disputas, a diferença é gritante: o candidato opositor a Johnson-Sirleaf na disputa pela presidência da Libéria foi George Manneh Oppong Ousman Weah, cujo único grande mérito em seu breve currículo é o de ter sido o mais famoso jogador de futebol de seu país, ganhador do título de Melhor Jogador do Mundo pela federação internacional de futebol e técnico da atual seleção liberiana. Para enfrentar nas urnas um candidato com tais pífias qualificações para um futuro presidente, uma mulher precisa, ainda assim, apresentar uma longa história de superações e exceções, de vitórias e valores incontestáveis, para poder causar diferença na disputa e vencer, muitas vezes com uma apertada margem de votos de vantagem sobre o oponente.

Que o diga Condoleezza Rice, hoje o braço forte do governo de George W. Bush e que apenas após sua ascensão ao cargo de Secretária de Estado é que começou a ser cogitada como possível candidata à presidência por seu partido. Em que pese seu posicionamento político, o qual não agrada certamente a gregos e troianos, ela também é uma dessas mulheres de formação intelectual extremamente qualificada e com uma interessante história de vida - negra, nascida no estado do Alabama, berço dos principais acontecimentos motivadores do Movimento dos Direitos Civis nos Estados Unidos da América, ela obteve seu doutorado em Ciência Política aos vinte e oito anos e em seguida foi contratada como professora de Ciência Política na renomada Universidade Stanford, onde tem atuado por mais de vinte anos; é ainda autora de importantes livros sobre política internacional e já assumiu cargos importantes em pelo menos três gestões presidenciais. Será Rice a primeira mulher - e o primeiro afro-descendente, homem ou mulher - a assumir a presidência da maior potência econômica e militar do mundo? E que mudanças causaria uma mulher em tal cargo, tão amado e odiado planeta afora? Essas questões só o tempo e o eleitorado estadunidense poderão responder. Mas é interessante comparar seu currículo ao do atual presidente dos Estados Unidos da América, George W. Bush, e tentar imaginar as diferenças que uma mulher como Rice poderia causar na direção daquele país.

Sobre as mulheres que adentram a vida pública pelas vias da política, não importando seu alinhamento de esquerda ou de direita, parece sempre repousar uma enorme desconfiança, expressa no pequeno número de parlamentares eleitas em um país como o nosso, no qual as eleitoras são maioria da população. Ou será que uma candidata com o currículo do nosso atual presidente, Luiz Inácio Lula da Silva, teria sido eleita em nosso país?

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Wednesday, January 18, 2006

O Diálogo entre os Autômatos e a Arte Carbonizada

“Vivemos uma era em que muitas outras forças, além daquelas que o artista naturalmente dispõe para criar, regem o sistema da arte.”
(Ricardo Resende, diretor técnico do Museu de Arte Contemporânea do Ceará)

Uma contundente crítica ao atual panorama das artes plásticas no Brasil foi trazida à tona, em dez de janeiro de 2006, pelas mãos de alguém que também é parte da própria crítica que faz. Yuri Firmeza - nome artístico do idealizador de tal protesto - é artista plástico em Fortaleza, Ceará, e em conluio com altos funcionários do Instituto Dragão do Mar e o Museu de Arte Contemporânea daquela capital, construiu o que se pode chamar de a maior engambelação jornalística dos últimos tempos no Brasil, na qual estrelam dois dos jornais de maior circulação daquele estado nordestino.

O artista plástico cearense, com o apoio do diretor técnico do Museu de Arte Contemporânea (MAC) do Ceará, Ricardo Resende, decidiu criar, no intuito de denunciar o que chamou de “falta de atenção da mídia para com os artistas locais”, um personagem fictício, um famoso artista plástico japonês de nome Souzousareta Geijutsuka - uma frase que, em japonês, significa literalmente “artista inventado” - cuja mais recente exposição, também fictícia, intitulada “Geijitsu Kakuu”, seria aberta no MAC em janeiro de 2006. No engodo bem urdido, anunciou-se até mesmo a presença do artista em Fortaleza para a abertura da exposição.

A namorada de Firmeza passou-se por assessora de imprensa e enviou elogiosos press releases para as redações dos jornais O Povo e Diário do Nordeste e até mesmo uma entrevista que teria sido dada por correio eletrônico pelo artista nipônico. A farsa, que contou com a bênção do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, bem como do MAC, deu resultados: a exposição virou tema de ampla divulgação nos jornais locais e até mesmo a entrevista foi publicada na íntegra. (…)

Mas a imprensa cearense não pareceu se contentar apenas com os press releases divulgados - publicou também fotografias de algumas obras do mestre japonês da arte-ciência-tecnologia - um gato branco, tirada no quintal da casa de Firmeza, e uma imagem de uma praia cearense contorcida com o uso de um software comum de edição de imagens - e repassou a seus colunistas a tarefa de gerar resenhas para a exposição tão importante que iria acontecer na capital cearense. Na edição do dia 10 de janeiro de 2006, o jornal O Povo publicou, na capa do caderno Vida & Arte, uma matéria, com o título “Desconstruindo a arte”, na qual afirmava que “Souzousareta Geijutsuka não se intimidava com o estranho” e que “o artista plástico nipônico transformava em arte o que nem de longe parecia isso”. No mesmo dia, o “Diário do Nordeste” também publicou matéria sobre a “exposição” em seu Caderno 3. “O sofisticado equilíbrio entre vida e morte na natureza é o fio temático de sua exposição ‘Geijitsu Kakuu’, em que flores e vegetais são revisitadas por meio de objetos carbonizados, em um convite a reflexões sensoriais sobre a fragilidade da vida”, dizia o artigo assinado por conhecido crítico de arte do jornal. No mesmo texto, o articulista afirma que “o pintor e escultor francês Marcel Duchamp (1887-1968) é citado por Souzousareta como uma de suas grandes influências”, e reproduz trechos da entrevista fictícia que a assessora de imprensa fajuta enviara para o jornal como se o próprio Caderno 3 houvesse realizado contato com o pintor fantasma (…)

O que mais assombra em todo o ocorrido é que vem às claras o que o leitor mais atento já desconfiava há tempos: não há critérios, tampouco cuidados, para o que é publicado ou não em nossos cadernos de cultura dos vários jornais brasileiros. Não raro se vê nas páginas desses periódicos artistas que são endeusados nos mesmos termos que o falso press release usa para exaltar o inexistente mestre japonês - e vai sobrando no imaginário popular a noção de que a arte é loucura, é algo incompreensível, é perda de tempo. Fácil imaginar o porquê: estamos em uma era na qual os artistas obtem espaço para exibir sua arte, seja em galerias e museus ou nos jornais e canais de televisão, mais por seu currículo e indicações que por seu talento puro e simples. (…)

