O Camarão ao Molho Agridoce e a Moda Brasiliense (ou Como Ser Diferente Sendo Igual a Todo o Resto)
(…) Brasília é mesmo uma cidade de curiosos contrastes - e a juventude do Distrito Federal talvez seja o mais bizarro que se pode encontrar por aqui. Ao andar pelos corredores de seus sempre lotados shopping centers, mas também ao usar o transporte coletivo deficitário da cidade e ao cruzar o que é talvez o único grande local de concentração popular de Brasília - o pequeno eixo entre o Conjunto Nacional e o Conic - vi de tudo e do muito que os jovens brasilienses têm feito para acompanhar certas modas que florescem em outras partes do país (…). Vi desde jovens que, no afã de se tornarem diferentes e aceitos no grupo, vestem-se iguais aos demais de sua turma e ali enterram suas individualidades, dia após dia, até outros jovens que resolveram criar um “estilo” de tal forma pessoal que mais oculta que exprime suas personalidades. Há piercings e tatuagens em profusão, mas também acessórios estranhos como casacos de pelúcia rosa, correntes de bicicleta, sobretudos negros em pleno calor do Planalto Central, e tantas outras tolices (…). E os dizeres escritos em inglês temerário, com mensagens por vezes sem sentido, outras vezes sem cabimento de tão ofensivas ou tolas. Não raro eu me vi nas ruas de Brasília com a mesma perplexidade do senhor chinês daquele caso verídico divulgado pelo Blog do Noblat, e que tomo a liberdade de repetir, de tão emblemático que ele é:
“Na avenida Ipiranga, centro de São Paulo, o chinês de meia idade olhou curioso o ideograma tatuado na altura do ombro direito da mocinha que esperava na calçada a luz verde do semáforo. Não se conteve e perguntou:
- Onde você fez?
- Lá no bairro da Liberdade.
- E por que logo isso?
- Porque quer dizer Esperança. Gosto da palavra.
- O que está escrito aí é “camarão ao molho agridoce“.
Na falta de conteúdo, de uma razão maior para proceder com suas escolhas, a juventude de Brasília - e, arrisco-me a dizer, de boa parte de nosso país - acaba por se deixar levar pelo primeiro bonde que passar a carregar os incautos e despreparados… (…) (LEIA O TEXTO COMPLETO ABAIXO)
Estou neste sábado, dia 03 de dezembro de 2005, despedindo-me de Brasília após duas semanas de tempo estranho, que intercalou chuva e sol em períodos e razões sem nenhuma congruência possível à compreensão dos não-brasilienses.
Brasília é mesmo uma cidade de curiosos contrastes - e a juventude do Distrito Federal talvez seja o mais bizarro que se pode encontrar por aqui. Ao andar pelos corredores de seus sempre lotados shopping centers, mas também ao usar o transporte coletivo deficitário da cidade e ao cruzar o que é talvez o único grande local de concentração popular de Brasília - o pequeno eixo entre o Conjunto Nacional e o Conic - vi de tudo e do muito que os jovens brasilienses têm feito para acompanhar certas modas que florescem em outras partes do país e que aqui, como em vários outros aspectos do lugar, ganha cores da mistura desigual e heterogênea que formou a cidade.
Vi desde jovens que, no afã de se tornarem diferentes e aceitos no grupo, vestem-se iguais aos demais de sua turma e ali enterram suas individualidades, dia após dia, até outros jovens que resolveram criar um “estilo” de tal forma pessoal que mais oculta que exprime suas personalidades. Há piercings e tatuagens em profusão, mas também acessórios estranhos como casacos de pelúcia rosa, correntes de bicicleta, sobretudos negros em pleno calor do Planalto Central, e tantas outras tolices - como a profusão de camisetas com efígies de ilustres como Che Guevara, Janis Joplin, Carlitos e Albert Einstein, cujas biografias devem ser de total desconhecimento de seus portadores.
E os dizeres escritos em inglês temerário, com mensagens por vezes sem sentido, outras vezes sem cabimento de tão ofensivas ou tolas. Não raro eu me vi nas ruas de Brasília com a mesma perplexidade do senhor chinês daquele caso verídico divulgado pelo Blog do Noblat, e que tomo a liberdade de repetir, de tão emblemático que ele é:
“Na avenida Ipiranga, centro de São Paulo, o chinês de meia idade olhou curioso o ideograma tatuado na altura do ombro direito da mocinha que esperava na calçada a luz verde do semáforo. Não se conteve e perguntou:
- Onde você fez?
- Lá no bairro da Liberdade.
- E por que logo isso?
- Porque quer dizer Esperança. Gosto da palavra.
- O que está escrito aí é “camarão ao molho agridoce“.
Na falta de conteúdo, de uma razão maior para proceder com suas escolhas, a juventude de Brasília - e, arrisco-me a dizer, de boa parte de nosso país - acaba por se deixar levar pelo primeiro bonde que passar a carregar os incautos e despreparados… É moda o piercing? Coloco-me um. É status ter uma tatuagem? Faço de minha pele um rascunho para a posteridade, mesmo que aqueles símbolos não digam coisa com coisa, nem coisa alguma de mim mesmo. Mas, quando não se tem nada dentro de si para refletir, questionar, matutar, sonhar, resta-me seguir o que me dizem ser o mais apropriado, o mais certo, o que me garanta que não serei ridicularizado - mesmo que eu tenha tatuado no braço um cardápio e não guarde uma idéia útil sequer na cabeça.