Wednesday, November 30, 2005

Como nascem os preconceitos?

Ontem, 29 de novembro de 2005, estive em uma loja de roupas de um conjunto comercial na cidade-satélite de Taguatinga, Distrito Federal, e ouvi um discurso no mínimo insólito, mas que me fez refletir sobre os perigos de um país que não lê e não se educa. A atendente, ao perceber meu sotaque diferente da mistura insólita que forma o falar brasiliense, perguntou se eu era “do Sul” - uma espécie de lugar imaginário no Brasil que, em termos geográficos, pode tanto abranger os três estados da Região Sul como também São Paulo, Minas Gerais ou o que mais estiver abaixo das fronteiras do conhecimento do interlocutor.  Respondi que era de Porto Alegre e perguntei, para ser cortês, se ela já conhecia o estado em que vivo, Rio Grande do Sul.  A reação dela foi espantosa:

- Cruzes, Deus me livre!

Perguntei, surpreso, por que de sua reação, já que no imaginário brasileiro o Sul do país é sempre visto como destino dos sonhos para uma visita turística, por sua forte influência de imigração européia.

Ah, o meu sonho é conhecer o Sul, mas tenho medo de ir para lá e ser morta - disse a moça, uma bela morena de traços indígenas e tez não muito mais escura que a minha - o senhor sabe como é, com essa minha cor, eles vão querer me matar lá no Sul!

Por alguma razão, a moça de Taguatinga associa o Sul do Brasil à violência racial. (…) Oxalá a impressão da moça de Taguatinga tenha sido diminuida por minha tentativa de convencê-la de que no Rio Grande do Sul não exterminamos negros e mestiços. (LEIA O TEXTO COMPLETO ABAIXO)

Ontem, 29 de novembro de 2005, estive em uma loja de roupas de um conjunto comercial na cidade-satélite de Taguatinga, Distrito Federal, e ouvi um discurso no mínimo insólito, mas que me fez refletir sobre os perigos de um país que não lê e não se educa.

A atendente, ao perceber meu sotaque diferente da mistura insólita que forma o falar brasiliense, perguntou se eu era “do Sul” - uma espécie de lugar imaginário no Brasil que, em termos geográficos, pode tanto abranger os três estados da Região Sul como também São Paulo, Minas Gerais ou o que mais estiver abaixo das fronteiras do conhecimento do interlocutor.  Respondi que era de Porto Alegre e perguntei, para ser cortês, se ela já conhecia o estado em que vivo, Rio Grande do Sul.  A reação dela foi espantosa:

- Cruzes, Deus me livre!

Perguntei, surpreso, por que de sua reação, já que no imaginário brasileiro o Sul do país é sempre visto como destino dos sonhos para uma visita turística, por sua forte influência de imigração européia.

Ah, o meu sonho é conhecer o Sul, mas tenho medo de ir para lá e ser morta - disse a moça, uma bela morena de traços indígenas e tez não muito mais escura que a minha - o senhor sabe como é, com essa minha cor, eles vão querer me matar lá no Sul!

Por alguma razão, a moça de Taguatinga associa o Sul do Brasil à violência racial.  Dos anos todos que vivo por lá, não me lembro de nenhum caso mais marcante de ataques a negros que pudesse justificar tal medo sincero - houve situações recentes de agressão a jovens judeus e punks por parte de outros jovens, estes identificados a retrógrados movimentos neonazistas, mas infelizmente tais fatos não são exclusividade do Rio Grande do Sul, e tem raízes mais profundas que apenas o preconceito de cor.    Mas entendo a associação viciosa que a lojista brasiliense faz entre o Sul do país, a imigração alemã e italiana e o preconceito racial. 

Em verdade, a falta de educação e leitura em um país continental como o nosso, no qual as regiões sabem de sua co-existência mas pouco conhecem umas das outras, faz com que se criem esses mitos grotescos de que “o Sul é racista e violento”, o “Rio de Janeiro é um campo de guerra”, “a Bahia é terra de preguiçosos” ou de que “o Nordestino é que destrói o crescimento brasileiro” - idéias que pouco ou nada contém de verdade, mas que impregnam nosso imaginário de país continental

Não será assim que nascem os preconceitos?  Quando tratamos desta ou daquela origem com desdém ou chacota, não estaremos colaborando com a construção de idéias tão estapafúrdias quanto estas?  Oxalá a impressão da moça de Taguatinga tenha sido diminuida por minha tentativa de convencê-la de que no Rio Grande do Sul não exterminamos negros e mestiços.

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Tuesday, November 29, 2005

Dirigindo sobre o mármore

Impressiona, no Brasil, o quanto estamos ainda vinculados aos símbolos externos de poder.  Tornar-se uma “autoridade”, neste nosso país, é gozar de regalias que muitas vezes beiram o absurdo e atingem facilmente o risível. Neste domingo, dia 28 de novembro de 2005, estive a apresentar alguns pontos turísticos de nossa bela capital, Brasília, a dois estrangeiros que, pela primeira vez, estão a conhecer a cidade.  (…) O prédio que realmente os cativou por sua riqueza cultural e arquitetônica foi o Palácio Itamaraty, sede do Ministério das Relações Exteriores.  Lá, a solícita guia, falando um ótimo inglês, explicou-nos que o Secretário-Geral do Corpo Diplomático Brasileiro, mais alto posto de carreira, tem um acesso especial ao prédio, feito por uma rampa que começa na entrada principal do prédio, passa por dentro do palácio - para que o Secretário possa descer do veículo na porta de seu faustoso gabinete - e dá saída pelos anexos existentes nos fundos do edifício.  A rampa, é importante frisar, é toda em mármore.  “Mármore?”, um dos visitantes estrangeiros me indagou, “Eles dirigem o automóvel sobre mármore?  O Brasil é realmente um país muito rico.” Confesso que não tive como responder a tal pergunta.  Não creio que conduzir sobre pedra tão rara e simbolicamente ostentatória seja sinônimo de nossa riqueza.  Vejo isso mais como uma irônica forma de o arquiteto Oscar Niemeyer ter retratado, ali, um pouco do nosso jeito de se relacionar com as estâncias de poder - se é que foi dele tal idéia pretensiosa. (…) (LEIA O TEXTO COMPLETO ABAIXO)

Impressiona, no Brasil, o quanto estamos ainda vinculados aos símbolos externos de poder.  Tornar-se uma “autoridade”, neste nosso país, é gozar de regalias que muitas vezes beiram o absurdo e atingem facilmente o risível.