Yuri Firmeza tem uma obra artística bastante questionável - em uma de suas performances, intitulada Ação 4 e disponível em vídeo em sua página na Internet, o artista cearense tira a roupa em meio a uma galeria de arte e sai caminhando, como se estivesse admirando as demais obras expostas no lugar, até entrar em outra sala e simular (?) uma relação sexual com outro homem, projetando as imagens para o público - e só, a velha história de usar o sexo e o nu para chocar os pequenos burgueses conservadores que os artistas contemporâneos ainda acreditam existir no Brasil. Por mais tola que sua arte seja, sua recente peripércia jornalística merece aplausos. A “travessura” do artista levanta questões, isto sim, sobre a imprensa brasileira como um todo. (…) E pensar que nem o eles tiveram curiosidade de usar como fonte de pesquisa para escrever sobre a bela arte de Souzousareta Geijutsuka… (…)(LEIA TEXTO COMPLETO ABAIXO)

“Vivemos uma era em que muitas outras forças, além daquelas que o artista naturalmente dispõe para criar, regem o sistema da arte.”
(Ricardo Resende, diretor técnico do Museu de Arte Contemporânea do Ceará)

Uma contundente crítica ao atual panorama das artes plásticas no Brasil foi trazida à tona, em dez de janeiro de 2006, pelas mãos de alguém que também é parte da própria crítica que faz. Yuri Firmeza - nome artístico do idealizador de tal protesto - é artista plástico em Fortaleza, Ceará, e em conluio com altos funcionários do Instituto Dragão do Mar e o Museu de Arte Contemporânea daquela capital, construiu o que se pode chamar de a maior engambelação jornalística dos últimos tempos no Brasil, na qual estrelam dois dos jornais de maior circulação daquele estado nordestino.

O artista plástico cearense, com o apoio do diretor técnico do Museu de Arte Contemporânea (MAC) do Ceará, Ricardo Resende, decidiu criar, no intuito de denunciar o que chamou de “falta de atenção da mídia para com os artistas locais”, um personagem fictício, um famoso artista plástico japonês de nome Souzousareta Geijutsuka - uma frase que, em japonês, significa literalmente “artista inventado” - cuja mais recente exposição, também fictícia, intitulada “Geijitsu Kakuu”, seria aberta no MAC em janeiro de 2006. No engodo bem urdido, anunciou-se até mesmo a presença do artista em Fortaleza para a abertura da exposição.

A namorada de Firmeza passou-se por assessora de imprensa e enviou elogiosos press releases para as redações dos jornais O Povo e Diário do Nordeste e até mesmo uma entrevista que teria sido dada por correio eletrônico pelo artista nipônico. A farsa, que contou com a bênção do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, bem como do MAC, deu resultados: a exposição virou tema de ampla divulgação nos jornais locais e até mesmo a entrevista foi publicada na íntegra.

O press release é, talvez, a verdadeira obra-de-arte da história: nele, diz-se que a exposição do artista no Ceará seria sua “quarta participação em eventos no Brasil” e Geijutsuka é apresentado como “um dos [nomes] mais importantes no panorama das relações entre arte, ciência e tecnologia” e um artista preocupado em revelar “ao público o mundo das flores e vegetais, usando objetos carbonizados(…) [buscando] a harmonia entre a natureza que nasce e a que morre, empregando equipamentos tecnológicos para expor suas obras”

O escárnio continua com a descrição das supostas obras do artista fictício: “Souzousareta também desenvolveu a fotografia Shiitake, uma técnica japonesa que permite a captação dos fenômenos invisíveis ocorridos na atmosfera. Recentemente, o artista vem desenvolvendo um trabalho nos domínios da robótica, explorando as possibilidades de utilização de um autômato num diálogo com a escultura e a instalação ambiental. Seus trabalhos já foram expostos em Tóquio, Nova York, São Paulo e Alemanha.” Shiitake, como todos sabem, exceto os jornalistas cearenses, é o nome de um cogumelo muito utilizado na culinária japonesa.

Mas a imprensa cearense não pareceu se contentar apenas com os press releases divulgados - publicou também fotografias de algumas obras do mestre japonês da arte-ciência-tecnologia - um gato branco, tirada no quintal da casa de Firmeza, e uma imagem de uma praia cearense contorcida com o uso de um software comum de edição de imagens - e repassou a seus colunistas a tarefa de gerar resenhas para a exposição tão importante que iria acontecer na capital cearense. Na edição do dia 10 de janeiro de 2006, o jornal O Povo publicou, na capa do caderno Vida & Arte, uma matéria, com o título “Desconstruindo a arte”, na qual afirmava que “Souzousareta Geijutsuka não se intimidava com o estranho” e que “o artista plástico nipônico transformava em arte o que nem de longe parecia isso”. No mesmo dia, o “Diário do Nordeste” também publicou matéria sobre a “exposição” em seu Caderno 3. “O sofisticado equilíbrio entre vida e morte na natureza é o fio temático de sua exposição ‘Geijitsu Kakuu’, em que flores e vegetais são revisitadas por meio de objetos carbonizados, em um convite a reflexões sensoriais sobre a fragilidade da vida”, dizia o artigo assinado por conhecido crítico de arte do jornal. No mesmo texto, o articulista afirma que “o pintor e escultor francês Marcel Duchamp (1887-1968) é citado por Souzousareta como uma de suas grandes influências”, e reproduz trechos da entrevista fictícia que a assessora de imprensa fajuta enviara para o jornal como se o próprio Caderno 3 houvesse realizado contato com o pintor fantasma, com direito a respostas como estas:

Caderno 3:
“Qual a resposta que vem obtendo do público e das instituições de arte brasileiras quanto à sua arte?”

Geijutsuka:
“Muito pequena, como deve ser o caso da maioria dos artistas contemporâneos, pelo menos aqueles que ainda resistem a uma total subordinação dos procedimentos e problemas estéticos aos imperativos de consumo. Não só no Brasil, mas me parece que em vários países desenvolvidos, as atividades da cultura precisam apresentar relevância mercadológica para encontrar linhas abertas de financiamento e incentivo. Acontece o mesmo com o público, sobretudo com a arte eletrônica. Precisamos estar o tempo todo brigando com nossa própria produção para não deixar que os clichês tomem conta de tudo. E é esse o problema, o público, em geral, adora clichês. Espero encontrar coisa diferente no Brasil.”

