Thursday, December 1, 2005

Como fabricar cretinos

“Restauremos o caminho normal das coisas: a capacidade de se especializar nasce somente da verdadeira cultura.”

(Jean-Paul Brighelli, educador francês, autor do livro A Fábrica do Cretino - A Morte Programada da Escola)

Em artigo assinado por Fernando Eichenberg, a revista Primeira Leitura traz, em sua edição de novembro de 2005, as idéias de um educador francês que há trinta anos trabalha como professor em escolas de periferia, além de seu trabalho como professor universitário.  Formado em Letras, Jean-Paul Brighelli denuncia o falso “sucesso da nova pedagogia”, para ele, em verdade, um efeito a longo prazo que ele chamou de “a morte programada do saber”, cujo objetivo maior seria “fabricar cretinos”.  As palavras fortes contidas no livro de Brighelli são corroboradas por uma pesquisa citada pela revista e divulgada, na França, coincidentemente no mesmo mês de lançamento de La Fabrique du Crétin - La Mort Programée de l’École: segundo dados do Instituto Nacional da Estatística e dos Estudos Econômicos da França, 12% (doze por cento) dos adultos entre dezoito e sessenta e cinco anos  sofrem de dificuldades graves de escrita, cálculo e compreensão de texto escrita e oral.   (…) Voltando às idéias de Brighelli, o educador é veemente ao apontar a atual situação francesa como fruto de “uma singular conjunção de vontades perversas e de boas intenções imbecis”.  No rastro dos ideais libertários de 1968, os professores das novas gerações assumiram a postura de que “é proibido proibir”, tornando a escola em um ambiente no qual não há mais deveres, onde os direitos são muitos e, por consegüinte, a autoridade do professor - e mesmo seu papel de educador - são prejudicados por uma quase total ausência de busca pela excelência escolar.  A falsa igualdade que tais pressupostos trazem em seu bojo seria, para o educador francês, um dos motivos pelos quais a educação retrocede, o aproveitamento dos alunos diminui a cada ano e a massa de profissionais lançada no mercado é cada vez menos preparada para a vida. Curiosamente, os ideais de 1968 ajudam, em muito, o conceito neoliberal de que o indivíduo precisa ser forjado para o mercado e para as exigências da economia moderna, globalizada e ágil.(…) O “todos somos iguais” dos educadores modernos acaba por nivelar os educandos por patamares mínimos de aprendizado, ou seja, já não se busca a excelência, mas a subsistência cultural.  Ao pregar uma sociedade que não se fia em oportunidades de crescimento iguais para todos, mas sim em uma igualdade pura e simples, alheia ao mundo real, o que se faz é perpetuar a desigualdade.  (…) Para as verdadeiras classes dominantes, que ascenderam ao poder por diversas razões, a maioria delas alheia à elevada cultura de seus membros, o processo de cretinização da população é um alento que só colabora para a perpetuação de suas vantajosas posições no tabuleiro do jogo do poder. (LEIA O TEXTO COMPLETO ABAIXO)

“Restauremos o caminho normal das coisas: a capacidade de se especializar nasce somente da verdadeira cultura.”

(Jean-Paul Brighelli, educador francês, autor do livro A Fábrica do Cretino - A Morte Programada da Escola)

Em artigo assinado por Fernando Eichenberg, a revista Primeira Leitura traz, em sua edição de novembro de 2005, as idéias de um educador francês que há trinta anos trabalha como professor em escolas de periferia, além de seu trabalho como professor universitário.  Formado em Letras, Jean-Paul Brighelli denuncia o falso “sucesso da nova pedagogia”, para ele, em verdade, um efeito a longo prazo que ele chamou de “a morte programada do saber”, cujo objetivo maior seria “fabricar cretinos”. 

As palavras fortes contidas no livro de Brighelli são corroboradas por uma pesquisa citada pela revista e divulgada, na França, coincidentemente no mesmo mês de lançamento de La Fabrique du Crétin - La Mort Programée de l’École: segundo dados do Instituto Nacional da Estatística e dos Estudos Econômicos da França, 12% (doze por cento) dos adultos entre dezoito e sessenta e cinco anos  sofrem de dificuldades graves de escrita, cálculo e compreensão de texto escrita e oral.   Os chamados analfabetos funcionais (termo brasileiro politicamente correto que a França substituiu na pesquisa pelo vocábulo mais realista - iletrado) são 9% (nove por cento) e 16% (dezesseis por cento) os que estão na condição de “portadores de dificuldades parciais”.  O índice de analfabetismo na França, contudo, é de apenas 1% (um por cento) da população - algo bem distante dos 13,6% (treze vírgula seis por cento) correspondentes ao número de brasileiros sem instrução. 

Voltando às idéias de Brighelli, o educador é veemente ao apontar a atual situação francesa como fruto de “uma singular conjunção de vontades perversas e de boas intenções imbecis”.  No rastro dos ideais libertários de 1968, os professores das novas gerações assumiram a postura de que “é proibido proibir”, tornando a escola em um ambiente no qual não há mais deveres, onde os direitos são muitos e, por consegüinte, a autoridade do professor - e mesmo seu papel de educador - são prejudicados por uma quase total ausência de busca pela excelência escolar.  A falsa igualdade que tais pressupostos trazem em seu bojo seria, para o educador francês, um dos motivos pelos quais a educação retrocede, o aproveitamento dos alunos diminui a cada ano e a massa de profissionais lançada no mercado é cada vez menos preparada para a vida.

