Friday, November 11, 2005

Escrevendo para crianças

“Eu estou quase inclinado a estabelecer esta idéia como um cânone, a de que uma história infantil que só é apreciada por crianças é uma história infantil ruim. As boas histórias sobrevivem. Uma valsa que você só aprecia enquanto está valsando não é uma boa valsa”.
(C. S. Lewis, autor de
As Crônicas de Narnia, em seu ensaio intitulado On the Three Ways of Writing for Children)

Há uma época do ano em Porto Alegre na qual o centro da capital gaúcha realmente é transformado - são os ansiosamente esperados quinze dias em que a Praça da Alfândega é tomada pela Feira do Livro de Porto Alegre (…). Este ano, uma das novidades (…) foi a transferência da área infanto-juvenil para os armazéns do Cais do Porto, possibilitando a expansão deste setor do evento que considero dos mais importantes, pelo caráter de formação de futuros leitores.  A necessidade dos organizadores de expandir o espaço infanto-juvenil do evento é, a meu ver, um reflexo do crescimento do mercado editorial voltado para aquela faixa etária - um aumento no número de publicações que, infelizmente, não é visto na mesma proporção no que diz respeito à qualidade do que se escreve para crianças no Brasil. (…) Felizmente, há bons lançamentos, até mesmo reedições de histórias clássicas, como as de Perrault e Lobato, em publicações que resgatam o texto e ilustrações originais. (…) Mas, por outro lado, vê-se também muita tolice multicolorida sendo vendida como livro infantil.  (…) E as tolices em forma de adaptação de textos clássicos? (…) 

Mas, bom ou ruim, o livro infantil é um instrumento importante na construção de futuros leitores. O objeto estranho, de capa dura e folhas de papel unidas por um emaranhado de costuras, só se tornará amigo da criança se for um companheiro também fiel dos adultos que a cercam. O livro infantil é para ser lido, primeiramente, pelos pais para seus filhos, pelos professores para seus alunos, pelos adultos para as crianças que, despertadas pela curiosidade de saber como saem daqueles papéis estranhos tantas aventuras divertidas e fantásticas, irão costurar aos poucos uma relação de amizade com o livro. (LEIA O TEXTO COMPLETO ABAIXO)

“Eu estou quase inclinado a estabelecer esta idéia como um cânone, a de que uma história infantil que só é apreciada por crianças é uma história infantil ruim. As boas histórias sobrevivem. Uma valsa que você só aprecia enquanto está valsando não é uma boa valsa”.
(C. S. Lewis, autor de
As Crônicas de Narnia, em seu ensaio intitulado On the Three Ways of Writing for Children)

Há uma época do ano em Porto Alegre na qual o centro da capital gaúcha realmente é transformado - são os ansiosamente esperados quinze dias em que a Praça da Alfândega é tomada pela Feira do Livro de Porto Alegre, um evento que já está em sua 51ª edição e prestes a ser declarado oficialmente Patrimônio Cultural do Estado do Rio Grande do Sul. Como carioca que sou, sinto-me à vontade para elocubrar que a Feira do Livro, a maior deste gênero na América Latina, é um dos motivos pelos quais esta cidade e este estado aparecem como os de maior número de livros lidos por ano por habitante.

Este ano, uma das novidades da Feira do Livro de Porto Alegre foi a transferência da área infanto-juvenil para os armazéns do Cais do Porto, possibilitando a expansão deste setor do evento que considero dos mais importantes, pelo caráter de formação de futuros leitores.

A necessidade dos organizadores de expandir o espaço infanto-juvenil do evento é, a meu ver, um reflexo do crescimento do mercado editorial voltado para aquela faixa etária - um aumento no número de publicações que, infelizmente, não é visto na mesma proporção no que diz respeito à qualidade do que se escreve para crianças no Brasil.

O escritor britânico C. S. Lewis, autor da fantástica série de livros infantis As Crônicas de Narnia - que muito em breve irão aportar em nossos cinemas, em caprichada produção estadunidense - e amigo pessoal de J. R. R. Tolkien, o autor do colossal O Senhor dos Anéis, colocou muito apropriadamente, em um ensaio intitulado Sobre as Três Maneiras de Escrever para Crianças, que a pior forma de se escrever para este público é seguir a máxima mercadológica de “dar ao público o que ele quer”. Na visão do escritor, buscar adivinhar o que o público infantil quer é, em geral, empobrecer qualquer mensagem que se queira expressar - pois em geral os adultos pouco ou nada saber do que realmente se passa na cabeça dos pequenos. Temos, nós adultos, uma visão muito distorcida do que seja a infância, embora tenhamos passado por ela - já que há a noção errônea, em nossa sociedade, de que se tornar adulto é abandonar todo e qualquer traço do que éramos em nossa infância.

Quais seriam, então, para o autor britânico, as formas mais valorosas de escrever para crianças? Ele cita duas maneiras que pôde observar na obra de vários autores contemporâneos seus, e mesmo anteriores a ele, que possibilitaram o sucesso de tais escritos junto ao público infantil. A primeira, observada na forma como surgiram os livros de Tolkien e Lewis Carroll, consistiria em escrever a partir de uma história contada para uma criança em particular - uma maneira de escrever que lembra aquela primeira, alerta Lewis, mas que neste caso é um “dar ao público o que ele quer” voltado para uma pessoa concreta, uma criança em particular, com a qual se pode manter uma relação real de oferta e retorno. Não se trata, neste caso, de escrever para “crianças” - tomando-se este substantivo plural como significando toda uma espécie em particular, distinta dos “adultos” - mas, sim, para uma criança que irá reagir a qualquer tentativa sua de narrar uma história como “se estivesse contando para uma criança” (uma idéia que quase sempre leva a uma redução vocabular e simbólica que leva as crianças ao enfado ou à rejeição do que se está a narrar; um erro, aliás, cometido até pela maioria dos livros didáticos escritos para as séries iniciais).