Caderno 3:
“Como o senhor sintetizaria o conceito e o objetivo da exposição
Geijitsu Kakuu?”

Geijutsuka:
“Essa exposição tem várias facetas, justamente para poder lidar com vários problemas. Tudo está integrado a um exercício do simulacro, cujo objetivo é retirar os hábitos de seu estado de evidência. Inclusive hábitos estéticos, do tipo ‘Por que gostamos de arte?’. É preciso ver a exposição”.

O que mais assombra em todo o ocorrido é que vem às claras o que o leitor mais atento já desconfiava há tempos: não há critérios, tampouco cuidados, para o que é publicado ou não em nossos cadernos de cultura dos vários jornais brasileiros. Não raro se vê nas páginas desses periódicos artistas que são endeusados nos mesmos termos que o falso press release usa para exaltar o inexistente mestre japonês - e vai sobrando no imaginário popular a noção de que a arte é loucura, é algo incompreensível, é perda de tempo. Fácil imaginar o porquê: estamos em uma rea na qual os artistas obtem espaço para exibir sua arte, seja em galerias e museus ou nos jornais e canais de televisão, mais por seu currículo e indicações que por seu talento puro e simples. A arte contemporânea vai-se firmando como um grande clube de amigos, no qual entra quem é indicado por um sócio. E para ser amigo de um sócio, não basta ter talento: há que seguir a cartilha e encontrar um caminho para penetrar neste hermético mundo, seja pelas portas da formação acadêmica ou das graças de curadores e descolados marchants.

Curiosamente, no dia seguinte à revelação do vergonhoso papel desempenhado pela imprensa cearense no episódio, o jornal O Povo fez publicar artigos em defesa da imprensa e contra o empulhamento do artista e dos órgãos públicos que o apoiaram na farsa. Em um dos artigos, intitulado “Arte e Molecagem”, o jornal critica veementemente a atitude de Yuri Firmeza, a qual classifica como “molecagem do artista plástico (…) que inventou o pseudônimo de Souzousareta Geijutsuka e divulgou para a imprensa local seu (…) brilhante currículo de exposições no exterior como forma de conseguir espaço na mídia, revelou alguns traços do espírito da arte contemporânea em Fortaleza”. Para “O Povo”, a brincadeira de Firmeza revela que a arte contemporânea cearense é “uma arte pobre, recalcada e alienada, feita por moleques que confundem discurso (ou melhor, as facilidades conceituais de um discurso) com pichação; que acham que estão sendo corajosos quando não fazem mais do que espernear e gritar por uma mesadinha ou por uma berlinda oficial.”

Yuri Firmeza tem uma obra artística bastante questionável - em uma de suas performances, intitulada Ação 4 e disponível em vídeo em sua página na Internet, o artista cearense tira a roupa em meio a uma galeria de arte e sai caminhando, como se estivesse admirando as demais obras expostas no lugar, até entrar em outra sala e simular (?) uma relação sexual com outro homem, projetando as imagens para o público - e só, a velha história de usar o sexo e o nu para chocar os pequenos burgueses conservadores que os artistas contemporâneos ainda acreditam existir no Brasil. Por mais tola que sua arte seja, sua recente peripércia jornalística merece aplausos. A “travessura” do artista levanta questões, isto sim, sobre a imprensa brasileira como um todo. Não raro vemos, aqui mesmo em Porto Alegre, diversos jornais publicando textos praticamente idênticos sobre um novo livro a chegar no mercado ou um espetáculo que estréia, muitas vezes repetindo até o título - sinal de que basta ter um bom “press release” nas mãos certas, hoje em dia, para que qualquer trabalho artístico receba um status de obra-prima.

E pensar que nem o eles tiveram curiosidade de usar como fonte de pesquisa para escrever sobre a bela arte de Souzousareta Geijutsuka… Nem um autômato, carbonizado ou não, resistiria a tal tentação.

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Monday, January 16, 2006

Qual é o produto?

Há uma história pitoresca que ouvi de amigos professores de língua inglesa e que expressam bem minha presente indignação. Uma visitante estrangeira, de origem européia, esteve em Porto Alegre para uma série de palestras e um breve estágio no Brasil, cumprindo seu ano sabático. Curiosa com a cultura brasileira, ela confessou a sua tradutora que não conseguia entender muito bem algumas propagandas televisivas que via serem veiculadas com insistência. A tradutora explicou, solícita, que as peças publicitárias a que se referia eram advertisements do Governo Federal, da Presidência da República. A estrangeira, que conhecia um pouco de português, mas vinha de um país onde propaganda serve para vender, disse que havia identificado isso, mas mesmo assim não compreendia muito bem que produto o governo estava tentando vender com toda aquela propaganda… (…)

Em janeiro de 2006, estamos a observar uma verdadeira avalanche de publicidade governamental sobre os feitos do Governo Lula, seja na televisão ou mesmo em outdoors espalhados em estradas e nas grandes cidades, como Porto Alegre, virtualmente em todas as principais ruas de trânsito mais movimentado. Em se acreditando nas palavras expostas no site oficial do Governo Federal, o objetivo é dar transparência para os feitos do governo e, vá lá, motivar a população ao debate sobre o que deve ser priorizado no futuro. Mas é de se lamentar que tal quantidade de propaganda paga com os cofres públicos surja bem no início do último ano de seu governo, em meio a uma crise política e moral que faz a população se sentir achincalhada a cada nova notícia divulgada pelos meios midiáticos de todas as colorações políticas - ainda que haja os que insistem em atribuir às comprovações de roubo, desvio de verbas e caixa dois de campanhas eleitorais recentes um caráter de “conspiração da imprensa e das elites” contra o nosso presidente (que, aliás, também não vê nas revelações feitas até o presente momento nenhum motivo para alarde). Será que o Governo Federal realmente precisa usar das ferramentas da publicidade - comerciais televisivos, chamadas radiofônicas, outdoors e afins - para que o povo brasileiro conheça seus feitos? Responder sim a esta pergunta soa como uma negação absoluta ao trabalho da imprensa, que alimenta os cidadãos com informação suficiente para que saibamos bem o que se passa nos eventos oficiais e também nos bastidores da política nacional. Então, qual o sentido de gastar milhões com enormes reclames e cartazes para dizer ao povo que o governo investiu milhões em programas como o Fome Zero? (…)(LEIA O TEXTO COMPLETO ABAIXO)

