Friday, December 23, 2005

Abismo de Pássaros

Os poemas são pássaros
nascidos no longínqüo,
sem ninho ou destino,
que vivem sem tempo.
Sem pouso e sem vontade,
seguem voando, eternos,
nas linhas de meu horizonte.
O poema é, em si:
vaga na angústia do sonho,
segue o vento em vôo lento,
mergulha das densas alturas
e eterniza-se, por fim,
abismando-se em mim.

Da obra

(1996)
(Robertson Frizero Barros)

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Wednesday, December 21, 2005

Pirataria e Hipocrisia

Os jornais de hoje, 21 de dezembro de 2005, alardeiam dados oficiais que afirmam ter aumentado em 130% (cento e trinta por cento) no Brasil a apreensão de produtos pirateados em relação ao ano anterior. Junto a esta notícia, há outra falando das perspectivas de órgãos como a Polícia Federal e a Receita do Brasil, os quais dizem que serão intensificadas as buscas feitas em aeroportos, portos e áreas de fronteira, além de expandidas para todos os estados da federação, sobretudo nas principais estradas de rodagem do país. O discurso é alvissareiro mas, infelizmente, a realidade que se vê nas ruas das cidades brasileiras é bem distinta, e assustadora.

Não vejo como o governo brasileiro pode anunciar ações de combate à pirataria, ao contrabando e ao descaminho se no fim da cadeia criminosa, na ponta da rede de comércio, no varejo praticado livremente nas calçadas, não há nenhum controle e quase nenhuma iniciativa de combate. Em verdade, penso que não há muito interesse das autoridades em efetuar tal tipo de ação, pois elas soam antipáticas em um país de desempregados e de empregos informais - como coadunar a idéia de uma “gestão que se importa com o social” se os governos municipais e estaduais começarem a coibir o comércio ambulante? Não há prefeito que queira, verdadeiramente, colocar o dedo nesta ferida aberta. Mas o estancar desta ferida é necessário, pois nela creio residir o pior dos males sociais.

Vejamos se minha posição é radical demais: como imaginar crescimento do número de empregos, abertura de novos postos de trabalho, se o comércio e a indústria estão a competir com os grandes distribuidores do contrabando, com os vendedores sem alvará, com as lojas de calçada que vendem tudo sem impostos, sem pagamento de tributos, sem burocracia? Diz-se que o comércio ilegal, ambulante, é alternativa de trabalho, mas já não há como sustentar a idéia de que todos os camelôs que hoje entopem nossas ruas das mais diversas bugingangas sejam pobres coitados sem emprego: já existe, há alguns anos, a sublocação de barracas de ambulante, o dono de mercadoria que subemprega outros para venderem por ele os produtos - e este patrão de improviso ganha muito bem, já que não assina carteira, não paga previdência social e não corre risco algum de processos na Justiça do Trabalho - para citar apenas os revezes trabalhistas de ser um empregador no Brasil. Em verdade, o comércio ilegal no Brasil está a roubar empregos mais que a gerar renda, movimentar a economia.

Não bastasse esta face cruel do comércio ambulante, há ainda o fato de que a maioria dos produtos vendidos por seus agentes é fruto de contrabando, de falsificação, de pirataria de marcas e de direitos autorais - e estamos falando de uma família de crimes correlatos que movimenta mais dinheiro que outros considerados mais perigosos à sociedade (…) Mas, no Brasil, o efeito mais deletério de todo este processo não se dá, na minha opinião, pelas perdas consideráveis em tributos não arrecadados, mas na consolidação de uma cultura da pirataria em nosso país. (…)Há brasileiros que defendem a pirataria como uma espécie de combate ao capitalismo, cruzada contra o lucro exorbitante das multinacionais, como se a ação de copiar um programa de computador ou de adquirir um CD pirata de um grupo musical de sucesso fosse um ato político. Balela. Se o capitalismo os incomoda tanto, ora bolas, parem de consumir - ou encontrem uma alternativa viável para o mundo, já que as demais que surgiram estão a ruir desde a queda do Muro de Berlim, em 1989. A pirataria está, isto sim, no espírito do brasileiro que quer levar vantagem em tudo.(…) Então somos tão dependentes assim da sociedade de consumo que não podemos esperar a ocasião de termos dinheiro o suficiente para comprar aquele filme que queremos ver, ou ouvir aquela canção do artista que apreciamos? Será a pirataria uma forma de dependência? Ou será que estou tão enganado assim, e possuir um tênis falso com uma marca famosa forjada em seu costado seja mesmo algo a ser considerado de primeira necessidade?(…) Infelizmente, estamos criando no Brasil uma cultura de aceitação do contrabando e da pirataria que pode ser um caminho sem volta - um caminho que países vizinhos, como o Paraguai, conhecem bem. (LEIA O TEXTO COMPLETO ABAIXO)

Os jornais de hoje, 21 de dezembro de 2005, alardeiam dados oficiais que afirmam ter aumentado em 130% (cento e trinta por cento) no Brasil a apreensão de produtos pirateados em relação ao ano anterior. Junto a esta notícia, há outra falando das perspectivas de órgãos como a Polícia Federal e a Receita do Brasil, os quais dizem que serão intensificadas as buscas feitas em aeroportos, portos e áreas de fronteira, além de expandidas para todos os estados da federação, sobretudo nas principais estradas de rodagem do país. O discurso é alvissareiro mas, infelizmente, a realidade que se vê nas ruas das cidades brasileiras é bem distinta, e assustadora.

Não vejo como o governo brasileiro pode anunciar ações de combate à pirataria, ao contrabando e ao descaminho se no fim da cadeia criminosa, na ponta da rede de comércio, no varejo praticado livremente nas calçadas, não há nenhum controle e quase nenhuma iniciativa de combate. Em verdade, penso que não há muito interesse das autoridades em efetuar tal tipo de ação, pois elas soam antipáticas em um país de desempregados e de empregos informais - como coadunar a idéia de uma “gestão que se importa com o social” se os governos municipais e estaduais começarem a coibir o comércio ambulante? Não há prefeito que queira, verdadeiramente, colocar o dedo nesta ferida aberta. Mas o estancar desta ferida é necessário, pois nela creio residir o pior dos males sociais.

Vejamos se minha posição é radical demais: como imaginar crescimento do número de empregos, abertura de novos postos de trabalho, se o comércio e a indústria estão a competir com os grandes distribuidores do contrabando, com os vendedores sem alvará, com as lojas de calçada que vendem tudo sem impostos, sem pagamento de tributos, sem burocracia? Diz-se que o comércio ilegal, ambulante, é alternativa de trabalho, mas já não há como sustentar a idéia de que todos os camelôs que hoje entopem nossas ruas das mais diversas bugingangas sejam pobres coitados sem emprego: já existe, há alguns anos, a sublocação de barracas de ambulante, o dono de mercadoria que subemprega outros para venderem por ele os produtos - e este patrão de improviso ganha muito bem, já que não assina carteira, não paga previdência social e não corre risco algum de processos na Justiça do Trabalho - para citar apenas os revezes trabalhistas de ser um empregador no Brasil. Em verdade, o comércio ilegal no Brasil está a roubar empregos mais que a gerar renda, movimentar a economia.

Não bastasse esta face cruel do comércio ambulante, há ainda o fato de que a maioria dos produtos vendidos por seus agentes é fruto de contrabando, de falsificação, de pirataria de marcas e de direitos autorais - e estamos falando de uma família de crimes correlatos que movimenta mais dinheiro que outros considerados mais perigosos à sociedade: estima-se que US$ 500 bilhões são angariados anualmente em todo o mundo pela pirataria, enquanto o narcotráfico mundial movimentaria US$ 360 bilhões e o tráfico de armas, US$ 200 bilhões. Mas, no Brasil, o efeito mais deletério de todo este processo não se dá, na minha opinião, pelas perdas consideráveis em tributos não arrecadados, mas na consolidação de uma cultura da pirataria em nosso país.