O segundo modo de escrever para crianças, diz C. S. Lewis, é o de escrever uma “história para crianças” por se sentir que este é o único gênero possível no qual aquele enredo poderia ser contado. Esta colocação de Lewis faz-me recordar de todos os livros de Monteiro Lobato que li na infância e que, já depois dos trinta anos, pude voltar a ler já com os olhos de adulto. São histórias que não se tornaram tolas com o tempo, que ainda estão plenas em significados e permitem diversos níveis de compreensão - como todos os clássicos da literatura infantil que posso recordar. Não creio, por exemplo, que Charles Perrault tenha escrito histórias como “Pele de Asno” - na qual uma princesa foge do castelo disfarçada sob uma pele de asno para fugir das ameaças incestuosas do rei seu pai - para crianças; mas elas oferecem várias formas de interpretação, diversos pontos de interesse de acordo com a idade e a capacidade de compreensão do leitor. Talvez por isso eu nunca tenha escrito para crianças - ainda não tive em mente uma história que me pedisse para ser escrita pela arte única do conto infantil.

E como andam os livros infantis que estão a fazer desta Feira do Livro de Porto Alegre um sucesso de vendas justamente nas faixas etárias a que eles se destinam? Felizmente, há bons lançamentos, até mesmo reedições de histórias clássicas, como as de Perrault e Lobato, em publicações que resgatam o texto e ilustrações originais. O Brasil é pródigo em escritores de livros infantis de qualidade, como Ruth Rocha e Ana Maria Machado (sendo injusto e citando apenas duas de minhas autoras preferidas), graças aos céus. Mas, por outro lado, vê-se também muita tolice multicolorida sendo vendida como livro infantil.

Há, por exemplo, uma profusão de livros cujos personagens principais são bruxas e bruxos - na poeira do grande sucesso editorial infanto-juvenil da década, a ótima série Harry Potter, da inglesa J. K. Rowling -, quase sempre pouco inspirados, alguns deles repletos de lugares-comuns e, pasmem, até mesmo generalizações e preconceitos que jamais deveriam constar em publicações voltadas para um público em formação. Além desse filão, existe uma avalanche de livros infantis baseados em famosos personagens de desenhos animados - nenhum problema com isso - cujo apelo é tão-somente o protagonista, por si só, já que as histórias são amorais e, em geral, tolas. As meninas, em especial, estão sendo bombardeadas com livrinhos sobre princesas e bonecas em uma quantidade tão imensa que deveriam fazer os pais desconfiarem dessas publicações como mero merchandising para vender brinquedos… Nada de jogo de palavras, cadências divertidas e sons repetidos que despertem a criança para o uso da linguagem como diversão - parece que, aos olhos de algumas editoras infantis, livro infantil é sinônimo de livro colorido. O pior de tudo são os livros de escritores renomados, celebridades instantâneas, cantores e outros famosos que se arvoram a escrever livros infanto-juvenis sabe-se lá porquê - talvez apenas para completar aquelas metas míticas de “ter um filho, plantar uma árvore e escrever um livro”.

E as tolices em forma de adaptação de textos clássicos? Há desde um livro que se propõe a explicar para as crianças o existencialismo (para que?) de Jean Paul Sartre, o autor dos indigestos A Idade da Razão e A Náusea, em um livro que transforma o filósofo e sua companheira em Sartrezinho e Simoninha de Beauvoir… Outro livro que causa espanto é uma adaptação modernosa da Lenda dos Cavaleiros da Távora Redonda que oferece “uma versão divertida do triângulo amoroso de Artur, Guine e Lance (sic!)”. Mas ambos os livros são bem coloridos.

Mas, bom ou ruim, o livro infantil é um instrumento importante na construção de futuros leitores. O objeto estranho, de capa dura e folhas de papel unidas por um emaranhado de costuras, só se tornará amigo da criança se for um companheiro também fiel dos adultos que a cercam. O livro infantil é para ser lido, primeiramente, pelos pais para seus filhos, pelos professores para seus alunos, pelos adultos para as crianças que, despertadas pela curiosidade de saber como saem daqueles papéis estranhos tantas aventuras divertidas e fantásticas, irão costurar aos poucos uma relação de amizade com o livro.

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Thursday, November 10, 2005

De cabeça para baixo

“I wanted the tension of waiting for something to happen, and then you should just get drawn into the rhythm of the thing. It’s elaborate without any point.” (Bruce Nauman, videoartista, sobre sua obra Revolving Upside Down)

O modernoso Segundo Caderno do jornal Zero Hora, de Porto Alegre, ao querer elogiar uma exposição anunciada para acontecer nos jardins de um parque da capital gaúcha, acabou involuntariamente ofendendo os artistas. Uma pequena, mas lastimável gafe para os tais “nomes de ponta da arte contemporânea internacional”, nas palavras do jornal, a terem seus trabalhos ali representados.