Há uma história pitoresca que ouvi de amigos professores de língua inglesa e que expressam bem minha presente indignação. Uma visitante estrangeira, de origem européia, esteve em Porto Alegre para uma série de palestras e um breve estágio no Brasil, cumprindo seu ano sabático. Curiosa com a cultura brasileira, ela confessou a sua tradutora que não conseguia entender muito bem algumas propagandas televisivas que via serem veiculadas com insistência. A tradutora explicou, solícita, que as peças publicitárias a que se referia eram advertisements do Governo Federal, da Presidência da República. A estrangeira, que conhecia um pouco de português, mas vinha de um país onde propaganda serve para vender, disse que havia identificado isso, mas mesmo assim não compreendia muito bem que produto o governo estava tentando vender com toda aquela propaganda…

No portal do Governo Federal, site mantido pelo Poder Executivo Federal e que oferece acesso a diversas páginas ligadas ao Palácio do Planalto e a vários ministérios, é explicado que a publicidade do Governo Federal visa a “levar o máximo de informação à sociedade”, para que “a população tome conhecimento do que o Governo faz e o por quê”. Na mesma página, que reproduz as palavras do discurso de posse do presidente Luiz Inácio Lula da Silva - “Não faltarei com a verdade” - para justificar a propaganda do governo como uma forma de “estimular cada cidadão a se inteirar do que acontece no País e a participar da discussão e solução dos problemas nacionais”, são estabelecidas as diferenças entre publicidade de utilidade pública e publicidade institucional: “se o Governo faz uma campanha orientando a população para não deixar água empoçar e, assim, combater a dengue, está fazendo publicidade de utilidade pública. (…) Se o Governo faz uma campanha mostrando como a conscientização da população permitiu o controle da dengue ou uma campanha explicativa sobre a importância das reformas para o País, está fazendo publicidade institucional” (a qual, aliás, desde 2003, passou a ser gerida pela Secretaria de Comunicação de Governo e Gestão Estratégica (Secom) de Luiz Gushiken, recentemente arrolado no escândalo do mensalão e do valerioduto. O discurso oficial sobre publicidade segue dizendo que “a publicidade oficial, seja ela institucional ou de utilidade pública, tem sempre conteúdo educativo, informativo ou de orientação social, por preceito constitucional” e que “em nenhuma circunstância tal publicidade pode fazer promoção pessoal do administrador público”.

Então, vejamos. Em janeiro de 2006, estamos a observar uma verdadeira avalanche de publicidade governamental sobre os feitos do Governo Lula, seja na televisão ou mesmo em outdoors espalhados em estradas e nas grandes cidades, como Porto Alegre, virtualmente em todas as principais ruas de trânsito mais movimentado. Em se acreditando nas palavras expostas no site oficial do Governo Federal, o objetivo é dar transparência para os feitos do governo e, vá lá, motivar a população ao debate sobre o que deve ser priorizado no futuro. Mas é de se lamentar que tal quantidade de propaganda paga com os cofres públicos surja bem no início do último ano de seu governo, em meio a uma crise política e moral que faz a população se sentir achincalhada a cada nova notícia divulgada pelos meios midiáticos de todas as colorações políticas - ainda que haja os que insistem em atribuir às comprovações de roubo, desvio de verbas e caixa dois de campanhas eleitorais recentes um caráter de “conspiração da imprensa e das elites” contra o nosso presidente (que, aliás, também não vê nas revelações feitas até o presente momento nenhum motivo para alarde).

Será que o Governo Federal realmente precisa usar das ferramentas da publicidade - comerciais televisivos, chamadas radiofônicas, outdoors e afins - para que o povo brasileiro conheça seus feitos? Responder sim a esta pergunta soa como uma negação absoluta ao trabalho da imprensa, que alimenta os cidadãos com informação suficiente para que saibamos bem o que se passa nos eventos oficiais e também nos bastidores da política nacional. Então, qual o sentido de gastar milhões com enormes reclames e cartazes para dizer ao povo que o governo investiu milhões em programas como o Fome Zero? Tais anúncios levam-nos apenas a pensar em quantas famílias seriam beneficiadas com o dinheiro gasto nessas campanhas milionárias, que tem como maiores beneficiários as agências publicitárias e seus donos nem sempre com formação na área - a exemplo de Marcos Valério - e muitas vezes não muito honestos - como Duda Mendonça, idealizador da campanha presidencial que levou Lula ao poder, cujas contas em paraísos fiscais e transações escusas vieram à tona por meio da Comissão Parlamentar de Inquérito que investiga o esquema de corrupção dos Correios e Telégrafos (e que já extrapolou em muito tal propósito) e foram, com mais vigor ainda, desmascaradas na edição da revista Veja de 15 de março de 2006. Quantos empregos poderiam ser gerados se o Governo Federal deixasse de investir fortunas em propaganda eleitoreira e encaminhasse tal montante para projetos de inclusão social? Quantas rodovias poderiam ser recuperadas com o dinheiro que o Poder Executivo e sua Secretaria de Comunicação esbanjam em cartazes para demonstrar ao povo que foram recuperadas esta e aquela estrada federal?

Tudo isso torna-se ainda mais absurdo quando tal campanha foi deslanchada na mesma semana em que se ouviu falar pela primeira vez, através da imprensa, do escândalo referente ao prédio destinado em Brasília, DF, ao projeto Fome Zero, menina dos olhos do atual governo, um imóvel que foi alugado por valores três vezes mais altos que a avaliação feita pela Caixa Econômica Federal para o mesmo prédio. O desmando com o dinheiro público no Brasil beira a um escárnio maquiavelicamente programado com o contribuinte - e uma cruel brincadeira com os milhões de brasileiros que infelizmente dependem do poder público para tentar sair da miséria e da inanição. E antes que os petistas de plantão repitam a desculpa mais comum dada pelo próprio presidente, cabe-nos adiantar o expediente: sim, os governos anteriores faziam o mesmo, talvez pior, talvez um pouco melhor, mas o mesmo descuido com o dinheiro público. Contudo, esta é uma desculpa que em nada alivia a dor dos que poderiam ser beneficiados com os milhões da corrupção e dos gastos impensados dos administradores públicos e com a verba de publicidade exorbitantemente dispendida nesta torpe fogueira de vaidades que é a política nacional.

