Monday, December 5, 2005

A Torre de Dom Ramires

“E tu compreendes, como eu desejo tentar a política, preciso primeiramente aparecer, espalhar o meu nome…” (protagonista de A Ilustre Casa de Ramires, obra de Eça de Queiroz [1845-1900], escritor português)

Como uma forma de atingir alguma ascenção social, prestígio, dinheiro - ou mesmo por razões mais prosaicas, como o sonho de sair do interior em direção à capital do reino -, o personagem principal de A Ilustre Casa de Ramires, um dos melhores romances do escritor lusitano Eça de Queiroz (1845-1900), dedica-se à tarefa árdua de compor um passado de glória para seus antepassados. Fico a pensar o quão atual a crítica queiroziana aos fidalgos de falsa nobreza e aos caçadores de fama e glória ainda se faz. (…) A narrativa queiroziana segue seu curso, apresentando ironicamente as desventuras de Gonçalo em busca de seus desejos de poder e glória.  E mais não carecemos contar do livro, sob o risco de maçarmos o leitor e estragarmos a delícia de ler a obra.  O pouco que contamos, contudo, já nos serve para referenciarmos nossos tempos e a trama de Eça de Queiroz.  Ou será raro encontrarmos, hoje ainda, alguns Gonçalos que, para obter ou demonstrar o poder - adquirido ou por conquistar -, lançam-se à construção de ações tão grandiloqüentes quais as proezas narradas no livro do fidalgo falido?  Não são raros aqueles que, uma vez alçados à condição de chefes, líderes, estadistas de qualquer graduação, buscam firmar seus nomes através de atitudes tão arbitrárias quanto risíveis - seja a construção de obras sem grande utilidade mas muito apelo visual, a adoção de medidas administrativas e reestruturações gerais as quais mais atordoam que auxiliam, ou mesmo aquelas relativas às mais comezinhas possibilidades que o poder lhes concede: mudam a cor das paredes, dão novos nomes às ruas, escolhem mascotes e flâmulas e, não raro, partem mesmo para a estratégia de Gonçalo Mendes Ramiro: escrevem - e muito. (LEIA O TEXTO COMPLETO ABAIXO)

“E tu compreendes, como eu desejo tentar a política, preciso primeiramente aparecer, espalhar o meu nome…” (protagonista de A Ilustre Casa de Ramires, obra de Eça de Queiroz [1845-1900], escritor português)

Como uma forma de atingir alguma ascenção social, prestígio, dinheiro - ou mesmo por razões mais prosaicas, como o sonho de sair do interior em direção à capital do reino -, o personagem principal de A Ilustre Casa de Ramires, um dos melhores romances do escritor lusitano Eça de Queiroz (1845-1900), dedica-se à tarefa árdua de compor um passado de glória para seus antepassados. Fico a pensar o quão atual a crítica queiroziana aos fidalgos de falsa nobreza e aos caçadores de fama e glória ainda se faz.

Em seu romance, Eça de Queiroz conta-nos sobre Gonçalo Mendes Ramiro, um fidalgo falido que vive em uma torre na anciã aldeia de Santa Irinéia e que é convencido por um camarada seu de Coimbra a escrever uma novela histórica sobre sua família. José Lúcio Castanheiro, o fundador patriota dos Anais de Literatura e de História, é quem o incentiva a registrar a genealogia dos Ramires em livro, por considerar Gonçalo, de antiquíssima linhagem, ”o mais genuíno e antigo fidalgo de Portugal”. 

Sem talento, contudo, o fidalgo baseia seu romance histórico, A Torre dos Ramires, em um poemeto épico toscamente escrito por um seu parente, cinqüenta anos antes - um solitário que também residira na tal fortificação secular - e constrói sobre os versos pouco inspirados de seu antepassado toda uma história fantasiosa sobre a soberba saga dos Ramires.

A narrativa queiroziana segue seu curso, apresentando ironicamente as desventuras de Gonçalo em busca de seus desejos de poder e glória.  E mais não carecemos contar do livro, sob o risco de maçarmos o leitor e estragarmos a delícia de ler a obra. 