Há brasileiros que defendem a pirataria como uma espécie de combate ao capitalismo, cruzada contra o lucro exorbitante das multinacionais, como se a ação de copiar um programa de computador ou de adquirir um CD pirata de um grupo musical de sucesso fosse um ato político. Balela. Se o capitalismo os incomoda tanto, ora bolas, parem de consumir - ou encontrem uma alternativa viável para o mundo, já que as demais que surgiram estão a ruir desde a queda do Muro de Berlim, em 1989. A pirataria está, isto sim, no espírito do brasileiro que quer levar vantagem em tudo.

Tenho várias pessoas de minhas relações, que são relativamente abastadas, e que consomem produtos piratas sem a menor cerimônia - e ainda defendem o discurso de que “compram produto pirata porque o original é muito caro” - um argumento que já seria questionável se estivéssemos nos referindo a gêneros de primeira necessidade, mas que se torna tolo demais ao falarmos de supérfluos como DVDs, CDs, jogos de computador, canais de televisão à cabo. Então somos tão dependentes assim da sociedade de consumo que não podemos esperar a ocasião de termos dinheiro o suficiente para comprar aquele filme que queremos ver, ou ouvir aquela canção do artista que apreciamos? Será a pirataria uma forma de dependência? Ou será que estou tão enganado assim, e possuir um tênis falso com uma marca famosa forjada em seu costado seja mesmo algo a ser considerado de primeira necessidade?

Será esta a sociedade que queremos construir no Brasil - sem limites, sem frustrações, sem respeito a nada? Se a ordem é copiar - ou adquirir a cópia -, não nos iludamos que isto se manterá apenas nas fronteiras de produtos como CDs, roupas de griffe, DVDs, tênis da moda ou jogos eletrônicos. As universidades, que esperamos serem os centros do saber e da produção científica e cultural no Brasil, já viraram há muito fábricas de fotocópias - algumas já contam até com os serviços de um interessante profissional, que eu chamarei de fotocopiador de luxo: ele encontra para o cliente o livro (raro ou não) que ele quiser, antigo ou recém-editado, tira cópias de todo o livro e encaderna, em capa dura - uma maravilha que parece até o livro original. E alguns clientes ainda devem se perguntar o porquê de o fotocopiador conseguir fornecer um produto tão bom por um preço tão em conta… Alunos de graduação, mestrado e doutorado já utilizam este serviço largamente, sem pensar que amanhã seus livros, teses e dissertações serão copiados e encadernados pelo mesmo fotocopiador de luxo, sem que eles ganhem um centavo sequer pelos anos de trabalho e pesquisa que tiveram para escrever aquelas páginas.

O que mais me surpreende é justamente o fato de que muitos dos que consomem abertamente os produtos piratas não conseguem vislumbrar o que significa furtar a obra alheia. Tenho pretensões de ser escritor e já tive, na Internet, textos meus furtados por pessoas que os (re)publicaram na rede mundial de computadores, assumindo-lhes a autoria. A sensação de ter sua produção roubada não é anda agradável. É claro que os que consomem produtos piratas não pensam na individualidade; é costume justificarmos a pirataria despersonalizando o crime, dizendo que estamos apenas “tirando de grandes multinacionais - gravadoras, indústrias de software, griffes de roupa, etc -, que tem lucros milionários”, e com isso nos esquivamos de qualquer culpa, já que não pensamos em empregos perdidos, artistas frustrados, direitos autorais jogados pela janela. Somos, praticamente, a trupe contemporânea do lendário Robin Hood. Esquecem-se os defensores deste ato político contra o capitalismo que a diminuição dos investimentos de todas estas indústrias em nosso país tem por conseqüência o corte de postos de trabalho e de capital em circulação - e não adianta querer tapar o sol com a peneira com um discurso de revolucionário de café, que é contra o capitalismo mas vive em relativo conforto e consome o que pode enquanto luta contra o sistema

O custo para o Brasil é altíssimo e afeta a todos em muitos aspectos da vida. A falsificação e o contrabando já abrangem até produtos que, falsificados, prejudicam diretamente a própria saúde dos cidadãos - como cosméticos, produtos de limpeza, medicamentos e o campeão da pirataria no país, os cigarros - e que são muitas vezes comprados por eles sem que saibam da origem difusa desses produtos.

Os absurdos saltam-nos aos olhos, pois não há hoje lar brasileiro no qual não haja produtos piratas. Mesmo as autoridades os consomem: já vi, no Centro de Porto Alegre, policiais militares fardados comprando CDs piratas em uma banca de camelôs em frente a uma grande loja de departamentos. Infelizmente, estamos criando no Brasil uma cultura de aceitação do contrabando e da pirataria que pode ser um caminho sem volta - um caminho que países vizinhos, como o Paraguai, conhecem bem.

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Tuesday, December 20, 2005

Excessos de Democracia

“Eu não sei se a América Latina teve um presidente com as experiências democráticas colocadas em prática na Venezuela. Poderia até se dizer que (a Venezuela) tem excesso (de democracia).”
(Presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em 30 de setembro de 2005, durante visita do Presidente da Venezuela, Hugo Chávez, ao Brasil)

A esquerda brasileira sempre foi pródiga em exemplificar o dito popular dois pesos, duas medidas. O que é feito em prol da causa, parece ser sempre correto e louvável; o que é feito pelos detratores da causa, é condenável e passível de sofrer as maiores arbitrariedades sem que, por conta disso, nenhuma voz se levante em defesa dos ideais democráticos que a esquerda brasileira parece ser tão empenhada em defender - ao menos em seu discurso. Exemplos disso são inúmeros e, em tempos de mensalão e Valerioduto, parecem se multiplicar no panorama das disputas políticas que, seja na direita ou na esquerda, parecem só vislumbrar à frente o ano eleitoral de 2006.

Mas falávamos das incongruências da esquerda brasileira - a mesma que, atualmente, empenha-se em convencer a opinião pública brasileira que caixa dois de campanha eleitoral não é crime -, e a Revista Veja, em sua edição de 14 de dezembro de 2005, fez-me relembrar a referência de Luiz Inácio Lula da Silva ao Presidente da Venezuela, Hugo Chávez, quando da visita deste ao Brasil - uma visita que foi festejada pela esquerda brasileira dos mais diversos matizes. O semanário publicou uma extensa reportagem, feita por seu correspondente em Caracas, Diogo Schelp, sobre a política chavista que - é sempre bom lembrar - Lula classificou como “excesso de democracia”. (…) Chávez é elogiado pela esquerda brasileira por seus programas sociais. Em verdade, o presidente da Venezuela está virtualmente empregando todo o dinheiro do petróleo extraído de seu país para financiar sindicatos, cooperativas, programas sociais e até mesmo uma rede de supermercados popular. Tudo isso seria louvável se, por trás da intenção aparentemente boa, não houvesse o movimento do governo no sentido de fechar indústrias privadas (sobretudo as que pertencem aos opositores), invadir fazendas consideradas improdutivas (por meio de movimentos sociais patrocinados pelo governo, que avançam sobre propriedades rurais indicadas por ele e com a garantia de posse para os invasores) e subsidiar a produção das cooperativas populares comprando toda a produção desses centros locais de manufatura. (…) Hugo Chávez está, em verdade, alimentando a pobreza, em um movimento que o escritor estadunidense Thomas Friedman chama de “Coalizão para Manter os Pobres Pobres”: suas políticas estão provocando a redução de postos de trabalho e construindo uma total dependência das camadas mais pobres da população às políticas sociais do governo - tudo isso sustentado pelo preço do barril de petróleo no comércio mundial (…).

