Friday, December 9, 2005

Vida de Menina

Ludmila Dayer como a menina Helena Morley em 'Vida de Menina'Em 1893, apenas quatro anos após a proclamação da república do Brasil, o país ainda vivia em uma espécie de limbo social, no qual as pessoas do povo - sobretudo aquelas que viviam em recantos mais distantes da antiga corte, então já renomeada capital federal, o Rio de Janeiro - , alheias às grandes decisões do centro do poder e às questões afeitas à nova ordem política republicana, aprendiam aos poucos a viver a realidade de uma nova nação sem soberanos ou escravos. 

Como o país que dava seus primeiros passos, uma menina da cidade de Diamantina, província de Minas Gerais, também começava a sua caminhada na vida adulta, em uma família de poucos recursos.  Neta de protestantes ingleses, vivendo em uma cidade eminentemente católica, Helena Morley encontrou nos diários que manteve por dois anos o alento para superar a pobreza da família, o trabalho duro e mal-sucedido do pai nas lavras de diamante, o assédio do tio e o desprezo dos parentes mais abastados, as mudanças naturais da menina que cresce para a vida e a dor da perda da avó materna que tanto amava.  Os diários, publicados em 1942 quando a protagonista completava já sessenta e dois anos, tornou-se um sucesso editorial no Brasil e ganhou mundo pelas mãos de tradutores renomados como a poetisa inglesa Elizabeth Bishop, que descobriu o livro em seus anos de residência no Brasil.  Em 2005, os relatos da menina sobre a vida provinciana do país que tão recentemente havia abolido a escravatura e proclamado um novo sistema de governo chegou às telas do cinema pelas mãos da diretora Helena Solberg sob o título “Vida de Menina”. (…)O filme é uma deliciosa viagem por um Brasil que vivia, mais que nunca, de hipocrisias e aparências; Helena Morley (magistralmente vivida por Ludmila Dayer), em seus relatos, acaba por revelar tais contradições. (LEIA O TEXTO COMPLETO ABAIXO)

Ludmila Dayer como a menina Helena Morley em 'Vida de Menina'Em 1893, apenas quatro anos após a proclamação da república do Brasil, o país ainda vivia em uma espécie de limbo social, no qual as pessoas do povo - sobretudo aquelas que viviam em recantos mais distantes da antiga corte, então já renomeada capital federal, o Rio de Janeiro - , alheias às grandes decisões do centro do poder e às questões afeitas à nova ordem política republicana, aprendiam aos poucos a viver a realidade de uma nova nação sem soberanos ou escravos. 

Como o país que dava seus primeiros passos, uma menina da cidade de Diamantina, província de Minas Gerais, também começava a sua caminhada na vida adulta, em uma família de poucos recursos.  Neta de protestantes ingleses, vivendo em uma cidade eminentemente católica, Helena Morley encontrou nos diários que manteve por dois anos o alento para superar a pobreza da família, o trabalho duro e mal-sucedido do pai nas lavras de diamante, o assédio do tio e o desprezo dos parentes mais abastados, as mudanças naturais da menina que cresce para a vida e a dor da perda da avó materna que tanto amava. 

Os diários, publicados em 1942 quando a protagonista completava já sessenta e dois anos, tornou-se um sucesso editorial no Brasil e ganhou mundo pelas mãos de tradutores renomados como a poetisa inglesa Elizabeth Bishop, que descobriu o livro em seus anos de residência no Brasil.  Em 2005, os relatos da menina sobre a vida provinciana do país que tão recentemente havia abolido a escravatura e proclamado um novo sistema de governo chegou às telas do cinema pelas mãos da diretora Helena Solberg sob o título “Vida de Menina”.

Em cartaz em Porto Alegre, o filme é uma deliciosa viagem por um Brasil que vivia, mais que nunca, de hipocrisias e aparências; Helena Morley (magistralmente vivida por Ludmila Dayer), em seus relatos, acaba por revelar tais contradições.  Seus registros de menina mostram a situação dos ex-escravos que, sem emprego possível de sua força de trabalho como homens livres, ainda viveriam por um longo tempo à mercê de seus senhores, vivendo de favor nas casas grandes e servindo como agregados às famílias que lhes foram donas, como uma forma humilhante de sobrevivência.  Livres, eles ainda eram tratados como casta inferior e sem direitos civis; em uma das cenas mais curiosas do filme, o destino de uma negra adolescente é decidido por conta de uma partilha de bens da falecida avó - não se questiona da jovem negra, mas livre, sua vontade; sabe-se que, por não ter para onde ir, ela se submeteria, dócil, à vontade a ela escolhida. 

A decadência das lavras de diamante na provícia de Minas Gerais é também parte da vida de Helena, pois seu pai insiste em buscar riqueza no garimpo que já nada lhe rende; o resultado são dívidas que lhe deixam na situação humilhante de tomar empréstimos continuados com o cunhado de posses.  De certo modo, o pai de Helena espelha a situação do país que surgia já com tão graves situações sociais a resolver, ainda mergulhado em sonhos de nobreza e poses de aristocracia. 

Em meio a tal situação de penúria, restou à menina Helena usar dos artifícios da esperteza para sobreviver - um pouco como o próprio povo brasileiro que, distante dos olhos dos que então governavam o país, precisaram reaprender a conduzir suas vidas sem a ação mais presente de um governo - antes, erma esquecidos do Império; agora, da República. 

O filme de Soldberg (também diretora do excelente documentário Bananas is my business, sobre Carmen Miranda) ganhou os merecidos prêmios de melhor filme, roteiro e fotografia no Festival de Gramado, e merece ser visto pela ternura com que a diretora nos transporta para o universo de Helena Morley e sua família, pela sutil aula de História do Brasil com que nos brinda, por não tentar, em nenhum momento, ser panfletária - um defeito tão comum no cinema brasileiro das últimas décadas - e, sobretudo, por ser uma bela e bem contada história verdadeira dos primeiros anos de nosso país, uma terra que parecia viver na mesma inocência conservada no olhar de Helena Morley.

Posted by Frizero at 00:38:43
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