O pouco que contamos, contudo, já nos serve para referenciarmos nossos tempos e a trama de Eça de Queiroz.  Ou será raro encontrarmos, hoje ainda, alguns Gonçalos que, para obter ou demonstrar o poder - adquirido ou por conquistar -, lançam-se à construção de ações tão grandiloqüentes quais as proezas narradas no livro do fidalgo falido?  Não são raros aqueles que, uma vez alçados à condição de chefes, líderes, estadistas de qualquer graduação, buscam firmar seus nomes através de atitudes tão arbitrárias quanto risíveis - seja a construção de obras sem grande utilidade mas muito apelo visual, a adoção de medidas administrativas e reestruturações gerais as quais mais atordoam que auxiliam, ou mesmo aquelas relativas às mais comezinhas possibilidades que o poder lhes concede: mudam a cor das paredes, dão novos nomes às ruas, escolhem mascotes e flâmulas e, não raro, partem mesmo para a estratégia de Gonçalo Mendes Ramiro: escrevem - e muito.  Sua imaginação feracíssima - como Castanheiro se refere, a certa altura, à inventividade de Gonçalo, em verdade um plágio tosco do poemeto do seu falecido tio  - e as ganas de mostrar ao mundo seu prestígio, fama, mando ou superioridade faz com que a pena registre no papel desde suas autobiografias dispensáveis até as leis, artigos, poemas e hinos que sua vontade de se destacar fazem surgir sem constrangimentos ou autocríticas. 

E, como no romance mordaz de Eça de Queiroz, há muitos que admiram a obra, aplaudem e julgam estar diante de algo realmente importante, revolucionário e único.  Mas, pobres almas simplórias, o que está diante de seus olhos é tão-somente A Torre de Dom Ramires, a frágil e triste construção tão antiga, débil e, como costumam ser as torres, oca, vazia por dentro, de sentido e de conteúdo. 

E como estamos cercados, no Brasil, desses imperadores de anedota!  Como o fidalgo decaído queiroziano, parecemos ainda nos orgulhar de uma história que conhecemos tão mal e da qual sequer sabemos o que é verdadeiro e o que é mera prosa.  Ah, como os sedentos de poder usam-se do passado - aos seus olhos tortos, sempre um tempo glorioso e melhor que o presente!  E vamos ficando à mercê dos sedentos de poder que, sem qualquer generosidade ou espírito de coletividade, estão apenas a fazer o que for preciso - a escrever sua farsa novelesca - para ter em mãos o prestígio, a consagração social, a sensação de comando que lhes alimentará uma alma quase sempre vazia como uma torre em ruínas. 

     

Posted by Frizero at 18:56:42 | Permalink | Comments (2)

Versos para um Triste Fado

Em homenagem aos músicos do Madredeus, o grupo musical português que tanto amo e que amanhã, dia 6 de dezembro de 2005, estará aqui, em Porto Alegre, Brasil, em um concerto único - e único em todos os sentidos.

Estranha forma de vida!
Viver sem ter a meu lado
a alma que me é querida!
Estranha forma de vida!
Viver… será isto vida?
Meu ser é todo culpado
pela dor em mim vivida,
por este meu triste fado…
Estranha forma de vida!
Minh’alma leva a seu lado
a paixão mal resolvida
por este ser encantado…
Quando a razão precavida
deu vez ao atordoado
coração descompassado?
Serei eu predestinado
a viver sem ser amado,
a amar sem sentir vida?
Vivo um sonhar acordado…
Estranha forma de vida!