Neste domingo, dia 28 de novembro de 2005, estive a apresentar alguns pontos turísticos de nossa bela capital, Brasília, a dois estrangeiros que, pela primeira vez, estão a conhecer a cidade.  A visita guiada ao Congresso Nacional foi bem conduzida - ainda que o guia tenha mantido um discurso político-planfetário descabido por quase todo o tempo em que lá estivemos - e a organização do lugar impressionou meus ciceroneados, mas o prédio que realmente os cativou por sua riqueza cultural e arquitetônica foi o Palácio Itamaraty, sede do Ministério das Relações Exteriores.  Lá, a solícita guia, falando um ótimo inglês, explicou-nos que o Secretário-Geral do Corpo Diplomático Brasileiro, mais alto posto de carreira, tem um acesso especial ao prédio, feito por uma rampa que começa na entrada principal do prédio, passa por dentro do palácio - para que o Secretário possa descer do veículo na porta de seu faustoso gabinete - e dá saída pelos anexos existentes nos fundos do edifício.  A rampa, é importante frisar, é toda em mármore.  “Mármore?”, um dos visitantes estrangeiros me indagou, “Eles dirigem o automóvel sobre mármore?  O Brasil é realmente um país muito rico.”

Confesso que não tive como responder a tal pergunta.  Não creio que conduzir sobre pedra tão rara e simbolicamente ostentatória seja sinônimo de nossa riqueza.  Vejo isso mais como uma irônica forma de o arquiteto Oscar Niemeyer ter retratado, ali, um pouco do nosso jeito de se relacionar com as estâncias de poder - se é que foi dele tal idéia pretensiosa.

Ser influente e poderoso no Brasil significa diminuir sua carga de trabalho braçal.  Não por acaso os ministros e chefes militares estão sempre cercados de estafetas e serviçais, os deputados e senadores ostentam números elevados de assessores e outros líderes políticos, figuras proeminentes de nosso serviço público, meio cultural e artístico e mesmo dentro de nossas instituições privadas parecem perder a capacidade de realizar as tarefas mais simples do cotidiano, contratando - com dinheiro seu ou dos outros - empregados para proceder com as ações mais banais de suas vidas.

O quadro lembra os tempos da escravidão no Brasil, em que os senhores tinham seus escravos para deles desfrutar como bem lhes entendesse.  Na época, o conceito era simples: trabalhos braçais, que exijam força ou qualquer esforço corporal, eram coisas para subalternos, para os negros da lida doméstica.   Para isso os senhores tinham mucamas, mucamos, escravos de ganho, escravos de carga e toda uma população de oprimidos que lhes serviam nas coisas mais corriqueiras, desde o vestir e despir a roupa dos patrões, carregar suas sombrinhas pelas ruas e buscar-lhes um copo de refresco ou lhe servir a refeição mesmo quando muitas vezes passavam fome em úmidas e esquecidas senzalas.  Ou será exagero de minha parte reconhecer nesta livre associação que faço os oficiais-generais que precisam, depois de anos de serviço, da ajuda de camareiros que lhes preparem os uniformes e ajudem a se vestir; os ministros que recusam cardápios menos sofisticados por ver neles uma afronta a seu status de autoridade; os parlamentares que investem o dinheiro do contribuinte em carros luxuosos e guarda-roupas custosos para poderem se sentir importantes diante do povo que o elegeu; as esposas de autoridades que usam carros públicos e, por  vezes, servidores públicos para realizar as mais simples tarefas do dia-a-dia de qualquer dona de casa?  Não são exemplos retirados de minha imaginação, mas situações que vi e vivi em meus já vinte anos de vida profissional. 

O poder no Brasil está associado à negação das atividades vistas como braçais, e isto é um fato corriqueiro em nossas vidas ao ponto de nos esquecermos e encararmos essas atitudes tão cotidianas como parte mesma do estado de liderança, de mando.  Por isso, qual o absurdo de se dirigir, de automóvel, por sobre uma rampa feita inteiramente de mármore branco e que cruza um prédio de tão rara beleza apenas para poupar a autoridade do Ministério das Relações Exteriores - o mesmo que nos representa diante das outras nações - de ter que caminhar, usar a escada e registrar seu ponto como qualquer trabalhador comum deste país?

Os Sinhôs e Sinhás que existem dentro de nós, brasileiros, podem até parecer adormecidos - mas certamente, se pensarmos com calma as atitudes que nós mesmos tomamos para com servidores em algum posto inferior à nossa ascenção profissional ou financeira, veremos que tal sono é continuamente despertado em nós, em diversos momentos, variadas situações.

E isso soa a muitos como algo natural da vida - tão natural, para mim, como passear de automóvel sobre o mármore mais fino.

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Sunday, November 27, 2005

Inocente contravenção

Ontem, 26 de novembro, estive a navegar pela rede mundial de computadores e, por curiosidade e total falta de outra diversão a meu alcance, pus-me a procurar palavras aleatórias no mais famoso dos programas de busca da atualidade. Qual não foi minha surpresa quando me deparei com um fato no mínimo inusitado e curioso: descobri pelo menos quatro de meus poemas publicados em sítios brasileiros na Internet. Tenho por hábito, na busca constante que faço por leitores com quem eu possa dialogar por meio de meus escritos, deixar publicados textos meus, em grande parte poesias, em páginas à disposição de todos na rede mundial de computadores. A divulgação de meus trabalhos, sendo assim, é muito válida e auxilia-me em minha tentativa de arregimentar novos leitores - posto que, sem eles, não há o escritor. Não há teatro sem platéia e música sem ouvidos que as interpretem ao coração. Mas o que me causa estranheza é o fato de alguns dos leitores que os programas de busca fizeram conhecer minha limitada obra poética terem decidido levar minha poesia a outros internautas - mas sem a inclusão de minha autoria para tais poemas bissextos. (…) Será que a facilidade de acesso e, o que considero ainda mais genial em se tratando da Internet, a maneira descomplicada de se produzir e publicar material por meio da rede mundial de computadores, tirou das pessoas a importância e o cuidado que se deve ter pelo trabalho daquele que escreve? Afinal, o mesmo webmaster que foi capaz de copiar meus textos com uma combinação fácil de chaves do teclado, não foi atento o bastante para copiar o nome que vinha ali, junto ao poema furtado - o nome que estabelece a autoria? Por que uma das pessoas que encontrei a citar os poemas meus preocupou-se em citar o poeta, em uma simples lista de poemas preferidos, e outros não tiveram a mesma iniciativa? Confesso que não me tirou o sono tal descoberta. (…) Mas me pergunto como deve se sentir um autor de renome ao ver um texto seu a viajar pelas estradas virtuais da rede sem a autoria reconhecida pelo texto ou, o que é talvez ainda pior, com uma autoria apócrifa a ele atribuída. (…)(LEIA O TEXTO COMPLETO ABAIXO)

Ontem, 26 de novembro, estive a navegar pela rede mundial de computadores e, por curiosidade e total falta de outra diversão a meu alcance, pus-me a procurar palavras aleatórias no mais famoso dos programas de busca da atualidade. Qual não foi minha surpresa quando me deparei com um fato no mínimo inusitado e curioso: descobri pelo menos quatro de meus poemas publicados em sítios brasileiros na Internet.

