Escrevendo para crianças
“Eu estou quase inclinado a estabelecer esta idéia como um cânone, a de que uma história infantil que só é apreciada por crianças é uma história infantil ruim. As boas histórias sobrevivem. Uma valsa que você só aprecia enquanto está valsando não é uma boa valsa”.
(C. S. Lewis, autor de As Crônicas de Narnia, em seu ensaio intitulado On the Three Ways of Writing for Children)
Há uma época do ano em Porto Alegre na qual o centro da capital gaúcha realmente é transformado - são os ansiosamente esperados quinze dias em que a Praça da Alfândega é tomada pela Feira do Livro de Porto Alegre (…). Este ano, uma das novidades (…) foi a transferência da área infanto-juvenil para os armazéns do Cais do Porto, possibilitando a expansão deste setor do evento que considero dos mais importantes, pelo caráter de formação de futuros leitores. A necessidade dos organizadores de expandir o espaço infanto-juvenil do evento é, a meu ver, um reflexo do crescimento do mercado editorial voltado para aquela faixa etária - um aumento no número de publicações que, infelizmente, não é visto na mesma proporção no que diz respeito à qualidade do que se escreve para crianças no Brasil. (…) Felizmente, há bons lançamentos, até mesmo reedições de histórias clássicas, como as de Perrault e Lobato, em publicações que resgatam o texto e ilustrações originais. (…) Mas, por outro lado, vê-se também muita tolice multicolorida sendo vendida como livro infantil. (…) E as tolices em forma de adaptação de textos clássicos? (…)
Mas, bom ou ruim, o livro infantil é um instrumento importante na construção de futuros leitores. O objeto estranho, de capa dura e folhas de papel unidas por um emaranhado de costuras, só se tornará amigo da criança se for um companheiro também fiel dos adultos que a cercam. O livro infantil é para ser lido, primeiramente, pelos pais para seus filhos, pelos professores para seus alunos, pelos adultos para as crianças que, despertadas pela curiosidade de saber como saem daqueles papéis estranhos tantas aventuras divertidas e fantásticas, irão costurar aos poucos uma relação de amizade com o livro. (LEIA O TEXTO COMPLETO ABAIXO)
“Eu estou quase inclinado a estabelecer esta idéia como um cânone, a de que uma história infantil que só é apreciada por crianças é uma história infantil ruim. As boas histórias sobrevivem. Uma valsa que você só aprecia enquanto está valsando não é uma boa valsa”.
(C. S. Lewis, autor de As Crônicas de Narnia, em seu ensaio intitulado On the Three Ways of Writing for Children)
Há uma época do ano em Porto Alegre na qual o centro da capital gaúcha realmente é transformado - são os ansiosamente esperados quinze dias em que a Praça da Alfândega é tomada pela Feira do Livro de Porto Alegre, um evento que já está em sua 51ª edição e prestes a ser declarado oficialmente Patrimônio Cultural do Estado do Rio Grande do Sul. Como carioca que sou, sinto-me à vontade para elocubrar que a Feira do Livro, a maior deste gênero na América Latina, é um dos motivos pelos quais esta cidade e este estado aparecem como os de maior número de livros lidos por ano por habitante.
Este ano, uma das novidades da Feira do Livro de Porto Alegre foi a transferência da área infanto-juvenil para os armazéns do Cais do Porto, possibilitando a expansão deste setor do evento que considero dos mais importantes, pelo caráter de formação de futuros leitores.
A necessidade dos organizadores de expandir o espaço infanto-juvenil do evento é, a meu ver, um reflexo do crescimento do mercado editorial voltado para aquela faixa etária - um aumento no número de publicações que, infelizmente, não é visto na mesma proporção no que diz respeito à qualidade do que se escreve para crianças no Brasil.
O escritor britânico C. S. Lewis, autor da fantástica série de livros infantis As Crônicas de Narnia - que muito em breve irão aportar em nossos cinemas, em caprichada produção estadunidense - e amigo pessoal de J. R. R. Tolkien, o autor do colossal O Senhor dos Anéis, colocou muito apropriadamente, em um ensaio intitulado Sobre as Três Maneiras de Escrever para Crianças, que a pior forma de se escrever para este público é seguir a máxima mercadológica de “dar ao público o que ele quer”. Na visão do escritor, buscar adivinhar o que o público infantil quer é, em geral, empobrecer qualquer mensagem que se queira expressar - pois em geral os adultos pouco ou nada saber do que realmente se passa na cabeça dos pequenos. Temos, nós adultos, uma visão muito distorcida do que seja a infância, embora tenhamos passado por ela - já que há a noção errônea, em nossa sociedade, de que se tornar adulto é abandonar todo e qualquer traço do que éramos em nossa infância.
