Wednesday, November 30, 2005

Como nascem os preconceitos?

Ontem, 29 de novembro de 2005, estive em uma loja de roupas de um conjunto comercial na cidade-satélite de Taguatinga, Distrito Federal, e ouvi um discurso no mínimo insólito, mas que me fez refletir sobre os perigos de um país que não lê e não se educa. A atendente, ao perceber meu sotaque diferente da mistura insólita que forma o falar brasiliense, perguntou se eu era “do Sul” - uma espécie de lugar imaginário no Brasil que, em termos geográficos, pode tanto abranger os três estados da Região Sul como também São Paulo, Minas Gerais ou o que mais estiver abaixo das fronteiras do conhecimento do interlocutor.  Respondi que era de Porto Alegre e perguntei, para ser cortês, se ela já conhecia o estado em que vivo, Rio Grande do Sul.  A reação dela foi espantosa:

- Cruzes, Deus me livre!

Perguntei, surpreso, por que de sua reação, já que no imaginário brasileiro o Sul do país é sempre visto como destino dos sonhos para uma visita turística, por sua forte influência de imigração européia.

Ah, o meu sonho é conhecer o Sul, mas tenho medo de ir para lá e ser morta - disse a moça, uma bela morena de traços indígenas e tez não muito mais escura que a minha - o senhor sabe como é, com essa minha cor, eles vão querer me matar lá no Sul!

Por alguma razão, a moça de Taguatinga associa o Sul do Brasil à violência racial. (…) Oxalá a impressão da moça de Taguatinga tenha sido diminuida por minha tentativa de convencê-la de que no Rio Grande do Sul não exterminamos negros e mestiços. (LEIA O TEXTO COMPLETO ABAIXO)

Ontem, 29 de novembro de 2005, estive em uma loja de roupas de um conjunto comercial na cidade-satélite de Taguatinga, Distrito Federal, e ouvi um discurso no mínimo insólito, mas que me fez refletir sobre os perigos de um país que não lê e não se educa.

A atendente, ao perceber meu sotaque diferente da mistura insólita que forma o falar brasiliense, perguntou se eu era “do Sul” - uma espécie de lugar imaginário no Brasil que, em termos geográficos, pode tanto abranger os três estados da Região Sul como também São Paulo, Minas Gerais ou o que mais estiver abaixo das fronteiras do conhecimento do interlocutor.  Respondi que era de Porto Alegre e perguntei, para ser cortês, se ela já conhecia o estado em que vivo, Rio Grande do Sul.  A reação dela foi espantosa:

- Cruzes, Deus me livre!

Perguntei, surpreso, por que de sua reação, já que no imaginário brasileiro o Sul do país é sempre visto como destino dos sonhos para uma visita turística, por sua forte influência de imigração européia.

Ah, o meu sonho é conhecer o Sul, mas tenho medo de ir para lá e ser morta - disse a moça, uma bela morena de traços indígenas e tez não muito mais escura que a minha - o senhor sabe como é, com essa minha cor, eles vão querer me matar lá no Sul!

Por alguma razão, a moça de Taguatinga associa o Sul do Brasil à violência racial.  Dos anos todos que vivo por lá, não me lembro de nenhum caso mais marcante de ataques a negros que pudesse justificar tal medo sincero - houve situações recentes de agressão a jovens judeus e punks por parte de outros jovens, estes identificados a retrógrados movimentos neonazistas, mas infelizmente tais fatos não são exclusividade do Rio Grande do Sul, e tem raízes mais profundas que apenas o preconceito de cor.    Mas entendo a associação viciosa que a lojista brasiliense faz entre o Sul do país, a imigração alemã e italiana e o preconceito racial. 

Em verdade, a falta de educação e leitura em um país continental como o nosso, no qual as regiões sabem de sua co-existência mas pouco conhecem umas das outras, faz com que se criem esses mitos grotescos de que “o Sul é racista e violento”, o “Rio de Janeiro é um campo de guerra”, “a Bahia é terra de preguiçosos” ou de que “o Nordestino é que destrói o crescimento brasileiro” - idéias que pouco ou nada contém de verdade, mas que impregnam nosso imaginário de país continental

Não será assim que nascem os preconceitos?  Quando tratamos desta ou daquela origem com desdém ou chacota, não estaremos colaborando com a construção de idéias tão estapafúrdias quanto estas?  Oxalá a impressão da moça de Taguatinga tenha sido diminuida por minha tentativa de convencê-la de que no Rio Grande do Sul não exterminamos negros e mestiços.

Posted by Frizero at 10:45:49
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