Wednesday, November 23, 2005

Stendhal, David e ansiedade

Alguns artistas contemporâneos - a se julgar pelos memoriais que são forçados a escrever para justificar suas obras quase sempre incompreensíveis para o vulgo  - devem acreditar que somente as expressões artísticas atuais podem causar grandes reações no público.  Pois eles estão absolutamente enganados em sua pretensão.  Gabriela Magherini, uma psiquiatra italiana que por seus trabalhos tornou-se uma espécie de especialista em estudos sobre a relação entre arte e ansiedade, revelou a existência de síndromes bem distintas que atingem diversas pessoas anualmente e que estão intrinsecamente relacionadas à exposição de suas vítimas a obras de arte - e não falo das experimentações contemporâneas, que causam em geral mais enfado que emoção verdadeira.  Em 1979, Magherini divulgou seu trabalho sobre o que chamou de Mal de Stendhal, uma síndrome que leva algumas pessoas a  serem vítimas de desmaios, palpitações e diminuição das forças após serem expostas a obras de arte “demasiado belas”.  (…) Recentemente, a mesma pesquisadora tornou públicos os primeiros resultados de um novo estudo (…), desta vez relacionado à obra magistral de Michelangelo, David.  (…) A visão da grandiosa escultura geraria reações psicológicas e emocionais tão diversas quanto a inveja, o ciúme, impulsos de destruição e até mesmo alterações na libido de alguns visitantes da Galeria Della Academia, onde hoje está exposta a obra.  (…) Fico a me perguntar quantos artistas contemporâneos, com suas obras de arte (?) repletas de agressão gratuita e escatologia desnecessária, não dariam um dos dedos de seu próprio pé esquerdo para causar essas mesmas síndromes de ansiedade e ciúme, amor e inveja, que a maestria de Michelangelo provoca tantos séculos depois de sua morte. (LEIA O TEXTO COMPLETO ABAIXO)

Alguns artistas contemporâneos - a se julgar pelos memoriais que são forçados a escrever para justificar suas obras quase sempre incompreensíveis para o vulgo  - devem acreditar que somente as expressões artísticas atuais podem causar grandes reações no público.  Pois eles estão absolutamente enganados em sua pretensão.

Gabriela Magherini, uma psiquiatra italiana que por seus trabalhos tornou-se uma espécie de especialista em estudos sobre a relação entre arte e ansiedade, revelou a existência de síndromes bem distintas que atingem diversas pessoas anualmente e que estão intrinsecamente relacionadas à exposição de suas vítimas a obras de arte - e não falo das experimentações contemporâneas, que causam em geral mais enfado que emoção verdadeira.

Em 1979, Magherini divulgou seu trabalho sobre o que chamou de Mal de Stendhal, uma síndrome que leva algumas pessoas a  serem vítimas de desmaios, palpitações e diminuição das forças após serem expostas a obras de arte “demasiado belas”.  O nome do fenômeno - que afeta comprovadamente mais de cem turistas por ano apenas na cidade de Florença, Itália - é uma referência ao escritor francês, autor de O Vermelho e o Negro, que narrou ter sofrido palpitações e perda de consciência após ter saído em 1817 de uma das belíssimas igrejas da capital do renascimento italiano. 

Recentemente, a mesma pesquisadora tornou públicos os primeiros resultados de um novo estudo realizado na mesma cidade de Florença, desta vez relacionado à obra magistral de Michelangelo, David.  De forma diversa que o observado na síndrome constatada anteriormente, a visão da grandiosa escultura geraria reações psicológicas e emocionais tão diversas quanto a inveja, o ciúme, impulsos de destruição e até mesmo alterações na libido de alguns visitantes da Galeria Della Academia, onde hoje está exposta a obra. 

O estranhamento da psiquiatra italiana - e seu foco investigativo - repousam no fato de a escultura despertar sentimentos “muitas vezes escuros”, que podem dar vazão até mesmo a ações de compulsão destrutiva.  Diz ela que “David encanta por sua beleza formal e intrínseca, mas não provoca somente emoções de tranqüila beatitude estética.  Ele pode suscitar sentimentos perturbadores, porque olhar para esta obra pode levar o expectador a sentir-se forte e grande, mas também enciumado e invejoso do jovem ali retratado, que tem um corpo perfeito”.  Alguns depoimentos contidos no estudo mostram que vários visitantes narraram ter sentido desejo de danificar a estátua, algo que a psiquiatra descreve como “um gesto para reafirmar seu próprio eu, posto sob ameaça diante de tamanha opulência estética”.  Há narrações colhidas pela pesquisadora de ataques de pânico e sensações de perda de limites - o que pode explicar os diversos ataques sofridos pela estátua ao longo de seus cinco séculos de existência.  No último deles, em 14 de setembro de 1991, um desequilibrado mental de nome Piero Cannata destruiu com um martelo um dos dedos do pé esquerdo do gigantesco David

Fico a me perguntar quantos artistas contemporâneos, com suas obras de arte (?) repletas de agressão gratuita e escatologia desnecessária, não dariam um dos dedos de seu próprio pé esquerdo para causar essas mesmas síndromes de ansiedade e ciúme, amor e inveja, que a maestria de Michelangelo provoca tantos séculos depois de sua morte.

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