Teresa Salgueiro, a voz do Madredeus
Teresa Salgueiro, a voz do Madredeus

Da obra

(2006)
(Robertson Frizero Barros)

Posted by Frizero at 13:46:33 | Permalink | Comments (6)

Friday, December 2, 2005

O Camarão ao Molho Agridoce e a Moda Brasiliense (ou Como Ser Diferente Sendo Igual a Todo o Resto)

(…) Brasília é mesmo uma cidade de curiosos contrastes - e a juventude do Distrito Federal talvez seja o mais bizarro que se pode encontrar por aqui.  Ao andar pelos corredores de seus sempre lotados shopping centers, mas também ao usar o transporte coletivo deficitário da cidade e ao cruzar o que é talvez o único grande local de concentração popular de Brasília - o pequeno eixo entre o Conjunto Nacional e o Conic - vi de tudo e do muito que os jovens brasilienses têm feito para acompanhar certas modas que florescem em outras partes do país (…). Vi desde jovens que, no afã de se tornarem diferentes e aceitos no grupo, vestem-se iguais aos demais de sua turma e ali enterram suas individualidades, dia após dia, até outros jovens que resolveram criar um “estilo” de tal forma pessoal que mais oculta que exprime suas personalidades.  Há piercings e tatuagens em profusão, mas também acessórios estranhos como casacos de pelúcia rosa, correntes de bicicleta, sobretudos negros em pleno calor do Planalto Central, e tantas outras tolices (…).  E os dizeres escritos em inglês temerário, com mensagens por vezes sem sentido, outras vezes sem cabimento de tão ofensivas ou tolas.  Não raro eu me vi nas ruas de Brasília com a mesma perplexidade do senhor chinês daquele caso verídico divulgado pelo Blog do Noblat, e que tomo a liberdade de repetir, de tão emblemático que ele é:

“Na avenida Ipiranga, centro de São Paulo, o chinês de meia idade olhou curioso o ideograma tatuado na altura do ombro direito da mocinha que esperava na calçada a luz verde do semáforo. Não se conteve e perguntou:

- Onde você fez?

- Lá no bairro da Liberdade.

- E por que logo isso?

- Porque quer dizer Esperança. Gosto da palavra.

- O que está escrito aí é “camarão ao molho agridoce“.

Na falta de conteúdo, de uma razão maior para proceder com suas escolhas, a juventude de Brasília - e, arrisco-me a dizer, de boa parte de nosso país - acaba por se deixar levar pelo primeiro bonde que passar a carregar os incautos e despreparados… (…) (LEIA O TEXTO COMPLETO ABAIXO)

Estou neste sábado, dia 03 de dezembro de 2005, despedindo-me de Brasília após duas semanas de tempo estranho, que intercalou chuva e sol em períodos e razões sem nenhuma congruência possível à compreensão dos não-brasilienses. 

Brasília é mesmo uma cidade de curiosos contrastes - e a juventude do Distrito Federal talvez seja o mais bizarro que se pode encontrar por aqui.  Ao andar pelos corredores de seus sempre lotados shopping centers, mas também ao usar o transporte coletivo deficitário da cidade e ao cruzar o que é talvez o único grande local de concentração popular de Brasília - o pequeno eixo entre o Conjunto Nacional e o Conic - vi de tudo e do muito que os jovens brasilienses têm feito para acompanhar certas modas que florescem em outras partes do país e que aqui, como em vários outros aspectos do lugar, ganha cores da mistura desigual e heterogênea que formou a cidade.

Vi desde jovens que, no afã de se tornarem diferentes e aceitos no grupo, vestem-se iguais aos demais de sua turma e ali enterram suas individualidades, dia após dia, até outros jovens que resolveram criar um “estilo” de tal forma pessoal que mais oculta que exprime suas personalidades.  Há piercings e tatuagens em profusão, mas também acessórios estranhos como casacos de pelúcia rosa, correntes de bicicleta, sobretudos negros em pleno calor do Planalto Central, e tantas outras tolices - como a profusão de camisetas com efígies de ilustres como Che Guevara, Janis Joplin, Carlitos e Albert Einstein, cujas biografias devem ser de total desconhecimento de seus portadores. 