Explico-me. O autor deu o título de Sessão Experimental de Cinema a uma matéria de capa sobre uma mostra de trabalhos da autointitulada videoarte. (…) E os adeptos desta arte que usa o vídeo como instrumento de expressão, enrugam o cenho e soltam o verbo ao serem comparados à televisão e ao cinema. Para eles, há uma diferença visceral entre o que fazem e aquelas formas tão comerciais de uso da imagem em movimento: a videoarte não se utiliza das inúmeras convenções existentes no fazer cinematográfico ou televisivo, ou seja, não necessariamente usa atores, diálogo, roteiro narrativo “ou qualquer outra ferramenta que faz do cinema e da televisão uma forma de entretenimento”, nas palavras dos próprios videoartistas.

O que se deve esperar da videoarte, então? (…)Há composições em vídeo para todos os gostos. Menos, a meu ver, para o bom gosto. (LEIA O TEXTO COMPLETO ABAIXO)

“I wanted the tension of waiting for something to happen, and then you should just get drawn into the rhythm of the thing. It’s elaborate without any point.” (Bruce Nauman, videoartista, sobre sua obra Revolving Upside Down)

 

O modernoso Segundo Caderno do jornal Zero Hora, de Porto Alegre, ao querer elogiar uma exposição anunciada para acontecer nos jardins de um parque da capital gaúcha, acabou involuntariamente ofendendo os artistas. Uma pequena, mas lastimável gafe para os tais “nomes de ponta da arte contemporânea internacional”, nas palavras do jornal, a terem seus trabalhos ali representados.

Explico-me. O autor deu o título de Sessão Experimental de Cinema a uma matéria de capa sobre uma mostra de trabalhos da autointitulada videoarte. A Secretaria Municipal de Cultura de Porto Alegre investiu, por meio de sua Coordenação de Cinema, Vídeo e Fotografia, na organização de uma exposição de vinte exemplares, dentre os mais famosos e representativos desta contemporânea modalidade artística. E os adeptos desta arte que usa o vídeo como instrumento de expressão, enrugam o cenho e soltam o verbo ao serem comparados à televisão e ao cinema. Para eles, há uma diferença visceral entre o que fazem e aquelas formas tão comerciais de uso da imagem em movimento: a videoarte não se utiliza das inúmeras convenções existentes no fazer cinematográfico ou televisivo, ou seja, não necessariamente usa atores, diálogo, roteiro narrativo “ou qualquer outra ferramenta que faz do cinema e da televisão uma forma de entretenimento”, nas palavras dos próprios videoartistas.

O que se deve esperar da videoarte, então? Nas palavras de um videoartista, às quais tive acesso por intermédio da rede mundial de computadores, as intenções da videoarte podem ser “desde a simples exploração das fronteiras da mídia usada até mesmo atacar rigorosamente as expectativas do público sobre o vídeo como é comumente tratado pelo cinema convencional”. Em outras palavras, espere da videoarte o mesmo que oferecem as demais frações da chamada arte contemporânea - ou seja, não muito. Para mim, particularmente, a videoarte parece mais uma forma de arte(?) feita para os próprios artistas, um círculo hermético que se retroalimenta das suas bizarras concepções do que é a arte em uma época na qual parece ser “proibido proibir”.

Na arte contemporânea, parecem ser inprescindíveis as explicações delongadas de suas intenções, sem as quais o público, naturalmente já alheio ao tal diálogo com a arte que tais trabalhos propõem, fica ainda mais distante de qualquer compreensão. Não há arte contemporânea sem o acompanhamento de um memorial descritivo, enfim. Vejamos, então, como se explicam os trabalho que compõem a programação de tal mostra patrocinada pelo governo local. Em Revolving Upside Down, Bruce Nauman, um videoartista, aparece girando em torno do próprio braço, a mão encostando o chão, no fundo de uma sala, com a câmera a captá-lo de cabeça para baixo. O artista declarou que sua intenção era “a tensão de aguardar que algo aconteça, e então depois você apenas se lançar no ritmo da coisa”. Ele disse ter se inspirado em uma passagem de uma peça teatral de Samuel Beckett na qual os personagens transportam pedras de um lado a outro do palco, nos bolsos de um sobretudo. Para Nauman, a cena foi uma revelação, pois mostra “algo extremamente elaborado, mas sem nenhuma razão de ser”.

Mas o trabalho de Nauman é doce e poético diante da proposta de Bob Flanagan, um videoartista estadunidense falecido em 1996: em Autopsy, o artista(?) - que se autointitulava um supermasoquista -, filma uma longa e descabida sessão de autoflagelação e sadomasoquismo com a ajuda de sua companheira e dominatrix Sheere Rose. Flanagan, desnudo, serve de divã para a companheira, vestida de avental e luvas cirúrgicas, enquanto ela discorre sobre a paixão dos dois. O detalhe é que a narrativa de Rose é intercalada por pausas nas quais ela soqueia o rosto do amado, puxa os piercings do corpo de Flanagan ou simplesmente enche-o de tapas. Depois, com tom didático, ela exemplifica no companheiro uma série de procedimentos sadomasoquistas (e reivindico o direito de não precisar descrever nenhum deles aqui, pois minha intenção, diferente dos contemporâneos, não é a de chocar ninguém).

Há de tudo na exposição, do grotesco ao risível - uma artista que se trancou em uma jaula de zoológico, outra que se submeteu a uma série de cirurgias para mostrar como era capaz de adequar-se aos padrões de beleza nas diversas épocas da história (o vídeo mostra os procedimentos em detalhes que são verdadeiramente abjetos), um artista italiano que filma sua boca enquanto acumula saliva por irritantes vinte e dois minutos, uma mulher que conta todos os detalhes da morte de seu esposo e seu posterior luto com o rosto fincado por dezenas de agulhas de acupuntura… Enfim, há composições em vídeo para todos os gostos.