Tenho por hábito, na busca constante que faço por leitores com quem eu possa dialogar por meio de meus escritos, deixar publicados textos meus, em grande parte poesias, em páginas à disposição de todos na rede mundial de computadores. A divulgação de meus trabalhos, sendo assim, é muito válida e auxilia-me em minha tentativa de arregimentar novos leitores - posto que, sem eles, não há o escritor. Não há teatro sem platéia e música sem ouvidos que as interpretem ao coração. Mas o que me causa estranheza é o fato de alguns dos leitores que os programas de busca fizeram conhecer minha limitada obra poética terem decidido levar minha poesia a outros internautas - mas sem a inclusão de minha autoria para tais poemas bissextos.

O curioso é que, em quase todas as poucas páginas que encontrei, meus poemas eram servidos ao público em geral como leitura de auto-ajuda, em espaços enfeitados com imagens meigas de anjos e bailarinas, animais antropomórficos ou seres imaginários e, céus, composições visuais românticas na mais tola acepção desse adjetivo mal incorporado à língua nossa.

Decerto que a Internet abriu para todos um mundo inteiro de informações cuja facilidade de acesso faz-nos esquecer do tempo em que quaisquer pesquisas escolares eram realizadas com base nas quilométricas enciclopédias - que os mais abastados tinham ao alcance em suas próprias casas e que os menos favorecidos, como eu, iam consultar nas bibliotecas escolares. Mas será que a facilidade de acesso e, o que considero ainda mais genial em se tratando da Internet, a maneira descomplicada de se produzir e publicar material por meio da rede mundial de computadores, tirou das pessoas a importância e o cuidado que se deve ter pelo trabalho daquele que escreve? Afinal, o mesmo webmaster que foi capaz de copiar meus textos com uma combinação fácil de chaves do teclado, não foi atento o bastante para copiar o nome que vinha ali, junto ao poema furtado - o nome que estabelece a autoria? Por que uma das pessoas que encontrei a citar os poemas meus preocupou-se em citar o poeta, em uma simples lista de poemas preferidos, e outros não tiveram a mesma iniciativa?

Confesso que não me tirou o sono tal descoberta. Afinal, tenho o registro daqueles poemas reproduzidos em páginas dedicadas ã “paixão e à sedução”, aos “anjos de cada um de nós” ou a outras causas igualmente questionáveis como motivação para a construção de espaços novos na Internet. Em verdade, fiquei na dúvida se pedia, nas mensagens que enviei aos autores de tais páginas, para que eles dessem aos textos o crédito devido ou, pelo menos, reprensassem a enxurrada de figuras melosas e dizeres insossos associados aos meus pobres textos. Mas me pergunto como deve se sentir um autor de renome ao ver um texto seu a viajar pelas estradas virtuais da rede sem a autoria reconhecida pelo texto ou, o que é talvez ainda pior, com uma autoria apócrifa a ele atribuída. Isso sem termos ainda falado do fenômeno mais recente do mundo cibernético: a falsa autoria de um escritor renomado em textos que não são de sua lavra, mas para os quais seus autores anônimos buscam importância e gravidade assinando-os falsamente com nomes de grandiosos e conhecidos escritores.

Creio que nos dias atuais, em que as leis brasileiras são relativizadas a tal ponto de transformar a compra de produtos pirateados em uma inocente contravenção, como já ouvi dos lábios de uma autoridade policial do Rio Grande do Sul, a preocupação de atribuir a autêntica autoria de um reles poema extraído de uma página aberta da Internet é algo que não deve tirar mesmo o sono de ninguém. Nem mesmo de um certo Don Juan, de vinte e cinco anos de idade, que usou um de meus poemas de amor como arma de sedução em um fotolog de sua autoria, dedicado às mulheres e à sensualidade, em suas próprias palavras.

Talvez só me reste mesmo desejar a ele boa sorte em suas conquistas, já que meu texto transformou-se em seu por conta, quem sabe, de seu afã por obter favores do sexo feminino. Que ao menos meu poema lhe sirva para algo na vida, já que não prestou para ensinar cuidados outros que se deve ter com o trabalho criativo alheio.

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Friday, November 25, 2005

Melancolia e Arte

Ah quanta melancolia!
Quanta, quanta solidão!
Aquela alma, que vazia,
Que sinto inútil e fria
Dentro do meu coração!

(Fernando Pessoa, poeta português)

Em artigo publicado na revista Primeira Leitura de novembro de 2005, Fernando Eichenberg, comentando sobre a exposição Melancolia: Gênio e Loucura no Ocidente, aberta ao público no parisiense Museu do Grand Palais, diz, citando o poeta Yves Bonnefoy, que estas três noções contidas no título da interessante mostra de arte são “habitualmente associadas nos países do Ocidente”. Esta idéia corrobora as palavras do curador da exposição, o historiador de arte Jean Clair, para quem “nenhuma disposição da alma ocupou a arte ocidental tanto tempo, e nenhuma outra oferece um tal conjunto de obras”. (…)  Vejo a melancolia como um estado de aparente apatia no qual as energias humanas,em verdade, parecem concentrar-se em tarefas mais interiores, algo relacionadas aos questionamentos mais ontológicos sobre o mundo e o próprio ser.  (…) Não por acaso Clair afirma que a “vitória da criação sobre a depressão” é o mais interessante e curioso aspecto dessa relação peculiar entre a melancolia e a arte. (…) (LEIA O TEXTO COMPLETO ABAIXO)

Ah quanta melancolia!
Quanta, quanta solidão!
Aquela alma, que vazia,
Que sinto inútil e fria
Dentro do meu coração!