E os dizeres escritos em inglês temerário, com mensagens por vezes sem sentido, outras vezes sem cabimento de tão ofensivas ou tolas.  Não raro eu me vi nas ruas de Brasília com a mesma perplexidade do senhor chinês daquele caso verídico divulgado pelo Blog do Noblat, e que tomo a liberdade de repetir, de tão emblemático que ele é:

“Na avenida Ipiranga, centro de São Paulo, o chinês de meia idade olhou curioso o ideograma tatuado na altura do ombro direito da mocinha que esperava na calçada a luz verde do semáforo. Não se conteve e perguntou:

- Onde você fez?

- Lá no bairro da Liberdade.

- E por que logo isso?

- Porque quer dizer Esperança. Gosto da palavra.

- O que está escrito aí é “camarão ao molho agridoce“.

Na falta de conteúdo, de uma razão maior para proceder com suas escolhas, a juventude de Brasília - e, arrisco-me a dizer, de boa parte de nosso país - acaba por se deixar levar pelo primeiro bonde que passar a carregar os incautos e despreparados… É moda o piercing?  Coloco-me um.  É status ter uma tatuagem? Faço de minha pele um rascunho para a posteridade, mesmo que aqueles símbolos não digam coisa com coisa, nem coisa alguma de mim mesmo.  Mas, quando não se tem nada dentro de si para refletir, questionar, matutar, sonhar, resta-me seguir o que me dizem ser o mais apropriado, o mais certo, o que me garanta que não serei ridicularizado - mesmo que eu tenha tatuado no braço um cardápio e não guarde uma idéia útil sequer na cabeça.

Posted by Frizero at 03:29:02 | Permalink | Comments (1) »

Thursday, December 1, 2005

Como fabricar cretinos

“Restauremos o caminho normal das coisas: a capacidade de se especializar nasce somente da verdadeira cultura.”

(Jean-Paul Brighelli, educador francês, autor do livro A Fábrica do Cretino - A Morte Programada da Escola)

Em artigo assinado por Fernando Eichenberg, a revista Primeira Leitura traz, em sua edição de novembro de 2005, as idéias de um educador francês que há trinta anos trabalha como professor em escolas de periferia, além de seu trabalho como professor universitário.  Formado em Letras, Jean-Paul Brighelli denuncia o falso “sucesso da nova pedagogia”, para ele, em verdade, um efeito a longo prazo que ele chamou de “a morte programada do saber”, cujo objetivo maior seria “fabricar cretinos”.  As palavras fortes contidas no livro de Brighelli são corroboradas por uma pesquisa citada pela revista e divulgada, na França, coincidentemente no mesmo mês de lançamento de La Fabrique du Crétin - La Mort Programée de l’École: segundo dados do Instituto Nacional da Estatística e dos Estudos Econômicos da França, 12% (doze por cento) dos adultos entre dezoito e sessenta e cinco anos  sofrem de dificuldades graves de escrita, cálculo e compreensão de texto escrita e oral.   (…) Voltando às idéias de Brighelli, o educador é veemente ao apontar a atual situação francesa como fruto de “uma singular conjunção de vontades perversas e de boas intenções imbecis”.  No rastro dos ideais libertários de 1968, os professores das novas gerações assumiram a postura de que “é proibido proibir”, tornando a escola em um ambiente no qual não há mais deveres, onde os direitos são muitos e, por consegüinte, a autoridade do professor - e mesmo seu papel de educador - são prejudicados por uma quase total ausência de busca pela excelência escolar.  A falsa igualdade que tais pressupostos trazem em seu bojo seria, para o educador francês, um dos motivos pelos quais a educação retrocede, o aproveitamento dos alunos diminui a cada ano e a massa de profissionais lançada no mercado é cada vez menos preparada para a vida. Curiosamente, os ideais de 1968 ajudam, em muito, o conceito neoliberal de que o indivíduo precisa ser forjado para o mercado e para as exigências da economia moderna, globalizada e ágil.(…) O “todos somos iguais” dos educadores modernos acaba por nivelar os educandos por patamares mínimos de aprendizado, ou seja, já não se busca a excelência, mas a subsistência cultural.  Ao pregar uma sociedade que não se fia em oportunidades de crescimento iguais para todos, mas sim em uma igualdade pura e simples, alheia ao mundo real, o que se faz é perpetuar a desigualdade.  (…) Para as verdadeiras classes dominantes, que ascenderam ao poder por diversas razões, a maioria delas alheia à elevada cultura de seus membros, o processo de cretinização da população é um alento que só colabora para a perpetuação de suas vantajosas posições no tabuleiro do jogo do poder. (LEIA O TEXTO COMPLETO ABAIXO)

