Wednesday, December 7, 2005

Um Talento Infinito

Combinando canções de seus dois últimos álbuns - o lírico “Um Amor Infinito” e o primeiro trabalho inteiramente dedicado à cidade natal do grupo, Lisboa, intitulado “Faluas do Tejo” -, o Madredeus, grupo musical português que em 2006 completará vinte anos de existência, mostrou aos porto-alegrenses na noite de ontem, dia seis de dezembro de 2005, que a boa música não carece de rótulos, fórmulas de sucesso ou “faixas de trabalho” para cativar o público. Em um Teatro do SESI lotado (em que pese o alto custo dos ingressos) para uma noite de terça-feira, o Madredeus apresentou, em um recital dividido em duas partes, dezesseis canções dos álbuns supracitados, abrindo o espetáculo com a evocativa ”Ó Luz da Alegria”, do álbum “Um Amor Infinito”. Teresa Salgueiro, a vocalista (vestida em um indefectível vestido longo branco e prateado) e seus companheiros músicos do grupo - Pedro Ayres Magalhães (violão clássico), José Peixoto (violão clássico), Fernando Júdice (baixo acústico) e José Peixoto (violão clássico) -, todos elegantemente vestidos em sóbrios ternos negros, foram já aplaudidos efusivamente na entrada do palco. O que se presenciou a partir daquele momento foi um dos melhores concertos vistos este ano em Porto Alegre.(…)

O público porto-alegrense, pelo que se observa em diversos espetáculos internacionais recentemente apresentados na cidade, é bastante crítico e ponderado para os aplausos que oferece aos artistas no palco; raramente chama para mais um “bis” final, exceto quando se sente cativado o suficiente para tal. O que se viu na noite de seis de dezembro de 2005 no Teatro do SESI foi um público arrebatado, que em um primeiro bis foi brindado com canções antigas e emblemáticas como “Céu da Mouraria” e “Haja o que Houver”, esta última solicitada aos brados por várias vozes na platéia e acompanhada, sob a bênção de Teresa Salgueiro, por um coro de mais de mil vozes que assistiam, comovidas, àquele momento de congraçamento espontâneo por intermédio da música do grupo. O público não aceitou a saída do grupo e, de pé, aplaudindo e gritando o nome do grupo, obteve mais um “bis”. Ao contrário do esperado, eles fugiram no segundo “bis” à fórmula fácil de cantar grandes sucessos do grupo - como “O Pastor”, por exemplo, música de maior sucesso do Madredeus e que ilustrou os anúncios televisivos do espetáculo daquela noite nas emissoras de televisão do Rio Grande do Sul. Teresa Salgueiro disse, suavemente, que eles iriam retornar ao repertório novo - e ninguém parecia se queixar. Afinal, quem poderia resistir à oportunidade de ouvir Teresa Salgueiro surpreender mais uma vez o público com canções maravilhosas como “Lisboa Rainha do Mar” e o inesquecível “Fado das Dúvidas”, cujos versos finais - “Agora diz-me o que farei / com a lembrança deste amor / Diz-me tu, que eu nunca sei / se voltarei ou não para ti / se ainda tenho o teu amor” - soaram ao público como a exata emoção que sentiam naquele instante: quando voltarão os Madredeus ao Brasil? Ainda contamos com o seu amor, ainda mereceremos, em futuro bem próximo, a oportunidade de ouvi-los e com eles viajarmos aos estados mais elevados da alma lusitana?

(LEIA O TEXTO COMPLETO ABAIXO)

Combinando canções de seus dois últimos álbuns - o lírico “Um Amor Infinito” e o primeiro trabalho inteiramente dedicado à cidade natal do grupo, Lisboa, intitulado “Faluas do Tejo” -, o Madredeus, grupo musical português que em 2006 completará vinte anos de existência, mostrou aos porto-alegrenses na noite de ontem, dia seis de dezembro de 2005, que a boa música não carece de rótulos, fórmulas de sucesso ou “faixas de trabalho” para cativar o público.

Em um Teatro do SESI lotado (em que pese o alto custo dos ingressos) para uma noite de terça-feira, o Madredeus apresentou, em um recital dividido em duas partes, dezesseis canções dos álbuns supracitados, abrindo o espetáculo com a evocativa ”Ó Luz da Alegria”, do álbum “Um Amor Infinito”. Teresa Salgueiro, a vocalista (vestida em um indefectível vestido longo branco e prateado) e seus companheiros músicos do grupo - Pedro Ayres Magalhães (violão clássico), José Peixoto (violão clássico), Fernando Júdice (baixo acústico) e José Peixoto (violão clássico) -, todos elegantemente vestidos em sóbrios ternos negros, foram já aplaudidos efusivamente na entrada do palco. O que se presenciou a partir daquele momento foi um dos melhores concertos vistos este ano em Porto Alegre.