Wellington Moreira Franco, senador pelo Rio de Janeiro e autor de uma emenda constitucional que limita drasticamente o uso de publicidade pelos governos, assim iniciou a justificativa de seu projeto: “Em abril último a imprensa divulgou números alarmantes no que diz respeito aos gastos de publicidade do Governo Federal. Matéria da Folha de São Paulo, por exemplo, deu conta de que esses gastos tiveram acréscimo de 250 milhões de reais em relação ao ano anterior. ‘Incluindo os valores que não são divulgados de forma consolidada �” diz a reportagem — a gestão Lula tem despesa anual com propaganda da ordem de R$ 1,050 bilhão.’” O referido projeto de lei propõe a seguinte nova redação para o texto constitucional, no que tange à publicidade governamental:

“Art. o 37. …………….. § 1º Ressalvada a publicação de ato administrativo em órgão oficial de imprensa para produção de efeitos legais, informativo estritamente vinculadas à saúde pública e a propaganda de produtos e serviços de empresas públicas e sociedades de economia mista, é vedada a divulgação de atos, programas, obras e serviços por meio de material publicitário de qualquer natureza financiado por recursos públicos.”

Oxalá os senhores congressistas aprovem tal iniciativa, mas é cada vez mais difícil crer, neste país, em legisladores que criem leis que os prejudiquem futuramente, ainda que em prol do bem comum. E, pelo que se vê, a propaganda é vista pelos políticos brasileiros como a alma das reeleições e da conquista do poder futuro. Em minha mente, contudo, repete-se a pergunta da visitante estrangeira: que produto, afinal, os governos querem nos vender?

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Tuesday, January 10, 2006

Cuspir na escarradeira

Os antigos referiam-se a alguém que sabia se comportar em sociedade dizendo que aquela pessoa sabia “cuspir na escarradeira”; afinal, era costume no século XIX mastigar tabaco nas reuniões sociais e nas casas mais requintadas era comum ter ao lado dos sofás e poltronas pequenas peças de porcelana com um estratégico furo para coletar os dejetos desse hábito questionável - a escarradeira, ainda possível de ser encontrada em museus e alguns antiquários. Os que tinham trato social sabiam da existência de tal objeto e o usavam para desfazer-se do tabaco mastigado; os que não conheciam os costumes em sociedade, acabavam cuspindo no chão - ou errando a mira na escarradeira.

Graças ao avançar dos tempos, essa diversão nada agradável aos olhos foi abolida dos salões e do cotidiano das pessoas, mas o hábito desagradável de usar o mundo como sua lixeira pública parece perseguir a humanidade. A agência de notícias Xinhua, da China, noticiou hoje medidas governamentais a serem tomadas naquele país que parecem corroborar essa observação que, em verdade, faz parte do cotidiano de qualquer brasileiro. (…)Parece-me que o povo brasileiro é avesso demais ao regramento e, como diz uma grande amiga, fez uma “opção pela bagaceirice”: prefere viver na sujeita e na desorganização a ter que se submeter a qualquer tipo de regra. A conseqüência disso é notória: ruas sujas, prédios públicos destruídos pela pixação e pelo vandalismo, descaso com o direito do semelhante em diversos sentidos (desde ouvir no último volume a canção que certamente não é do gosto de todos até “furar” a fila, mesmo quando a ocasião não exige pressa), destruição de monumentos e pontos turísticos e uma incapacidade já proverbial dos brasileiros de se aterem às normas. Discordo dos que vêem nisso tudo muito natural, próprio à natureza de todos os povos. (…)(LEIA O TEXTO COMPLETO ABAIXO)

Os antigos referiam-se a alguém que sabia se comportar em sociedade dizendo que aquela pessoa sabia “cuspir na escarradeira”; afinal, era costume no século XIX mastigar tabaco nas reuniões sociais e nas casas mais requintadas era comum ter ao lado dos sofás e poltronas pequenas peças de porcelana com um estratégico furo para coletar os dejetos desse hábito questionável - a escarradeira, ainda possível de ser encontrada em museus e alguns antiquários. Os que tinham trato social sabiam da existência de tal objeto e o usavam para desfazer-se do tabaco mastigado; os que não conheciam os costumes em sociedade, acabavam cuspindo no chão - ou errando a mira na escarradeira.

Graças ao avançar dos tempos, essa diversão nada agradável aos olhos foi abolida dos salões e do cotidiano das pessoas, mas o hábito desagradável de usar o mundo como sua lixeira pública parece perseguir a humanidade. A agência de notícias Xinhua, da China, noticiou hoje medidas governamentais a serem tomadas naquele país que parecem corroborar essa observação que, em verdade, faz parte do cotidiano de qualquer brasileiro.

A cidade de Pequim, capital daquele país, realizou uma pesquisa de opinião com dez mil moradores para estabelecer quais os cinco hábitos mais desagradáveis de seus cidadãos. O objetivo era estabelecer uma lista de prioridades de que costumes combater no intuito de melhorar a vida das pessoas e preparar Pequim para o grande evento internacional que está a surgir em seu horizonte próximo: os Jogos Olímpicos de 2008.

Entre os cinco hábitos pouco higiênicos a serem abolidos pela população da cidade estão: jogar lixo nas ruas, cuspir nas calçadas e no interior do transporte público, atravessar ruas fora da faixa de pedestres, amontoar-se na entrada de ônibus coletivos (desrespeitando as filas) e, tendo animais de estimação, deixar pelas ruas os dejetos de seus bichinhos sem a preocupação de coletá-los. O governo municipal decidiu que será implementada uma campanha de erradicação desses hábitos, que incluirá a distribuição de sacos plásticos para os que quiserem se livrar de sua inconveniente saliva e de instruções sobre como usar de forma higiênica os restos de papelão e plástico para recolher os excrementos de cães e gatos deixados hoje pelas ruas da capital chinesa. Além disso, serão estabelecidas pesadas multas para os cidadãos que forem vistos praticando qualquer uma dessas atitudes consideradas pela pesquisa como “indesejáveis à higiene pública e à ordem”. Há dez anos a cidade de Pequim tem um “código de ética do cidadão”, no qual serão incluídas e detalhadas essas novas regras.