“Restauremos o caminho normal das coisas: a capacidade de se especializar nasce somente da verdadeira cultura.”

(Jean-Paul Brighelli, educador francês, autor do livro A Fábrica do Cretino - A Morte Programada da Escola)

Em artigo assinado por Fernando Eichenberg, a revista Primeira Leitura traz, em sua edição de novembro de 2005, as idéias de um educador francês que há trinta anos trabalha como professor em escolas de periferia, além de seu trabalho como professor universitário.  Formado em Letras, Jean-Paul Brighelli denuncia o falso “sucesso da nova pedagogia”, para ele, em verdade, um efeito a longo prazo que ele chamou de “a morte programada do saber”, cujo objetivo maior seria “fabricar cretinos”. 

As palavras fortes contidas no livro de Brighelli são corroboradas por uma pesquisa citada pela revista e divulgada, na França, coincidentemente no mesmo mês de lançamento de La Fabrique du Crétin - La Mort Programée de l’École: segundo dados do Instituto Nacional da Estatística e dos Estudos Econômicos da França, 12% (doze por cento) dos adultos entre dezoito e sessenta e cinco anos  sofrem de dificuldades graves de escrita, cálculo e compreensão de texto escrita e oral.   Os chamados analfabetos funcionais (termo brasileiro politicamente correto que a França substituiu na pesquisa pelo vocábulo mais realista - iletrado) são 9% (nove por cento) e 16% (dezesseis por cento) os que estão na condição de “portadores de dificuldades parciais”.  O índice de analfabetismo na França, contudo, é de apenas 1% (um por cento) da população - algo bem distante dos 13,6% (treze vírgula seis por cento) correspondentes ao número de brasileiros sem instrução. 

Voltando às idéias de Brighelli, o educador é veemente ao apontar a atual situação francesa como fruto de “uma singular conjunção de vontades perversas e de boas intenções imbecis”.  No rastro dos ideais libertários de 1968, os professores das novas gerações assumiram a postura de que “é proibido proibir”, tornando a escola em um ambiente no qual não há mais deveres, onde os direitos são muitos e, por consegüinte, a autoridade do professor - e mesmo seu papel de educador - são prejudicados por uma quase total ausência de busca pela excelência escolar.  A falsa igualdade que tais pressupostos trazem em seu bojo seria, para o educador francês, um dos motivos pelos quais a educação retrocede, o aproveitamento dos alunos diminui a cada ano e a massa de profissionais lançada no mercado é cada vez menos preparada para a vida.

Curiosamente, os ideais de 1968 ajudam, em muito, o conceito neoliberal de que o indivíduo precisa ser forjado para o mercado e para as exigências da economia moderna, globalizada e ágil.  As conseqüências da demanda dos empregadores modernos é a formação de educandos cada vez menos preocupados com o passado e com o que podemos chamar de “bagagem cultural”, algo que lhe permite, como cidadão, compreender o mundo em que vive e, sobretudo, seu papel no país do qual é partícipe, mesmo contra sua vontade.  Em um ambiente educacional como este, voltado para o mercado e de costas para a educação, disciplinas como Literatura, História, Filosofia e outras cuja aplicação maior é para a vida, não para a economia, são minadas nas escolas - e mesmo conteúdos importantes como Língua Materna ou Língua Estrangeira são negligenciados, por serem reduzidos à mera repetição de estruturas e funções.  Para que somar língua à cultura, história e outros conteúdos ants vinculados à idéia torta de elite pregada pelos intelectuais de esquerda?  e então, como mágica, o neoliberalismo e o politicamente correto unem-se em uma cruzada silenciosa contra a educação para a excelência.  Para Brighelli, a escola que se deriva da conjunção perversa dessas duas correntes de pensamento não forma cidadãos com bagagem cultural para compreender e interagir com o mundo, tampouco profissionais preparados tecnicamente para a nova economia.