Menos, a meu ver, para o bom gosto.

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Wednesday, November 9, 2005

Os Palhaços

“Ridi, Pagliaccio, sul tuo amore in franto!
Ridi del duol t’avvelena il cor!”
(Cena final do primeiro ato da ópera
I Pagliacci, de Ruggero Leoncavallo(1858-1919)

Anuncia-se em Porto Alegre, para a segunda quinzena de novembro, a encenação da ópera I Pagliacci, de Ruggero Leoncavallo, pelo Instituto de Cultura Musical da PUC-RS, com a participação de sua orquestra e coral - do qual sou um orgulhoso ex-integrante. Parece-me, aliás, que a escolha desta ópera em especial é por demais apropriada para o momento atual de nossa política. (…) Nosso presidente Luiz Inácio Lula da Silva, não sei se os leitores hão de concordar comigo, lembra Canio, o palhaço e líder da trupe, que há meses reclama por sentir-se traído, por desconhecer as aproximações escusas e o envolvimento promíscuo de seu partido com empresários fraudadores e políticos fisiologistas e, ao que consta, não querer acreditar que tudo isso verdadeiramente aconteceu.(…) Na derradeira cena de I Pagliacci, Canio canta seu último verso, mãos sujas de sangue, olhos esgazeados de pavor e fúria a mirar a praça do vilarejo lotada pela platéia: La commedia è finita!… Na Praça dos Três Poderes, infelizmente, a comédia parece nunca ter fim. (…) (LEIA O TEXTO COMPLETO ABAIXO)

“Ridi, Pagliaccio, sul tuo amore in franto!
Ridi del duol t’avvelena il cor!”
(Cena final do primeiro ato da ópera
I Pagliacci, de Ruggero Leoncavallo(1858-1919)

Anuncia-se em Porto Alegre, para a segunda quinzena de novembro, a encenação da ópera I Pagliacci, de Ruggero Leoncavallo, pelo Instituto de Cultura Musical da PUC-RS, com a participação de sua orquestra e coral - do qual sou um orgulhoso ex-integrante. Parece-me, aliás, que a escolha desta ópera em especial é por demais apropriada para o momento atual de nossa política. Peço-lhes a paciência de me acompanhar nesta minha grande metáfora.

Na ópera, tudo começa quando um envelhecido corcunda, Tonio, artista de uma trupe mambembe, surge ante os presentes e lembra ao público que, por detrás da mágica teatral, os atores movem-se em uma trama de emoções genuinas, interesses terrenos, paixões verdadeiras. Ele, então, ordena que as cortinas se abram e o espetáculo comece. Tudo se passa na praça principal de uma pequena vila, onde se apresentará a trupe de atores. Canio, o líder do grupo e palhaço durante as funções junto ao público, é convidado para tomar um aguardente em uma taverna próxima, quando então é avisado pelo estranho sobre um possível envolvimento de Nedda, esposa de Canio, com outro ator da trupe - Tonio, o qual, nas encenações, fazia papel de amante da tal atriz. Canio enche-se de ira, pois desconhecia tal romance, e exprime aos que estão a seu redor que a situação o desagrada, que se sente brutalmente atraicionado.

Enquanto isso, Tonio acaba por revelar a Nedda sua paixão - mas ele é rechaçado por ela e promete vingança. Nedda, em verdade, mantém um romance secreto com um dos moradores da vila, Silvio, que lhe cobra a promessa de abandonar o esposo. Tonio, descobrindo as relações escusas entre os dois, delata a Canio as urdiduras dessa paixão secreta de Nedda. Canio promete cortar o mal pela raiz, mas Silvio foge e Nedda, pressionada, recusa-se a revelar o nome do amante. Embora sua vontade seja destruir Nedda, Canio é impedido por outro membro da trupe, Beppe, que lembra ao líder do grupo que o público está a postos para assistir o desenrolar do drama por eles ensaiado. Embora seu coração esteja ferido, traído, ele veste sua roupa e maquiagem de palhaço e sobe ao palco…

Não seria exagerado de minha parte tecer um interessante paralelo entre o libreto operístico e os escândalos políticos atuais. Como na ópera, a trama da crise corrente começou com um veterano político nacional, não por acaso notório por suas deformidades em termos de caráter como deputado, revela ao povo que, por trás da aparência de negociação política, há toda uma urdidura de trocas de interesse e, o que é mais aterrador, dinheiro público na forma de repasses mensais de dinheiro a comprar consciências e opiniões de outros parlamentares (e suspeita-se que, como o corcunda Tonio, ele tenha iniciado seu movimento de vendetta ao se ver rechaçado pelas forças partidárias da atual gestão do Palácio do Planalto quando do processo de acusação de seu envolvimento em um esquema de propina na Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos).

Nedda, a adúltera atriz que personifica a Colombina no drama dentro do drama, pode ser a metáfora de vários envolvidos no caso - Delúbio Soares, Silvio Pereira, José Genoíno, José Dirceu - ou de todos estes juntos, que em nome de um partido que exalava valores morais maiores e era pródigo em lançar anátemas no cenário político brasileiro, em verdade coordenavam por detrás do pano de cena uma pantomima de desvio de dinheiro do contribuinte e financiamento eleitoral ilícito jamais vista neste nosso país (e, como Nedda, como tentam esconder esses senhores, por trás da maquiagem de Colombina, a face de decaídos).

