O que estiver na cabeça
Parece não haver mesmo limite para a estupidez humana, mesmo quando se trata do valor monetário que nossos contemporâneos dão às tolices que eles insistem em chamar de arte. Falo da notícia que li em um jornal estrangeiro sobre um leilão promovido pela renomada casa Christie’s no início de novembro de 2005, quando foi registrada o maior valor de venda para uma fotografia em um evento deste tipo. (…) O valor, por si só, já seria absurdo se não fosse por um importante detalhe - a obra de arte em questão pertence à série de cowboys de Prince, captadas por uma técnica que ele intitulou de re-fotografia. Faço-me entender do porquê do meu espanto: re-fotografar, neste caso, significa dizer que o artista tirou fotografias de fotografias de antigos comerciais da famosa marca de cigarros Marlboro (ou seja, abriu uma revista e fotografou o anúncio lá publicado!) e construiu, assim, sua série famosa de obras sem-título… (…) Mas, enfim, o milhão de dólares não me pertencia, e se alguém quer gastar tanto dinheiro em uma re-fotografia, que gaste - ainda que eu tenha em mente tantas outras aplicações melhores para tantos recursos. Incomoda-me mais quando os gastos de manutenção da arte contemporânea e suas tolas exposições são cobertos com dinheiro público, do contribuinte. (…) (LEIA O TEXTO COMPLETO ABAIXO)
Parece não haver mesmo limite para a estupidez humana, mesmo quando se trata do valor monetário que nossos contemporâneos dão às tolices que eles insistem em chamar de arte.
Falo da notícia que li em um jornal estrangeiro sobre um leilão promovido pela renomada casa Christie’s no início de novembro de 2005, quando foi registrada o maior valor de venda para uma fotografia em um evento deste tipo. O valor do lance que arrebatou a fotografia, da autoria do fotógrafo novaiorquino (nascido no Canal do Panamá à época do domínio norte-americano) Richard Prince, foi de US$ 1.248.000,00 (um milhão, duzentos e quarenta e oito mil dólares estadunidenses, algo em torno de dois milhões e quinhentos mil reais).
O valor, por si só, já seria absurdo se não fosse por um importante detalhe - a obra de arte em questão pertence à série de cowboys de Prince, captadas por uma técnica que ele intitulou de re-fotografia. Faço-me entender do porquê do meu espanto: re-fotografar, neste caso, significa dizer que o artista tirou fotografias de fotografias de antigos comerciais da famosa marca de cigarros Marlboro (ou seja, abriu uma revista e fotografou o anúncio lá publicado!) e construiu, assim, sua série famosa de obras sem-título… A peça, Cowboy - Untitled, datada de 1989, é exatamente isso: uma fotografia de um anúncio de cigarro, sem nenhum tratamento especial ou qualquer alteração de forma, textura ou conteúdo que justifique sua importância como objeto de desejo - a não ser, é claro, a assinatura do fotógrafo afamado.
O desperdício de dinheiro desta recente aquisição de algum marchant - que, quero crer, só comprou tal fotografia por este preço na esperança de vendê-la pelo dobro do valor - faz-me crer que o mercado de arte contemporânea (sim, ele existe) está, em grande parte, alimentando este monstro; os outros culpados, a meu ver, são os intelectuais que medram diante da idéia de criticar o que a inteligentzia convencionou ovacionar como “contemporâneo, visceral, genial, ousado” ou qualquer outro adjetivo que andam usando para disfarçar a falta de talento de alguns artistas que se mantém vivos neste círculo das artes que se alimenta a si mesmo, ignorando o público sob o disfarce de uma arte “não-comercial”.
Mas, enfim, o milhão de dólares não me pertencia, e se alguém quer gastar tanto dinheiro em uma re-fotografia, que gaste - ainda que eu tenha em mente tantas outras aplicações melhores para tantos recursos. Incomoda-me mais quando os gastos de manutenção da arte contemporânea e suas tolas exposições são cobertos com dinheiro público, do contribuinte. Lembro-me de uma exposição que correu a Europa no ano de 2001, patrocinada por diversos de seus governos e organizada por um grupo auto-intitulado Proto-Muart. O nome do evento era “Exhibition to Be Constructed in Your Head” (algo como “Exposição para Ser Construída na Sua Cabeça”) e consistia em um grande salão de paredes imaculadamente pintadas de branco e sessenta nichos onde eram expostos, digamos, absolutamente nada. Ah, sim, mas em cada nicho havia uma etiqueta com descrições sugestivas como “Veja as coisas como elas são, não como você pensa que elas são” ou “Esfera sólida de ouro flutuando em um imenso espaço vazio”. Na entrada do salão, uma cortina feita de plástico branco, na qual estava escrito, com tinta spray, a frase incentivadora: “Atrás disto está qualquer coisa que estiver em sua cabeça“.
Nem o título da exposição era original, pois repetia algo que Yoko Ono havia feito décadas antes com suas intruções de pintura chamadas de “Paintings to Be Constructed in Your Head” (“Pinturas para Serem Construídas em Sua Cabeça”)…
O fato é que foi investido dinheiro público para colocar a exposição em circulação por importantes cidades européias e, além disso, em alguns lugares o público pagava ingresso para “visitar” o nada - ou melhor (insensibilidade minha!), para visitar qualquer coisa que estivesse na mente deles. E tal exposição levava a assinatura de vinte e oito diferentes artistas (e, pasmem, nenhum deles havia sequer sujado as mãos de tinta branca para pintar as tais paredes)!
Lembro-me que a exposição de artes que mais público atraiu recentemente no Brasil foi a grande mostra de Monet, na década de 1990, que motivou filas imensas e fez com que pessoas se deslocassem até o Rio de Janeiro e São Paulo para ver as ninféias e os jardins floridos do impressionista francês.
Os contemporâneos não devem entender porque alguém pagaria para ver uma obra de arte que qualquer um compreende.