Tuesday, December 6, 2005

A Crítica Marxista e a Chatice Universal

Como é difícil encontrar interesse em quem segue uma única cartilha, quem parece ter lido um único e repetitivo livro e dele não consegue despregar os olhos viciados para analisar o mundo ao redor! 

Escrevo isto motivado por uma crítica que li a respeito de “Um Filme Falado”, do diretor português Manoel de Oliveira, em cartaz na Casa de Cultura Mário Quintana, aqui em Porto Alegre.  Sendo um centro cultural, a CCMQ tem o hábito salutar de expor, juntamente aos cartazes dos filmes em exibição, algumas críticas publicadas em diversos jornais do país sobre a obra.  Desta forma foi que tive acesso ao texto escrito por Maria Helena Nery Garcez, professora de Letras da USP, publicado na Folha de São Paulo de 24 de julho de 2005.(…) O filme permite inúmeras leituras dentro da grande metáfora de um Portugal que construiu um império cultural no século XXI - afinal, somos milhões de falantes da língua portuguesa no mundo - em viagem ao oriente, na companhia de outros antigos impérios do Ocidente - a França de Napoleão, a Itália dos romanos e a Grécia do helenismo - que hoje estão isolados culturalmente - à exceção da França, países que quase isoladamente mantém sua língua e cultura, sob a sombra de um passado glorioso. (…) O cruzeiro que calmamente passara pelo Mediterrâneo sofre um revez por conta de um atentado terrorista no Mar Vermelho - e é neste ponto que a crítica de Maria Helena Nery Garcez encontra azo para sua visão limitada pelo prisma marxista de observação do mundo.  Aos olhos de Garcez, o filme, por ter sido lançado em 2003 (ano da invasão do Iraque) colabora com a idéia de George W. Bush de cruzada libertadora, um “confronto entre os países do Primeiro Mundo (eixo do bem) e os países islâmicos (eixo do mal)”, já que “quem desestabiliza o balanço [do navio] é o vizinho árabe”.  Para a professora da USP, a ocorrência de um atentado terrorista no filme é uma “velada insinuação de que o mundo árabe constitui um traiçoeiro inimigo”, e ela consegue ver nisso ainda “um alerta não verbal, mais imagético”, por parte do diretor, “contra os novos bárbaros que constituem um perigo iminente e exigem mobilização”.  Seu antiamericanismo mal escondido chega a motivá-la a acusar Manoel de Oliveira de ter um “espírito de cruzado canônico”.

Creio ser este o pior mal trazido pela crítica marxista: tudo, absolutamente tudo, precisa ser visto sob um prisma da luta entre opressores e oprimidos, entre o terceiro mundo e o primeiro mundo, entre pobres e ricos, operários e patrões.  Tal visão reducionista faz com que não haja espaço na arte para o lírico, para a metáfora, para a discussão de questões mais amplas sem a viciada retórica do anti-imperialismo.  (…)(LEIA O TEXTO COMPLETO ABAIXO)

Como é difícil encontrar interesse em quem segue uma única cartilha, quem parece ter lido um único e repetitivo livro e dele não consegue despregar os olhos viciados para analisar o mundo ao redor! 

Escrevo isto motivado por uma crítica que li a respeito de “Um Filme Falado”, do diretor português Manoel de Oliveira, em cartaz na Casa de Cultura Mário Quintana, aqui em Porto Alegre.  Sendo um centro cultural, a CCMQ tem o hábito salutar de expor, juntamente aos cartazes dos filmes em exibição, algumas críticas publicadas em diversos jornais do país sobre a obra.  Desta forma foi que tive acesso ao texto escrito por Maria Helena Nery Garcez, professora de Letras da USP, publicado na Folha de São Paulo de 24 de julho de 2005.

O filme de Manoel de Oliveira, atualmente o diretor mais idoso em atividade no mundo, é uma grande parábola sobre a situação da Europa unificada e sobre os caminhos que o continente percorreu até chegar ao momento atual de aparente equilíbrio.  No filme, uma professora de história, a portuguesa Rosa Maria, viaja em um cruzeiro de Lisboa a Bombaim, na Índia, em companhia da filha Maria Joana.  No caminho, elas irão visitar alguns dos monumentos e paisagens mais significativos da história da civilização ocidental.  A bordo, são convidadas para compor a mesa de jantar do capitão do navio, um norte-americano, em companhia de suas convidadas - uma grega, Helena; uma italiana, Francesca; e uma francesa, Delfina. 

