Wednesday, November 9, 2005

Os Palhaços

“Ridi, Pagliaccio, sul tuo amore in franto!
Ridi del duol t’avvelena il cor!”
(Cena final do primeiro ato da ópera
I Pagliacci, de Ruggero Leoncavallo(1858-1919)

Anuncia-se em Porto Alegre, para a segunda quinzena de novembro, a encenação da ópera I Pagliacci, de Ruggero Leoncavallo, pelo Instituto de Cultura Musical da PUC-RS, com a participação de sua orquestra e coral - do qual sou um orgulhoso ex-integrante. Parece-me, aliás, que a escolha desta ópera em especial é por demais apropriada para o momento atual de nossa política. (…) Nosso presidente Luiz Inácio Lula da Silva, não sei se os leitores hão de concordar comigo, lembra Canio, o palhaço e líder da trupe, que há meses reclama por sentir-se traído, por desconhecer as aproximações escusas e o envolvimento promíscuo de seu partido com empresários fraudadores e políticos fisiologistas e, ao que consta, não querer acreditar que tudo isso verdadeiramente aconteceu.(…) Na derradeira cena de I Pagliacci, Canio canta seu último verso, mãos sujas de sangue, olhos esgazeados de pavor e fúria a mirar a praça do vilarejo lotada pela platéia: La commedia è finita!… Na Praça dos Três Poderes, infelizmente, a comédia parece nunca ter fim. (…) (LEIA O TEXTO COMPLETO ABAIXO)

“Ridi, Pagliaccio, sul tuo amore in franto!
Ridi del duol t’avvelena il cor!”
(Cena final do primeiro ato da ópera
I Pagliacci, de Ruggero Leoncavallo(1858-1919)

Anuncia-se em Porto Alegre, para a segunda quinzena de novembro, a encenação da ópera I Pagliacci, de Ruggero Leoncavallo, pelo Instituto de Cultura Musical da PUC-RS, com a participação de sua orquestra e coral - do qual sou um orgulhoso ex-integrante. Parece-me, aliás, que a escolha desta ópera em especial é por demais apropriada para o momento atual de nossa política. Peço-lhes a paciência de me acompanhar nesta minha grande metáfora.

Na ópera, tudo começa quando um envelhecido corcunda, Tonio, artista de uma trupe mambembe, surge ante os presentes e lembra ao público que, por detrás da mágica teatral, os atores movem-se em uma trama de emoções genuinas, interesses terrenos, paixões verdadeiras. Ele, então, ordena que as cortinas se abram e o espetáculo comece. Tudo se passa na praça principal de uma pequena vila, onde se apresentará a trupe de atores. Canio, o líder do grupo e palhaço durante as funções junto ao público, é convidado para tomar um aguardente em uma taverna próxima, quando então é avisado pelo estranho sobre um possível envolvimento de Nedda, esposa de Canio, com outro ator da trupe - Tonio, o qual, nas encenações, fazia papel de amante da tal atriz. Canio enche-se de ira, pois desconhecia tal romance, e exprime aos que estão a seu redor que a situação o desagrada, que se sente brutalmente atraicionado.

Enquanto isso, Tonio acaba por revelar a Nedda sua paixão - mas ele é rechaçado por ela e promete vingança. Nedda, em verdade, mantém um romance secreto com um dos moradores da vila, Silvio, que lhe cobra a promessa de abandonar o esposo. Tonio, descobrindo as relações escusas entre os dois, delata a Canio as urdiduras dessa paixão secreta de Nedda. Canio promete cortar o mal pela raiz, mas Silvio foge e Nedda, pressionada, recusa-se a revelar o nome do amante. Embora sua vontade seja destruir Nedda, Canio é impedido por outro membro da trupe, Beppe, que lembra ao líder do grupo que o público está a postos para assistir o desenrolar do drama por eles ensaiado. Embora seu coração esteja ferido, traído, ele veste sua roupa e maquiagem de palhaço e sobe ao palco…

Não seria exagerado de minha parte tecer um interessante paralelo entre o libreto operístico e os escândalos políticos atuais. Como na ópera, a trama da crise corrente começou com um veterano político nacional, não por acaso notório por suas deformidades em termos de caráter como deputado, revela ao povo que, por trás da aparência de negociação política, há toda uma urdidura de trocas de interesse e, o que é mais aterrador, dinheiro público na forma de repasses mensais de dinheiro a comprar consciências e opiniões de outros parlamentares (e suspeita-se que, como o corcunda Tonio, ele tenha iniciado seu movimento de vendetta ao se ver rechaçado pelas forças partidárias da atual gestão do Palácio do Planalto quando do processo de acusação de seu envolvimento em um esquema de propina na Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos).

Nedda, a adúltera atriz que personifica a Colombina no drama dentro do drama, pode ser a metáfora de vários envolvidos no caso - Delúbio Soares, Silvio Pereira, José Genoíno, José Dirceu - ou de todos estes juntos, que em nome de um partido que exalava valores morais maiores e era pródigo em lançar anátemas no cenário político brasileiro, em verdade coordenavam por detrás do pano de cena uma pantomima de desvio de dinheiro do contribuinte e financiamento eleitoral ilícito jamais vista neste nosso país (e, como Nedda, como tentam esconder esses senhores, por trás da maquiagem de Colombina, a face de decaídos).

Nosso presidente Luiz Inácio Lula da Silva, não sei se os leitores hão de concordar comigo, lembra Canio, o palhaço e líder da trupe, que há meses reclama por sentir-se traído, por desconhecer as aproximações escusas e o envolvimento promíscuo de seu partido com empresários fraudadores e políticos fisiologistas e, ao que consta, não querer acreditar que tudo isso verdadeiramente aconteceu.

O final de I Pagliacci, como de toda ópera que ostenta tal denominação, não é feliz. Canio, enfurecido com a traição, o romance secreto que descobre haver entre Nedda e Silvio - uma revelação que, como no Hamlet de William Shakespeare, surge no drama dentro do drama -, mata o amante e a esposa em pleno palco, na frente de todo o público.

Confesso que não tenho visto no presidente Lula vontade, convicção ou força moral para efetuar o derradeiro ato, o de dar um basta à traição revelada ao povo pelas mãos tortuosas de nosso Tonio-Roberto Jefferson - o qual, ironicamente, arvora-se a ser um cantor lírico amador, apesar da perceptível falta de talento -, promovendo o assassínio simbólico dos que, segundo ele mesmo, teriam traído a ele, presidente, ao Partido dos Trabalhadores e ao povo brasileiro. Pensando bem, comparar Lula a Canio parece mesmo ser um exagero, pois dificilmente o desfecho da crise política atual será o mesmo da ópera…

Na derradeira cena de I Pagliacci, Canio canta seu último verso, mãos sujas de sangue, olhos esgazeados de pavor e fúria a mirar a praça do vilarejo lotada pela platéia: La commedia è finita!… Na Praça dos Três Poderes, infelizmente, a comédia parece nunca ter fim. E o público - ao menos aqueles que conseguiram acompanhar a encenação desde o princípio, com atenção e cuidado - não tem a mínima vontade de pedir bis.

Posted by Frizero at 13:44:20 | Permalink | No Comments »