Monday, November 7, 2005

Sexo e Epifania

“Encontrei por acaso a grande piada cósmica, a suprema ironia de Deus.  Entre pela saída.  O paraíso está esperando.”
(Toni Bentley, ex-bailarina norte-americana, em seu livro autobiográfico A Entrega)

Há várias descrições presentes nas narrativas de todos os povos e épocas sobre as formas pelas quais homens e mulheres considerados iluminados atingiram a espiritualidade, contataram o divino, estiveram na presença de Deus - seja lá qual expressão se prefira usar para descrever o que os anglófonos chamam de epiphany, ou seja, o momento único em que o homem tem a oportunidade de suplantar sua existência meramente material e contatar, com um grau maior de transcendência e compreensão, algo do que se passa além das barreiras do mundo de ilusões de que nos falam os budistas, do nosso mundo de carne, osso e matéria bruta.(…)Nenhuma dessas epifanias, contudo, por mais bizarras e inacreditáveis que possam parecer a este ou aquele leitor mais incrédulo, encontra comparação com o que nos narra Toni Bentley, ex-bailarina norte-americana, em seu recém-lançado livro autobiográfico The Surrender (em inglês, A Submissão(…). A autora descreve no livro, entre outros tantos temas, sua experiência com o divino, seu encontro com Deus, seu momento maior de elevação, o qual teria sido atingido pela prática do sexo anal. (…)(LEIA O TEXTO COMPLETO ABAIXO)

“Encontrei por acaso a grande piada cósmica, a suprema ironia de Deus.  Entre pela saída.  O paraíso está esperando.”
(Toni Bentley, ex-bailarina norte-americana, em seu livro autobiográfico A Entrega)

Há várias descrições presentes nas narrativas de todos os povos e épocas sobre as formas pelas quais homens e mulheres considerados iluminados atingiram a espiritualidade, contataram o divino, estiveram na presença de Deus - seja lá qual expressão se prefira usar para descrever o que os anglófonos chamam de epiphany, ou seja, o momento único em que o homem tem a oportunidade de suplantar sua existência meramente material e contatar, com um grau maior de transcendência e compreensão, algo do que se passa além das barreiras do mundo de ilusões de que nos falam os budistas, do nosso mundo de carne, osso e matéria bruta.

Moisés, na tradição judaico-cristã, teria visto o Deus de Abraão ao subir um monte, onde uma sarça ardia em chamas mas não se consumia, e uma voz lhe dizia que ele pisava em terra santa. 

Zaratustra, um jovem pastor persa, teria mantido contato com a divindade após um retiro voluntário de dez anos, quando deixou seu povo e foi viver em cavernas na região mais montanhosa da Pérsia, atual Irã.  Ao regressar para o vilarejo de origem de sua família, ele teria sido contemplado com sete visões de Ahura Mazda, o Deus Todo-poderoso, e daí iniciado sua peregrinação como profeta. 

Saulo, um jovem fariseu da cidade de Tarso, terra de estoicistas e libera civitas do Império Romano, teria encontrado o Deus dos cristãos no caminho de Damasco, em uma visão que o teria deixado cego, mas que também lhe revelaria, a um só tempo, sua missão espiritual e o lugar onde deveria buscar a cura para o novo mal que lhe afligia.

Mohammad, um condutor de caravanas de quarenta anos de idade, ao afastar-se para um retiro meditativo na caverna de Gar Hidá, nas proximidades da cidade de Meca, teria recebido a visita do Anjo Gabriel, que lhe ordenou por três vezes que recitasse em nome de Deus as palavras que iriam compor a revelação do Deus Único. 

Helena, mãe do imperador romano Constantino, teria sido orientada por anjos em um sonho sobre o local onde a verdadeira cruz na qual Jesus, o Cristo, teria sido enterrada.

Joseph Smith, um jovem fazendeiro recém-casado que vivia em uma casa doada por seu sogro em uma propridade rural no estado da Pennsylvania, Estados Unidos da América, teria recebido de um anjo do Senhor a indicação para desenterrar, em um local que Smith chamou posteriormente de Cumorah, um livro sagrado escrito em placas de ouro maciço, chamado de Livro de Mormon, escrito em símbolos de uma língua que apenas ao jovem fora permitido traduzir e cuja visão a olho nu levaria qualquer outro ser humano à morte imediata.

Hypollyte Denizard Rivail, um renomado pedagogo lionês, teria sido apresentado à sua missão espiritual quando a ele lhe fora revelado, por um espírito manifestado por intermédio de uma jovem parisiense em transe, que ele, Rivail, teria sido um sacerdote druida de nome Allan Kardek em uma vida pregressa, e que retornava naquela existência para trazer ao mundo uma nova revelação.

Francisco Cândido Xavier, ainda menino franzino em Pedro Leopoldo, interior de Minas Gerais, teria tomado contato com Deus por meio de uma visita de sua mãe já desencarnada, a qual lhe apresentaria um espírito iluminado, de nome Emmanuel, que seria seu mentor espiritual e amigo em seu trabalho posterior na divulgação da doutrina codificada por aquele mesmo pedagogo de Lyon, algumas décadas antes.

Raimundo Irineu Serra teria recebido sua iluminação espiritual quando de uma visão, em Brasiléia, no Acre, na qual teria confabulado com Nossa Senhora da Conceição, a Rainha da Floresta, que lhe fez encarregado de divulgar uma nova doutrina cristã que teria como um dos pontos centrais a ingestão da ayauasca, um chá composto por duas plantas amazônicas que teria o poder de ampliar a percepção cósmica dos homens.