No Brasil, não se enganem, há seguidores de Hugo Chávez, gente suficiente para causar rebuliço e cenas de tietagem impensáveis para visitas de líderes políticos ao Brasil (vi com meus próprios olhos, em Porto Alegre, quando ele fez um discurso inflamado para uma platéia eufórica no Fórum Social Mundial) - pessoas que aplaudem sua conversa de unidade bolivarianista sem se perguntar qual o preço a ser cobrado por tantas benesses. (…) (LEIA O TEXTO COMPLETO ABAIXO)

“Eu não sei se a América Latina teve um presidente com as experiências democráticas colocadas em prática na Venezuela. Poderia até se dizer que (a Venezuela) tem excesso (de democracia).”
(Presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em 30 de setembro de 2005, durante visita do Presidente da Venezuela, Hugo Chávez, ao Brasil)

A esquerda brasileira sempre foi pródiga em exemplificar o dito popular dois pesos, duas medidas. O que é feito em prol da causa, parece ser sempre correto e louvável; o que é feito pelos detratores da causa, é condenável e passível de sofrer as maiores arbitrariedades sem que, por conta disso, nenhuma voz se levante em defesa dos ideais democráticos que a esquerda brasileira parece ser tão empenhada em defender - ao menos em seu discurso. Exemplos disso são inúmeros e, em tempos de mensalão e Valerioduto, parecem se multiplicar no panorama das disputas políticas que, seja na direita ou na esquerda, parecem só vislumbrar à frente o ano eleitoral de 2006.

Mas falávamos das incongruências da esquerda brasileira - a mesma que, atualmente, empenha-se em convencer a opinião pública brasileira que caixa dois de campanha eleitoral não é crime -, e a Revista Veja, em sua edição de 14 de dezembro de 2005, fez-me relembrar a referência de Luiz Inácio Lula da Silva ao Presidente da Venezuela, Hugo Chávez, quando da visita deste ao Brasil - uma visita que foi festejada pela esquerda brasileira dos mais diversos matizes. O semanário publicou uma extensa reportagem, feita por seu correspondente em Caracas, Diogo Schelp, sobre a política chavista que - é sempre bom lembrar - Lula classificou como “excesso de democracia”. Então, vejamos alguns exemplos da democracia venezuelana que alguns políticos da esquerda brasileira sonham em implementar no nosso país.

Em 4 de dezembro de 2005, uma eleição na qual apenas 25% (vinte e cinco por cento, ou seja, um quarto) dos eleitores compareceram às urnas, Hugo Chávez obteve 100% (cem por cento) das cadeiras da Assembléia Nacional - pelo simples fato de que a oposição recusou-se a participar de um pleito no qual a parcialidade da Justiça Eleitoral - formada por juízes chavistas - era gritante a favor do governo central; mas, enfim, todos os eleitos são do governo, o que é, aos olhos de Chávez e seus seguidores, mais um sinal da popularidade do presidente. O que eles parecem querer mascarar é de que forma esta popularidade vem sendo construída. Uma das primeiras medidas de Chávez foi aprovar instrumentos legais que permitiram que ele substituísse funcionários públicos, juízes e promotores públicos por pessoas de sua confiança - o resultado disso é que o Ministério Público da Venezuela está sendo acusado por organizações não-governamentais independentes de processar os adversários políticos de Chávez sob o argumento de “traição à pátria” - um eufemismo para encobrir acusações de “traição ao presidente”, ou seja, oposição ao governo. Além disso, os magistrados atuam sob contratos temporários de três meses, os quais não são renovados caso o juiz tenha exarado qualquer decisão contrária aos interesses do governo. Os funcionários da estatal do petróleo da Venezuela que foram demitidos depois de uma greve geral contrária a Chávez estão em uma lista negra que os impede de arrumar qualquer emprego público e até mesmo de conseguir vagas em empresas privadas, já que o governo tem patrulhado as empresas em busca de opositores ao governo de Chávez - recentemente foi revelada a existência de um sistema que associava o voto do eleitor ao seu número do título eleitoral, o que veio à tona com a divulgação de um compact-disc de dados com informações sobre cerca de doze milhões de eleitores, e que estaria sendo usado pelos agentes do governo; na ficha eletrônica constam o nome, título eleitoral e orientação política de cada eleitor.

Chávez é elogiado pela esquerda brasileira por seus programas sociais. Em verdade, o presidente da Venezuela está virtualmente empregando todo o dinheiro do petróleo extraído de seu país para financiar sindicatos, cooperativas, programas sociais e até mesmo uma rede de supermercados popular. Tudo isso seria louvável se, por trás da intenção aparentemente boa, não houvesse o movimento do governo no sentido de fechar indústrias privadas (sobretudo as que pertencem aos opositores), invadir fazendas consideradas improdutivas (por meio de movimentos sociais patrocinados pelo governo, que avançam sobre propriedades rurais indicadas por ele e com a garantia de posse para os invasores) e subsidiar a produção das cooperativas populares comprando toda a produção desses centros locais de manufatura. A rede de supermercados populares Mercal, mantida pelo governo venezuelano, estaria levando os mercados e quitandas populares à falência, por vender produtos da cesta básica com até 40% (quarenta por cento) de desconto; os mercados do governo, aliás, têm servido bem à causa: as embalagens dos produtos Mercal trazem estampadas toda sorte de propaganda chavista.

Insisto em dizer que, em um continente empobrecido como a América Latina, é supreendente o empenho de um presidente no combate à pobreza. Mas Hugo Chávez está, em verdade, alimentando a pobreza, em um movimento que o escritor estadunidense Thomas Friedman chama de “Coalizão para Manter os Pobres Pobres”: suas políticas estão provocando a redução de postos de trabalho e construindo uma total dependência das camadas mais pobres da população às políticas sociais do governo - tudo isso sustentado pelo preço do barril de petróleo no comércio mundial, que saltou dos US$ 11 (onze dólares estadunidenses) no início da era Chávez para os US$ 50 (cinqüenta dólares estadunidenses) atuais. Além disso, a generosidade bolivariana (Chávez adora mencionar o nome de Simon Bolívar em vão, herança dos tempos de militar) tem sido expandida a vários países do mundo: Cuba tem sido beneficiada por uma balança comercial esquizofrênica, na qual Hugo Chávez doa petróleo e recebe, em troca, os itens da produção cubana que não são comercializáveis para outros países; na Bolívia, Chávez patrocinou a campanha de Evo Morales em 2002 para a presidência; na Argentina, foi magnânimo em comprar 100% (cem por cento) dos títulos da dívida pública argentina que estavam encalhados, sem compradores interessados no mercado internacional; até os Estados Unidos da América tiveram sua fatia da benevolência de Chávez, que está a vender óleo a preço módico para comunidades pobres de Nova Iorque e Boston.

Um pouco do excesso de democracia venezuelana foi quase implementado por aqui, quando o governo Lula tentou, subrepticiamente, implementar controles sobre a imprensa brasileira através de um conselho que seria facilmente transformável em censura em um segundo momento; Chávez não implementou ainda a censura prévia, mas tem leis a seu favor que lhe permitem estancar concessões de rádio e televisão quando bem entender. Mas o seu instrumento preferido de controle da imprensa tem sido o uso livre de horários políticos gratuitos em rede nacional de rádio e televisão; ele tem respaldo legal para entrar em cadeia nacional quando quiser, e usa-se disso indiscriminadamente: entre janeiro e setembro de 2005, foram cento e setenta e sete intervenções, totalizando trinta e sete mil minutos de exposição em mídia eletrônica - não estando computados aí as cinco horas semanais que ele tem na programação dominical de todas as emissoras, em um programa no qual usa sua retórica populista para criticar a imoralidade do lucro e a falência do sistema capitalista, que ele diz ser “contrário aos interesses do povo”.

No Brasil, não se enganem, há seguidores de Hugo Chávez, gente suficiente para causar rebuliço e cenas de tietagem impensáveis para visitas de líderes políticos ao Brasil (vi com meus próprios olhos, em Porto Alegre, quando ele fez um discurso inflamado para uma platéia eufórica no Fórum Social Mundial) - pessoas que aplaudem sua conversa de unidade bolivarianista sem se perguntar qual o preço a ser cobrado por tantas benesses. Diante de tudo isso, e relembrando que nosso atual presidente Luiz Inácio Lula da Silva considera a Venezuela um exemplo de democracia no continente americano, resta-nos vigiar e orar, usando a expressão evangélica, para que tal arremedo de poder do povo, pelo povo e para o povo jamais se instale em nosso país.