Há quem lerá esta notícia nos jornais e pensará no “quão sujas as ruas de Pequim devem ser” ou em “como o povo chinês deve ser mal educado”. Fico a imaginar o quão saudável seria a implementação de algo semelhante às iniciativas da prefeitura da capital chinesa em diversas cidades brasileiras, mas confesso que me desanimo ao imaginar qualquer tentativa nesse sentido. Parece-me que o povo brasileiro é avesso demais ao regramento e, como diz uma grande amiga, fez uma “opção pela bagaceirice”: prefere viver na sujeita e na desorganização a ter que se submeter a qualquer tipo de regra. A conseqüência disso é notória: ruas sujas, prédios públicos destruídos pela pixação e pelo vandalismo, descaso com o direito do semelhante em diversos sentidos (desde ouvir no último volume a canção que certamente não é do gosto de todos até “furar” a fila, mesmo quando a ocasião não exige pressa), destruição de monumentos e pontos turísticos e uma incapacidade já proverbial dos brasileiros de se aterem às normas.

Discordo dos que vêem nisso tudo muito natural, próprio à natureza de todos os povos. Quero crer que não é tão “darwiniana” assim esa condição do brasileiro, de ser um povo que não sabe seguir normas que não estejam sob o cajado da lei - digo das leis que ainda são aplicáveis no Brasil, o país das “leis que pegam” e das “leis que não pegam” - e a ameaça da multa. Há ainda os que jogam lixo nas lixeiras (poucas) que ainda há em nossas ruas e praças, recolhem os dejetos de seu cão do chão das calçadas e não assume ser o mundo a sua latrina particular depois de uma noitada de cervejas e excessos. Mas temo que o Brasil tenha realmente feito a opção pela “bagaceirice” e que nossa fama seja espalhada pelo mundo pelas mãos dos brasileiros que viajam para o exterior e, como já presenciei, aplicam sem maiores pudores o tal “jeitinho brasileiro” em outros países - países “de otários”, que seguem regras, vêem a coisa pública como pertencente a todos e que conseguem discernir sobre os limites existentes nos direitos individuais.

Está na hora de nós, brasileiros, à exemplo dos moradores de Pequim, reaprendermos a “cuspir na escarradeira”.

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Sunday, January 8, 2006

Reacionário até provar o contrário

(…)Muitas vezes fui chamado de reacionário por conta de minhas idéias, tantas delas expressas neste registro quase diário que aqui tenho feito.  Mas não me sinto uma pessoa “aferrada à autoridade constituída”, tampouco oposicionista “às idéias de liberdade, individual ou coletiva”.  Em verdade, muitas das pessoas que um dia denominaram-me reacionário defendiam escolas de pensamento e ideologias político-partidárias que, a meu ver, depunham contra as liberdades individuais e coletivas, defendendo um arraigado controle do Estado sobre a vida dos cidadãos.  Mas, enfim, sou visto como reacionário e gostaria de listar algumas de minhas idéias para coletar a opinião de meus leitores sobre se reacionário é, afinal, o melhor rótulo a mim aplicável (…) Mas diante de todas estas idéias, questiono-me o quanto de mim é reacionário - e o quão mal é pensar como penso e afirmo a quem quiser ouvir.  E não tenho medo de ser chamado de reacionário - dentro de qualquer definição que quiserem usar - se isto significar que seguirei vivendo da forma que hoje vivo, cá com os meus botões. (LEIA O TEXTO COMPLETO ABAIXO)

Segundo a definição lançada no verbete da enciclopédia virtual Wikipedia, aquela que permite a qualquer um editar e publicar informações sobre todo e qualquer assunto (mesmo que conheça pouco ou nada sobre o que escreve), Reacionário é “aquele que se opõe às idéias políticas de liberdade, tanto individual quanto coletiva”.  Outra definição, também citada no mesmo verbete, refere-se ao dicionário Michaelis, que por sua vez define o termo como “adjetivo, pertencente ou relativo ao partido da reação ou ao seu sistema”.  O autor do verbete da Wikipedia complementou sua questionável definição dizendo que “reacionário é aquele aferrado à autoridade constituída”.

Muitas vezes fui chamado de reacionário por conta de minhas idéias, tantas delas expressas neste registro quase diário que aqui tenho feito.  Mas não me sinto uma pessoa “aferrada à autoridade constituída”, tampouco oposicionista “às idéias de liberdade, individual ou coletiva”.  Em verdade, muitas das pessoas que um dia denominaram-me reacionário defendiam escolas de pensamento e ideologias político-partidárias que, a meu ver, depunham contra as liberdades individuais e coletivas, defendendo um arraigado controle do Estado sobre a vida dos cidadãos.  Mas, enfim, sou visto como reacionário e gostaria de listar algumas de minhas idéias para coletar a opinião de meus leitores sobre se reacionário é, afinal, o melhor rótulo a mim aplicável:

¤   Creio que a igualdade de oportunidades é a única forma de igualdade desejável e possível na construção de um futuro de equilíbrio e paz social.

¤   Defendo a idéia de que minha liberdade termina onde a de meu próximo se inicia.

¤   Não concebo direitos sem deveres em contrapartida.

¤   Prego que a liberdade de culto deve ser ampla e basilar em nossa sociedade - exceto para os escroques que abusam da fé de nosso povo.

¤   Acredito que as crianças precisam e que os adolescentes querem ter limites.  E defendo que tais limites devem ser estabelecidos precipuamente pela família, não pela escola, pelo professor ou por quem quer que seja fora do círculo familiar. 

¤   Tenho a certeza de que faz parte do crescimento errar, decepcionar-se, magoar-se e, a partir da queda, erguer-se e seguir vivendo.  E não creio que os pais fazem qualquer bem aos filhos privando-os de passar por estas experiências desde cedo.

¤   Não consigo achar beleza na antecipação da liberdade sexual de crianças e adolescentes - por não conseguir fechar os olhos para o crescimento do número de adolescentes grávidas, de famílias desestruturadas por conta deste fenômeno contemporâneo e pelos reflexos desta desestabilidade familiar em nossa sociedade.  Também não consigo achar razões para a liberação do consumo de drogas - por não conseguir fechar os olhos para os efeitos deletérios que elas causam às pessoas, às relações sociais e ao equilíbrio da sociedade a partir de sua profunda vinculação com o crime e a violência.

¤   Admiro a arte que encontra beleza nas coisas simples da vida, ou que traz aos sentidos as mensagens que, por outros meios, levaríamos tempo demais para absorver.  E abomino a arte que se fecha em si mesma, alimenta-se de si própria, requer longas explicações e memoriais para ser compreendida ou serve apenas de veículo para a egolatria de poucos.