O “todos somos iguais” dos educadores modernos acaba por nivelar os educandos por patamares mínimos de aprendizado, ou seja, já não se busca a excelência, mas a subsistência cultural.  Ao pregar uma sociedade que não se fia em oportunidades de crescimento iguais para todos, mas sim em uma igualdade pura e simples, alheia ao mundo real, o que se faz é perpetuar a desigualdade.  A igualdade dos professores do pós-1968 é a que ignora as peculiaridades e talentos de cada um, colocando-os todos, alunos, em um mesmo balaio de gatos que é conseqüência direta do processo de uniformização do ensino.  E não é fácil perceber isso acontecendo aqui mesmo, no Brasil, ao nosso redor - ou senão como se explica o fracasso de sistemas como o de educação por ciclos, no qual os alunos não são reprovados e, por vezes, sequer avaliados?  E que dizer da incapacidade de nossos estudantes - e de tantos profissionais egressos das melhores universidades - de entender um texto escrito, de emitir opiniões embasadas sobre um tema de seu conhecimento, de compreender o mundo que lhes cerca em patamares mais elevados que o do vulgo, do lugar-comum, do preconceito e da estupidez total?

Talvez resida na educação a maior derrota auto-imposta pelos intelectuais dos anos posteriores à revolução estudantil francesa - eles criaram o desprezo contemporâneo pelo ensino clássico, pelo estudo da história como ferramenta de compreensão do hoje, pela própria construção da intelectualidade como se pensar fosse uma ferramenta de opressão das minorias - perdoem-me por falar nos termos tortos deles mesmos.  O resultado é notório - a cultura já não é vista como uma forma de ascenção social, de prestígio ou de crescimento pessoal.  Se a riqueza e a fama chegam a todos, sobretudo aos que não perderam seu tempo estudando, lendo ou criando algo de útil para seus semelhantes, por que as pessoas se espelhariam na intelectualidade como modelo de ascenção?

No mesmo contexto entram o discurso de valorização da cultura da periferia - que tem feito brotar em profusão os cursos, mantidos pelo governo e por organizações não-governamentais, de manifestações artísticas marginalizadas como o grafite, o hip hop e seus derivados, e a questionável aplicação da famosa Pedagogia do Oprimido de Paulo Freire em um mundo que se quer pacífico e ordenado… A mensagem perversa é quase imperceptível, mas construir um programa de inclusão social no qual as pessoas são expostas apenas a um tipo de manifestação cultural, como se elas não fossem capazes de conhecer, admirar e reproduzir outras formas de arte e expressão, não é igualmente uma forma de proteção?  Para mim, esse diálogo torto de ghetto no Brasil, essa agenda de conscientizar o oprimido da sua condição de oprimido e da importância de que ele, oprimido, lute por seus direitos de oprimido sem se tornar opressor do opressor (Ufa! Como é cansativo citar Paulo Freire!), tudo isso apenas pereniza a permanência daquelas pessoas já constrangidas pelas desigualdades sociais em suas vidas de pobreza e descaso governamental.

E é assim que estamos criando gerações de cretinos - tomada aqui a acepção da palavra que indica o incapaz, o incompetente emocional, o idiota, o que não consegue tomar decisões que lhe exigem o intelecto.  Para as verdadeiras classes dominantes, que ascenderam ao poder por diversas razões, a maioria delas alheia à elevada cultura de seus membros, o processo de cretinização da população é um alento que só colabora para a perpetuação de suas vantajosas posições no tabuleiro do jogo do poder.

Posted by Frizero at 10:12:43 | Permalink | No Comments »