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Friday, December 16, 2005

Quem precisa de literatura?

Em um país de analfabetos funcionais como o nosso, em que a maior parte da população, em que pese ter passado pelos bancos escolares, não conseguem usar seus conhecimentos para ler o mais simples dos textos, discutir (ou produzir) literatura soa como um diletantismo vazio.

Para que serve a literatura, afinal?  Que importância incluir seu estudo nas séries iniciais, no ensino médio, nas provas de admissão à universidade?  Não seria a literatura um tema para ser analisado apenas pelos que optaram fazer o curso de Letras nas inúmeras faculdades do país que o oferecem?  E, aliás, para que servem os cursos de Letras, suas pesquisas, seus seminários e congressos sobre literatura?  Para que os livros, as revistas literárias, os cadernos didáticos, os debates e as teses todas sobre algo que, ora, pode ser visto por alguns como apenas um entretenimento para um seleto agrupamento de nossa população?

Creio que a literatura abre à percepção humana a possibilidade de adquirir conhecimentos que nenhuma outra área do pensamento humano permite acessar.  Ler romances, contos, poemas é, de certo modo, visitar um universo que não está presente em nenhuma ciência - o romancista, em sua liberdade de criar mundos, tem acesso aos pensamentos mais secretos de seus personagens, o que fornece ao leitor modelos sobre a vida que lhe propiciam um conhecimento sobre a vida humana que foge ao alcance da história, da biografia e mesmo da psicoanálise.

O romance, o conto, a ficção em todas as suas formas, pode servir ao leitor como o lago que espelhou Narciso, mostrando-lhe uma vida imaginada que é tal qual a sua, ou como o arauto que despertou Édipo de suas iniquidades.  O livro, que pertence ao leitor desde o momento em que este cruza a linha imaginária do início da obra - quando o que lê abandona para trás o mundo real e aceita o mundo da ficção como uma nova realidade - tem este poder de nos apresentar às vidas de pessoas que jamais existiram mas que são de tal forma humanas e verossímeis que podem despertar em nós as questões maiores de nossa existência, até mesmo aquelas que jamais havíamos desejado enfrentar.

Não quero impor à literatura qualquer caráter messiânico que não costumo enxergar em nenhuma forma de arte, nem aos artistas uma aura de grandeza que não é, em absoluto, aplicável a todos eles.  Mas vejo a literatura como uma forma de meditação insuspeitada, na qual o livro aberto à frente dos olhos toma a forma de um curioso relicário capaz de alimentar a alma dos que nele depositarem sua fé. 

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Wednesday, December 14, 2005

Bunkum!

Cada vez mais me convenço de que não importa o quão inocente, o quão boa for a sua intenção, sempre haverá alguém para encontrar ali uma malícia oculta, uma maldade mal disfarçada, uma crueldade atávica escondida por sob o que não é motivo de alarme para a grande maioria das pessoas.

Refiro-me ao artigo publicado em treze de dezembro de 2005 no conceituado jornal britânico The Times, no qual Kwame McKenzie, doutora em psiquiatria transcultural e professora da Universidade de Londres, arvora-se a analisar King Kong, a refilmagem de Peter Jackson baseada no clássico filme da década de 1930.

Para McKenzie, o King Kong de Peter Jackson, o renomado diretor da hercúlea transposição de O Senhor dos Anéis, a obra-prima de J. R. R. Tolkien, para as telas, reforça “a histeria colonial sobre a hiper-sexualidade dos negros”. Ela chega ao absurdo de associar a decisão de Jackson - por produzir uma nova versão do conto fantástico da equipe de cinema que encontra um enorme gorila em uma selva africana e, ludibriando o animal com seu amor pela jovem atriz do elenco, leva-o como atração caça-níqueis para a América - com a escolha de William Shakespeare de colocar um negro como personagem principal de seu drama Otello, pois “há uma clara associação entre o caráter dos personagens e o estereótipo do mouro” como vilão. (…)

Parece-me, em todo este pequeno imbroglio, que tudo recai sobre a velha máxima de que “vemos no coração dos outros o que no nosso transborda”. McKenzie defende com convicção algo que é digno de ser defendido - o fim dos preconceitos, a extinção das diferenças calcadas na cor da pele ou na origem da família -, mas para tal acaba por levantar anátemas sérios contra um diretor de cinema que, até onde se sabe, sempre teve como sonho de vida refilmar King Kong por ser este o filme que mais marcou sua infância e juventude. E Jackson é tão purista quanto a isso que retornou à história original os dinossauros que algumas versões anteriores extinguiram das telas, mas que constava da versão primeira dos anos 1930. O filme, aliás, deixa como mensagem o oposto do que a doutora em psiquiatria parece vislumbrar: o grande vilão não é o gorila gigantesco, mas os homens gananciosos - aliás, todos brancos - que o aprisionam e levam para a América apenas para explorá-lo e, com isso, fazer fortuna. (…) O mais breve comentário parece, contudo, ser o que melhor resume toda este discurso de repúdio ao filme de Jackson - “Bunkum!”, disse um leitor da Cumbria, usando uma palavra inglesa que eu até então desconhecia e que significa “discurso vazio ou pouco sincero; tolice”. (…)(LEIA O TEXTO COMPLETO ABAIXO)

Cada vez mais me convenço de que não importa o quão inocente, o quão boa for a sua intenção, sempre haverá alguém para encontrar ali uma malícia oculta, uma maldade mal disfarçada, uma crueldade atávica escondida por sob o que não é motivo de alarme para a grande maioria das pessoas.

Refiro-me ao artigo publicado em treze de dezembro de 2005 no conceituado jornal britânico The Times, no qual Kwame McKenzie, doutora em psiquiatria transcultural e professora da Universidade de Londres, arvora-se a analisar King Kong, a refilmagem de Peter Jackson baseada no clássico filme da década de 1930.

Para McKenzie, o King Kong de Peter Jackson, o renomado diretor da hercúlea transposição de O Senhor dos Anéis, a obra-prima de J. R. R. Tolkien, para as telas, reforça “a histeria colonial sobre a hiper-sexualidade dos negros”. Ela chega ao absurdo de associar a decisão de Jackson - por produzir uma nova versão do conto fantástico da equipe de cinema que encontra um enorme gorila em uma selva africana e, ludibriando o animal com seu amor pela jovem atriz do elenco, leva-o como atração caça-níqueis para a América - com a escolha de William Shakespeare de colocar um negro como personagem principal de seu drama Otello, pois “há uma clara associação entre o caráter dos personagens e o estereótipo do mouro” como vilão.

A intenção de McKenzie parece ser a de denunciar o que considera um filme de “conotações racistas”, e para tal acusa Jackson de sempre associar a maldade em seus filmes aos negros. Ela diz que os vilões do diretor neozelandês - referindo-se à trilogia O Senhor dos Anéis - são “negros enormes ou, alguns deles, descendentes de maoris” (faço uma ressalva: creio que ela se referia aos orks, criaturas que tinham esta coloração de pele no filme porque foram feitas da terra, conforme a descrição do próprio livro de Tolkien; além disso, confesso que sempre acreditei que o pior dos inimigos corpóreos que os pobres hobbits tiveram que enfrentar tinha um bruxo branco, e branco como a neve).

Kwame McKenzie, renomada psiquiatra e membro do King’s College of Psychiatrists, em que pese seu extenso e qualificado trabalho na área médica, deixa transparecer em seu texto que está por demais comprometida com uma agenda anti-racista, ao ponto de acusar Peter Jackson de “tocar o nervo exposto da associação darwiniana entre negros e macacos” - uma afirmação que, além de temerária, absolutamente foge de tudo o que o cientista britânico estudou e revelou ao mundo em suas pesquisas: não há referência a negros como descendentes dos símios na obra de Darwin, mas sim a teoria de que toda a raça humana teria evoluído dos macacos.

Mais adiante em seu artigo, ela chega a questionar os motivos pelos quais o diretor teria escolhido refilmar King Kong e não “qualquer outra coisa” (sic) - como se houvesse na realização cinematográfica de Jackson alguma intenção perversa de renovar antigos ódios raciais e incutir nas mentes a imagem de selvageria associada aos negros.