Curiosamente, os ideais de 1968 ajudam, em muito, o conceito neoliberal de que o indivíduo precisa ser forjado para o mercado e para as exigências da economia moderna, globalizada e ágil.  As conseqüências da demanda dos empregadores modernos é a formação de educandos cada vez menos preocupados com o passado e com o que podemos chamar de “bagagem cultural”, algo que lhe permite, como cidadão, compreender o mundo em que vive e, sobretudo, seu papel no país do qual é partícipe, mesmo contra sua vontade.  Em um ambiente educacional como este, voltado para o mercado e de costas para a educação, disciplinas como Literatura, História, Filosofia e outras cuja aplicação maior é para a vida, não para a economia, são minadas nas escolas - e mesmo conteúdos importantes como Língua Materna ou Língua Estrangeira são negligenciados, por serem reduzidos à mera repetição de estruturas e funções.  Para que somar língua à cultura, história e outros conteúdos ants vinculados à idéia torta de elite pregada pelos intelectuais de esquerda?  e então, como mágica, o neoliberalismo e o politicamente correto unem-se em uma cruzada silenciosa contra a educação para a excelência.  Para Brighelli, a escola que se deriva da conjunção perversa dessas duas correntes de pensamento não forma cidadãos com bagagem cultural para compreender e interagir com o mundo, tampouco profissionais preparados tecnicamente para a nova economia.

O “todos somos iguais” dos educadores modernos acaba por nivelar os educandos por patamares mínimos de aprendizado, ou seja, já não se busca a excelência, mas a subsistência cultural.  Ao pregar uma sociedade que não se fia em oportunidades de crescimento iguais para todos, mas sim em uma igualdade pura e simples, alheia ao mundo real, o que se faz é perpetuar a desigualdade.  A igualdade dos professores do pós-1968 é a que ignora as peculiaridades e talentos de cada um, colocando-os todos, alunos, em um mesmo balaio de gatos que é conseqüência direta do processo de uniformização do ensino.  E não é fácil perceber isso acontecendo aqui mesmo, no Brasil, ao nosso redor - ou senão como se explica o fracasso de sistemas como o de educação por ciclos, no qual os alunos não são reprovados e, por vezes, sequer avaliados?  E que dizer da incapacidade de nossos estudantes - e de tantos profissionais egressos das melhores universidades - de entender um texto escrito, de emitir opiniões embasadas sobre um tema de seu conhecimento, de compreender o mundo que lhes cerca em patamares mais elevados que o do vulgo, do lugar-comum, do preconceito e da estupidez total?

Talvez resida na educação a maior derrota auto-imposta pelos intelectuais dos anos posteriores à revolução estudantil francesa - eles criaram o desprezo contemporâneo pelo ensino clássico, pelo estudo da história como ferramenta de compreensão do hoje, pela própria construção da intelectualidade como se pensar fosse uma ferramenta de opressão das minorias - perdoem-me por falar nos termos tortos deles mesmos.  O resultado é notório - a cultura já não é vista como uma forma de ascenção social, de prestígio ou de crescimento pessoal.  Se a riqueza e a fama chegam a todos, sobretudo aos que não perderam seu tempo estudando, lendo ou criando algo de útil para seus semelhantes, por que as pessoas se espelhariam na intelectualidade como modelo de ascenção?

No mesmo contexto entram o discurso de valorização da cultura da periferia - que tem feito brotar em profusão os cursos, mantidos pelo governo e por organizações não-governamentais, de manifestações artísticas marginalizadas como o grafite, o hip hop e seus derivados, e a questionável aplicação da famosa Pedagogia do Oprimido de Paulo Freire em um mundo que se quer pacífico e ordenado… A mensagem perversa é quase imperceptível, mas construir um programa de inclusão social no qual as pessoas são expostas apenas a um tipo de manifestação cultural, como se elas não fossem capazes de conhecer, admirar e reproduzir outras formas de arte e expressão, não é igualmente uma forma de proteção?  Para mim, esse diálogo torto de ghetto no Brasil, essa agenda de conscientizar o oprimido da sua condição de oprimido e da importância de que ele, oprimido, lute por seus direitos de oprimido sem se tornar opressor do opressor (Ufa! Como é cansativo citar Paulo Freire!), tudo isso apenas pereniza a permanência daquelas pessoas já constrangidas pelas desigualdades sociais em suas vidas de pobreza e descaso governamental.

E é assim que estamos criando gerações de cretinos - tomada aqui a acepção da palavra que indica o incapaz, o incompetente emocional, o idiota, o que não consegue tomar decisões que lhe exigem o intelecto.  Para as verdadeiras classes dominantes, que ascenderam ao poder por diversas razões, a maioria delas alheia à elevada cultura de seus membros, o processo de cretinização da população é um alento que só colabora para a perpetuação de suas vantajosas posições no tabuleiro do jogo do poder.

Posted by Frizero at 10:12:43 | Permalink | No Comments »