Monday, November 14, 2005

Tudo pela causa?

“A única diferença entre suicídio e martírio é a cobertura jornalística.”
(Chuck Palahniuk, escritor e jornalista norte-americano)

Francisco Anselmo de Barros, um homem de 65 anos, às 11h30 de sábado, 12 de novembro de 2005, enrolou-se com dois colchonetes embebidos em gasolina e ateou fogo ao próprio corpo, o que viria a provocar sua morte no dia seguinte, em um leito da Santa Casa de Misericórdia de Campo Grande, Mato Grosso do Sul, depois de mais de vinte horas de cuidados intensivos por parte da equipe médica daquele hospital na tentativa de salvá-lo dos danos causados por seu ato de desespero.

O que mais assombra nesta notícia triste, desoladora, é que Barros tirou a própria vida em nome de uma causa pela qual poderia certamente ter lutado por outros meios: seu ato suicida foi executado por ocasião de uma manifestação de ecologistas contra a instalação de usinas de álcool e açúcar no Pantanal Matogrossense. (…) Creio que sua morte, fruto de um radicalismo que não me cabe julgar, por não conhecer de perto o triste suicida, é mais um sinal de que precisamos reavaliar o conceito de que “tudo é válido pela causa”, pregado por tantas correntes contemporâneas do pensamento (e que parece estar impregnado também nos inúmeros escândalos que presenciamos hoje no cenário político brasileiro). (…) (LEIA O TEXTO COMPLETO ABAIXO)

“A única diferença entre suicídio e martírio é a cobertura jornalística.”
(Chuck Palahniuk, escritor e jornalista norte-americano)

Francisco Anselmo de Barros, um homem de 65 anos, às 11h30 de sábado, 12 de novembro de 2005, enrolou-se com dois colchonetes embebidos em gasolina e ateou fogo ao próprio corpo, o que viria a provocar sua morte no dia seguinte, em um leito da Santa Casa de Misericórdia de Campo Grande, Mato Grosso do Sul, depois de mais de vinte horas de cuidados intensivos por parte da equipe médica daquele hospital na tentativa de salvá-lo dos danos causados por seu ato de desespero.

O que mais assombra nesta notícia triste, desoladora, é que Barros tirou a própria vida em nome de uma causa pela qual poderia certamente ter lutado por outros meios: seu ato suicida foi executado por ocasião de uma manifestação de ecologistas contra a instalação de usinas de álcool e açúcar no Pantanal Matogrossense. Ao que consta, nenhum de seus companheiros manifestantes tentou impedir seu atentado contra a própria vida.

Não tiro os méritos da causa pela qual lutavam os ecologistas - creio mesmo que a instalação de um empreendimento como este em meio a um santuário ecológico é desnecessária, criminosa e, certamente, uma ameaça ao equilíbrio das espécies que lá vivem. Questiono apenas o valor de um sacrifício como este, dar cabo da própria vida, por conta de tal acontecimento contra o qual se podeia lutar de tantas outras fomas. Francisco Anselmo de Barros era presidente da Fundação para Coservação da Natureza de Mato Grosso do Sul (FUCONAM), integrante da organização não-governamental internacional WWF e certamente tinha poder de penetração e influência suficientes para tentar embarreirar a instalação da tal usina usando a palavra e a presença nos fóruns de debate de tais questões. Em recente audiência pública na Assembléia Legislativa do Mato Grosso do Sul, inclusive, Barros teria ouvido do presidente da Comissão de Constituição e Justiça daquele parlamento que o projeto de lei que autorizaria o projeto seria rejeitado. Por que, então, tal gesto extremo? Que exemplo deixa para os ecologistas brasileiros o martírio inconseqüente de Francisco Barros?

Creio que sua morte, fruto de um radicalismo que não me cabe julgar, por não conhecer de perto o triste suicida, é mais um sinal de que precisamos reavaliar o conceito de que “tudo é válido pela causa”, pregado por tantas correntes contemporâneas do pensamento (e que parece estar impregnado também nos inúmeros escândalos que presenciamos hoje no cenário político brasileiro). Em nome da causa, seja ela qual for, pareça-nos ela a mais perfeita e justa que possa ser, nem tudo nos é lícito e nem tudo nos convém.

Que este suicídio não seja visto como martírio, algo digno de admiração e louvação, mas como sinal de que precisamos repensar o que é realmente digno, que causa é verdadeiramente merecedora do sacrifício de uma vida humana. Que esta morte vã motive a reflexão do quanto valerá nossa luta se permanecermos vivos e atuantes ao invés de nos entregarmos a um heroísmo desesperado e inócuo.

Mesmo em meus olhos de romântico tardio, não consigo imaginar nenhuma causa que valha minha vida.

Posted by Frizero in 12:31:26
Comments

2 Responses

  1. Daniel says:

    É verdade, Frizero. Foi um ato desesperado, mas, ao meu ver, exagerado para a causa. Havia outras maneiras de se lutar. Eu não conhecia este senhor, apesar de ter convivido com o pessoal do movimento ecológico de MS. Mas já ouvira falar dele, sem qualquer exagero ou indício de que fosse um radical capaz de tirar a própria vida. Os amigos também não esperavam, tanto que foram socorrer alguém que nem imaginaram que fosse o companheiro de lutas, de tão queimado estava seu rosto. Só ficaram sabendo quem era depois. Ele realmente premeditou o ato e fez tudo de surpresa. Ficaram todos perplexos.

  2. Martim says:

    Oi, Frizero, esse ato, de causar perplexidade, me fez lembrar a ação de alguns grupos estadunidenses anti-aborto, que matavam médicos praticantes do aborto, tudo em nome da defesa da vida. Mas qual vida?

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