Tuesday, November 29, 2005

Dirigindo sobre o mármore

Impressiona, no Brasil, o quanto estamos ainda vinculados aos símbolos externos de poder.  Tornar-se uma “autoridade”, neste nosso país, é gozar de regalias que muitas vezes beiram o absurdo e atingem facilmente o risível. Neste domingo, dia 28 de novembro de 2005, estive a apresentar alguns pontos turísticos de nossa bela capital, Brasília, a dois estrangeiros que, pela primeira vez, estão a conhecer a cidade.  (…) O prédio que realmente os cativou por sua riqueza cultural e arquitetônica foi o Palácio Itamaraty, sede do Ministério das Relações Exteriores.  Lá, a solícita guia, falando um ótimo inglês, explicou-nos que o Secretário-Geral do Corpo Diplomático Brasileiro, mais alto posto de carreira, tem um acesso especial ao prédio, feito por uma rampa que começa na entrada principal do prédio, passa por dentro do palácio - para que o Secretário possa descer do veículo na porta de seu faustoso gabinete - e dá saída pelos anexos existentes nos fundos do edifício.  A rampa, é importante frisar, é toda em mármore.  “Mármore?”, um dos visitantes estrangeiros me indagou, “Eles dirigem o automóvel sobre mármore?  O Brasil é realmente um país muito rico.” Confesso que não tive como responder a tal pergunta.  Não creio que conduzir sobre pedra tão rara e simbolicamente ostentatória seja sinônimo de nossa riqueza.  Vejo isso mais como uma irônica forma de o arquiteto Oscar Niemeyer ter retratado, ali, um pouco do nosso jeito de se relacionar com as estâncias de poder - se é que foi dele tal idéia pretensiosa. (…) (LEIA O TEXTO COMPLETO ABAIXO)

Impressiona, no Brasil, o quanto estamos ainda vinculados aos símbolos externos de poder.  Tornar-se uma “autoridade”, neste nosso país, é gozar de regalias que muitas vezes beiram o absurdo e atingem facilmente o risível.

Neste domingo, dia 28 de novembro de 2005, estive a apresentar alguns pontos turísticos de nossa bela capital, Brasília, a dois estrangeiros que, pela primeira vez, estão a conhecer a cidade.  A visita guiada ao Congresso Nacional foi bem conduzida - ainda que o guia tenha mantido um discurso político-planfetário descabido por quase todo o tempo em que lá estivemos - e a organização do lugar impressionou meus ciceroneados, mas o prédio que realmente os cativou por sua riqueza cultural e arquitetônica foi o Palácio Itamaraty, sede do Ministério das Relações Exteriores.  Lá, a solícita guia, falando um ótimo inglês, explicou-nos que o Secretário-Geral do Corpo Diplomático Brasileiro, mais alto posto de carreira, tem um acesso especial ao prédio, feito por uma rampa que começa na entrada principal do prédio, passa por dentro do palácio - para que o Secretário possa descer do veículo na porta de seu faustoso gabinete - e dá saída pelos anexos existentes nos fundos do edifício.  A rampa, é importante frisar, é toda em mármore.  “Mármore?”, um dos visitantes estrangeiros me indagou, “Eles dirigem o automóvel sobre mármore?  O Brasil é realmente um país muito rico.”

Confesso que não tive como responder a tal pergunta.  Não creio que conduzir sobre pedra tão rara e simbolicamente ostentatória seja sinônimo de nossa riqueza.  Vejo isso mais como uma irônica forma de o arquiteto Oscar Niemeyer ter retratado, ali, um pouco do nosso jeito de se relacionar com as estâncias de poder - se é que foi dele tal idéia pretensiosa.

Ser influente e poderoso no Brasil significa diminuir sua carga de trabalho braçal.  Não por acaso os ministros e chefes militares estão sempre cercados de estafetas e serviçais, os deputados e senadores ostentam números elevados de assessores e outros líderes políticos, figuras proeminentes de nosso serviço público, meio cultural e artístico e mesmo dentro de nossas instituições privadas parecem perder a capacidade de realizar as tarefas mais simples do cotidiano, contratando - com dinheiro seu ou dos outros - empregados para proceder com as ações mais banais de suas vidas.

O quadro lembra os tempos da escravidão no Brasil, em que os senhores tinham seus escravos para deles desfrutar como bem lhes entendesse.  Na época, o conceito era simples: trabalhos braçais, que exijam força ou qualquer esforço corporal, eram coisas para subalternos, para os negros da lida doméstica.   Para isso os senhores tinham mucamas, mucamos, escravos de ganho, escravos de carga e toda uma população de oprimidos que lhes serviam nas coisas mais corriqueiras, desde o vestir e despir a roupa dos patrões, carregar suas sombrinhas pelas ruas e buscar-lhes um copo de refresco ou lhe servir a refeição mesmo quando muitas vezes passavam fome em úmidas e esquecidas senzalas.  Ou será exagero de minha parte reconhecer nesta livre associação que faço os oficiais-generais que precisam, depois de anos de serviço, da ajuda de camareiros que lhes preparem os uniformes e ajudem a se vestir; os ministros que recusam cardápios menos sofisticados por ver neles uma afronta a seu status de autoridade; os parlamentares que investem o dinheiro do contribuinte em carros luxuosos e guarda-roupas custosos para poderem se sentir importantes diante do povo que o elegeu; as esposas de autoridades que usam carros públicos e, por  vezes, servidores públicos para realizar as mais simples tarefas do dia-a-dia de qualquer dona de casa?  Não são exemplos retirados de minha imaginação, mas situações que vi e vivi em meus já vinte anos de vida profissional. 

O poder no Brasil está associado à negação das atividades vistas como braçais, e isto é um fato corriqueiro em nossas vidas ao ponto de nos esquecermos e encararmos essas atitudes tão cotidianas como parte mesma do estado de liderança, de mando.  Por isso, qual o absurdo de se dirigir, de automóvel, por sobre uma rampa feita inteiramente de mármore branco e que cruza um prédio de tão rara beleza apenas para poupar a autoridade do Ministério das Relações Exteriores - o mesmo que nos representa diante das outras nações - de ter que caminhar, usar a escada e registrar seu ponto como qualquer trabalhador comum deste país?

Os Sinhôs e Sinhás que existem dentro de nós, brasileiros, podem até parecer adormecidos - mas certamente, se pensarmos com calma as atitudes que nós mesmos tomamos para com servidores em algum posto inferior à nossa ascenção profissional ou financeira, veremos que tal sono é continuamente despertado em nós, em diversos momentos, variadas situações.

E isso soa a muitos como algo natural da vida - tão natural, para mim, como passear de automóvel sobre o mármore mais fino.

Posted by Frizero at 02:21:38
Comments

One Response to “Dirigindo sobre o mármore”

  1. Lang says:

    Esses absurdos se repetem não só na capital, mas também na província, com o agravante dos "sinhôs" serem caciques reginais,coronés e dotôs. Com seus pneus faixa branca deslizam sobre nossa dignidade e esmagam os ossos cansados de um povo que, por sorte ou azar, não sabe a força que tem.

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