(Fernando Pessoa, poeta português)

Em artigo publicado na revista Primeira Leitura de novembro de 2005, Fernando Eichenberg, comentando sobre a exposição Melancolia: Gênio e Loucura no Ocidente, aberta ao público no parisiense Museu do Grand Palais, diz, citando o poeta Yves Bonnefoy, que estas três noções contidas no título da interessante mostra de arte são “habitualmente associadas nos países do Ocidente”. Esta idéia corrobora as palavras do curador da exposição, o historiador de arte Jean Clair, para quem “nenhuma disposição da alma ocupou a arte ocidental tanto tempo, e nenhuma outra oferece um tal conjunto de obras”.

A constatação de Clair, ainda que possa soar como nova para alguns, parece-me bastante apropriada e de fácil verificação se voltarmos nossa mente para os inúmeros exemplos contidos nas histórias de vida de nossos maiores gênios da arte ocidental.  A melancolia, que Sigmund Freud definiu como “um desânimo profundamente penoso, a cessação de interesse pelo mundo externo, a perda da capacidade de amar, a inibição de toda e qualquer atividade, e uma diminuição dos sentimentos de auto-estima a ponto de encontrar expressão em auto-recriminação e auto-envilecimento, culminando numa expectativa delirante de punição” (perdoem-me pela longa citação), é vista por alguns como essencial ao processo criativo - sobretudo ao ser examinada como elemento precursor de várias obras primas.  Para o historiador Clair, o caráter ciclotímico da melancolia, capaz de levar o homem de estados de protração a outros de exaltação, é “indispensável“.  Mas, em que sentido um tal estado de alma complexo pode levar alguém a criar obras de rara beleza e, curiosamente, nem sempre soturnas ou pessimistas?

Vejo a melancolia como um estado de aparente apatia no qual as energias humanas,em verdade, parecem concentrar-se em tarefas mais interiores, algo relacionadas aos questionamentos mais ontológicos sobre o mundo e o próprio ser.  Para questões de tão difíceis, profundas e mesmo ambígüas respostas, as soluções possíveis que surgem na mente dos gênios melancólicos parecem ser a razão da sublimação da tristeza por meio da celebração da vida.  Não por acaso Clair afirma que a “vitória da criação sobre a depressão” é o mais interessante e curioso aspecto dessa relação peculiar entre a melancolia e a arte.

Pode-se mesmo ver na negação da melancolia uma das conseqüências do mundo desesperançado e vazio que vemos hoje estampados nos rostos e mensagens de toda uma geração de homens contemporâneos, artistas ou não.  O pessimismo atávico schopenhaueriano e a nauseada visão do mundo proposta por Jean-Paul Sartre deixaram pouco espaço para o ser humano reconstituir suas forças para prosseguir recriando a vida, como o faziam os artistas românticos, por exemplo. 

Para Jean Clair, “o melancólico está aberto a todas as sensações e a uma vontade de compreender o mundo”.  Como sofredor eventual deste mal-dos-séculos, sinto que a melancolia pode, sim, servir à criação artística e ao crescimento pessoal - se dela sabemos aproveitar os momentos de celebração e de sublimação da apatia.  Esta tristeza e revolta constante é que parecem permear os homens do novo milênio, levando-os à visão falseada de que o mundo é somente decadência e sofrimento, não oferecem nenhuma alternativa e, por isso, têm como fruto torto essa forma de viver doentia e essa arte obtusa que vemos hoje e que nos tentam fazer aceitar como uma verdade incontestável.

 

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Bilhete em Silêncio

Amo-te assim,
quieto em mim.
Pois que o amor é êxtase
antes que ação.
Amo-te assim,
dentro de mim,
vibrando no mais íntimo
ainda que calado.
O silêncio é meu grito
de contemplação.

Da obra

(1996)
(Robertson Frizero Barros)

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Wednesday, November 23, 2005

Stendhal, David e ansiedade

Alguns artistas contemporâneos - a se julgar pelos memoriais que são forçados a escrever para justificar suas obras quase sempre incompreensíveis para o vulgo  - devem acreditar que somente as expressões artísticas atuais podem causar grandes reações no público.  Pois eles estão absolutamente enganados em sua pretensão.  Gabriela Magherini, uma psiquiatra italiana que por seus trabalhos tornou-se uma espécie de especialista em estudos sobre a relação entre arte e ansiedade, revelou a existência de síndromes bem distintas que atingem diversas pessoas anualmente e que estão intrinsecamente relacionadas à exposição de suas vítimas a obras de arte - e não falo das experimentações contemporâneas, que causam em geral mais enfado que emoção verdadeira.  Em 1979, Magherini divulgou seu trabalho sobre o que chamou de Mal de Stendhal, uma síndrome que leva algumas pessoas a  serem vítimas de desmaios, palpitações e diminuição das forças após serem expostas a obras de arte “demasiado belas”.  (…) Recentemente, a mesma pesquisadora tornou públicos os primeiros resultados de um novo estudo (…), desta vez relacionado à obra magistral de Michelangelo, David.  (…) A visão da grandiosa escultura geraria reações psicológicas e emocionais tão diversas quanto a inveja, o ciúme, impulsos de destruição e até mesmo alterações na libido de alguns visitantes da Galeria Della Academia, onde hoje está exposta a obra.  (…) Fico a me perguntar quantos artistas contemporâneos, com suas obras de arte (?) repletas de agressão gratuita e escatologia desnecessária, não dariam um dos dedos de seu próprio pé esquerdo para causar essas mesmas síndromes de ansiedade e ciúme, amor e inveja, que a maestria de Michelangelo provoca tantos séculos depois de sua morte. (LEIA O TEXTO COMPLETO ABAIXO)

Alguns artistas contemporâneos - a se julgar pelos memoriais que são forçados a escrever para justificar suas obras quase sempre incompreensíveis para o vulgo  - devem acreditar que somente as expressões artísticas atuais podem causar grandes reações no público.  Pois eles estão absolutamente enganados em sua pretensão.

Gabriela Magherini, uma psiquiatra italiana que por seus trabalhos tornou-se uma espécie de especialista em estudos sobre a relação entre arte e ansiedade, revelou a existência de síndromes bem distintas que atingem diversas pessoas anualmente e que estão intrinsecamente relacionadas à exposição de suas vítimas a obras de arte - e não falo das experimentações contemporâneas, que causam em geral mais enfado que emoção verdadeira.

