Tuesday, November 8, 2005

Inversão de papéis

O sexo banalizou-se na vida das pessoas ao ponto de termos, hoje, risíveis inversões sociais.

  Recentemente assisti a uma peça teatral que fazia humor justamente com esta percepção: Caras e Bocas, com um excelente texto da atriz gaúcha Ângela Dip, encerra-se com uma cena na qual duas prostitutas apresentam uma palestra em uma suposta convenção para colegas de profissão – nós, o público.  As personagens reclamam que os homens já não se interessam muito pelos serviços da profissão mais antiga do mundo, pois hoje “as donas-de-casa já fazem tudo e mais um pouco” em termos eróticos, não deixando nada a dever para as profissionais.  (…) Uma das constatações mais divertidas das prostitutas da ficção teatral é a de que “qualquer livraria, qualquer banca de jornal hoje em dia vende manuais completos sobre sexo, ensinando as mais diferentes e ousadas posições – há até livros em que gays ensinam mulheres a fazer sexo oral em seus parceiros!”. (…) Ainda que o tom da comédia seja mesmo o da galhofa, Ângela Dip coloca às claras o que muitos ainda parecem não enxergar: o movimento feminista, com sua bandeira de liberação sexual, descambou para o que hoje vemos nas revistas femininas – nunca se falou tanto em formas, as mais díspares e exóticas, de agradar o homem. (…) (LEIA O TEXTO ABAIXO)

O sexo banalizou-se na vida das pessoas ao ponto de termos, hoje, risíveis inversões sociais.

  Recentemente assisti a uma peça teatral que fazia humor justamente com esta percepção: Caras e Bocas, com um excelente texto da atriz gaúcha Ângela Dip, encerra-se com uma cena na qual duas prostitutas apresentam uma palestra em uma suposta convenção para colegas de profissão – nós, o público.  As personagens reclamam que os homens já não se interessam muito pelos serviços da profissão mais antiga do mundo, pois hoje “as donas-de-casa já fazem tudo e mais um pouco” em termos eróticos, não deixando nada a dever para as profissionais.  Elas comentam também que o próprio jeito de vestir das meninas da beira do cais do porto, das mariposas, das garotas de programa, hoje é moda – e uma moda que é vendida a peso de ouro nas butiques mais chiques e, em um país destemperado como o nosso, estendida também para as adolescentes e meninas de qualquer idade.

Aliás, uma das melhores piadas dessa cena é quando as prostitutas falam que decidiram “oferecer a palestra em um horário alternativo para que as colegas não perdessem horas de trabalho” e, olhando para o visual de algumas mulheres da platéia, disparam: “…se bem que estou vendo, pelas roupas de vocês, que algumas já vão sair daqui direto para o batente!” (O pior é que muitas mulheres sequer parecem ter a noção de que certos elementos dessa moda femme facile – permitam-me o trocadilho maroto -, como a calça de cós baixo, as blusas baby look, os piercings e as tatuagens não caem bem em todos os tipos físicos e em todas as ocasiões sociais…)

  Uma das constatações mais divertidas das prostitutas da ficção teatral é a de que “qualquer livraria, qualquer banca de jornal hoje em dia vende manuais completos sobre sexo, ensinando as mais diferentes e ousadas posições – há até livros em que gays ensinam mulheres a fazer sexo oral em seus parceiros!”. Ao final da cena, as duas palestrantes mostram o que seria o padrão da nova prostituta contemporânea: uma mulher vestida à antiga, com pouco ou nada do corpo à mostra; uma mulher recatada, e que pouco ou nada soubesse do que o homem mais gosta na cama – pois isso seria o que o homem moderno já não encontra nas mulheres de família da sociedade… Afinal, a razão de ser das tristes mulheres de vida fácil não é justamente dar aos podres clientes que as usam o que eles não encontram nas mulheres ditas decentes?

  Ainda que o tom da comédia seja mesmo o da galhofa, Ângela Dip coloca às claras o que muitos ainda parecem não enxergar: o movimento feminista, com sua bandeira de liberação sexual, descambou para o que hoje vemos nas revistas femininas – nunca se falou tanto em formas, as mais díspares e exóticas, de agradar o homem.  Ou seja: as mulheres eram submissas aos seus maridos, lutaram pela liberdade e igualdade de direitos e agora retornam a uma escravidão das vontades do homem sob o manto de uma pseudo-liberação. 

Na melhor adequação à pregação da recém-espiritualizada Toni Bentley – a autora estadunidense que citei recentemente ao comentar o livro em que ela declara ter mantido contato com Deus ao praticar uma certa posição sexual nada comum ao universo das fantasias eróticas femininas – a submissão parece ser vista pelos contemporâneos como o segredo da salvação para as filhas e netas do feminismo.

Posted by Frizero in 10:33:03
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