Parece-me, em todo este pequeno imbroglio, que tudo recai sobre a velha máxima de que “vemos no coração dos outros o que no nosso transborda”. McKenzie defende com convicção algo que é digno de ser defendido - o fim dos preconceitos, a extinção das diferenças calcadas na cor da pele ou na origem da família -, mas para tal acaba por levantar anátemas sérios contra um diretor de cinema que, até onde se sabe, sempre teve como sonho de vida refilmar King Kong por ser este o filme que mais marcou sua infância e juventude. E Jackson é tão purista quanto a isso que retornou à história original os dinossauros que algumas versões anteriores extinguiram das telas, mas que constava da versão primeira dos anos 1930. O filme, aliás, deixa como mensagem o oposto do que a doutora em psiquiatria parece vislumbrar: o grande vilão não é o gorila gigantesco, mas os homens gananciosos - aliás, todos brancos - que o aprisionam e levam para a América apenas para explorá-lo e, com isso, fazer fortuna. King Kong, o macaco, parece ter o coração nobre ao ponto de defender a loira atriz principal de qualquer tentativa contra a sua integridade física - por mais que queiram colocar nessa relação conotações sexuais no mínimo risíveis, ainda mais em sua tentativa de associar ao filme antigas lendas acerca de uma suposta hiper-sexualidade dos negros, para mim difícil de identificar na história.  A narrativa de King Kong, sua moral, parecem ter mais relação com O Homem Elefante de David Lynch que com O Nascimento de uma Nação de Griffith - este sim, um escancarado libelo racista, no qual até os personagens negros eram vividos por brancos maquiados e estereotipados até o último detalhe.

Alivio-me ao ler as inúmeras correspondências que o artigo da psiquiatra gerou em apenas um dia - a maioria delas criticando a visão tendenciosa de McKenzie, ainda que alguns leitores ainda tenham ido mais longe que ela, taxando o próprio Tolkien de racista. Parece que a maioria das pessoas já não engajam tão facilmente em discursos denuncistas como o da Dra. McKenzie. Como disse outro leitor, menos exaltado, não deveríamos “levar tudo tão à sério”, e com ele concordo plenamente, pois aí, sim, residem perigosos nascedouros do ódio.

O mais breve comentário parece, contudo, ser o que melhor resume toda este discurso de repúdio ao filme de Jackson - “Bunkum!”, disse um leitor da Cumbria, usando uma palavra inglesa que eu até então desconhecia e que significa “discurso vazio ou pouco sincero; tolice”.

Mas, enfim, sou daqueles que irá assistir o filme de Jackson com um enorme saco de pipocas amanteigadas, um refrigerante dietético e o coração aberto à diversão pura e simples. E pretendo ir logo, antes que algum membro de organização não-governamental de proteção aos animais resolva embargar sua exibição aqui em Porto Alegre, por conta do “incentivo à violência contra os macacos” que eles possam encontrar na nova fábula cinematográfica de Peter Jackson.

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Tuesday, December 13, 2005

Solidão

Sempre esse eterno marasmo,
Sempre essa eterna loucura,
Sempre essa luta, esse pasmo,
Sempre essa chaga sem cura,

Sempre esse eterno tumulto,
Sempre essa eterna inconsciência,
Sempre essa fuga, esse vulto,
Sempre sem cura essa ausência,

Sempre esse eterno suplício,
Sempre essa eterna quimera,
Sempre essa busca, esse vício,
Sempre sem flores essa primavera…

Da obra

(1996)
(Robertson Frizero Barros)

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Friday, December 9, 2005

Menina da Vida

É noite, e um conhecido programa de televisão aberta, que se pretende um programa da família brasileira, exibe um quadro de perguntas e respostas no qual o entrevistado tem sua voz analisada por um detector de mentiras eletrônico.  A entrevistada da noite é uma jovem de vinte e um anos, de classe média e codinome ”Surfistinha, cuja presença em tal quadro - em geral destinado a celebridades descartáveis - é justificada pelo fato de ela ser autora de um blog no qual relata os detalhes mais sórdidos - em um português idem - de sua profissão desde a mais tenra adolescência: ela é uma prostituta.Decididamente, a inversão total de valores na qual descambamos está chegando aos limites finais.  Parece mesmo que a prostituição e o crime são os valores que boa parte de nossa mídia assume, subrepticiamente, serem os ideais que devem perseguir os jovens que virão nas novas gerações.  Há vários sinais do que há de vir (…) (LEIA O TEXTO COMPLETO ABAIXO)

É noite, e um conhecido programa de televisão aberta, que se pretende um programa da família brasileira, exibe um quadro de perguntas e respostas no qual o entrevistado tem sua voz analisada por um detector de mentiras eletrônico.  A entrevistada da noite é uma jovem de vinte e um anos, de classe média e codinome ”Surfistinha, cuja presença em tal quadro - em geral destinado a celebridades descartáveis - é justificada pelo fato de ela ser autora de um blog no qual relata os detalhes mais sórdidos - em um português idem - de sua profissão desde a mais tenra adolescência: ela é uma prostituta.

Decididamente, a inversão total de valores na qual descambamos está chegando aos limites finais.  Parece mesmo que a prostituição e o crime são os valores que boa parte de nossa mídia assume, subrepticiamente, serem os ideais que devem perseguir os jovens que virão nas novas gerações.  Há vários sinais do que há de vir: nos Estados Unidos da América, já publicam uma revista especializada no público gangster, com dicas que envolvem desde a moda das quadrilhas criminosas às melhores formas de gestão de negócios escusos como o tráfico de drogas e a lavagem de dinheiro; no Rio de Janeiro, a recém-anunciada griffe de “roupas para prostituição” de nome Daspu (uma alusão à famosa loja dos abastados de São Paulo, que, aliás, está abrindo processo legal por conta disso), uma confecção gerida e operada por prostitutas do Rio de Janeiro, já anuncia planos de expansão dos negócios, já que a marca despertou imenso interesse depois de sua divulgação na imprensa nacional; bares em diversas grandes cidades brasileiras, com a chamada temática favela (à exemplo do famoso Favela Chic de Paris, França), cujos móveis e utensílios remetem às casas pobres das favelas cariocas, exibem à porta, para compor o imaginário sugerido pelo estabelecimento, seguranças vestidos de traficantes de drogas.

Qual é a lógica de tal fenômeno?  Será que alguém, em seu juízo perfeito, acredite ser interessante a violência, a exclusão social, a dependência de drogas, o sexo por dinheiro, a vida sem perspectiva de bandidos e afins?

Enquanto tento responder a tais indagações que, espero, sejam as de muitas pessoas inconformadas como eu, a tal Surfistinha discute com o apresentador da família brasileira quanto era a sua meta de faturamento anual como garota de programa, quais eram as posições sexuais mais solicitadas pelos clientes, quanto ela pediria para posar nua em uma revista masculina… E ela confessa sua mágoa por não ter sido perdoada por seus pais (a quem abandonou aos dezessete anos), por ter vivido dificuldades para manter seu padrão de vida de classe média alta apenas com o dinheiro da vida fácil, por ser mal vista pelas pessoas em geral, que não reconhecem o seu valor como escritora…  O apresentador pede para que ela se sinta livre para chorar, e força um clima de sentimentalismo barato ao insistir no tema da família abandonada pela prostituta juvenil.  Parece que os índices de audiência estão altos, e o diretor deve estar eufórico no pequeno ponto eletrônico na orelha direita do apresentador, que interrompeu a entrevista para fazer um breve comercial de um certo sal de frutas…  Boa pedida, um sal de frutas.

E durma-se com um barulho desses.  Espero, sinceramente, que as pessoas possam despertar rápido desse pesadelo do elogio à criminalidade.