Em 1979, Magherini divulgou seu trabalho sobre o que chamou de Mal de Stendhal, uma síndrome que leva algumas pessoas a  serem vítimas de desmaios, palpitações e diminuição das forças após serem expostas a obras de arte “demasiado belas”.  O nome do fenômeno - que afeta comprovadamente mais de cem turistas por ano apenas na cidade de Florença, Itália - é uma referência ao escritor francês, autor de O Vermelho e o Negro, que narrou ter sofrido palpitações e perda de consciência após ter saído em 1817 de uma das belíssimas igrejas da capital do renascimento italiano. 

Recentemente, a mesma pesquisadora tornou públicos os primeiros resultados de um novo estudo realizado na mesma cidade de Florença, desta vez relacionado à obra magistral de Michelangelo, David.  De forma diversa que o observado na síndrome constatada anteriormente, a visão da grandiosa escultura geraria reações psicológicas e emocionais tão diversas quanto a inveja, o ciúme, impulsos de destruição e até mesmo alterações na libido de alguns visitantes da Galeria Della Academia, onde hoje está exposta a obra. 

O estranhamento da psiquiatra italiana - e seu foco investigativo - repousam no fato de a escultura despertar sentimentos “muitas vezes escuros”, que podem dar vazão até mesmo a ações de compulsão destrutiva.  Diz ela que “David encanta por sua beleza formal e intrínseca, mas não provoca somente emoções de tranqüila beatitude estética.  Ele pode suscitar sentimentos perturbadores, porque olhar para esta obra pode levar o expectador a sentir-se forte e grande, mas também enciumado e invejoso do jovem ali retratado, que tem um corpo perfeito”.  Alguns depoimentos contidos no estudo mostram que vários visitantes narraram ter sentido desejo de danificar a estátua, algo que a psiquiatra descreve como “um gesto para reafirmar seu próprio eu, posto sob ameaça diante de tamanha opulência estética”.  Há narrações colhidas pela pesquisadora de ataques de pânico e sensações de perda de limites - o que pode explicar os diversos ataques sofridos pela estátua ao longo de seus cinco séculos de existência.  No último deles, em 14 de setembro de 1991, um desequilibrado mental de nome Piero Cannata destruiu com um martelo um dos dedos do pé esquerdo do gigantesco David

Fico a me perguntar quantos artistas contemporâneos, com suas obras de arte (?) repletas de agressão gratuita e escatologia desnecessária, não dariam um dos dedos de seu próprio pé esquerdo para causar essas mesmas síndromes de ansiedade e ciúme, amor e inveja, que a maestria de Michelangelo provoca tantos séculos depois de sua morte.

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Monday, November 21, 2005

Maternidade irresponsável

Há um tipo de crime que se repete continuamente no Brasil e que pouco discutimos, pouco observamos, mas para o qual somos despertados periodicamente por histórias como esta que pude descobrir por uma minúscula nota nos jornais de hoje, dia 21 de novembro de 2005.  No interior de São Paulo, no município de Itápolis, um bebê de apenas três meses de vida foi encontrado morto pela família de sua mãe, que fora lhe fazer uma visita na manhã de domingo. (…) a mãe, de trinta e um anos de idade, deixara a criança trancada em casa ao sair no sábado, às onze horas da noite, para ir a um forró, do qual só regressaria às 12h45 do dia seguinte, quando foi então presa pela polícia em flagrante por abandono de incapaz e homicídio culposo. (…) A legislação brasileira é bem clara quanto ao crime de abandono de incapaz (…) mas escapa ao entendimento o que leva as mães a cometerem um crime que, aos olhos de qualquer pessoa, não tem explicação plausível. (…) Tratam-se de mães que optam por se livrar de um problema - a salvaguarda de seus filhos - para garantir um momento de prazer sem culpa. (…) E quem poderá se contrapor a um argumento tão afinado com o pensamento atual? (LEIA O TEXTO COMPLETO ABAIXO)
Há um tipo de crime que se repete continuamente no Brasil e que pouco discutimos, pouco observamos, mas para o qual somos despertados periodicamente por histórias como esta que pude descobrir por uma minúscula nota nos jornais de hoje, dia 21 de novembro de 2005.

No interior de São Paulo, no município de Itápolis, um bebê de apenas três meses de vida foi encontrado morto pela família de sua mãe, que fora lhe fazer uma visita na manhã de domingo. A razão da morte do bebê é ainda um mistério a ser investigado pelos legistas do Instituto Médico-Legal, mas as circunstâncias que levaram a pobre criança ao óbito são claras para a polícia e para os familiares que encontraram a vítima: a mãe, de trinta e um anos de idade, deixara a criança trancada em casa ao sair no sábado, às onze horas da noite, para ir a um forró, do qual só regressaria às 12h45 do dia seguinte, quando foi então presa pela polícia em flagrante por abandono de incapaz e homicídio culposo.

O caso fez-me recordar da mãe carioca que, há alguns meses, foi presa por ter deixada trancada em um automóvel, em um canto escuro de um estacionamento ao ar livre, a filha de um ano e meio de idade para ir fazer compras em uma liquidação de roupas em um shopping center; ou ainda o caso de outra mãe, de dezenove anos, que deixou seu bebê de cinco meses de idade no porta-malas de um automóvel, em Balneário Camboriú, para aproveitar a noite com amigos em uma casa noturna.

A legislação brasileira é bem clara quanto ao crime de abandono de incapaz - qualquer pessoa que por motivo de saúde física ou mental, ou ainda pela idade, não pode se manter ou garantir a própria segurança sem ajuda de outrem. As penas previstas variam de seis meses a seis anos de prisão, dependendo das lesões sofridas pelo incapaz ou de seu óbito. Mas escapa ao entendimento o que leva as mães a cometerem um crime que, aos olhos de qualquer pessoa, não tem explicação plausível. E não falamos de mães que, premidas pela necessidade, deixam seus filhos mais velhos cuidando dos mais novos em casa enquanto saem para garantir o pão de todos, situação tão comum em nossos bairros pobres do Brasil. Tratam-se de mães que optam por se livrar de um problema - a salvaguarda de seus filhos - para garantir um momento de prazer sem culpa.