Nosso presidente Luiz Inácio Lula da Silva, não sei se os leitores hão de concordar comigo, lembra Canio, o palhaço e líder da trupe, que há meses reclama por sentir-se traído, por desconhecer as aproximações escusas e o envolvimento promíscuo de seu partido com empresários fraudadores e políticos fisiologistas e, ao que consta, não querer acreditar que tudo isso verdadeiramente aconteceu.

O final de I Pagliacci, como de toda ópera que ostenta tal denominação, não é feliz. Canio, enfurecido com a traição, o romance secreto que descobre haver entre Nedda e Silvio - uma revelação que, como no Hamlet de William Shakespeare, surge no drama dentro do drama -, mata o amante e a esposa em pleno palco, na frente de todo o público.

Confesso que não tenho visto no presidente Lula vontade, convicção ou força moral para efetuar o derradeiro ato, o de dar um basta à traição revelada ao povo pelas mãos tortuosas de nosso Tonio-Roberto Jefferson - o qual, ironicamente, arvora-se a ser um cantor lírico amador, apesar da perceptível falta de talento -, promovendo o assassínio simbólico dos que, segundo ele mesmo, teriam traído a ele, presidente, ao Partido dos Trabalhadores e ao povo brasileiro. Pensando bem, comparar Lula a Canio parece mesmo ser um exagero, pois dificilmente o desfecho da crise política atual será o mesmo da ópera…

Na derradeira cena de I Pagliacci, Canio canta seu último verso, mãos sujas de sangue, olhos esgazeados de pavor e fúria a mirar a praça do vilarejo lotada pela platéia: La commedia è finita!… Na Praça dos Três Poderes, infelizmente, a comédia parece nunca ter fim. E o público - ao menos aqueles que conseguiram acompanhar a encenação desde o princípio, com atenção e cuidado - não tem a mínima vontade de pedir bis.

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Tuesday, November 8, 2005

Inversão de papéis

O sexo banalizou-se na vida das pessoas ao ponto de termos, hoje, risíveis inversões sociais.

  Recentemente assisti a uma peça teatral que fazia humor justamente com esta percepção: Caras e Bocas, com um excelente texto da atriz gaúcha Ângela Dip, encerra-se com uma cena na qual duas prostitutas apresentam uma palestra em uma suposta convenção para colegas de profissão - nós, o público.  As personagens reclamam que os homens já não se interessam muito pelos serviços da profissão mais antiga do mundo, pois hoje “as donas-de-casa já fazem tudo e mais um pouco” em termos eróticos, não deixando nada a dever para as profissionais.  (…) Uma das constatações mais divertidas das prostitutas da ficção teatral é a de que “qualquer livraria, qualquer banca de jornal hoje em dia vende manuais completos sobre sexo, ensinando as mais diferentes e ousadas posições - há até livros em que gays ensinam mulheres a fazer sexo oral em seus parceiros!”. (…) Ainda que o tom da comédia seja mesmo o da galhofa, Ângela Dip coloca às claras o que muitos ainda parecem não enxergar: o movimento feminista, com sua bandeira de liberação sexual, descambou para o que hoje vemos nas revistas femininas - nunca se falou tanto em formas, as mais díspares e exóticas, de agradar o homem. (…) (LEIA O TEXTO ABAIXO)

O sexo banalizou-se na vida das pessoas ao ponto de termos, hoje, risíveis inversões sociais.

  Recentemente assisti a uma peça teatral que fazia humor justamente com esta percepção: Caras e Bocas, com um excelente texto da atriz gaúcha Ângela Dip, encerra-se com uma cena na qual duas prostitutas apresentam uma palestra em uma suposta convenção para colegas de profissão - nós, o público.  As personagens reclamam que os homens já não se interessam muito pelos serviços da profissão mais antiga do mundo, pois hoje “as donas-de-casa já fazem tudo e mais um pouco” em termos eróticos, não deixando nada a dever para as profissionais.  Elas comentam também que o próprio jeito de vestir das meninas da beira do cais do porto, das mariposas, das garotas de programa, hoje é moda - e uma moda que é vendida a peso de ouro nas butiques mais chiques e, em um país destemperado como o nosso, estendida também para as adolescentes e meninas de qualquer idade.

Aliás, uma das melhores piadas dessa cena é quando as prostitutas falam que decidiram “oferecer a palestra em um horário alternativo para que as colegas não perdessem horas de trabalho” e, olhando para o visual de algumas mulheres da platéia, disparam: “…se bem que estou vendo, pelas roupas de vocês, que algumas já vão sair daqui direto para o batente!” (O pior é que muitas mulheres sequer parecem ter a noção de que certos elementos dessa moda femme facile - permitam-me o trocadilho maroto -, como a calça de cós baixo, as blusas baby look, os piercings e as tatuagens não caem bem em todos os tipos físicos e em todas as ocasiões sociais…)

  Uma das constatações mais divertidas das prostitutas da ficção teatral é a de que “qualquer livraria, qualquer banca de jornal hoje em dia vende manuais completos sobre sexo, ensinando as mais diferentes e ousadas posições - há até livros em que gays ensinam mulheres a fazer sexo oral em seus parceiros!”. Ao final da cena, as duas palestrantes mostram o que seria o padrão da nova prostituta contemporânea: uma mulher vestida à antiga, com pouco ou nada do corpo à mostra; uma mulher recatada, e que pouco ou nada soubesse do que o homem mais gosta na cama - pois isso seria o que o homem moderno já não encontra nas mulheres de família da sociedade… Afinal, a razão de ser das tristes mulheres de vida fácil não é justamente dar aos podres clientes que as usam o que eles não encontram nas mulheres ditas decentes?

