Memórias póstumas
“Por que é que uma mulher bonita olha muitas vezes para o espelho, senão porque se acha bonita, e porque isso lhe dá certa superioridade sobre uma multidão de outras mulheres menos bonitas e absolutamente feias? A Consciência é a mesma coisa; remira-se a miúdo, quando se acha bela. Nem o remorso é outra coisa mais do que o trejeito de uma consciência que se vê hedionda.” (Quincas Borba, personagem de Machado de Assis in Memórias Póstumas de Brás Cubas)
Nosso país desmemoriado deixou passar em brancas nuvens uma das efemérides mais importantes do ano de 2005: em 20 de outubro, o mais célebre defunto autor de nossa literatura, Brás Cubas, completaria duzentos anos de nascimento. (…) Brás Cubas, em sua condição de defunto autor, deixou-nos um legado de desprendimento de qualquer compromisso com a sociedade em que vivia, na condição de morto que estava ao redigir suas memórias, sentindo-se totalmente liberto para criticá-la. Mais que isto, ele trouxe à baila as vaidades e mentiras de seus contemporâneos - coisa que se espera de um defunto levar para o túmulo e lá manter bem guardado, a sete palmos da superfície. (…) Penso que em tempos como os nossos, cá no Brasil, em que algumas das testemunhas-chave dos casos mais escabrosos de nossa república são defuntos, o bom exemplo de Brás Cubas, se fosse possível a eles seguí-lo, seria uma solução desejável para iluminar a verdade (…) (LEIA O TEXTO COMPLETO ABAIXO)
“Por que é que uma mulher bonita olha muitas vezes para o espelho, senão porque se acha bonita, e porque isso lhe dá certa superioridade sobre uma multidão de outras mulheres menos bonitas e absolutamente feias? A Consciência é a mesma coisa; remira-se a miúdo, quando se acha bela. Nem o remorso é outra coisa mais do que o trejeito de uma consciência que se vê hedionda.” (Quincas Borba, personagem de Machado de Assis in Memórias Póstumas de Brás Cubas)
Nosso país desmemoriado deixou passar em brancas nuvens uma das efemérides mais importantes do ano de 2005: em 20 de outubro, o mais célebre defunto autor de nossa literatura, Brás Cubas, completaria duzentos anos de nascimento.
Faço-me claro: a obra de Machado de Assis (1839-1908) é bem posterior a isso, mas o personagem do excelente Memórias Póstumas de Brás Cubas teria vindo ao mundo em tal data, há dois séculos atrás.
Brás Cubas, em sua condição de defunto autor, deixou-nos um legado de desprendimento de qualquer compromisso com a sociedade em que vivia, na condição de morto que estava ao redigir suas memórias, sentindo-se totalmente liberto para criticá-la. Mais que isto, ele trouxe à baila as vaidades e mentiras de seus contemporâneos - coisa que se espera de um defunto levar para o túmulo e lá manter bem guardado, a sete palmos da superfície.
Decerto que o defunto autor não foi o único a lançar uma obra de finado, em suas próprias palavras. Mas aqui não quero me ater àqueles autores espirituais que nos brindam com notícias do além-túmulo, tampouco aos autores-fantasma que escrevem em nome da ignorância alheia dos poderosos sem talento. O que chama a atenção nas memórias de Cubas é por ele tê-las escrito com a pena da galhofa e a tinta da melancolia, duas conselheiras que lhe permitiram revelar um pouco da hipocrisia deste nosso mundo de aquém.
Mas, que importância haveria no bicentenário de nascimento de um morto que resolveu fazer público depois da passagem tudo o que sabia das cruezas dos que por aqui ficaram? Penso que em tempos como os nossos, cá no Brasil, em que algumas das testemunhas-chave dos casos mais escabrosos de nossa república são defuntos, o bom exemplo de Brás Cubas, se fosse possível a eles seguí-lo, seria uma solução desejável para iluminar a verdade e mostrar, enfim, em todo esse imbroglio político, quem está a mentir deslavadamente para o povo brasileiro.
Que venha à tona o que tiver que vir.