¤   Não creio que a verdade, por completo, esteja em qualquer escola do pensamento, em qualquer religião estabelecida ou nas palavras de qualquer pessoa de nosso tempo.  Vejo as verdades de cada um e procuro unir à minha verdade aquelas que a ela melhor se coadunam.  E por isso não me creio senhor de nenhuma verdade absoluta.

¤   Acredito no poder redentor do perdão e na reconstrução após o caos.

¤   Lamento pelas pessoas que magoei no passado e busco não fazer mais aos outros o que não gostei que me fizessem e o que não quero que me façam no futuro.  E ainda me perturbo, e muito, com a idéia de que eu esteja a fazer mal a alguém, seja quem for.

¤   Não vejo na violência um mal necessário, nem um meio justificável, nem um fim em si próprio.  A violência sempre foi, para mim, a ausência de razão - e por isso preferi sempre a pena à espada.

¤   Não consigo jogar lixo no chão, explorar serviçais e subalternos ou assumir como minha a coisa pública.  Consigo bem dividir em minha mente governo de Estado e patrimônio privado de bem comum.

¤   Não aplaudo o sucesso apenas por estar a dominar a mídia, tampouco a moda apenas por estar estampando os corpos da maioria das pessoas nas ruas.  Não ouço o que não gosto e não assisto ao que não quero apenas por ser o que todos estão a ouvir ou o que todos estão a ver.

¤   Quero acreditar ainda no amor sem interesse e na amizade sem atração física.  Quero acreditar sempre na eternidade da amizade e no desprendimento do amor.

¤   Ainda luto pelo que creio ser certo e admiro profundamente os que têm mais caridade no coração e desprendimento na alma para ir mais à fundo em sua ação em auxílio ao próximo do que eu.

¤   Reciclo o lixo e tenho dificuldade de compreender a posutra de quem ainda não o faz.

¤   Tenho certa ojeriza ao excesso de exercícios físicos e, no fundo, um medo (que admito ser inexplicável, ainda que seja uma crença baseada em casos observados na natureza humana) de que uma grande insistência de trabalhos musculares, em detrimento da produção intelectual,  possa transferir a irrigação sangüínea do cérebro para os bíceps, prejudicando o funcionamento do primeiro.

¤   Não concebo a vida sem humor - e sem bom humor.

¤   Não creio que a livre iniciativa seja a causa primeira da pobreza, tampouco que a pobreza seja a causa primeira da criminalidade.  As dificuldades dos que tentam empreender e dos que lutam para fugir da pobreza em países como o nosso são ambas oriundas das ausências ou sobre-exigências de um Estado incapaz de decidir, inerte para mudar, medroso demais para tomar iniciativas e preso demais aos interesses de poucos para abranger o que é melhor para todos.

¤   E sou radicalmente contra, sim, qualquer tipo de tirania, de qualquer coloração ou tendência, em qualquer lugar onde eu viva e ativamente exerça algum papel como cidadão.

Mas diante de todas estas idéias, questiono-me o quanto de mim é reacionário - e o quão mal é pensar como penso e afirmo a quem quiser ouvir.  E não tenho medo de ser chamado de reacionário - dentro de qualquer definição que quiserem usar - se isto significar que seguirei vivendo da forma que hoje vivo, cá com os meus botões.

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Thursday, January 5, 2006

Crime e castigo

O Governo Federal aprovou, em 04 de janeiro de 2006, a imediata liberação de vinte e cinco mil detentos no intuito de descongestionar duzentas e setenta e sete mil presídios em todo o país. A decisão, tomada em reunião chefiada pelo presidente da república, foi sugerida pelo Ministro da Justiça e deverá incluir presos cuja pena já tenha sido cumprida, mas que por problemas judiciais ainda são mantidos no cárcere, presos com condições de saúde precárias e aqueles presos incluídos na chamada “terceira idade”. O governo pretende, ainda, buscar meios de facilitar o pagamento de fiança, ou buscar junto à Justiça o relaxamento de tal necessidade, para aqueles que tenham condições de obter a liberdade mediante tal contrapartida financeira. (…) As ações tomadas pelo Governo Federal são louváveis, sem dúvida e, em minha opinião de quem acompanha a problemática da Segurança Pública há alguns anos, acertadas caso sejam levadas com seriedade em cada um dos passos previstos pelo programa acima descrito. Lamento apenas que todas estas boas idéias listadas serão tomadas pelo Governo da Nigéria, o país mais populoso da África, e não pelo governo brasileiro, cuja inépcia em resolver a questão da criminalidade e da educação em nosso país já se tornou anedótica. (…) (LEIA O TEXTO COMPLETO ABAIXO)

O Governo Federal aprovou, em 04 de janeiro de 2006, a imediata liberação de vinte e cinco mil detentos no intuito de descongestionar duzentas e setenta e sete mil presídios em todo o país. A decisão, tomada em reunião chefiada pelo presidente da república, foi sugerida pelo Ministro da Justiça e deverá incluir presos cuja pena já tenha sido cumprida, mas que por problemas judiciais ainda são mantidos no cárcere, presos com condições de saúde precárias e aqueles presos incluídos na chamada “terceira idade”. O governo pretende, ainda, buscar meios de facilitar o pagamento de fiança, ou buscar junto à Justiça o relaxamento de tal necessidade, para aqueles que tenham condições de obter a liberdade mediante tal contrapartida financeira.

O programa governamental, contudo, prevê que os presos libertos passarão, obrigatoriamente, por um programa de reabilitação em casas de custódia especiais estabelecidas em todas as regiões do país antes de serem reintegrados à sociedade. O apoio social incluirá cursos profissionalizantes e ações de inserção dos ex-apenados na sociedade por meio de empregos concedidos por empresas parceiras do Estado.

O fator motivador de tal ação do governo foi, principalmente, o aumento no número de motins e rebeliões ocorridos nos últimos tempos. Descobriu-se que tais eventos eram propiciados pelo grande números de presos por casa prisional, muito deles apenas aguardando julgamento. O governo teme que o problema se agrave e atinja níveis de risco para a sociedade caso não seja repensado o sistema prisional do país.

O programa de libertação de presos acontecerá com o apoio de Conselhos a serem implementados em cada casa prisional, os quais serão compostos por membros de organizações não-governamentais e em caráter voluntário, sem dispêndios extras para o governo.