Arrisco-me a dizer que as três situações que citamos anteriormente têm estreita ligação com um conceito que impregna os ares de nossa sociedade brasileira contemporânea - o de que todos têm direito a tudo, ao prazer sem compromisso e aos direitos sem deveres. Paternidade e maternidade são compromissos de uma vida inteira - ao menos, assim deveriam ser vistos. No entanto, a pregação da liberação sexual, do intercurso carnal inconseqüente, leva-nos ao surgimento diário de novos pais e mães sem qualquer estrutura, moral ou financeira, para conduzir adiante a tarefa de proteger e educar uma criança. Como conciliar uma função de tamanha responsabilidade como essa com a idéia de que a vida é um eterno playground no qual os homens foram colocados para a total saciedade de seus prazeres e para a euforia eterna? A resposta é simples: basta ignorar a responsabilidade - como, aliás, torna-se comum fazer nos dias de hoje, quando mais e mais são ignoradas as regras de convívio em sociedade e os deveres de cidadão - e deixar o filho indefeso trancado em casa, no carro, no porta-malas. E a analogia é simples, pareço mesmo ouvir a mente daquelas mulheres a matutar que “trancafiada, mantida por detrás de uma porta e de chaves e vidros, a criança que me atrapalha a diversão estará protegida do mundo externo, não me perturbará a noite de festa e não fará com que outras pessoas reclamem da minha opção pela distração - afinal, também tenho o direito de curtir a vida!”

E quem poderá se contrapor a um argumento tão afinado com o pensamento atual?

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Wednesday, November 16, 2005

Era uma vez um menino que queria ser menina… e um sapo que queria ser rã

Recentemente comentávamos sobre a literatura para crianças e adolescentes e hoje, 16 de novembro de 2005, foi o dia do anúncio de um inusitado e controverso concurso literário, organizado na Argentina por uma revista dedicada à literatura infanto-juvenil: o primeiro concurso de literatura infantil de temática GLS (gays, lésbicas e simpatizantes) do mundo. A iniciativa contou com o apoio da PFLAG Argentina (Padres, Familiares y Amigos de Gays y Lesbianas) e, nas palavras dos organizadores, teve por objetivo compensar a “quase nula literatura gay e lésbica que se escreve para crianças, jovens e adolescentes, pretendendo incentivá-la como uma das bases para contribuir para uma melhor educação, mais livre, diversa e plural”.

A idéia do concurso, por si só, já é motivo para debates acalorados de defensores e detratores da luta pela aceitação da orientação sexual. Particularmente, creio que, se é para ajudar a por um fim no preconceito e na violência contra gays, lésbicas e bissexuais, é uma idéia válida, louvável - ainda que coloque sob suspeição o resultado de tal empreitada, a qualidade dos textos que daí surgirão, a intenção colocada no papel tendo como público a criança e o adolescente, pessoas em fases da vida tão suscetíveis às influências boas ou más do mundo.  (…) Em geral, os textos não me pareceram ter aquela naturalidade e frescor das histórias infantis mais famosas, nem mesmo a sinceridade de intenções de textos infanto-juvenis que pude ler aqui no Brasil e que tinham por intuito também o combate ao preconceito e seus diversos matizes - sociais, culturais, raciais e outros.  Mas louvo a iniciativa, que pode vir a trazer os autores mais talentosos e conhecedores da arte de escrever livros infantis a repensar o tema da orientação sexual de forma mais cuidadosa e construtiva.  De qualquer forma, sempre residirá nas mãos dos pais e mestres a decisão de dar acesso às crianças e adolescentes ao material que eles acreditarem mais apropriado para a sua formação para o mundo futuro. (LEIA O TEXTO COMPLETO ABAIXO)

Recentemente comentávamos sobre a literatura para crianças e adolescentes e hoje, 16 de novembro de 2005, foi o dia do anúncio de um inusitado e controverso concurso literário, organizado na Argentina por uma revista dedicada à literatura infanto-juvenil: o primeiro concurso de literatura infantil de temática GLS (gays, lésbicas e simpatizantes) do mundo. A iniciativa contou com o apoio da PFLAG Argentina (Padres, Familiares y Amigos de Gays y Lesbianas) e, nas palavras dos organizadores, teve por objetivo compensar a “quase nula literatura gay e lésbica que se escreve para crianças, jovens e adolescentes, pretendendo incentivá-la como uma das bases para contribuir para uma melhor educação, mais livre, diversa e plural”.

A idéia do concurso, por si só, já é motivo para debates acalorados de defensores e detratores da luta pela aceitação da orientação sexual. Particularmente, creio que, se é para ajudar a por um fim no preconceito e na violência contra gays, lésbicas e bissexuais, é uma idéia válida, louvável - ainda que coloque sob suspeição o resultado de tal empreitada, a qualidade dos textos que daí surgirão, a intenção colocada no papel tendo como público a criança e o adolescente, pessoas em fases da vida tão suscetíveis às influências boas ou más do mundo.  Será que a infância é o momento para colocá-los a par de todos os aspectos envolvidos na questão? 

O concurso, a princípio, não me parece nada ofensivo, já que, ao que consta, não se trata de literatura (homo)erótica para crianças, mas sim de estórias nas quais se tratam questões “sobre a vivência de pessoas de distintas orientações sexuais”. E não duvido do talento de certos escritores para colocar uma problemática tão delicada de forma simples e correta para a compreensão dos pequenos. Mas temo pelo resultado, pois vejo um certo radicalismo em alguns integrantes do movimento GLS, ao menos no Brasil, que para romper fronteiras parecem preferir a confrontação pura e simples - como se obter o respeito e a aceitação da sociedade fosse uma questão de causar escândalo e ofensa.

Vejamos o resultado do concurso. O conto vencedor, Contracorrientes, dos espanhóis Gonzalo Serrano e Nilo Martin, relata a estória de um índio que sai pelo mundo rio abaixo em busca de uma esposa e regressa à tribo, remando contra a corrente, na companhia de um novo amigo (e amor). Lisa Porcelli Piussi, escritora argentina, apresenta em seu Encantado de Conocerme (segundo colocado) o sapo Jacinto, que desde pequeno só conhecia uma única história infantil, a do “Príncipe Encantado”, e que por isso se achava um “sapo encantado”; de forma (a meu ver) não muito sutil, Piussi fala da forma diferente de ser de Jacinto, de como sua mãe busca ajuda médica para “consertá-lo” e de sua descoberta sobre como “cada um tem seu encantamento próprio” e que ele terá que decidir, segundo o conselho de um sapo mais idoso, “se o príncipe dentro dele (Jacinto) irá despertar por conta do beijo de um sapo ou de uma rã”. O terceiro colocado, Pañuelito Celeste (algo como “O Lenço Azul-celeste”), escrito pelo argentino Leandro Fogliatti, pareceu-me o mais bem escrito, mas o mais panfletário, ao contar a história de um menino argentino, filho da professora, que quer bailar como as alunas colegas suas em um dia de festa pátria - e que recebe a ajuda do narrador para “travestir-se” de menina.