Quais seriam, então, para o autor britânico, as formas mais valorosas de escrever para crianças? Ele cita duas maneiras que pôde observar na obra de vários autores contemporâneos seus, e mesmo anteriores a ele, que possibilitaram o sucesso de tais escritos junto ao público infantil. A primeira, observada na forma como surgiram os livros de Tolkien e Lewis Carroll, consistiria em escrever a partir de uma história contada para uma criança em particular - uma maneira de escrever que lembra aquela primeira, alerta Lewis, mas que neste caso é um “dar ao público o que ele quer” voltado para uma pessoa concreta, uma criança em particular, com a qual se pode manter uma relação real de oferta e retorno. Não se trata, neste caso, de escrever para “crianças” - tomando-se este substantivo plural como significando toda uma espécie em particular, distinta dos “adultos” - mas, sim, para uma criança que irá reagir a qualquer tentativa sua de narrar uma história como “se estivesse contando para uma criança” (uma idéia que quase sempre leva a uma redução vocabular e simbólica que leva as crianças ao enfado ou à rejeição do que se está a narrar; um erro, aliás, cometido até pela maioria dos livros didáticos escritos para as séries iniciais).
O segundo modo de escrever para crianças, diz C. S. Lewis, é o de escrever uma “história para crianças” por se sentir que este é o único gênero possível no qual aquele enredo poderia ser contado. Esta colocação de Lewis faz-me recordar de todos os livros de Monteiro Lobato que li na infância e que, já depois dos trinta anos, pude voltar a ler já com os olhos de adulto. São histórias que não se tornaram tolas com o tempo, que ainda estão plenas em significados e permitem diversos níveis de compreensão - como todos os clássicos da literatura infantil que posso recordar. Não creio, por exemplo, que Charles Perrault tenha escrito histórias como “Pele de Asno” - na qual uma princesa foge do castelo disfarçada sob uma pele de asno para fugir das ameaças incestuosas do rei seu pai - para crianças; mas elas oferecem várias formas de interpretação, diversos pontos de interesse de acordo com a idade e a capacidade de compreensão do leitor. Talvez por isso eu nunca tenha escrito para crianças - ainda não tive em mente uma história que me pedisse para ser escrita pela arte única do conto infantil.
E como andam os livros infantis que estão a fazer desta Feira do Livro de Porto Alegre um sucesso de vendas justamente nas faixas etárias a que eles se destinam? Felizmente, há bons lançamentos, até mesmo reedições de histórias clássicas, como as de Perrault e Lobato, em publicações que resgatam o texto e ilustrações originais. O Brasil é pródigo em escritores de livros infantis de qualidade, como Ruth Rocha e Ana Maria Machado (sendo injusto e citando apenas duas de minhas autoras preferidas), graças aos céus. Mas, por outro lado, vê-se também muita tolice multicolorida sendo vendida como livro infantil.
Há, por exemplo, uma profusão de livros cujos personagens principais são bruxas e bruxos - na poeira do grande sucesso editorial infanto-juvenil da década, a ótima série Harry Potter, da inglesa J. K. Rowling -, quase sempre pouco inspirados, alguns deles repletos de lugares-comuns e, pasmem, até mesmo generalizações e preconceitos que jamais deveriam constar em publicações voltadas para um público em formação. Além desse filão, existe uma avalanche de livros infantis baseados em famosos personagens de desenhos animados - nenhum problema com isso - cujo apelo é tão-somente o protagonista, por si só, já que as histórias são amorais e, em geral, tolas. As meninas, em especial, estão sendo bombardeadas com livrinhos sobre princesas e bonecas em uma quantidade tão imensa que deveriam fazer os pais desconfiarem dessas publicações como mero merchandising para vender brinquedos… Nada de jogo de palavras, cadências divertidas e sons repetidos que despertem a criança para o uso da linguagem como diversão - parece que, aos olhos de algumas editoras infantis, livro infantil é sinônimo de livro colorido. O pior de tudo são os livros de escritores renomados, celebridades instantâneas, cantores e outros famosos que se arvoram a escrever livros infanto-juvenis sabe-se lá porquê - talvez apenas para completar aquelas metas míticas de “ter um filho, plantar uma árvore e escrever um livro”.
E as tolices em forma de adaptação de textos clássicos? Há desde um livro que se propõe a explicar para as crianças o existencialismo (para que?) de Jean Paul Sartre, o autor dos indigestos A Idade da Razão e A Náusea, em um livro que transforma o filósofo e sua companheira em Sartrezinho e Simoninha de Beauvoir… Outro livro que causa espanto é uma adaptação modernosa da Lenda dos Cavaleiros da Távora Redonda que oferece “uma versão divertida do triângulo amoroso de Artur, Guine e Lance (sic!)”. Mas ambos os livros são bem coloridos.
Mas, bom ou ruim, o livro infantil é um instrumento importante na construção de futuros leitores. O objeto estranho, de capa dura e folhas de papel unidas por um emaranhado de costuras, só se tornará amigo da criança se for um companheiro também fiel dos adultos que a cercam. O livro infantil é para ser lido, primeiramente, pelos pais para seus filhos, pelos professores para seus alunos, pelos adultos para as crianças que, despertadas pela curiosidade de saber como saem daqueles papéis estranhos tantas aventuras divertidas e fantásticas, irão costurar aos poucos uma relação de amizade com o livro.