  Ainda que o tom da comédia seja mesmo o da galhofa, Ângela Dip coloca às claras o que muitos ainda parecem não enxergar: o movimento feminista, com sua bandeira de liberação sexual, descambou para o que hoje vemos nas revistas femininas - nunca se falou tanto em formas, as mais díspares e exóticas, de agradar o homem.  Ou seja: as mulheres eram submissas aos seus maridos, lutaram pela liberdade e igualdade de direitos e agora retornam a uma escravidão das vontades do homem sob o manto de uma pseudo-liberação. 

Na melhor adequação à pregação da recém-espiritualizada Toni Bentley - a autora estadunidense que citei recentemente ao comentar o livro em que ela declara ter mantido contato com Deus ao praticar uma certa posição sexual nada comum ao universo das fantasias eróticas femininas - a submissão parece ser vista pelos contemporâneos como o segredo da salvação para as filhas e netas do feminismo.

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Monday, November 7, 2005

Sexo e Epifania

“Encontrei por acaso a grande piada cósmica, a suprema ironia de Deus.  Entre pela saída.  O paraíso está esperando.”
(Toni Bentley, ex-bailarina norte-americana, em seu livro autobiográfico A Entrega)

Há várias descrições presentes nas narrativas de todos os povos e épocas sobre as formas pelas quais homens e mulheres considerados iluminados atingiram a espiritualidade, contataram o divino, estiveram na presença de Deus - seja lá qual expressão se prefira usar para descrever o que os anglófonos chamam de epiphany, ou seja, o momento único em que o homem tem a oportunidade de suplantar sua existência meramente material e contatar, com um grau maior de transcendência e compreensão, algo do que se passa além das barreiras do mundo de ilusões de que nos falam os budistas, do nosso mundo de carne, osso e matéria bruta.(…)Nenhuma dessas epifanias, contudo, por mais bizarras e inacreditáveis que possam parecer a este ou aquele leitor mais incrédulo, encontra comparação com o que nos narra Toni Bentley, ex-bailarina norte-americana, em seu recém-lançado livro autobiográfico The Surrender (em inglês, A Submissão(…). A autora descreve no livro, entre outros tantos temas, sua experiência com o divino, seu encontro com Deus, seu momento maior de elevação, o qual teria sido atingido pela prática do sexo anal. (…)(LEIA O TEXTO COMPLETO ABAIXO)

“Encontrei por acaso a grande piada cósmica, a suprema ironia de Deus.  Entre pela saída.  O paraíso está esperando.”
(Toni Bentley, ex-bailarina norte-americana, em seu livro autobiográfico A Entrega)

Há várias descrições presentes nas narrativas de todos os povos e épocas sobre as formas pelas quais homens e mulheres considerados iluminados atingiram a espiritualidade, contataram o divino, estiveram na presença de Deus - seja lá qual expressão se prefira usar para descrever o que os anglófonos chamam de epiphany, ou seja, o momento único em que o homem tem a oportunidade de suplantar sua existência meramente material e contatar, com um grau maior de transcendência e compreensão, algo do que se passa além das barreiras do mundo de ilusões de que nos falam os budistas, do nosso mundo de carne, osso e matéria bruta.

Moisés, na tradição judaico-cristã, teria visto o Deus de Abraão ao subir um monte, onde uma sarça ardia em chamas mas não se consumia, e uma voz lhe dizia que ele pisava em terra santa. 

Zaratustra, um jovem pastor persa, teria mantido contato com a divindade após um retiro voluntário de dez anos, quando deixou seu povo e foi viver em cavernas na região mais montanhosa da Pérsia, atual Irã.  Ao regressar para o vilarejo de origem de sua família, ele teria sido contemplado com sete visões de Ahura Mazda, o Deus Todo-poderoso, e daí iniciado sua peregrinação como profeta. 

Saulo, um jovem fariseu da cidade de Tarso, terra de estoicistas e libera civitas do Império Romano, teria encontrado o Deus dos cristãos no caminho de Damasco, em uma visão que o teria deixado cego, mas que também lhe revelaria, a um só tempo, sua missão espiritual e o lugar onde deveria buscar a cura para o novo mal que lhe afligia.

Mohammad, um condutor de caravanas de quarenta anos de idade, ao afastar-se para um retiro meditativo na caverna de Gar Hidá, nas proximidades da cidade de Meca, teria recebido a visita do Anjo Gabriel, que lhe ordenou por três vezes que recitasse em nome de Deus as palavras que iriam compor a revelação do Deus Único. 

Helena, mãe do imperador romano Constantino, teria sido orientada por anjos em um sonho sobre o local onde a verdadeira cruz na qual Jesus, o Cristo, teria sido enterrada.

Joseph Smith, um jovem fazendeiro recém-casado que vivia em uma casa doada por seu sogro em uma propridade rural no estado da Pennsylvania, Estados Unidos da América, teria recebido de um anjo do Senhor a indicação para desenterrar, em um local que Smith chamou posteriormente de Cumorah, um livro sagrado escrito em placas de ouro maciço, chamado de Livro de Mormon, escrito em símbolos de uma língua que apenas ao jovem fora permitido traduzir e cuja visão a olho nu levaria qualquer outro ser humano à morte imediata.

Hypollyte Denizard Rivail, um renomado pedagogo lionês, teria sido apresentado à sua missão espiritual quando a ele lhe fora revelado, por um espírito manifestado por intermédio de uma jovem parisiense em transe, que ele, Rivail, teria sido um sacerdote druida de nome Allan Kardek em uma vida pregressa, e que retornava naquela existência para trazer ao mundo uma nova revelação.