Creio que, ao analisar essas histórias, é preciso despir-se dos preconceitos mais imediatos e buscar uma visão mais objetiva dos elementos textuais. Qual o objetivo dos textos, enfim? A intenção dos autores é mostrar a orientação sexual como bela, como normal ou como a melhor de todas? No texto primeiro colocado, creio ser interessante ver que os autores fugiram dos estereótipos - algo marcado nos outros dois textos citados -, mas a descoberta do jovem índio pareceu-me por demais apressada no texto. Na história de Jacinto, tudo pareceu-me forçado demais, quase uma cartilha de tão esquematizado, mas pode ser insensibilidade de minha parte. Em Pañuelo Celeste, a história de Damián, o menino que queria ser menina, é algo que poderia acontecer no círculo de amizades de qualquer um de nós, em verdade - e não será demais imaginar que cada um de nós conheceu Damiáns em nossa escola primária. Mas a forma como o autor conduziu o desfecho, com o garoto de dez anos de idade travestido, a dançar o Pericón como todas as meninas sem ser sequer reconhecido sob seus trajes femininos, também pareceu-me por demais fantasiosa.  Em geral, os textos não me pareceram ter aquela naturalidade e frescor das histórias infantis mais famosas, nem mesmo a sinceridade de intenções de textos infanto-juvenis que pude ler aqui no Brasil e que tinham por intuito também o combate ao preconceito e seus diversos matizes - sociais, culturais, raciais e outros.

Mas louvo a iniciativa, que pode vir a trazer os autores mais talentosos e conhecedores da arte de escrever livros infantis a repensar o tema da orientação sexual de forma mais cuidadosa e construtiva.  De qualquer forma, sempre residirá nas mãos dos pais e mestres a decisão de dar acesso às crianças e adolescentes ao material que eles acreditarem mais apropriado para a sua formação para o mundo futuro.

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Tuesday, November 15, 2005

O que estiver na cabeça

Parece não haver mesmo limite para a estupidez humana, mesmo quando se trata do valor monetário que nossos contemporâneos dão às tolices que eles insistem em chamar de arte.  Falo da notícia que li em um jornal estrangeiro sobre um leilão promovido pela renomada casa Christie’s no início de novembro de 2005, quando foi registrada o maior valor de venda para uma fotografia em um evento deste tipo.  (…)  O valor, por si só, já seria absurdo se não fosse por um importante detalhe - a obra de arte em questão pertence à série de cowboys de Prince, captadas por uma técnica que ele intitulou de re-fotografia.  Faço-me entender do porquê do meu espanto: re-fotografar, neste caso, significa dizer que o artista tirou fotografias de fotografias de antigos comerciais da famosa marca de cigarros Marlboro (ou seja, abriu uma revista e fotografou o anúncio lá publicado!) e construiu, assim, sua série famosa de obras sem-título… (…)  Mas, enfim, o milhão de dólares não me pertencia, e se alguém quer gastar tanto dinheiro em uma re-fotografia, que gaste - ainda que eu tenha em mente tantas outras aplicações melhores para tantos recursos. Incomoda-me mais quando os gastos de manutenção da arte contemporânea e suas tolas exposições são cobertos com dinheiro público, do contribuinte. (…) (LEIA O TEXTO COMPLETO ABAIXO)

Parece não haver mesmo limite para a estupidez humana, mesmo quando se trata do valor monetário que nossos contemporâneos dão às tolices que eles insistem em chamar de arte.

Falo da notícia que li em um jornal estrangeiro sobre um leilão promovido pela renomada casa Christie’s no início de novembro de 2005, quando foi registrada o maior valor de venda para uma fotografia em um evento deste tipo.  O valor do lance que arrebatou a fotografia, da autoria do fotógrafo novaiorquino (nascido no Canal do Panamá à época do domínio norte-americano) Richard Prince, foi de US$ 1.248.000,00 (um milhão, duzentos e quarenta e oito mil dólares estadunidenses, algo em torno de dois milhões e quinhentos mil reais).

O valor, por si só, já seria absurdo se não fosse por um importante detalhe - a obra de arte em questão pertence à série de cowboys de Prince, captadas por uma técnica que ele intitulou de re-fotografia.  Faço-me entender do porquê do meu espanto: re-fotografar, neste caso, significa dizer que o artista tirou fotografias de fotografias de antigos comerciais da famosa marca de cigarros Marlboro (ou seja, abriu uma revista e fotografou o anúncio lá publicado!) e construiu, assim, sua série famosa de obras sem-título…  A peça, Cowboy - Untitled, datada de 1989, é exatamente isso: uma fotografia de um anúncio de cigarro, sem nenhum tratamento especial ou qualquer alteração de forma, textura ou conteúdo que justifique sua importância como objeto de desejo - a não ser, é claro, a assinatura do fotógrafo afamado.

O desperdício de dinheiro desta recente aquisição de algum marchant - que, quero crer, só comprou tal fotografia por este preço na esperança de vendê-la pelo dobro do valor - faz-me crer que o mercado de arte contemporânea (sim, ele existe) está, em grande parte, alimentando este monstro; os outros culpados, a meu ver, são os intelectuais que medram diante da idéia de criticar o que a inteligentzia convencionou ovacionar como “contemporâneo, visceral, genial, ousado” ou qualquer outro adjetivo que andam usando para disfarçar a falta de talento de alguns artistas que se mantém vivos neste círculo das artes que se alimenta a si mesmo, ignorando o público sob o disfarce de uma arte “não-comercial”.

Mas, enfim, o milhão de dólares não me pertencia, e se alguém quer gastar tanto dinheiro em uma re-fotografia, que gaste - ainda que eu tenha em mente tantas outras aplicações melhores para tantos recursos. Incomoda-me mais quando os gastos de manutenção da arte contemporânea e suas tolas exposições são cobertos com dinheiro público, do contribuinte. Lembro-me de uma exposição que correu a Europa no ano de 2001, patrocinada por diversos de seus governos e organizada por um grupo auto-intitulado Proto-Muart. O nome do evento era “Exhibition to Be Constructed in Your Head” (algo como “Exposição para Ser Construída na Sua Cabeça”) e consistia em um grande salão de paredes imaculadamente pintadas de branco e sessenta nichos onde eram expostos, digamos, absolutamente nada. Ah, sim, mas em cada nicho havia uma etiqueta com descrições sugestivas como “Veja as coisas como elas são, não como você pensa que elas são” ou “Esfera sólida de ouro flutuando em um imenso espaço vazio”. Na entrada do salão, uma cortina feita de plástico branco, na qual estava escrito, com tinta spray, a frase incentivadora: “Atrás disto está qualquer coisa que estiver em sua cabeça“.