As ações tomadas pelo Governo Federal são louváveis, sem dúvida e, em minha opinião de quem acompanha a problemática da Segurança Pública há alguns anos, acertadas caso sejam levadas com seriedade em cada um dos passos previstos pelo programa acima descrito. Lamento apenas que todas estas boas idéias listadas serão tomadas pelo Governo da Nigéria, o país mais populoso da África, e não pelo governo brasileiro, cuja inépcia em resolver a questão da criminalidade e da educação em nosso país já se tornou anedótica.

As soluções para a Segurança Pública em nosso país existem. Tive a oportunidade, como disse recentemente por aqui, de ir a vários congressos, seminários, simpósios e reuniões com autoridades de todos os poderes sobre o tema, e as alternativas para buscar uma saída são inúmeras. Mas, curiosamente, parece que ninguém está disposto a tomar as atitudes, a assumir a paternidade de um projeto como este que o governo nigeriano começou a desenhar a partir do dia de ontem. As secretarias de segurança pública dos estados brasileiros - e mesmo sua equivalente no Governo Federal - parecem mais preocupadas em ações paliativas que evitem criar turbulências na administração dos mandatários do momento do que em promover ações efetivas de recuperação, ressocialização e reentrada dos apenados na sociedade. Nossas casas prisionais são, com raras exceções, meros “depósitos de gente” onde a sociedade enjaula seus “indesejáveis” para não mais os ver o rosto que lhes faz recordar da falência do Estado em tantas outras áreas como educação, habitação e saúde, apenas para citar algumas. E então perenizamos na vida criminosa alguns cidadãos que talvez pudessem voltar a viver uma vida produtiva para si e para o país.

Mas parece que esse tipo de revés só atinge países mais “problemáticos” que nós, como a Nigéria, berço de muitos de nossos antepassados escravizados.

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Futuro possível

Ainda acredito em um futuro melhor para o país onde viverei meus próximos anos de vida.  Confesso, contudo, que me causa um desconforto assolador, uma revolta quase incontrolável, uma tristeza profundíssima ao ler notícias como a que acabo de conhecer por meio de um jornal local.

Trata-se da história de um menino que, na ausência do irmão mais velho, resolveu assumir as funções deste, de imensa periculosidade, para manter em família o ganha-pão conseguido com dificuldade.  Mas não há nada de edificante nesta ocorrência que soa tão banal: a grande e assustadora revelação é que a polícia civil da cidade paulista de Sorocaba descobriu o tal menino, de apenas dez anos, atuando como líder de um ponto de tráfico de drogas em um bairro da periferia daquele município.  A criança foi presa em 03 de janeiro de 2006 portando armas, munição e grande quantidade de maconha preparada para distribuição.  Ao ser questionado pelos policiais, já na delegacia, o menino, que mora com os pais, revelou que havia herdado o negócio de um irmão mais velho, de apenas dezesseis anos de idade, o qual encontra-se detido em uma unidade da Fundação do Bem-Estar do Menor (FEBEM) em São Paulo. (…)(LEIA O TEXTO COMPLETO ABAIXO)

Ainda acredito em um futuro melhor para o país onde viverei meus próximos anos de vida.  Confesso, contudo, que me causa um desconforto assolador, uma revolta quase incontrolável, uma tristeza profundíssima ao ler notícias como a que acabo de conhecer por meio de um jornal local.

Trata-se da história de um menino que, na ausência do irmão mais velho, resolveu assumir as funções deste, de imensa periculosidade, para manter em família o ganha-pão conseguido com dificuldade.  Mas não há nada de edificante nesta ocorrência que soa tão banal: a grande e assustadora revelação é que a polícia civil da cidade paulista de Sorocaba descobriu o tal menino, de apenas dez anos, atuando como líder de um ponto de tráfico de drogas em um bairro da periferia daquele município.  A criança foi presa em 03 de janeiro de 2006 portando armas, munição e grande quantidade de maconha preparada para distribuição.  Ao ser questionado pelos policiais, já na delegacia, o menino, que mora com os pais, revelou que havia herdado o negócio de um irmão mais velho, de apenas dezesseis anos de idade, o qual encontra-se detido em uma unidade da Fundação do Bem-Estar do Menor (FEBEM) em São Paulo.  

Dez anos de idade, é preciso frisar e, com isso, peço que os que me lêem pensem em alguma criança que conheçam e que tenham também apenas dez anos de idade.  Lembrem-se dela agora, e de quando tínhamos dez anos de idade, e talvez possamos mensurar melhor sobre a gravidade de tal descoberta sinistra feita pelos policiais sorocabanos.

Por ser menor de doze anos de idade, o menino-traficante de Sorocaba não poderá sequer responder ao crime, mesmo para encaminhamento a uma unidade de recuperação de menores como aquela na qual seu irmão se encontra.  Sei que há os que gritaram mentalmente, de imediato, pela necessidade urgente de reduzir-se a idade criminal no Brasil.  Mas, de minha parte, confesso que não sei mais se tal situação é benéfica ou ruim para a sociedade, já que as FEBEM em quase todo o Brasil tornaram-se, ao longo dos últimos anos, depósitos cruéis de menores e autênticas escolas de criminalidade, cujo intuito parece mesmo ser apenas o de afastar dos olhos dos pagadores de impostos (e dos sonegadores, é bom recordar) aquela pústula desagradável que nos grita aos olhos a incompetência do Estado no trato de suas crianças.

 
Há culpas suficientes para todos em histórias como a deste menino de Sorocaba, que se repetem em tantos outros centros urbanos deste país de incongruências.  Há o Estado ausente, mas também a corrupção que compra legisladores e desvia verba de ações concretas em defesa da cidadania, a desestruturação de famílias que sobrevivem com salários de miséria, a paternidade e maternidade precoces e irresponsáveis que poderiam ser evitadas com programas efetivos de planejamento familiar e controle de natalidade.  Mas, para ser sincero e amargo, sinto-me um tolo ao repetir por escrito as soluções que já ouvi tantas vezes serem ditas e prometidas por tantas autoridades com as quais convivi ou que pelos meios de comunicação ouvi falarem de criminalidade e violência estando tão distantes da realidade das ruas e favelas.
 
Ainda acredito em um futuro melhor para o país onde viverei meus próximos anos de vida.  Mas tomo a liberdade de ser pessimista e me perguntar se conseguirei viver meus próximos anos de vida neste país em que nasci e pretendia morrer de velhice.
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