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Vida de Menina

Ludmila Dayer como a menina Helena Morley em 'Vida de Menina'Em 1893, apenas quatro anos após a proclamação da república do Brasil, o país ainda vivia em uma espécie de limbo social, no qual as pessoas do povo - sobretudo aquelas que viviam em recantos mais distantes da antiga corte, então já renomeada capital federal, o Rio de Janeiro - , alheias às grandes decisões do centro do poder e às questões afeitas à nova ordem política republicana, aprendiam aos poucos a viver a realidade de uma nova nação sem soberanos ou escravos. 

Como o país que dava seus primeiros passos, uma menina da cidade de Diamantina, província de Minas Gerais, também começava a sua caminhada na vida adulta, em uma família de poucos recursos.  Neta de protestantes ingleses, vivendo em uma cidade eminentemente católica, Helena Morley encontrou nos diários que manteve por dois anos o alento para superar a pobreza da família, o trabalho duro e mal-sucedido do pai nas lavras de diamante, o assédio do tio e o desprezo dos parentes mais abastados, as mudanças naturais da menina que cresce para a vida e a dor da perda da avó materna que tanto amava.  Os diários, publicados em 1942 quando a protagonista completava já sessenta e dois anos, tornou-se um sucesso editorial no Brasil e ganhou mundo pelas mãos de tradutores renomados como a poetisa inglesa Elizabeth Bishop, que descobriu o livro em seus anos de residência no Brasil.  Em 2005, os relatos da menina sobre a vida provinciana do país que tão recentemente havia abolido a escravatura e proclamado um novo sistema de governo chegou às telas do cinema pelas mãos da diretora Helena Solberg sob o título “Vida de Menina”. (…)O filme é uma deliciosa viagem por um Brasil que vivia, mais que nunca, de hipocrisias e aparências; Helena Morley (magistralmente vivida por Ludmila Dayer), em seus relatos, acaba por revelar tais contradições. (LEIA O TEXTO COMPLETO ABAIXO)

Ludmila Dayer como a menina Helena Morley em 'Vida de Menina'Em 1893, apenas quatro anos após a proclamação da república do Brasil, o país ainda vivia em uma espécie de limbo social, no qual as pessoas do povo - sobretudo aquelas que viviam em recantos mais distantes da antiga corte, então já renomeada capital federal, o Rio de Janeiro - , alheias às grandes decisões do centro do poder e às questões afeitas à nova ordem política republicana, aprendiam aos poucos a viver a realidade de uma nova nação sem soberanos ou escravos. 

Como o país que dava seus primeiros passos, uma menina da cidade de Diamantina, província de Minas Gerais, também começava a sua caminhada na vida adulta, em uma família de poucos recursos.  Neta de protestantes ingleses, vivendo em uma cidade eminentemente católica, Helena Morley encontrou nos diários que manteve por dois anos o alento para superar a pobreza da família, o trabalho duro e mal-sucedido do pai nas lavras de diamante, o assédio do tio e o desprezo dos parentes mais abastados, as mudanças naturais da menina que cresce para a vida e a dor da perda da avó materna que tanto amava. 

Os diários, publicados em 1942 quando a protagonista completava já sessenta e dois anos, tornou-se um sucesso editorial no Brasil e ganhou mundo pelas mãos de tradutores renomados como a poetisa inglesa Elizabeth Bishop, que descobriu o livro em seus anos de residência no Brasil.  Em 2005, os relatos da menina sobre a vida provinciana do país que tão recentemente havia abolido a escravatura e proclamado um novo sistema de governo chegou às telas do cinema pelas mãos da diretora Helena Solberg sob o título “Vida de Menina”.

Em cartaz em Porto Alegre, o filme é uma deliciosa viagem por um Brasil que vivia, mais que nunca, de hipocrisias e aparências; Helena Morley (magistralmente vivida por Ludmila Dayer), em seus relatos, acaba por revelar tais contradições.  Seus registros de menina mostram a situação dos ex-escravos que, sem emprego possível de sua força de trabalho como homens livres, ainda viveriam por um longo tempo à mercê de seus senhores, vivendo de favor nas casas grandes e servindo como agregados às famílias que lhes foram donas, como uma forma humilhante de sobrevivência.  Livres, eles ainda eram tratados como casta inferior e sem direitos civis; em uma das cenas mais curiosas do filme, o destino de uma negra adolescente é decidido por conta de uma partilha de bens da falecida avó - não se questiona da jovem negra, mas livre, sua vontade; sabe-se que, por não ter para onde ir, ela se submeteria, dócil, à vontade a ela escolhida. 

A decadência das lavras de diamante na provícia de Minas Gerais é também parte da vida de Helena, pois seu pai insiste em buscar riqueza no garimpo que já nada lhe rende; o resultado são dívidas que lhe deixam na situação humilhante de tomar empréstimos continuados com o cunhado de posses.  De certo modo, o pai de Helena espelha a situação do país que surgia já com tão graves situações sociais a resolver, ainda mergulhado em sonhos de nobreza e poses de aristocracia. 

Em meio a tal situação de penúria, restou à menina Helena usar dos artifícios da esperteza para sobreviver - um pouco como o próprio povo brasileiro que, distante dos olhos dos que então governavam o país, precisaram reaprender a conduzir suas vidas sem a ação mais presente de um governo - antes, erma esquecidos do Império; agora, da República. 

O filme de Soldberg (também diretora do excelente documentário Bananas is my business, sobre Carmen Miranda) ganhou os merecidos prêmios de melhor filme, roteiro e fotografia no Festival de Gramado, e merece ser visto pela ternura com que a diretora nos transporta para o universo de Helena Morley e sua família, pela sutil aula de História do Brasil com que nos brinda, por não tentar, em nenhum momento, ser panfletária - um defeito tão comum no cinema brasileiro das últimas décadas - e, sobretudo, por ser uma bela e bem contada história verdadeira dos primeiros anos de nosso país, uma terra que parecia viver na mesma inocência conservada no olhar de Helena Morley.

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Wednesday, December 7, 2005

Um Talento Infinito

Combinando canções de seus dois últimos álbuns - o lírico “Um Amor Infinito” e o primeiro trabalho inteiramente dedicado à cidade natal do grupo, Lisboa, intitulado “Faluas do Tejo” -, o Madredeus, grupo musical português que em 2006 completará vinte anos de existência, mostrou aos porto-alegrenses na noite de ontem, dia seis de dezembro de 2005, que a boa música não carece de rótulos, fórmulas de sucesso ou “faixas de trabalho” para cativar o público. Em um Teatro do SESI lotado (em que pese o alto custo dos ingressos) para uma noite de terça-feira, o Madredeus apresentou, em um recital dividido em duas partes, dezesseis canções dos álbuns supracitados, abrindo o espetáculo com a evocativa ”Ó Luz da Alegria”, do álbum “Um Amor Infinito”. Teresa Salgueiro, a vocalista (vestida em um indefectível vestido longo branco e prateado) e seus companheiros músicos do grupo - Pedro Ayres Magalhães (violão clássico), José Peixoto (violão clássico), Fernando Júdice (baixo acústico) e José Peixoto (violão clássico) -, todos elegantemente vestidos em sóbrios ternos negros, foram já aplaudidos efusivamente na entrada do palco. O que se presenciou a partir daquele momento foi um dos melhores concertos vistos este ano em Porto Alegre.(…)

O público porto-alegrense, pelo que se observa em diversos espetáculos internacionais recentemente apresentados na cidade, é bastante crítico e ponderado para os aplausos que oferece aos artistas no palco; raramente chama para mais um “bis” final, exceto quando se sente cativado o suficiente para tal. O que se viu na noite de seis de dezembro de 2005 no Teatro do SESI foi um público arrebatado, que em um primeiro bis foi brindado com canções antigas e emblemáticas como “Céu da Mouraria” e “Haja o que Houver”, esta última solicitada aos brados por várias vozes na platéia e acompanhada, sob a bênção de Teresa Salgueiro, por um coro de mais de mil vozes que assistiam, comovidas, àquele momento de congraçamento espontâneo por intermédio da música do grupo. O público não aceitou a saída do grupo e, de pé, aplaudindo e gritando o nome do grupo, obteve mais um “bis”. Ao contrário do esperado, eles fugiram no segundo “bis” à fórmula fácil de cantar grandes sucessos do grupo - como “O Pastor”, por exemplo, música de maior sucesso do Madredeus e que ilustrou os anúncios televisivos do espetáculo daquela noite nas emissoras de televisão do Rio Grande do Sul. Teresa Salgueiro disse, suavemente, que eles iriam retornar ao repertório novo - e ninguém parecia se queixar. Afinal, quem poderia resistir à oportunidade de ouvir Teresa Salgueiro surpreender mais uma vez o público com canções maravilhosas como “Lisboa Rainha do Mar” e o inesquecível “Fado das Dúvidas”, cujos versos finais - “Agora diz-me o que farei / com a lembrança deste amor / Diz-me tu, que eu nunca sei / se voltarei ou não para ti / se ainda tenho o teu amor” - soaram ao público como a exata emoção que sentiam naquele instante: quando voltarão os Madredeus ao Brasil? Ainda contamos com o seu amor, ainda mereceremos, em futuro bem próximo, a oportunidade de ouvi-los e com eles viajarmos aos estados mais elevados da alma lusitana?