Nem o título da exposição era original, pois repetia algo que Yoko Ono havia feito décadas antes com suas intruções de pintura chamadas de “Paintings to Be Constructed in Your Head” (“Pinturas para Serem Construídas em Sua Cabeça”)…

O fato é que foi investido dinheiro público para colocar a exposição em circulação por importantes cidades européias e, além disso, em alguns lugares o público pagava ingresso para “visitar” o nada - ou melhor (insensibilidade minha!), para visitar qualquer coisa que estivesse na mente deles. E tal exposição levava a assinatura de vinte e oito diferentes artistas (e, pasmem, nenhum deles havia sequer sujado as mãos de tinta branca para pintar as tais paredes)!

Lembro-me que a exposição de artes que mais público atraiu recentemente no Brasil foi a grande mostra de Monet, na década de 1990, que motivou filas imensas e fez com que pessoas se deslocassem até o Rio de Janeiro e São Paulo para ver as ninféias e os jardins floridos do impressionista francês.

Os contemporâneos não devem entender porque alguém pagaria para ver uma obra de arte que qualquer um compreende.

Posted by Frizero at 18:04:36 | Permalink | Comments (1) »

Monday, November 14, 2005

Tudo pela causa?

“A única diferença entre suicídio e martírio é a cobertura jornalística.”
(Chuck Palahniuk, escritor e jornalista norte-americano)

Francisco Anselmo de Barros, um homem de 65 anos, às 11h30 de sábado, 12 de novembro de 2005, enrolou-se com dois colchonetes embebidos em gasolina e ateou fogo ao próprio corpo, o que viria a provocar sua morte no dia seguinte, em um leito da Santa Casa de Misericórdia de Campo Grande, Mato Grosso do Sul, depois de mais de vinte horas de cuidados intensivos por parte da equipe médica daquele hospital na tentativa de salvá-lo dos danos causados por seu ato de desespero.

O que mais assombra nesta notícia triste, desoladora, é que Barros tirou a própria vida em nome de uma causa pela qual poderia certamente ter lutado por outros meios: seu ato suicida foi executado por ocasião de uma manifestação de ecologistas contra a instalação de usinas de álcool e açúcar no Pantanal Matogrossense. (…) Creio que sua morte, fruto de um radicalismo que não me cabe julgar, por não conhecer de perto o triste suicida, é mais um sinal de que precisamos reavaliar o conceito de que “tudo é válido pela causa”, pregado por tantas correntes contemporâneas do pensamento (e que parece estar impregnado também nos inúmeros escândalos que presenciamos hoje no cenário político brasileiro). (…) (LEIA O TEXTO COMPLETO ABAIXO)

“A única diferença entre suicídio e martírio é a cobertura jornalística.”
(Chuck Palahniuk, escritor e jornalista norte-americano)

Francisco Anselmo de Barros, um homem de 65 anos, às 11h30 de sábado, 12 de novembro de 2005, enrolou-se com dois colchonetes embebidos em gasolina e ateou fogo ao próprio corpo, o que viria a provocar sua morte no dia seguinte, em um leito da Santa Casa de Misericórdia de Campo Grande, Mato Grosso do Sul, depois de mais de vinte horas de cuidados intensivos por parte da equipe médica daquele hospital na tentativa de salvá-lo dos danos causados por seu ato de desespero.

O que mais assombra nesta notícia triste, desoladora, é que Barros tirou a própria vida em nome de uma causa pela qual poderia certamente ter lutado por outros meios: seu ato suicida foi executado por ocasião de uma manifestação de ecologistas contra a instalação de usinas de álcool e açúcar no Pantanal Matogrossense. Ao que consta, nenhum de seus companheiros manifestantes tentou impedir seu atentado contra a própria vida.

Não tiro os méritos da causa pela qual lutavam os ecologistas - creio mesmo que a instalação de um empreendimento como este em meio a um santuário ecológico é desnecessária, criminosa e, certamente, uma ameaça ao equilíbrio das espécies que lá vivem. Questiono apenas o valor de um sacrifício como este, dar cabo da própria vida, por conta de tal acontecimento contra o qual se podeia lutar de tantas outras fomas. Francisco Anselmo de Barros era presidente da Fundação para Coservação da Natureza de Mato Grosso do Sul (FUCONAM), integrante da organização não-governamental internacional WWF e certamente tinha poder de penetração e influência suficientes para tentar embarreirar a instalação da tal usina usando a palavra e a presença nos fóruns de debate de tais questões. Em recente audiência pública na Assembléia Legislativa do Mato Grosso do Sul, inclusive, Barros teria ouvido do presidente da Comissão de Constituição e Justiça daquele parlamento que o projeto de lei que autorizaria o projeto seria rejeitado. Por que, então, tal gesto extremo? Que exemplo deixa para os ecologistas brasileiros o martírio inconseqüente de Francisco Barros?

Creio que sua morte, fruto de um radicalismo que não me cabe julgar, por não conhecer de perto o triste suicida, é mais um sinal de que precisamos reavaliar o conceito de que “tudo é válido pela causa”, pregado por tantas correntes contemporâneas do pensamento (e que parece estar impregnado também nos inúmeros escândalos que presenciamos hoje no cenário político brasileiro). Em nome da causa, seja ela qual for, pareça-nos ela a mais perfeita e justa que possa ser, nem tudo nos é lícito e nem tudo nos convém.

Que este suicídio não seja visto como martírio, algo digno de admiração e louvação, mas como sinal de que precisamos repensar o que é realmente digno, que causa é verdadeiramente merecedora do sacrifício de uma vida humana. Que esta morte vã motive a reflexão do quanto valerá nossa luta se permanecermos vivos e atuantes ao invés de nos entregarmos a um heroísmo desesperado e inócuo.

Mesmo em meus olhos de romântico tardio, não consigo imaginar nenhuma causa que valha minha vida.

Posted by Frizero at 12:31:26 | Permalink | Comments (2)