Nenhuma dessas epifanias, contudo, por mais bizarras e inacreditáveis que possam parecer a este ou aquele leitor mais incrédulo, encontra comparação com o que nos narra Toni Bentley, ex-bailarina norte-americana, em seu recém-lançado livro autobiográfico The Surrender (em inglês, A Submissão, mas que a editora brasileira preferiu traduzir como A Entrega - Memórias Eróticas), trazido até meus olhos pela reportagem do caderno Donna - dedicado à moda, comportamento e temas afins - do jornal  Zero Hora, de Porto Alegre, do dia 6 de novembro de 2005. 

A autora descreve no livro, entre outros tantos temas, sua experiência com o divino, seu encontro com Deus, seu momento maior de elevação, o qual teria sido atingido pela prática do sexo anal.  Sim - preciso repetir isso sob pena de que passe despercebido -, o sexo anal teria sido seu caminho para encontrar sua espiritualidade - e, para não soar como puritano ou reacionário, prefiro aqui reproduzir suas palavras, para que o leitor faça seu próprio julgamento: “minha transformação não foi de baixo para cima, mas de baixo para baixo: de minha desprezível submissão emocional à abençoada submissão sexual“.  Para Toni, que no livro declara ter sido sodomizada (perdoe-me pela referência bíblica a Sodoma e Gomorra) duzentas e noventa e oito vezes (sic!), a revelação que mudaria sua vida espiritual veio de um caso que teve com um parceiro que chamou no livro de Homem-A, o qual teria apresentado a ela os “portais do paraíso” após inúmeras sessões de sexo convencional e algumas experiências de sexo a três.  Nas palavras da autora, sua epifania “foi um milagre emocional e anatômico“, que ela considerou surpreendente e revelador ao dizer que “se [ela] tivesse andado sobre a água não poderia ter ficado mais maravilhada“.

A crítica modernosa estadunidense, como era de se esperar, incensou o livro de Toni como uma obra-prima revolucionária.  Na minha modesta visão de escritor bissexto, a revelação da ex-bailarina não é mais que uma conseqüência risível do que os intelectuais contemporâneos andam a idolatrar desde os anos 1960: o poder do sexo como instrumento de libertação. 

Para as feministas mais ferrenhas, em verdade, o sexo sempre foi visto apenas através do prisma da repressão - e em um mundo que luta contra as tiranias, o rompimento com os regramentos que existiam na sexualidade humana então foram vistos como um caminho certo para a paz e a sociedade perfeita.  Mas Camille Paglia, a brilhante socióloga estadunidense, já denunciou em seu livro “Sex and Violence, Or Nature and Art” esta falácia feminista ao dizer que tal movimento “grosseiramente simplificou o problema do sexo quando reduziu-o a uma questão de convenção social: reajustada a sociedade, eliminada a desigualdade sexual, purificados os papéis sexuais, a felicidade e a harmonia reinariam“, um conceito que espelha, no fundo, a mesma concepção rousseauniana de que a reforma social era a real maneira de construir o paraíso terrestre, por ver o homem como portador de uma bondade inata.  Para Paglia, esta lógica feminista é que as leva a culpar a pornografia pelo aumento de estupros, ou a ver o crime e a violência como resultados únicos de uma vizinhança pobre e um lar destroçado… Na visão da socióloga, a violência e a luxúria são frutos da natureza humana e não de construções sociais.  “Quando os controles sociais são afrouxados“, diz Paglia, “a crueldade inata do ser humano aflora” (e se alguém ainda duvidar dessa assertiva, é sempre válido recordar o que aconteceu nos dias que sucederam à passagem do furacão Katrina pela cidade de Nova Orleans, nos Estados Unidos).

Ao falar dessa natureza inata do homem, que não é a bondade mas a barbárie, Paglia leva-nos a pensar nos caminhos aos quais boa parte da intelectualidade contemporânea, com sua exaltação ao individualismo e a condenação dos ordenamentos sociais como ferramentas de opressão, irão nos levar.  A liberação sexual dos anos 1960, se nos trouxe aos contemporâneos o benefício de desatar amarras de hipocrisia e rédeas de dominação que precisavam ser desfeitas, também deixou como herança macabra um esvaziamento das relações amorosas, um esfacelar das estruturas familiares, um crescimento indesejado de fatores que perpetuam a desigualdade - como a desordenada explosão de casos de gravidez na infância e na adolescência, a proliferação de doenças sexualmente transmissíveis, a busca da satisfação pessoal sobre qualquer valor de adequação social, e a aceitação perversa da promiscuidade como fonte da felicidade e razão de viver das pessoas.

Paglia denuncia a liberação sexual e a liberdade sexual como “ilusões modernas“.  Para ela, “a integração entre o corpo e a mente é um problema profundo que não será jamais solucionado com sexo casual ou uma expansão dos direitos civis das mulheres“, mas com a busca do ser humano pelo que há de essencialmente divino dentro de cada um de nós.

Haverá verdadeira liberdade quando se é escravo do sexo sem responsabilidade, do vício sem limites, da individualidade que não respeita o direito alheio?

Cabe a cada um buscar o seu melhor caminho para responder às questões ontológicas da vida - sobre nossa origem, nossa razão de ser e nosso destino como seres humanos.  E creio mesmo que há diversas maneiras de atingir o divino em nós, nossa transcendente ligação com o cosmos.  Só questiono a forma estranha que Bentley quer nos apontar como o rumo de tal procurado nirvana… Permitam-me acreditar que isso é apenas conversa para aumentar a venda de suas memórias eróticas lá no reprimido país dos Quackers. 

Posted by Frizero at 14:45:00 | Permalink | Comments (2)