Bunkum!
Cada vez mais me convenço de que não importa o quão inocente, o quão boa for a sua intenção, sempre haverá alguém para encontrar ali uma malícia oculta, uma maldade mal disfarçada, uma crueldade atávica escondida por sob o que não é motivo de alarme para a grande maioria das pessoas.
Refiro-me ao artigo publicado em treze de dezembro de 2005 no conceituado jornal britânico The Times, no qual Kwame McKenzie, doutora em psiquiatria transcultural e professora da Universidade de Londres, arvora-se a analisar King Kong, a refilmagem de Peter Jackson baseada no clássico filme da década de 1930.
Para McKenzie, o King Kong de Peter Jackson, o renomado diretor da hercúlea transposição de O Senhor dos Anéis, a obra-prima de J. R. R. Tolkien, para as telas, reforça “a histeria colonial sobre a hiper-sexualidade dos negros”. Ela chega ao absurdo de associar a decisão de Jackson - por produzir uma nova versão do conto fantástico da equipe de cinema que encontra um enorme gorila em uma selva africana e, ludibriando o animal com seu amor pela jovem atriz do elenco, leva-o como atração caça-níqueis para a América - com a escolha de William Shakespeare de colocar um negro como personagem principal de seu drama Otello, pois “há uma clara associação entre o caráter dos personagens e o estereótipo do mouro” como vilão. (…)
Parece-me, em todo este pequeno imbroglio, que tudo recai sobre a velha máxima de que “vemos no coração dos outros o que no nosso transborda”. McKenzie defende com convicção algo que é digno de ser defendido - o fim dos preconceitos, a extinção das diferenças calcadas na cor da pele ou na origem da família -, mas para tal acaba por levantar anátemas sérios contra um diretor de cinema que, até onde se sabe, sempre teve como sonho de vida refilmar King Kong por ser este o filme que mais marcou sua infância e juventude. E Jackson é tão purista quanto a isso que retornou à história original os dinossauros que algumas versões anteriores extinguiram das telas, mas que constava da versão primeira dos anos 1930. O filme, aliás, deixa como mensagem o oposto do que a doutora em psiquiatria parece vislumbrar: o grande vilão não é o gorila gigantesco, mas os homens gananciosos - aliás, todos brancos - que o aprisionam e levam para a América apenas para explorá-lo e, com isso, fazer fortuna. (…) O mais breve comentário parece, contudo, ser o que melhor resume toda este discurso de repúdio ao filme de Jackson - “Bunkum!”, disse um leitor da Cumbria, usando uma palavra inglesa que eu até então desconhecia e que significa “discurso vazio ou pouco sincero; tolice”. (…)(LEIA O TEXTO COMPLETO ABAIXO)
Cada vez mais me convenço de que não importa o quão inocente, o quão boa for a sua intenção, sempre haverá alguém para encontrar ali uma malícia oculta, uma maldade mal disfarçada, uma crueldade atávica escondida por sob o que não é motivo de alarme para a grande maioria das pessoas.
Refiro-me ao artigo publicado em treze de dezembro de 2005 no conceituado jornal britânico The Times, no qual Kwame McKenzie, doutora em psiquiatria transcultural e professora da Universidade de Londres, arvora-se a analisar King Kong, a refilmagem de Peter Jackson baseada no clássico filme da década de 1930.
Para McKenzie, o King Kong de Peter Jackson, o renomado diretor da hercúlea transposição de O Senhor dos Anéis, a obra-prima de J. R. R. Tolkien, para as telas, reforça “a histeria colonial sobre a hiper-sexualidade dos negros”. Ela chega ao absurdo de associar a decisão de Jackson - por produzir uma nova versão do conto fantástico da equipe de cinema que encontra um enorme gorila em uma selva africana e, ludibriando o animal com seu amor pela jovem atriz do elenco, leva-o como atração caça-níqueis para a América - com a escolha de William Shakespeare de colocar um negro como personagem principal de seu drama Otello, pois “há uma clara associação entre o caráter dos personagens e o estereótipo do mouro” como vilão.