(LEIA O TEXTO COMPLETO ABAIXO)

Combinando canções de seus dois últimos álbuns - o lírico “Um Amor Infinito” e o primeiro trabalho inteiramente dedicado à cidade natal do grupo, Lisboa, intitulado “Faluas do Tejo” -, o Madredeus, grupo musical português que em 2006 completará vinte anos de existência, mostrou aos porto-alegrenses na noite de ontem, dia seis de dezembro de 2005, que a boa música não carece de rótulos, fórmulas de sucesso ou “faixas de trabalho” para cativar o público.

Em um Teatro do SESI lotado (em que pese o alto custo dos ingressos) para uma noite de terça-feira, o Madredeus apresentou, em um recital dividido em duas partes, dezesseis canções dos álbuns supracitados, abrindo o espetáculo com a evocativa ”Ó Luz da Alegria”, do álbum “Um Amor Infinito”. Teresa Salgueiro, a vocalista (vestida em um indefectível vestido longo branco e prateado) e seus companheiros músicos do grupo - Pedro Ayres Magalhães (violão clássico), José Peixoto (violão clássico), Fernando Júdice (baixo acústico) e José Peixoto (violão clássico) -, todos elegantemente vestidos em sóbrios ternos negros, foram já aplaudidos efusivamente na entrada do palco. O que se presenciou a partir daquele momento foi um dos melhores concertos vistos este ano em Porto Alegre.

Ainda que as canções dos dois últimos álbuns não fossem familiares à maioria do público presente, a beleza de ouvir Teresa Salgueiro - com sua voz perfeita e maviosa, que não titubeou um minuto sequer em todo o espetáculo - acompanhada de músicos tão habilidosos e concentrados foi o bastante para cativar os presentes a cada número. Após as boas vindas da cantora, o Madredeus apresentou a pungente canção “O Cantador”, uma espécie de profissão de fé da missão de cantar, tão aplicável à história e à coerente carreira do grupo, seguida da única peça instrumental da noite, “O Olival - A Passo, A Trote e A Galope”, magistralmente interpretada. “Suave Tristeza”, canção de Carlos Maria Trindade, e sobretudo “Vislumbrar - O Canto Encantado” - canção na qual a voz de Teresa se alterna entre tons graves, agudos e declamações como se não houvesse nisso maiores dificuldades (e sabemos que há, e muitas! Poucas cantoras conseguiriam fazer o que ela fez de modo tão sublime), fizeram com que a primeira parte do espetáculo já levasse o público aos primeiros aplausos de pé.

A segunda parte do concerto foi iniciada pela canção-título da turnê que se encerrou, para o ano de 2005, no Brasil: “Um Amor Infinito”, que Teresa Salgueiro definiu no palco como “um presente de Pedro Ayres Magalhães aos fãs de todo o mundo”; a canção, uma suave toada de amor, uma das mais belas canções do grupo, levou o público a retomar o entusiasmo pelo espetáculo logo de início. “Adoro Lisboa”, uma das mais belas canções do álbum “Faluas do Tejo”, a qual traz a marca inconfundível das composições de Fernando Júdice, foi uma das mais aplaudidas canções da noite. “Ao Crepúsculo - Onde é que está o meu amor?”, com seu sabor tão brasileiro, quase bossanovista, arrancou do público os primeiros gritos de euforia, os quais iriam prevalecer a partir do anúncio da última canção do grupo no programa a que se propunham apresentar naquela noite: “Moro em Lisboa”, carro-chefe do álbum “Um Amor Infinito”.

(Antes de narrar o que foram os instantes finais do concerto, cabe aqui abrir uma janela na narrativa para falar brevemente do Madredeus nos bastidores do espetáculo: como alguns dos fãs puderam atestar após o concerto, ao visitar o camarim e conhecer pessoalmente Pedro Ayres Magalhães, Teresa Salgueiro e Carlos Maria Trindade (infelizmente Fernando Júdice e José Peixoto tiveram que se ausentar logo), os músicos e a cantora não correspondem ao que normalmente se espera das grandes estrelas internacionais da música, como eles já o são. Eles são pessoas simples, cordatas, carinhosas com seu público e conhecedores atentos de seus fãs brasileiros, bem como da música e da cultura de nosso país - algo que já se suspeitava a partir das influências que vez por outra surgem em suas canções. Teresa Salgueiro é de uma docilidade, uma candura e uma paciência com os fãs que é mesmo inimaginável. Pedro Ayres Magalhães e Carlos Maria Trindade são de uma gentileza que deixam qualquer fã mais tímido totalmente à vontade para falar de seu amor pela música do grupo.)

O público porto-alegrense, pelo que se observa em diversos espetáculos internacionais recentemente apresentados na cidade, é bastante crítico e ponderado para os aplausos que oferece aos artistas no palco; raramente chama para mais um “bis” final, exceto quando se sente cativado o suficiente para tal. O que se viu na noite de seis de dezembro de 2005 no Teatro do SESI foi um público arrebatado, que em um primeiro bis foi brindado com canções antigas e emblemáticas como “Céu da Mouraria” e “Haja o que Houver”, esta última solicitada aos brados por várias vozes na platéia e acompanhada, sob a bênção de Teresa Salgueiro, por um coro de mais de mil vozes que assistiam, comovidas, àquele momento de congraçamento espontâneo por intermédio da música do grupo. O público não aceitou a saída do grupo e, de pé, aplaudindo e gritando o nome do grupo, obteve mais um “bis”. Ao contrário do esperado, eles fugiram no segundo “bis” à fórmula fácil de cantar grandes sucessos do grupo - como “O Pastor”, por exemplo, música de maior sucesso do Madredeus e que ilustrou os anúncios televisivos do espetáculo daquela noite nas emissoras de televisão do Rio Grande do Sul. Teresa Salgueiro disse, suavemente, que eles iriam retornar ao repertório novo - e ninguém parecia se queixar. Afinal, quem poderia resistir à oportunidade de ouvir Teresa Salgueiro surpreender mais uma vez o público com canções maravilhosas como “Lisboa Rainha do Mar” e o inesquecível “Fado das Dúvidas”, cujos versos finais - “Agora diz-me o que farei / com a lembrança deste amor / Diz-me tu, que eu nunca sei / se voltarei ou não para ti / se ainda tenho o teu amor” - soaram ao público como a exata emoção que sentiam naquele instante: quando voltarão os Madredeus ao Brasil? Ainda contamos com o seu amor, ainda mereceremos, em futuro bem próximo, a oportunidade de ouvi-los e com eles viajarmos aos estados mais elevados da alma lusitana?

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Tuesday, December 6, 2005

A Crítica Marxista e a Chatice Universal

Como é difícil encontrar interesse em quem segue uma única cartilha, quem parece ter lido um único e repetitivo livro e dele não consegue despregar os olhos viciados para analisar o mundo ao redor! 

