Era uma vez um menino que queria ser menina… e um sapo que queria ser rã
Recentemente comentávamos sobre a literatura para crianças e adolescentes e hoje, 16 de novembro de 2005, foi o dia do anúncio de um inusitado e controverso concurso literário, organizado na Argentina por uma revista dedicada à literatura infanto-juvenil: o primeiro concurso de literatura infantil de temática GLS (gays, lésbicas e simpatizantes) do mundo. A iniciativa contou com o apoio da PFLAG Argentina (Padres, Familiares y Amigos de Gays y Lesbianas) e, nas palavras dos organizadores, teve por objetivo compensar a “quase nula literatura gay e lésbica que se escreve para crianças, jovens e adolescentes, pretendendo incentivá-la como uma das bases para contribuir para uma melhor educação, mais livre, diversa e plural”.
A idéia do concurso, por si só, já é motivo para debates acalorados de defensores e detratores da luta pela aceitação da orientação sexual. Particularmente, creio que, se é para ajudar a por um fim no preconceito e na violência contra gays, lésbicas e bissexuais, é uma idéia válida, louvável - ainda que coloque sob suspeição o resultado de tal empreitada, a qualidade dos textos que daí surgirão, a intenção colocada no papel tendo como público a criança e o adolescente, pessoas em fases da vida tão suscetíveis às influências boas ou más do mundo. (…) Em geral, os textos não me pareceram ter aquela naturalidade e frescor das histórias infantis mais famosas, nem mesmo a sinceridade de intenções de textos infanto-juvenis que pude ler aqui no Brasil e que tinham por intuito também o combate ao preconceito e seus diversos matizes - sociais, culturais, raciais e outros. Mas louvo a iniciativa, que pode vir a trazer os autores mais talentosos e conhecedores da arte de escrever livros infantis a repensar o tema da orientação sexual de forma mais cuidadosa e construtiva. De qualquer forma, sempre residirá nas mãos dos pais e mestres a decisão de dar acesso às crianças e adolescentes ao material que eles acreditarem mais apropriado para a sua formação para o mundo futuro. (LEIA O TEXTO COMPLETO ABAIXO)
Recentemente comentávamos sobre a literatura para crianças e adolescentes e hoje, 16 de novembro de 2005, foi o dia do anúncio de um inusitado e controverso concurso literário, organizado na Argentina por uma revista dedicada à literatura infanto-juvenil: o primeiro concurso de literatura infantil de temática GLS (gays, lésbicas e simpatizantes) do mundo. A iniciativa contou com o apoio da PFLAG Argentina (Padres, Familiares y Amigos de Gays y Lesbianas) e, nas palavras dos organizadores, teve por objetivo compensar a “quase nula literatura gay e lésbica que se escreve para crianças, jovens e adolescentes, pretendendo incentivá-la como uma das bases para contribuir para uma melhor educação, mais livre, diversa e plural”.
A idéia do concurso, por si só, já é motivo para debates acalorados de defensores e detratores da luta pela aceitação da orientação sexual. Particularmente, creio que, se é para ajudar a por um fim no preconceito e na violência contra gays, lésbicas e bissexuais, é uma idéia válida, louvável - ainda que coloque sob suspeição o resultado de tal empreitada, a qualidade dos textos que daí surgirão, a intenção colocada no papel tendo como público a criança e o adolescente, pessoas em fases da vida tão suscetíveis às influências boas ou más do mundo. Será que a infância é o momento para colocá-los a par de todos os aspectos envolvidos na questão?
O concurso, a princípio, não me parece nada ofensivo, já que, ao que consta, não se trata de literatura (homo)erótica para crianças, mas sim de estórias nas quais se tratam questões “sobre a vivência de pessoas de distintas orientações sexuais”. E não duvido do talento de certos escritores para colocar uma problemática tão delicada de forma simples e correta para a compreensão dos pequenos. Mas temo pelo resultado, pois vejo um certo radicalismo em alguns integrantes do movimento GLS, ao menos no Brasil, que para romper fronteiras parecem preferir a confrontação pura e simples - como se obter o respeito e a aceitação da sociedade fosse uma questão de causar escândalo e ofensa.
Vejamos o resultado do concurso. O conto vencedor, Contracorrientes, dos espanhóis Gonzalo Serrano e Nilo Martin, relata a estória de um índio que sai pelo mundo rio abaixo em busca de uma esposa e regressa à tribo, remando contra a corrente, na companhia de um novo amigo (e amor). Lisa Porcelli Piussi, escritora argentina, apresenta em seu Encantado de Conocerme (segundo colocado) o sapo Jacinto, que desde pequeno só conhecia uma única história infantil, a do “Príncipe Encantado”, e que por isso se achava um “sapo encantado”; de forma (a meu ver) não muito sutil, Piussi fala da forma diferente de ser de Jacinto, de como sua mãe busca ajuda médica para “consertá-lo” e de sua descoberta sobre como “cada um tem seu encantamento próprio” e que ele terá que decidir, segundo o conselho de um sapo mais idoso, “se o príncipe dentro dele (Jacinto) irá despertar por conta do beijo de um sapo ou de uma rã”. O terceiro colocado, Pañuelito Celeste (algo como “O Lenço Azul-celeste”), escrito pelo argentino Leandro Fogliatti, pareceu-me o mais bem escrito, mas o mais panfletário, ao contar a história de um menino argentino, filho da professora, que quer bailar como as alunas colegas suas em um dia de festa pátria - e que recebe a ajuda do narrador para “travestir-se” de menina.
Creio que, ao analisar essas histórias, é preciso despir-se dos preconceitos mais imediatos e buscar uma visão mais objetiva dos elementos textuais. Qual o objetivo dos textos, enfim? A intenção dos autores é mostrar a orientação sexual como bela, como normal ou como a melhor de todas? No texto primeiro colocado, creio ser interessante ver que os autores fugiram dos estereótipos - algo marcado nos outros dois textos citados -, mas a descoberta do jovem índio pareceu-me por demais apressada no texto. Na história de Jacinto, tudo pareceu-me forçado demais, quase uma cartilha de tão esquematizado, mas pode ser insensibilidade de minha parte. Em Pañuelo Celeste, a história de Damián, o menino que queria ser menina, é algo que poderia acontecer no círculo de amizades de qualquer um de nós, em verdade - e não será demais imaginar que cada um de nós conheceu Damiáns em nossa escola primária. Mas a forma como o autor conduziu o desfecho, com o garoto de dez anos de idade travestido, a dançar o Pericón como todas as meninas sem ser sequer reconhecido sob seus trajes femininos, também pareceu-me por demais fantasiosa. Em geral, os textos não me pareceram ter aquela naturalidade e frescor das histórias infantis mais famosas, nem mesmo a sinceridade de intenções de textos infanto-juvenis que pude ler aqui no Brasil e que tinham por intuito também o combate ao preconceito e seus diversos matizes - sociais, culturais, raciais e outros.
Mas louvo a iniciativa, que pode vir a trazer os autores mais talentosos e conhecedores da arte de escrever livros infantis a repensar o tema da orientação sexual de forma mais cuidadosa e construtiva. De qualquer forma, sempre residirá nas mãos dos pais e mestres a decisão de dar acesso às crianças e adolescentes ao material que eles acreditarem mais apropriado para a sua formação para o mundo futuro.
Verifiquem, nos "links" disponíveis no texto, os contos vencedores do concurso literário infanto-juvenil de temática GLS.
meninos e meninas são iguais tem buracos