A intenção de McKenzie parece ser a de denunciar o que considera um filme de “conotações racistas”, e para tal acusa Jackson de sempre associar a maldade em seus filmes aos negros. Ela diz que os vilões do diretor neozelandês - referindo-se à trilogia O Senhor dos Anéis - são “negros enormes ou, alguns deles, descendentes de maoris” (faço uma ressalva: creio que ela se referia aos orks, criaturas que tinham esta coloração de pele no filme porque foram feitas da terra, conforme a descrição do próprio livro de Tolkien; além disso, confesso que sempre acreditei que o pior dos inimigos corpóreos que os pobres hobbits tiveram que enfrentar tinha um bruxo branco, e branco como a neve).
Kwame McKenzie, renomada psiquiatra e membro do King’s College of Psychiatrists, em que pese seu extenso e qualificado trabalho na área médica, deixa transparecer em seu texto que está por demais comprometida com uma agenda anti-racista, ao ponto de acusar Peter Jackson de “tocar o nervo exposto da associação darwiniana entre negros e macacos” - uma afirmação que, além de temerária, absolutamente foge de tudo o que o cientista britânico estudou e revelou ao mundo em suas pesquisas: não há referência a negros como descendentes dos símios na obra de Darwin, mas sim a teoria de que toda a raça humana teria evoluído dos macacos.
Mais adiante em seu artigo, ela chega a questionar os motivos pelos quais o diretor teria escolhido refilmar King Kong e não “qualquer outra coisa” (sic) - como se houvesse na realização cinematográfica de Jackson alguma intenção perversa de renovar antigos ódios raciais e incutir nas mentes a imagem de selvageria associada aos negros.
Parece-me, em todo este pequeno imbroglio, que tudo recai sobre a velha máxima de que “vemos no coração dos outros o que no nosso transborda”. McKenzie defende com convicção algo que é digno de ser defendido - o fim dos preconceitos, a extinção das diferenças calcadas na cor da pele ou na origem da família -, mas para tal acaba por levantar anátemas sérios contra um diretor de cinema que, até onde se sabe, sempre teve como sonho de vida refilmar King Kong por ser este o filme que mais marcou sua infância e juventude. E Jackson é tão purista quanto a isso que retornou à história original os dinossauros que algumas versões anteriores extinguiram das telas, mas que constava da versão primeira dos anos 1930. O filme, aliás, deixa como mensagem o oposto do que a doutora em psiquiatria parece vislumbrar: o grande vilão não é o gorila gigantesco, mas os homens gananciosos - aliás, todos brancos - que o aprisionam e levam para a América apenas para explorá-lo e, com isso, fazer fortuna. King Kong, o macaco, parece ter o coração nobre ao ponto de defender a loira atriz principal de qualquer tentativa contra a sua integridade física - por mais que queiram colocar nessa relação conotações sexuais no mínimo risíveis, ainda mais em sua tentativa de associar ao filme antigas lendas acerca de uma suposta hiper-sexualidade dos negros, para mim difícil de identificar na história. A narrativa de King Kong, sua moral, parecem ter mais relação com O Homem Elefante de David Lynch que com O Nascimento de uma Nação de Griffith - este sim, um escancarado libelo racista, no qual até os personagens negros eram vividos por brancos maquiados e estereotipados até o último detalhe.
Alivio-me ao ler as inúmeras correspondências que o artigo da psiquiatra gerou em apenas um dia - a maioria delas criticando a visão tendenciosa de McKenzie, ainda que alguns leitores ainda tenham ido mais longe que ela, taxando o próprio Tolkien de racista. Parece que a maioria das pessoas já não engajam tão facilmente em discursos denuncistas como o da Dra. McKenzie. Como disse outro leitor, menos exaltado, não deveríamos “levar tudo tão à sério”, e com ele concordo plenamente, pois aí, sim, residem perigosos nascedouros do ódio.
O mais breve comentário parece, contudo, ser o que melhor resume toda este discurso de repúdio ao filme de Jackson - “Bunkum!”, disse um leitor da Cumbria, usando uma palavra inglesa que eu até então desconhecia e que significa “discurso vazio ou pouco sincero; tolice”.
Mas, enfim, sou daqueles que irá assistir o filme de Jackson com um enorme saco de pipocas amanteigadas, um refrigerante dietético e o coração aberto à diversão pura e simples. E pretendo ir logo, antes que algum membro de organização não-governamental de proteção aos animais resolva embargar sua exibição aqui em Porto Alegre, por conta do “incentivo à violência contra os macacos” que eles possam encontrar na nova fábula cinematográfica de Peter Jackson.