Thursday, November 10, 2005

De cabeça para baixo

“I wanted the tension of waiting for something to happen, and then you should just get drawn into the rhythm of the thing. It’s elaborate without any point.” (Bruce Nauman, videoartista, sobre sua obra Revolving Upside Down)

O modernoso Segundo Caderno do jornal Zero Hora, de Porto Alegre, ao querer elogiar uma exposição anunciada para acontecer nos jardins de um parque da capital gaúcha, acabou involuntariamente ofendendo os artistas. Uma pequena, mas lastimável gafe para os tais “nomes de ponta da arte contemporânea internacional”, nas palavras do jornal, a terem seus trabalhos ali representados.

Explico-me. O autor deu o título de Sessão Experimental de Cinema a uma matéria de capa sobre uma mostra de trabalhos da autointitulada videoarte. (…) E os adeptos desta arte que usa o vídeo como instrumento de expressão, enrugam o cenho e soltam o verbo ao serem comparados à televisão e ao cinema. Para eles, há uma diferença visceral entre o que fazem e aquelas formas tão comerciais de uso da imagem em movimento: a videoarte não se utiliza das inúmeras convenções existentes no fazer cinematográfico ou televisivo, ou seja, não necessariamente usa atores, diálogo, roteiro narrativo “ou qualquer outra ferramenta que faz do cinema e da televisão uma forma de entretenimento”, nas palavras dos próprios videoartistas.

O que se deve esperar da videoarte, então? (…)Há composições em vídeo para todos os gostos. Menos, a meu ver, para o bom gosto. (LEIA O TEXTO COMPLETO ABAIXO)

“I wanted the tension of waiting for something to happen, and then you should just get drawn into the rhythm of the thing. It’s elaborate without any point.” (Bruce Nauman, videoartista, sobre sua obra Revolving Upside Down)

 

O modernoso Segundo Caderno do jornal Zero Hora, de Porto Alegre, ao querer elogiar uma exposição anunciada para acontecer nos jardins de um parque da capital gaúcha, acabou involuntariamente ofendendo os artistas. Uma pequena, mas lastimável gafe para os tais “nomes de ponta da arte contemporânea internacional”, nas palavras do jornal, a terem seus trabalhos ali representados.

Explico-me. O autor deu o título de Sessão Experimental de Cinema a uma matéria de capa sobre uma mostra de trabalhos da autointitulada videoarte. A Secretaria Municipal de Cultura de Porto Alegre investiu, por meio de sua Coordenação de Cinema, Vídeo e Fotografia, na organização de uma exposição de vinte exemplares, dentre os mais famosos e representativos desta contemporânea modalidade artística. E os adeptos desta arte que usa o vídeo como instrumento de expressão, enrugam o cenho e soltam o verbo ao serem comparados à televisão e ao cinema. Para eles, há uma diferença visceral entre o que fazem e aquelas formas tão comerciais de uso da imagem em movimento: a videoarte não se utiliza das inúmeras convenções existentes no fazer cinematográfico ou televisivo, ou seja, não necessariamente usa atores, diálogo, roteiro narrativo “ou qualquer outra ferramenta que faz do cinema e da televisão uma forma de entretenimento”, nas palavras dos próprios videoartistas.

O que se deve esperar da videoarte, então? Nas palavras de um videoartista, às quais tive acesso por intermédio da rede mundial de computadores, as intenções da videoarte podem ser “desde a simples exploração das fronteiras da mídia usada até mesmo atacar rigorosamente as expectativas do público sobre o vídeo como é comumente tratado pelo cinema convencional”. Em outras palavras, espere da videoarte o mesmo que oferecem as demais frações da chamada arte contemporânea - ou seja, não muito. Para mim, particularmente, a videoarte parece mais uma forma de arte(?) feita para os próprios artistas, um círculo hermético que se retroalimenta das suas bizarras concepções do que é a arte em uma época na qual parece ser “proibido proibir”.

Na arte contemporânea, parecem ser inprescindíveis as explicações delongadas de suas intenções, sem as quais o público, naturalmente já alheio ao tal diálogo com a arte que tais trabalhos propõem, fica ainda mais distante de qualquer compreensão. Não há arte contemporânea sem o acompanhamento de um memorial descritivo, enfim. Vejamos, então, como se explicam os trabalho que compõem a programação de tal mostra patrocinada pelo governo local. Em Revolving Upside Down, Bruce Nauman, um videoartista, aparece girando em torno do próprio braço, a mão encostando o chão, no fundo de uma sala, com a câmera a captá-lo de cabeça para baixo. O artista declarou que sua intenção era “a tensão de aguardar que algo aconteça, e então depois você apenas se lançar no ritmo da coisa”. Ele disse ter se inspirado em uma passagem de uma peça teatral de Samuel Beckett na qual os personagens transportam pedras de um lado a outro do palco, nos bolsos de um sobretudo. Para Nauman, a cena foi uma revelação, pois mostra “algo extremamente elaborado, mas sem nenhuma razão de ser”.

Mas o trabalho de Nauman é doce e poético diante da proposta de Bob Flanagan, um videoartista estadunidense falecido em 1996: em Autopsy, o artista(?) - que se autointitulava um supermasoquista -, filma uma longa e descabida sessão de autoflagelação e sadomasoquismo com a ajuda de sua companheira e dominatrix Sheere Rose. Flanagan, desnudo, serve de divã para a companheira, vestida de avental e luvas cirúrgicas, enquanto ela discorre sobre a paixão dos dois. O detalhe é que a narrativa de Rose é intercalada por pausas nas quais ela soqueia o rosto do amado, puxa os piercings do corpo de Flanagan ou simplesmente enche-o de tapas. Depois, com tom didático, ela exemplifica no companheiro uma série de procedimentos sadomasoquistas (e reivindico o direito de não precisar descrever nenhum deles aqui, pois minha intenção, diferente dos contemporâneos, não é a de chocar ninguém).

Há de tudo na exposição, do grotesco ao risível - uma artista que se trancou em uma jaula de zoológico, outra que se submeteu a uma série de cirurgias para mostrar como era capaz de adequar-se aos padrões de beleza nas diversas épocas da história (o vídeo mostra os procedimentos em detalhes que são verdadeiramente abjetos), um artista italiano que filma sua boca enquanto acumula saliva por irritantes vinte e dois minutos, uma mulher que conta todos os detalhes da morte de seu esposo e seu posterior luto com o rosto fincado por dezenas de agulhas de acupuntura… Enfim, há composições em vídeo para todos os gostos.

Menos, a meu ver, para o bom gosto.

Posted by Frizero at 13:30:40 | Permalink | No Comments »