Francisco Cândido Xavier, ainda menino franzino em Pedro Leopoldo, interior de Minas Gerais, teria tomado contato com Deus por meio de uma visita de sua mãe já desencarnada, a qual lhe apresentaria um espírito iluminado, de nome Emmanuel, que seria seu mentor espiritual e amigo em seu trabalho posterior na divulgação da doutrina codificada por aquele mesmo pedagogo de Lyon, algumas décadas antes.

Raimundo Irineu Serra teria recebido sua iluminação espiritual quando de uma visão, em Brasiléia, no Acre, na qual teria confabulado com Nossa Senhora da Conceição, a Rainha da Floresta, que lhe fez encarregado de divulgar uma nova doutrina cristã que teria como um dos pontos centrais a ingestão da ayauasca, um chá composto por duas plantas amazônicas que teria o poder de ampliar a percepção cósmica dos homens.

Nenhuma dessas epifanias, contudo, por mais bizarras e inacreditáveis que possam parecer a este ou aquele leitor mais incrédulo, encontra comparação com o que nos narra Toni Bentley, ex-bailarina norte-americana, em seu recém-lançado livro autobiográfico The Surrender (em inglês, A Submissão, mas que a editora brasileira preferiu traduzir como A Entrega - Memórias Eróticas), trazido até meus olhos pela reportagem do caderno Donna - dedicado à moda, comportamento e temas afins - do jornal  Zero Hora, de Porto Alegre, do dia 6 de novembro de 2005. 

A autora descreve no livro, entre outros tantos temas, sua experiência com o divino, seu encontro com Deus, seu momento maior de elevação, o qual teria sido atingido pela prática do sexo anal.  Sim - preciso repetir isso sob pena de que passe despercebido -, o sexo anal teria sido seu caminho para encontrar sua espiritualidade - e, para não soar como puritano ou reacionário, prefiro aqui reproduzir suas palavras, para que o leitor faça seu próprio julgamento: “minha transformação não foi de baixo para cima, mas de baixo para baixo: de minha desprezível submissão emocional à abençoada submissão sexual“.  Para Toni, que no livro declara ter sido sodomizada (perdoe-me pela referência bíblica a Sodoma e Gomorra) duzentas e noventa e oito vezes (sic!), a revelação que mudaria sua vida espiritual veio de um caso que teve com um parceiro que chamou no livro de Homem-A, o qual teria apresentado a ela os “portais do paraíso” após inúmeras sessões de sexo convencional e algumas experiências de sexo a três.  Nas palavras da autora, sua epifania “foi um milagre emocional e anatômico“, que ela considerou surpreendente e revelador ao dizer que “se [ela] tivesse andado sobre a água não poderia ter ficado mais maravilhada“.

A crítica modernosa estadunidense, como era de se esperar, incensou o livro de Toni como uma obra-prima revolucionária.  Na minha modesta visão de escritor bissexto, a revelação da ex-bailarina não é mais que uma conseqüência risível do que os intelectuais contemporâneos andam a idolatrar desde os anos 1960: o poder do sexo como instrumento de libertação. 

Para as feministas mais ferrenhas, em verdade, o sexo sempre foi visto apenas através do prisma da repressão - e em um mundo que luta contra as tiranias, o rompimento com os regramentos que existiam na sexualidade humana então foram vistos como um caminho certo para a paz e a sociedade perfeita.  Mas Camille Paglia, a brilhante socióloga estadunidense, já denunciou em seu livro “Sex and Violence, Or Nature and Art” esta falácia feminista ao dizer que tal movimento “grosseiramente simplificou o problema do sexo quando reduziu-o a uma questão de convenção social: reajustada a sociedade, eliminada a desigualdade sexual, purificados os papéis sexuais, a felicidade e a harmonia reinariam“, um conceito que espelha, no fundo, a mesma concepção rousseauniana de que a reforma social era a real maneira de construir o paraíso terrestre, por ver o homem como portador de uma bondade inata.  Para Paglia, esta lógica feminista é que as leva a culpar a pornografia pelo aumento de estupros, ou a ver o crime e a violência como resultados únicos de uma vizinhança pobre e um lar destroçado… Na visão da socióloga, a violência e a luxúria são frutos da natureza humana e não de construções sociais.  “Quando os controles sociais são afrouxados“, diz Paglia, “a crueldade inata do ser humano aflora” (e se alguém ainda duvidar dessa assertiva, é sempre válido recordar o que aconteceu nos dias que sucederam à passagem do furacão Katrina pela cidade de Nova Orleans, nos Estados Unidos).

Ao falar dessa natureza inata do homem, que não é a bondade mas a barbárie, Paglia leva-nos a pensar nos caminhos aos quais boa parte da intelectualidade contemporânea, com sua exaltação ao individualismo e a condenação dos ordenamentos sociais como ferramentas de opressão, irão nos levar.  A liberação sexual dos anos 1960, se nos trouxe aos contemporâneos o benefício de desatar amarras de hipocrisia e rédeas de dominação que precisavam ser desfeitas, também deixou como herança macabra um esvaziamento das relações amorosas, um esfacelar das estruturas familiares, um crescimento indesejado de fatores que perpetuam a desigualdade - como a desordenada explosão de casos de gravidez na infância e na adolescência, a proliferação de doenças sexualmente transmissíveis, a busca da satisfação pessoal sobre qualquer valor de adequação social, e a aceitação perversa da promiscuidade como fonte da felicidade e razão de viver das pessoas.