O filme permite inúmeras leituras dentro da grande metáfora de um Portugal que construiu um império cultural no século XXI - afinal, somos milhões de falantes da língua portuguesa no mundo - em viagem ao oriente, na companhia de outros antigos impérios do Ocidente - a França de Napoleão, a Itália dos romanos e a Grécia do helenismo - que hoje estão isolados culturalmente - à exceção da França, países que quase isoladamente mantém sua língua e cultura, sob a sombra de um passado glorioso.  Sem dúvida, o fato de o capitão do navio ser um estadunidense remete à situação atual de líder mundial dos Estados Unidos da América.

O cruzeiro que calmamente passara pelo Mediterrâneo sofre um revez por conta de um atentado terrorista no Mar Vermelho - e é neste ponto que a crítica de Maria Helena Nery Garcez encontra azo para sua visão limitada pelo prisma marxista de observação do mundo.  Aos olhos de Garcez, o filme, por ter sido lançado em 2003 (ano da invasão do Iraque) colabora com a idéia de George W. Bush de cruzada libertadora, um “confronto entre os países do Primeiro Mundo (eixo do bem) e os países islâmicos (eixo do mal)”, já que “quem desestabiliza o balanço [do navio] é o vizinho árabe”.  Para a professora da USP, a ocorrência de um atentado terrorista no filme é uma “velada insinuação de que o mundo árabe constitui um traiçoeiro inimigo”, e ela consegue ver nisso ainda “um alerta não verbal, mais imagético”, por parte do diretor, “contra os novos bárbaros que constituem um perigo iminente e exigem mobilização”.  Seu antiamericanismo mal escondido chega a motivá-la a acusar Manoel de Oliveira de ter um “espírito de cruzado canônico”.

Creio ser este o pior mal trazido pela crítica marxista: tudo, absolutamente tudo, precisa ser visto sob um prisma da luta entre opressores e oprimidos, entre o terceiro mundo e o primeiro mundo, entre pobres e ricos, operários e patrões.  Tal visão reducionista faz com que não haja espaço na arte para o lírico, para a metáfora, para a discussão de questões mais amplas sem a viciada retórica do anti-imperialismo.  Ver no filme uma ferramenta do império norte-americano é, no mínimo, um contrasenso: o filme é de um diretor consagrado mas nada popular; não se trata de um filme para as massas, mas para o reduzido circuito dos filmes de arte; em nenhum momento anterior de sua carreira o diretor fora panfletário ou claramente partidário desta ou daquela corrente política.  Mas, na visão marxista de nossa intelectualidade brasileira, fazer um filme que busca repensar a Europa - sem citar explicitamente o chamado Terceiro Mundo - é praticamente um crime de lesa majestade.

A crítica marxista - e isso permeia não só a crítica cinematográfica, mas também a literária - exige que a obra de arte tenha um teor social, um compromisso com a luta de classes, e não economiza palavras duras aos que não lhe seguem a cartilha.   Maria Helena Garcez, por exemplo, conclui seu artigo dizendo que “fez bem o júri [do Festival] de Veneza ao não premiar Um Filme Falado“, ou seja: por não dizer exatamente o que a crítica marxista espera - que a Europa explorou os países do terceiro mundo com suas ações colonialistas, que o terrorismo islâmico é uma reação ao imperialismo yankee, etc -, a professora de Letras regozija-se pelo filme não ter ganho nenhuma menção especial no festival de cinema.  Em outras palavras: se pensam como eu penso, é bom; se pensam diferente de mim - ou, neste caso, se não incluem no roteiro o que eu queria que tivessem incluído -, merece ser banido das telas e esquecido pelo público. 

Parece ser mesmo autêntica a idéia de que os críticos de arte vão perdendo, com o tempo, enroscados em suas teorias e agendas, o prazer inocente de admirar uma obra de arte com o coração aberto e desarmado.

Os olhos dos anti-imperialistas, como os de quaisquer radicais de qualquer corrente do pensamento, beiram à cegueira.  E os cegos, como podemos imaginar, não têm muitas razões para apreciar cinema. 

Posted by Frizero at 13:29:20
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