Friday, December 16, 2005

Quem precisa de literatura?

Em um país de analfabetos funcionais como o nosso, em que a maior parte da população, em que pese ter passado pelos bancos escolares, não conseguem usar seus conhecimentos para ler o mais simples dos textos, discutir (ou produzir) literatura soa como um diletantismo vazio.

Para que serve a literatura, afinal?  Que importância incluir seu estudo nas séries iniciais, no ensino médio, nas provas de admissão à universidade?  Não seria a literatura um tema para ser analisado apenas pelos que optaram fazer o curso de Letras nas inúmeras faculdades do país que o oferecem?  E, aliás, para que servem os cursos de Letras, suas pesquisas, seus seminários e congressos sobre literatura?  Para que os livros, as revistas literárias, os cadernos didáticos, os debates e as teses todas sobre algo que, ora, pode ser visto por alguns como apenas um entretenimento para um seleto agrupamento de nossa população?

Creio que a literatura abre à percepção humana a possibilidade de adquirir conhecimentos que nenhuma outra área do pensamento humano permite acessar.  Ler romances, contos, poemas é, de certo modo, visitar um universo que não está presente em nenhuma ciência - o romancista, em sua liberdade de criar mundos, tem acesso aos pensamentos mais secretos de seus personagens, o que fornece ao leitor modelos sobre a vida que lhe propiciam um conhecimento sobre a vida humana que foge ao alcance da história, da biografia e mesmo da psicoanálise.

O romance, o conto, a ficção em todas as suas formas, pode servir ao leitor como o lago que espelhou Narciso, mostrando-lhe uma vida imaginada que é tal qual a sua, ou como o arauto que despertou Édipo de suas iniquidades.  O livro, que pertence ao leitor desde o momento em que este cruza a linha imaginária do início da obra - quando o que lê abandona para trás o mundo real e aceita o mundo da ficção como uma nova realidade - tem este poder de nos apresentar às vidas de pessoas que jamais existiram mas que são de tal forma humanas e verossímeis que podem despertar em nós as questões maiores de nossa existência, até mesmo aquelas que jamais havíamos desejado enfrentar.

Não quero impor à literatura qualquer caráter messiânico que não costumo enxergar em nenhuma forma de arte, nem aos artistas uma aura de grandeza que não é, em absoluto, aplicável a todos eles.  Mas vejo a literatura como uma forma de meditação insuspeitada, na qual o livro aberto à frente dos olhos toma a forma de um curioso relicário capaz de alimentar a alma dos que nele depositarem sua fé. 

Posted by Frizero at 00:45:06
Comments

One Response to “Quem precisa de literatura?”

  1. Patrícia says:

    Concordo, belo texto Frizero!

    Eu diria que a arte é uma condensadora de significados.

    Nossa vida é muito dispersa, há dias em que nada acontece, e nem sempre percebemos o porquê de determinados fatos. Em um livro, um filme ou uma pintura o momento crucial, as percepções de verdades da vida, podem ser apresentadas de maneira concisa. O que nós levamos uma vida inteira para entender, o livro nos apresenta em poucas horas.

    Também nossa gama de experiências é pequena em relação à experiência humana. Com a literatura, é possível viver outras vidas e entender a forma de pensar de outras cabeças.

    A literatura também recupera nosso encantamento com o mundo: comer uma madeleine, antes um bolinho banal, passa a ser uma experiência metafísica. Como disse o C.S. Lewis, para quem leu contos de florestas mágicas todas as florestas são um pouco encantadas.

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