Ainda que as canções dos dois últimos álbuns não fossem familiares à maioria do público presente, a beleza de ouvir Teresa Salgueiro - com sua voz perfeita e maviosa, que não titubeou um minuto sequer em todo o espetáculo - acompanhada de músicos tão habilidosos e concentrados foi o bastante para cativar os presentes a cada número. Após as boas vindas da cantora, o Madredeus apresentou a pungente canção “O Cantador”, uma espécie de profissão de fé da missão de cantar, tão aplicável à história e à coerente carreira do grupo, seguida da única peça instrumental da noite, “O Olival - A Passo, A Trote e A Galope”, magistralmente interpretada. “Suave Tristeza”, canção de Carlos Maria Trindade, e sobretudo “Vislumbrar - O Canto Encantado” - canção na qual a voz de Teresa se alterna entre tons graves, agudos e declamações como se não houvesse nisso maiores dificuldades (e sabemos que há, e muitas! Poucas cantoras conseguiriam fazer o que ela fez de modo tão sublime), fizeram com que a primeira parte do espetáculo já levasse o público aos primeiros aplausos de pé.

A segunda parte do concerto foi iniciada pela canção-título da turnê que se encerrou, para o ano de 2005, no Brasil: “Um Amor Infinito”, que Teresa Salgueiro definiu no palco como “um presente de Pedro Ayres Magalhães aos fãs de todo o mundo”; a canção, uma suave toada de amor, uma das mais belas canções do grupo, levou o público a retomar o entusiasmo pelo espetáculo logo de início. “Adoro Lisboa”, uma das mais belas canções do álbum “Faluas do Tejo”, a qual traz a marca inconfundível das composições de Fernando Júdice, foi uma das mais aplaudidas canções da noite. “Ao Crepúsculo - Onde é que está o meu amor?”, com seu sabor tão brasileiro, quase bossanovista, arrancou do público os primeiros gritos de euforia, os quais iriam prevalecer a partir do anúncio da última canção do grupo no programa a que se propunham apresentar naquela noite: “Moro em Lisboa”, carro-chefe do álbum “Um Amor Infinito”.

(Antes de narrar o que foram os instantes finais do concerto, cabe aqui abrir uma janela na narrativa para falar brevemente do Madredeus nos bastidores do espetáculo: como alguns dos fãs puderam atestar após o concerto, ao visitar o camarim e conhecer pessoalmente Pedro Ayres Magalhães, Teresa Salgueiro e Carlos Maria Trindade (infelizmente Fernando Júdice e José Peixoto tiveram que se ausentar logo), os músicos e a cantora não correspondem ao que normalmente se espera das grandes estrelas internacionais da música, como eles já o são. Eles são pessoas simples, cordatas, carinhosas com seu público e conhecedores atentos de seus fãs brasileiros, bem como da música e da cultura de nosso país - algo que já se suspeitava a partir das influências que vez por outra surgem em suas canções. Teresa Salgueiro é de uma docilidade, uma candura e uma paciência com os fãs que é mesmo inimaginável. Pedro Ayres Magalhães e Carlos Maria Trindade são de uma gentileza que deixam qualquer fã mais tímido totalmente à vontade para falar de seu amor pela música do grupo.)

O público porto-alegrense, pelo que se observa em diversos espetáculos internacionais recentemente apresentados na cidade, é bastante crítico e ponderado para os aplausos que oferece aos artistas no palco; raramente chama para mais um “bis” final, exceto quando se sente cativado o suficiente para tal. O que se viu na noite de seis de dezembro de 2005 no Teatro do SESI foi um público arrebatado, que em um primeiro bis foi brindado com canções antigas e emblemáticas como “Céu da Mouraria” e “Haja o que Houver”, esta última solicitada aos brados por várias vozes na platéia e acompanhada, sob a bênção de Teresa Salgueiro, por um coro de mais de mil vozes que assistiam, comovidas, àquele momento de congraçamento espontâneo por intermédio da música do grupo. O público não aceitou a saída do grupo e, de pé, aplaudindo e gritando o nome do grupo, obteve mais um “bis”. Ao contrário do esperado, eles fugiram no segundo “bis” à fórmula fácil de cantar grandes sucessos do grupo - como “O Pastor”, por exemplo, música de maior sucesso do Madredeus e que ilustrou os anúncios televisivos do espetáculo daquela noite nas emissoras de televisão do Rio Grande do Sul. Teresa Salgueiro disse, suavemente, que eles iriam retornar ao repertório novo - e ninguém parecia se queixar. Afinal, quem poderia resistir à oportunidade de ouvir Teresa Salgueiro surpreender mais uma vez o público com canções maravilhosas como “Lisboa Rainha do Mar” e o inesquecível “Fado das Dúvidas”, cujos versos finais - “Agora diz-me o que farei / com a lembrança deste amor / Diz-me tu, que eu nunca sei / se voltarei ou não para ti / se ainda tenho o teu amor” - soaram ao público como a exata emoção que sentiam naquele instante: quando voltarão os Madredeus ao Brasil? Ainda contamos com o seu amor, ainda mereceremos, em futuro bem próximo, a oportunidade de ouvi-los e com eles viajarmos aos estados mais elevados da alma lusitana?

Posted by Frizero at 18:03:33
Comments

One Response to “Um Talento Infinito”

  1. Daniel says:

    Fiquei arrasado por não ter podido ir - inúmeros compromissos, mas me arrependi de não ter acompanhado ao vivo Haja o que Houver… Mas aparecerãor outras oportunidades….

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