Menina da Vida
É noite, e um conhecido programa de televisão aberta, que se pretende um programa da família brasileira, exibe um quadro de perguntas e respostas no qual o entrevistado tem sua voz analisada por um detector de mentiras eletrônico. A entrevistada da noite é uma jovem de vinte e um anos, de classe média e codinome ”Surfistinha“, cuja presença em tal quadro - em geral destinado a celebridades descartáveis - é justificada pelo fato de ela ser autora de um blog no qual relata os detalhes mais sórdidos - em um português idem - de sua profissão desde a mais tenra adolescência: ela é uma prostituta.Decididamente, a inversão total de valores na qual descambamos está chegando aos limites finais. Parece mesmo que a prostituição e o crime são os valores que boa parte de nossa mídia assume, subrepticiamente, serem os ideais que devem perseguir os jovens que virão nas novas gerações. Há vários sinais do que há de vir (…) (LEIA O TEXTO COMPLETO ABAIXO)
É noite, e um conhecido programa de televisão aberta, que se pretende um programa da família brasileira, exibe um quadro de perguntas e respostas no qual o entrevistado tem sua voz analisada por um detector de mentiras eletrônico. A entrevistada da noite é uma jovem de vinte e um anos, de classe média e codinome ”Surfistinha“, cuja presença em tal quadro - em geral destinado a celebridades descartáveis - é justificada pelo fato de ela ser autora de um blog no qual relata os detalhes mais sórdidos - em um português idem - de sua profissão desde a mais tenra adolescência: ela é uma prostituta.
Decididamente, a inversão total de valores na qual descambamos está chegando aos limites finais. Parece mesmo que a prostituição e o crime são os valores que boa parte de nossa mídia assume, subrepticiamente, serem os ideais que devem perseguir os jovens que virão nas novas gerações. Há vários sinais do que há de vir: nos Estados Unidos da América, já publicam uma revista especializada no público gangster, com dicas que envolvem desde a moda das quadrilhas criminosas às melhores formas de gestão de negócios escusos como o tráfico de drogas e a lavagem de dinheiro; no Rio de Janeiro, a recém-anunciada griffe de “roupas para prostituição” de nome Daspu (uma alusão à famosa loja dos abastados de São Paulo, que, aliás, está abrindo processo legal por conta disso), uma confecção gerida e operada por prostitutas do Rio de Janeiro, já anuncia planos de expansão dos negócios, já que a marca despertou imenso interesse depois de sua divulgação na imprensa nacional; bares em diversas grandes cidades brasileiras, com a chamada temática favela (à exemplo do famoso Favela Chic de Paris, França), cujos móveis e utensílios remetem às casas pobres das favelas cariocas, exibem à porta, para compor o imaginário sugerido pelo estabelecimento, seguranças vestidos de traficantes de drogas.
Qual é a lógica de tal fenômeno? Será que alguém, em seu juízo perfeito, acredite ser interessante a violência, a exclusão social, a dependência de drogas, o sexo por dinheiro, a vida sem perspectiva de bandidos e afins?
Enquanto tento responder a tais indagações que, espero, sejam as de muitas pessoas inconformadas como eu, a tal Surfistinha discute com o apresentador da família brasileira quanto era a sua meta de faturamento anual como garota de programa, quais eram as posições sexuais mais solicitadas pelos clientes, quanto ela pediria para posar nua em uma revista masculina… E ela confessa sua mágoa por não ter sido perdoada por seus pais (a quem abandonou aos dezessete anos), por ter vivido dificuldades para manter seu padrão de vida de classe média alta apenas com o dinheiro da vida fácil, por ser mal vista pelas pessoas em geral, que não reconhecem o seu valor como escritora… O apresentador pede para que ela se sinta livre para chorar, e força um clima de sentimentalismo barato ao insistir no tema da família abandonada pela prostituta juvenil. Parece que os índices de audiência estão altos, e o diretor deve estar eufórico no pequeno ponto eletrônico na orelha direita do apresentador, que interrompeu a entrevista para fazer um breve comercial de um certo sal de frutas… Boa pedida, um sal de frutas.
E durma-se com um barulho desses. Espero, sinceramente, que as pessoas possam despertar rápido desse pesadelo do elogio à criminalidade.
Beto…
e impressionante como a televisao aberta no Brasil " frita " os valores basicos de uma familia. Vamos fazer um pequena suposicao, imagina…vc cria um filho, depois de alguns anos ele decide ser traficante(e mais facil, a vida e mais emocionante e tem as " Tchutchucas") mas o pior seria mesmo "…papai, vou ser politico !!!…"(que categoria vai descrita na carteira de trabalho deles?).
Abraco
Rodrigo
Creio que o empobrecimento da programação das emissoras de televisão seja um fenômeno que não afeta apenas o Brasil; mas certamente a liberação (em oposição à liberdade) dos costumes em nosso país está nos levando a exageros que muitos parecem não perceber. O mesmo apresentador de televisão citado no texto apresenta, aos sábados, um programa populesco no qual as atrações musicais são sempre recheadas de mulheres seminuas e canções de duplo sentido, isso quando ele não promove concursos de sósias envolvendo crianças que reproduzem no ar as vestimentas e coreografias sensuais de seus "ídolos" - e isso em pleno sábado à tarde! Não seria maldade minha associar a tais excessos, observados em toda parte, o crescente número de crianças e adolescentes grávidas em todas as regiões deste Brasil afora…
Acredito que o problema é de outra natureza.
Ao desejo de ser um super-homem à la Nietsche, passamos ao desejo de ser um sub-homem à la Dostoiéviski. Presas de um enfado cada vez maior, com o desaparecimento dos obstáculos ao prazer, busca-se no diferente, no perverso ou no doentio aquele frisson que o proibido traz. Daí o fascínio pela prostituta, eleita em anti-ideal pelos românticos (Manon Lescaut, Dama das Camélias). E pelos bandidos, salteadores de estrada e pessoas à margem da sociedade (Byron, Rimbaud). Chegaremos ao nada total, e ao desejo de morte, quando todas as novidades mais aviltantes tiverem-se esgotado. Por que será que a depressã, e a apatia a ela associada, é a doença contemporânea por excelência? Atormentado pelo demônio do meio-dia, o homem contemporâneo busca ou o fim do desejo ou o hiper-desejo, que só é possível pelo "diferente". Preparem-se pela reabilitação do incesto, do sado-masoquismo e em um estágio posterior, da pedofilia. Aliás, no Brasil, sexo com uma mulher que acabou de menstruar já não é considerado pedofilia. Ninguém se choca com meninas de 11 ou 12 anos que já transam. Pôs corpo de mulher, está na praça. E as feministas consideram isso uma evolução…evolução rumo ao casamento arranjado indiano, isso sim…
Tua colocação é muito apropriada, Patrícia. Hoje mesmo estava a ler uma entrevista publicada no jornal argentino LA NACIÓN com um economista francês de nome Jacques Attali, ex-assessor de François Mitterrant, que afirma que a monogamia está com seus dias contados, já que, segundo ele, "as razões econômicas que determinaram a proibição da poligamia estão desaparecendo" - ou seja, os costumes e a cultura são reflexos diretos da economia… não te soa familiar?