Paglia denuncia a liberação sexual e a liberdade sexual como “ilusões modernas“.  Para ela, “a integração entre o corpo e a mente é um problema profundo que não será jamais solucionado com sexo casual ou uma expansão dos direitos civis das mulheres“, mas com a busca do ser humano pelo que há de essencialmente divino dentro de cada um de nós.

Haverá verdadeira liberdade quando se é escravo do sexo sem responsabilidade, do vício sem limites, da individualidade que não respeita o direito alheio?

Cabe a cada um buscar o seu melhor caminho para responder às questões ontológicas da vida - sobre nossa origem, nossa razão de ser e nosso destino como seres humanos.  E creio mesmo que há diversas maneiras de atingir o divino em nós, nossa transcendente ligação com o cosmos.  Só questiono a forma estranha que Bentley quer nos apontar como o rumo de tal procurado nirvana… Permitam-me acreditar que isso é apenas conversa para aumentar a venda de suas memórias eróticas lá no reprimido país dos Quackers. 

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Thursday, November 3, 2005

A Canção da Estrela

Nada prometo: tolos viajantes
seguem minha luz por sua própria vontade…
Como guiá-los se, na eternidade,
eu mesma sigo outros astros errantes?

Da obra

(2006)
(Robertson Frizero Barros)

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Tuesday, November 1, 2005

Memórias póstumas

“Por que é que uma mulher bonita olha muitas vezes para o espelho, senão porque se acha bonita, e porque isso lhe dá certa superioridade sobre uma multidão de outras mulheres menos bonitas e absolutamente feias? A Consciência é a mesma coisa; remira-se a miúdo, quando se acha bela. Nem o remorso é outra coisa mais do que o trejeito de uma consciência que se vê hedionda.” (Quincas Borba, personagem de Machado de Assis in Memórias Póstumas de Brás Cubas)

Nosso país desmemoriado deixou passar em brancas nuvens uma das efemérides mais importantes do ano de 2005: em 20 de outubro, o mais célebre defunto autor de nossa literatura, Brás Cubas, completaria duzentos anos de nascimento.  (…) Brás Cubas, em sua condição de defunto autor, deixou-nos um legado de desprendimento de qualquer compromisso com a sociedade em que vivia, na condição de morto que estava ao redigir suas memórias, sentindo-se totalmente liberto para criticá-la.  Mais que isto, ele trouxe à baila as vaidades e mentiras de seus contemporâneos - coisa que se espera de um defunto levar para o túmulo e lá manter bem guardado, a sete palmos da superfície. (…) Penso que em tempos como os nossos, cá no Brasil, em que algumas das testemunhas-chave dos casos mais escabrosos de nossa república são defuntos, o bom exemplo de Brás Cubas, se fosse possível a eles seguí-lo, seria uma solução desejável para iluminar a verdade (…) (LEIA O TEXTO COMPLETO ABAIXO)

“Por que é que uma mulher bonita olha muitas vezes para o espelho, senão porque se acha bonita, e porque isso lhe dá certa superioridade sobre uma multidão de outras mulheres menos bonitas e absolutamente feias? A Consciência é a mesma coisa; remira-se a miúdo, quando se acha bela. Nem o remorso é outra coisa mais do que o trejeito de uma consciência que se vê hedionda.” (Quincas Borba, personagem de Machado de Assis in Memórias Póstumas de Brás Cubas)

Nosso país desmemoriado deixou passar em brancas nuvens uma das efemérides mais importantes do ano de 2005: em 20 de outubro, o mais célebre defunto autor de nossa literatura, Brás Cubas, completaria duzentos anos de nascimento.

Faço-me claro: a obra de Machado de Assis (1839-1908) é bem posterior a isso, mas o personagem do excelente Memórias Póstumas de Brás Cubas teria vindo ao mundo em tal data, há dois séculos atrás.

Brás Cubas, em sua condição de defunto autor, deixou-nos um legado de desprendimento de qualquer compromisso com a sociedade em que vivia, na condição de morto que estava ao redigir suas memórias, sentindo-se totalmente liberto para criticá-la.  Mais que isto, ele trouxe à baila as vaidades e mentiras de seus contemporâneos - coisa que se espera de um defunto levar para o túmulo e lá manter bem guardado, a sete palmos da superfície. 

Decerto que o defunto autor não foi o único a lançar uma obra de finado, em suas próprias palavras.  Mas aqui não quero me ater àqueles autores espirituais que nos brindam com notícias do além-túmulo, tampouco aos autores-fantasma que escrevem em nome da ignorância alheia dos poderosos sem talento.  O que chama a atenção nas memórias de Cubas é por ele tê-las escrito com a pena da galhofa e a tinta da melancolia, duas conselheiras que lhe permitiram revelar um pouco da hipocrisia deste nosso mundo de aquém.

Mas, que importância haveria no bicentenário de nascimento de um morto que resolveu fazer público depois da passagem tudo o que sabia das cruezas dos que por aqui ficaram?  Penso que em tempos como os nossos, cá no Brasil, em que algumas das testemunhas-chave dos casos mais escabrosos de nossa república são defuntos, o bom exemplo de Brás Cubas, se fosse possível a eles seguí-lo, seria uma solução desejável para iluminar a verdade e mostrar, enfim, em todo esse imbroglio político, quem está a mentir deslavadamente para o povo brasileiro. 

Que venha à tona o que tiver que vir.

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