Melancolia e Arte
“Ah quanta melancolia!
Quanta, quanta solidão!
Aquela alma, que vazia,
Que sinto inútil e fria
Dentro do meu coração! “
(Fernando Pessoa, poeta português)
Em artigo publicado na revista Primeira Leitura de novembro de 2005, Fernando Eichenberg, comentando sobre a exposição Melancolia: Gênio e Loucura no Ocidente, aberta ao público no parisiense Museu do Grand Palais, diz, citando o poeta Yves Bonnefoy, que estas três noções contidas no título da interessante mostra de arte são “habitualmente associadas nos países do Ocidente”. Esta idéia corrobora as palavras do curador da exposição, o historiador de arte Jean Clair, para quem “nenhuma disposição da alma ocupou a arte ocidental tanto tempo, e nenhuma outra oferece um tal conjunto de obras”. (…) Vejo a melancolia como um estado de aparente apatia no qual as energias humanas,em verdade, parecem concentrar-se em tarefas mais interiores, algo relacionadas aos questionamentos mais ontológicos sobre o mundo e o próprio ser. (…) Não por acaso Clair afirma que a “vitória da criação sobre a depressão” é o mais interessante e curioso aspecto dessa relação peculiar entre a melancolia e a arte. (…) (LEIA O TEXTO COMPLETO ABAIXO)
“Ah quanta melancolia!
Quanta, quanta solidão!
Aquela alma, que vazia,
Que sinto inútil e fria
Dentro do meu coração! “
(Fernando Pessoa, poeta português)
Em artigo publicado na revista Primeira Leitura de novembro de 2005, Fernando Eichenberg, comentando sobre a exposição Melancolia: Gênio e Loucura no Ocidente, aberta ao público no parisiense Museu do Grand Palais, diz, citando o poeta Yves Bonnefoy, que estas três noções contidas no título da interessante mostra de arte são “habitualmente associadas nos países do Ocidente”. Esta idéia corrobora as palavras do curador da exposição, o historiador de arte Jean Clair, para quem “nenhuma disposição da alma ocupou a arte ocidental tanto tempo, e nenhuma outra oferece um tal conjunto de obras”.
A constatação de Clair, ainda que possa soar como nova para alguns, parece-me bastante apropriada e de fácil verificação se voltarmos nossa mente para os inúmeros exemplos contidos nas histórias de vida de nossos maiores gênios da arte ocidental. A melancolia, que Sigmund Freud definiu como “um desânimo profundamente penoso, a cessação de interesse pelo mundo externo, a perda da capacidade de amar, a inibição de toda e qualquer atividade, e uma diminuição dos sentimentos de auto-estima a ponto de encontrar expressão em auto-recriminação e auto-envilecimento, culminando numa expectativa delirante de punição” (perdoem-me pela longa citação), é vista por alguns como essencial ao processo criativo - sobretudo ao ser examinada como elemento precursor de várias obras primas. Para o historiador Clair, o caráter ciclotímico da melancolia, capaz de levar o homem de estados de protração a outros de exaltação, é “indispensável“. Mas, em que sentido um tal estado de alma complexo pode levar alguém a criar obras de rara beleza e, curiosamente, nem sempre soturnas ou pessimistas?
Vejo a melancolia como um estado de aparente apatia no qual as energias humanas,em verdade, parecem concentrar-se em tarefas mais interiores, algo relacionadas aos questionamentos mais ontológicos sobre o mundo e o próprio ser. Para questões de tão difíceis, profundas e mesmo ambígüas respostas, as soluções possíveis que surgem na mente dos gênios melancólicos parecem ser a razão da sublimação da tristeza por meio da celebração da vida. Não por acaso Clair afirma que a “vitória da criação sobre a depressão” é o mais interessante e curioso aspecto dessa relação peculiar entre a melancolia e a arte.
Pode-se mesmo ver na negação da melancolia uma das conseqüências do mundo desesperançado e vazio que vemos hoje estampados nos rostos e mensagens de toda uma geração de homens contemporâneos, artistas ou não. O pessimismo atávico schopenhaueriano e a nauseada visão do mundo proposta por Jean-Paul Sartre deixaram pouco espaço para o ser humano reconstituir suas forças para prosseguir recriando a vida, como o faziam os artistas românticos, por exemplo.
Para Jean Clair, “o melancólico está aberto a todas as sensações e a uma vontade de compreender o mundo”. Como sofredor eventual deste mal-dos-séculos, sinto que a melancolia pode, sim, servir à criação artística e ao crescimento pessoal - se dela sabemos aproveitar os momentos de celebração e de sublimação da apatia. Esta tristeza e revolta constante é que parecem permear os homens do novo milênio, levando-os à visão falseada de que o mundo é somente decadência e sofrimento, não oferecem nenhuma alternativa e, por isso, têm como fruto torto essa forma de viver doentia e essa arte obtusa que vemos hoje e que nos tentam fazer aceitar como uma verdade incontestável.
Acessando o "link" contido no texto acima, você poderá "desbravar" o pequeno "site" construído para a exposição citada, incluindo a imagem de algumas das obras de arte mais expressivas relativas ao tema da melancolia e incluídas na mostra.