Escrevo isto motivado por uma crítica que li a respeito de “Um Filme Falado”, do diretor português Manoel de Oliveira, em cartaz na Casa de Cultura Mário Quintana, aqui em Porto Alegre.  Sendo um centro cultural, a CCMQ tem o hábito salutar de expor, juntamente aos cartazes dos filmes em exibição, algumas críticas publicadas em diversos jornais do país sobre a obra.  Desta forma foi que tive acesso ao texto escrito por Maria Helena Nery Garcez, professora de Letras da USP, publicado na Folha de São Paulo de 24 de julho de 2005.(…) O filme permite inúmeras leituras dentro da grande metáfora de um Portugal que construiu um império cultural no século XXI - afinal, somos milhões de falantes da língua portuguesa no mundo - em viagem ao oriente, na companhia de outros antigos impérios do Ocidente - a França de Napoleão, a Itália dos romanos e a Grécia do helenismo - que hoje estão isolados culturalmente - à exceção da França, países que quase isoladamente mantém sua língua e cultura, sob a sombra de um passado glorioso. (…) O cruzeiro que calmamente passara pelo Mediterrâneo sofre um revez por conta de um atentado terrorista no Mar Vermelho - e é neste ponto que a crítica de Maria Helena Nery Garcez encontra azo para sua visão limitada pelo prisma marxista de observação do mundo.  Aos olhos de Garcez, o filme, por ter sido lançado em 2003 (ano da invasão do Iraque) colabora com a idéia de George W. Bush de cruzada libertadora, um “confronto entre os países do Primeiro Mundo (eixo do bem) e os países islâmicos (eixo do mal)”, já que “quem desestabiliza o balanço [do navio] é o vizinho árabe”.  Para a professora da USP, a ocorrência de um atentado terrorista no filme é uma “velada insinuação de que o mundo árabe constitui um traiçoeiro inimigo”, e ela consegue ver nisso ainda “um alerta não verbal, mais imagético”, por parte do diretor, “contra os novos bárbaros que constituem um perigo iminente e exigem mobilização”.  Seu antiamericanismo mal escondido chega a motivá-la a acusar Manoel de Oliveira de ter um “espírito de cruzado canônico”.

Creio ser este o pior mal trazido pela crítica marxista: tudo, absolutamente tudo, precisa ser visto sob um prisma da luta entre opressores e oprimidos, entre o terceiro mundo e o primeiro mundo, entre pobres e ricos, operários e patrões.  Tal visão reducionista faz com que não haja espaço na arte para o lírico, para a metáfora, para a discussão de questões mais amplas sem a viciada retórica do anti-imperialismo.  (…)(LEIA O TEXTO COMPLETO ABAIXO)

Como é difícil encontrar interesse em quem segue uma única cartilha, quem parece ter lido um único e repetitivo livro e dele não consegue despregar os olhos viciados para analisar o mundo ao redor! 

Escrevo isto motivado por uma crítica que li a respeito de “Um Filme Falado”, do diretor português Manoel de Oliveira, em cartaz na Casa de Cultura Mário Quintana, aqui em Porto Alegre.  Sendo um centro cultural, a CCMQ tem o hábito salutar de expor, juntamente aos cartazes dos filmes em exibição, algumas críticas publicadas em diversos jornais do país sobre a obra.  Desta forma foi que tive acesso ao texto escrito por Maria Helena Nery Garcez, professora de Letras da USP, publicado na Folha de São Paulo de 24 de julho de 2005.

O filme de Manoel de Oliveira, atualmente o diretor mais idoso em atividade no mundo, é uma grande parábola sobre a situação da Europa unificada e sobre os caminhos que o continente percorreu até chegar ao momento atual de aparente equilíbrio.  No filme, uma professora de história, a portuguesa Rosa Maria, viaja em um cruzeiro de Lisboa a Bombaim, na Índia, em companhia da filha Maria Joana.  No caminho, elas irão visitar alguns dos monumentos e paisagens mais significativos da história da civilização ocidental.  A bordo, são convidadas para compor a mesa de jantar do capitão do navio, um norte-americano, em companhia de suas convidadas - uma grega, Helena; uma italiana, Francesca; e uma francesa, Delfina. 

O filme permite inúmeras leituras dentro da grande metáfora de um Portugal que construiu um império cultural no século XXI - afinal, somos milhões de falantes da língua portuguesa no mundo - em viagem ao oriente, na companhia de outros antigos impérios do Ocidente - a França de Napoleão, a Itália dos romanos e a Grécia do helenismo - que hoje estão isolados culturalmente - à exceção da França, países que quase isoladamente mantém sua língua e cultura, sob a sombra de um passado glorioso.  Sem dúvida, o fato de o capitão do navio ser um estadunidense remete à situação atual de líder mundial dos Estados Unidos da América.

O cruzeiro que calmamente passara pelo Mediterrâneo sofre um revez por conta de um atentado terrorista no Mar Vermelho - e é neste ponto que a crítica de Maria Helena Nery Garcez encontra azo para sua visão limitada pelo prisma marxista de observação do mundo.  Aos olhos de Garcez, o filme, por ter sido lançado em 2003 (ano da invasão do Iraque) colabora com a idéia de George W. Bush de cruzada libertadora, um “confronto entre os países do Primeiro Mundo (eixo do bem) e os países islâmicos (eixo do mal)”, já que “quem desestabiliza o balanço [do navio] é o vizinho árabe”.  Para a professora da USP, a ocorrência de um atentado terrorista no filme é uma “velada insinuação de que o mundo árabe constitui um traiçoeiro inimigo”, e ela consegue ver nisso ainda “um alerta não verbal, mais imagético”, por parte do diretor, “contra os novos bárbaros que constituem um perigo iminente e exigem mobilização”.  Seu antiamericanismo mal escondido chega a motivá-la a acusar Manoel de Oliveira de ter um “espírito de cruzado canônico”.

Creio ser este o pior mal trazido pela crítica marxista: tudo, absolutamente tudo, precisa ser visto sob um prisma da luta entre opressores e oprimidos, entre o terceiro mundo e o primeiro mundo, entre pobres e ricos, operários e patrões.  Tal visão reducionista faz com que não haja espaço na arte para o lírico, para a metáfora, para a discussão de questões mais amplas sem a viciada retórica do anti-imperialismo.  Ver no filme uma ferramenta do império norte-americano é, no mínimo, um contrasenso: o filme é de um diretor consagrado mas nada popular; não se trata de um filme para as massas, mas para o reduzido circuito dos filmes de arte; em nenhum momento anterior de sua carreira o diretor fora panfletário ou claramente partidário desta ou daquela corrente política.  Mas, na visão marxista de nossa intelectualidade brasileira, fazer um filme que busca repensar a Europa - sem citar explicitamente o chamado Terceiro Mundo - é praticamente um crime de lesa majestade.

A crítica marxista - e isso permeia não só a crítica cinematográfica, mas também a literária - exige que a obra de arte tenha um teor social, um compromisso com a luta de classes, e não economiza palavras duras aos que não lhe seguem a cartilha.   Maria Helena Garcez, por exemplo, conclui seu artigo dizendo que “fez bem o júri [do Festival] de Veneza ao não premiar Um Filme Falado“, ou seja: por não dizer exatamente o que a crítica marxista espera - que a Europa explorou os países do terceiro mundo com suas ações colonialistas, que o terrorismo islâmico é uma reação ao imperialismo yankee, etc -, a professora de Letras regozija-se pelo filme não ter ganho nenhuma menção especial no festival de cinema.  Em outras palavras: se pensam como eu penso, é bom; se pensam diferente de mim - ou, neste caso, se não incluem no roteiro o que eu queria que tivessem incluído -, merece ser banido das telas e esquecido pelo público. 

Parece ser mesmo autêntica a idéia de que os críticos de arte vão perdendo, com o tempo, enroscados em suas teorias e agendas, o prazer inocente de admirar uma obra de arte com o coração aberto e desarmado.

Os olhos dos anti-imperialistas, como os de quaisquer radicais de qualquer corrente do pensamento, beiram à cegueira.  E os cegos, como podemos imaginar, não têm muitas razões para apreciar cinema. 

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