A Torre de Dom Ramires
“E tu compreendes, como eu desejo tentar a política, preciso primeiramente aparecer, espalhar o meu nome…” (protagonista de A Ilustre Casa de Ramires, obra de Eça de Queiroz [1845-1900], escritor português)
Como uma forma de atingir alguma ascenção social, prestígio, dinheiro - ou mesmo por razões mais prosaicas, como o sonho de sair do interior em direção à capital do reino -, o personagem principal de A Ilustre Casa de Ramires, um dos melhores romances do escritor lusitano Eça de Queiroz (1845-1900), dedica-se à tarefa árdua de compor um passado de glória para seus antepassados. Fico a pensar o quão atual a crítica queiroziana aos fidalgos de falsa nobreza e aos caçadores de fama e glória ainda se faz. (…) A narrativa queiroziana segue seu curso, apresentando ironicamente as desventuras de Gonçalo em busca de seus desejos de poder e glória. E mais não carecemos contar do livro, sob o risco de maçarmos o leitor e estragarmos a delícia de ler a obra. O pouco que contamos, contudo, já nos serve para referenciarmos nossos tempos e a trama de Eça de Queiroz. Ou será raro encontrarmos, hoje ainda, alguns Gonçalos que, para obter ou demonstrar o poder - adquirido ou por conquistar -, lançam-se à construção de ações tão grandiloqüentes quais as proezas narradas no livro do fidalgo falido? Não são raros aqueles que, uma vez alçados à condição de chefes, líderes, estadistas de qualquer graduação, buscam firmar seus nomes através de atitudes tão arbitrárias quanto risíveis - seja a construção de obras sem grande utilidade mas muito apelo visual, a adoção de medidas administrativas e reestruturações gerais as quais mais atordoam que auxiliam, ou mesmo aquelas relativas às mais comezinhas possibilidades que o poder lhes concede: mudam a cor das paredes, dão novos nomes às ruas, escolhem mascotes e flâmulas e, não raro, partem mesmo para a estratégia de Gonçalo Mendes Ramiro: escrevem - e muito. (LEIA O TEXTO COMPLETO ABAIXO)
“E tu compreendes, como eu desejo tentar a política, preciso primeiramente aparecer, espalhar o meu nome…” (protagonista de A Ilustre Casa de Ramires, obra de Eça de Queiroz [1845-1900], escritor português)
Como uma forma de atingir alguma ascenção social, prestígio, dinheiro - ou mesmo por razões mais prosaicas, como o sonho de sair do interior em direção à capital do reino -, o personagem principal de A Ilustre Casa de Ramires, um dos melhores romances do escritor lusitano Eça de Queiroz (1845-1900), dedica-se à tarefa árdua de compor um passado de glória para seus antepassados. Fico a pensar o quão atual a crítica queiroziana aos fidalgos de falsa nobreza e aos caçadores de fama e glória ainda se faz.
Em seu romance, Eça de Queiroz conta-nos sobre Gonçalo Mendes Ramiro, um fidalgo falido que vive em uma torre na anciã aldeia de Santa Irinéia e que é convencido por um camarada seu de Coimbra a escrever uma novela histórica sobre sua família. José Lúcio Castanheiro, o fundador patriota dos Anais de Literatura e de História, é quem o incentiva a registrar a genealogia dos Ramires em livro, por considerar Gonçalo, de antiquíssima linhagem, ”o mais genuíno e antigo fidalgo de Portugal”.
Sem talento, contudo, o fidalgo baseia seu romance histórico, A Torre dos Ramires, em um poemeto épico toscamente escrito por um seu parente, cinqüenta anos antes - um solitário que também residira na tal fortificação secular - e constrói sobre os versos pouco inspirados de seu antepassado toda uma história fantasiosa sobre a soberba saga dos Ramires.
A narrativa queiroziana segue seu curso, apresentando ironicamente as desventuras de Gonçalo em busca de seus desejos de poder e glória. E mais não carecemos contar do livro, sob o risco de maçarmos o leitor e estragarmos a delícia de ler a obra.
O pouco que contamos, contudo, já nos serve para referenciarmos nossos tempos e a trama de Eça de Queiroz. Ou será raro encontrarmos, hoje ainda, alguns Gonçalos que, para obter ou demonstrar o poder - adquirido ou por conquistar -, lançam-se à construção de ações tão grandiloqüentes quais as proezas narradas no livro do fidalgo falido? Não são raros aqueles que, uma vez alçados à condição de chefes, líderes, estadistas de qualquer graduação, buscam firmar seus nomes através de atitudes tão arbitrárias quanto risíveis - seja a construção de obras sem grande utilidade mas muito apelo visual, a adoção de medidas administrativas e reestruturações gerais as quais mais atordoam que auxiliam, ou mesmo aquelas relativas às mais comezinhas possibilidades que o poder lhes concede: mudam a cor das paredes, dão novos nomes às ruas, escolhem mascotes e flâmulas e, não raro, partem mesmo para a estratégia de Gonçalo Mendes Ramiro: escrevem - e muito. Sua imaginação feracíssima - como Castanheiro se refere, a certa altura, à inventividade de Gonçalo, em verdade um plágio tosco do poemeto do seu falecido tio - e as ganas de mostrar ao mundo seu prestígio, fama, mando ou superioridade faz com que a pena registre no papel desde suas autobiografias dispensáveis até as leis, artigos, poemas e hinos que sua vontade de se destacar fazem surgir sem constrangimentos ou autocríticas.
E, como no romance mordaz de Eça de Queiroz, há muitos que admiram a obra, aplaudem e julgam estar diante de algo realmente importante, revolucionário e único. Mas, pobres almas simplórias, o que está diante de seus olhos é tão-somente A Torre de Dom Ramires, a frágil e triste construção tão antiga, débil e, como costumam ser as torres, oca, vazia por dentro, de sentido e de conteúdo.
E como estamos cercados, no Brasil, desses imperadores de anedota! Como o fidalgo decaído queiroziano, parecemos ainda nos orgulhar de uma história que conhecemos tão mal e da qual sequer sabemos o que é verdadeiro e o que é mera prosa. Ah, como os sedentos de poder usam-se do passado - aos seus olhos tortos, sempre um tempo glorioso e melhor que o presente! E vamos ficando à mercê dos sedentos de poder que, sem qualquer generosidade ou espírito de coletividade, estão apenas a fazer o que for preciso - a escrever sua farsa novelesca - para ter em mãos o prestígio, a consagração social, a sensação de comando que lhes alimentará uma alma quase sempre vazia como uma torre em ruínas.
