Saturday, October 15, 2005

Que não sejam em vão

Já fui questionado - e, por vezes, a mim mesmo me pergunto - qual a valia de escrever estes registros quase diários do que vejo no cotidiano de nossas vidas sob meu pobre prisma de escritor menor, bissexto e amador, com tão pouco a dizer diante de tantas outras pessoas que sabem mais e pensam de forma tão mais translúcida que eu… Consegui consolo nessas palavras de um poeta grego chamado Konstantinos Kaváfis:

“Tenho observado com freqüência a pouca atenção que as pessoas dão às palavras.  Explico-me.  Um homem simples (com simples não quero dizer parvo, e sim não-eminente) tem uma opinião, critica uma instituição ou crença geral; sabendo que a maioria das pessoas não pensa assim, cala-se, na suposição de que não vale a pena falar, pois o que pudesse dizer não mudaria coisa alguma.  Trata-se de um erro grave.  Eu ajo de outro modo.  Por exemplo, sou contra a pena de morte.  Sempre que me aparece uma oportunidade, manifesto-me a respeito, não porque ache que, com isso, o Estado a vá abolir, mas porque estou convencido de que assim contribuo para o triunfo das minhas idéias.  Pouco me importa que ninguém concorde comigo.  O que eu disse não foi em pura perda.  Talvez alguém repita minhas palavras e elas cheguem a ouvidos que as ouçam e as perfilhem.  Quem sabe se futuramente algum daqueles que ora discordam de mim não se vai lembrar, numa ocasião propícia, daquilo que eu disse e convencer-se ou pelo menos sentir abalada sua opinião em contrário.  O mesmo vale para diversas outras questões sociais, das que exigem ação. Reconheço que sou tímido e não sei agir.  Por isso limito-me a falar.  Não acho, porém, que minhas palavras sejam em vão.  Outro agirá, mas essas palavras - de mim, o tímido, - terão facilitado a ação e limpado o terreno”.

(in Reflexões sobre Poesia e Ética, tradução de José Paulo Paes)

Kaváfis (1863-1933) nasceu e morreu em Alexandria, mas em berço grego e tendo esta língua como sua forma mais emotiva de expressão, a ponto de considerar-se grego também.  Para ganhar a vida, foi, como eu sou hoje, funcionário público - no seu caso, do Ministério da Irrigação do então Governo Egípcio, o qual estava à época sob a dominação do Império Britânico - e, como eu, cria ser a literatura seu “pendor natural”… Ele dedicava-se à função burocrática como uma forma que lhe “custava caro (…) para manter os seus pequenos luxos”, uma profissão em que, segundo ele, “gastava em pura perda horas preciosas do seu dia, às quais cumpria acrescentar as horas de desencorajamento e fadiga que se lhes seguiam”.  Posso imaginar o que era a burocracia de uma colônia britânica naqueles anos difíceis de entreguerras,  e a isso atribuo a diferença entre a desesperança que Kaváfis registrou em seus escritos e a nesga de esperança e utilidade que eu procuro manter em meu labor diário (claro que as coisas para mim são bem mais fáceis: ser burocrata com dois computadores à disposição - e um conectado à Internet - é bem mais suave que o que deve ter passado meu antecessor Kaváfis - qualquer um devia ter uma tendência à depressão sendo burocrata naqueles tempos…imagino).  Como eu, o poeta grego quase nada publicou: Kaváfis, em vida, teve editados apenas duas coletâneas pequenas, de quatorze e vinte poemas, além de textos esparsos que no futuro viriam a se tornar uma antologia e dariam a ele o prestígio literário reconhecido pelos gregos, que com ele compartilhavam o idioma e a herança helenística.

Para mim, de sua vida solitária e desencantada, fica mesmo a lição de que a palavra pode e deve servir como um meio de redenção; por isso escrevo aqui essas idéias que vou pensando e tecendo, ao ler algo em um jornal ou a passar pelas ruas de Porto Alegre, ao conversar com amigos ou a ouvir as vozes das pessoas nos lugares por onde passo - na esperança de que a forma com que percebo o mundo possa, de algum modo, colaborar para a mudança de tantas incongruências que criamos e perenizamos com o nosso silêncio tímido e nossa desesperança acomodada.  Talvez eu não tenha muito a dizer - mas, quem sabe, o pouco que digo sirva, mais além, a uma boa causa.  Que não sejam em vão minhas palavras…é o que espero. 

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Thursday, October 13, 2005

Ciranda de todos nós

cirandinha
“Ciranda que vai
Ciranda que vem
Roda na ciranda
que é pro mal virar pro bem”

(Ciranda do Mundo, canção de Eduardo Krieger)

Vejam a ciranda que roda agora, no Brasil, macabra e assustadora, mas que parece não motivar os que têm a força da lei em suas mãos para desvendar talvez o caso mais sinistro já ocorrido nos bastidores de nossa república de faz-de-conta: Na primeira volta desta ciranda, é seqüestrado Celso Daniel, em 18 de janeiro de 2002; sendo ele prefeito de Santo André, uma cidade importante da região do chamado ABCDO paulista, historicamente dominada pelo Partido dos Trabalhadores, a notícia comove a cúpula do partido, que se apressa em pedir a ação da polícia para desvendar o paradeiro de um de seus políticos mais importantes em São Paulo;(…)Na última e apavorante volta da ciranda, morre, em 12 de outubro de 2005, Carlos Delmonte Printes, vítima de causas naturais, pouco depois de ser convocado a depor na Comissão Parlamentar de Inquérito que investiga a máfia dos bingos, na qual o Partido dos Trabalhadores está envolvido até o pescoço. (…)

O que me parece mais urgente em toda essa trama quase inverossímil é que se descubra, nesta ciranda funesta, repleta de coincidências macabras, quem são o mestre, o contra-mestre e os músicos, que ficam no centro da roda, tocando a zabumba para os cirandeiros dançarem conforme sua música. (…)Os cirandeiros somos todos nós, os que ouvem a música, giram, giram, ficam tontos em meio à balbúrdia, mas que também têm o poder de fazer parar a roda, cessar a cantoria, retomar o rumo certo da brincadeira. (LEIA O TEXTO COMPLETO ABAIXO)

cirandinha
“Ciranda que vai
Ciranda que vem
Roda na ciranda
que é pro mal virar pro bem”

(Ciranda do Mundo, canção de Eduardo Krieger)

Vejam a ciranda que roda agora, no Brasil, macabra e assustadora, mas que parece não motivar os que têm a força da lei em suas mãos para desvendar talvez o caso mais sinistro já ocorrido nos bastidores de nossa república de faz-de-conta:

Na primeira volta desta ciranda, é seqüestrado Celso Daniel, em 18 de janeiro de 2002; sendo ele prefeito de Santo André, uma cidade importante da região do chamado ABCDO paulista, historicamente dominada pelo Partido dos Trabalhadores, a notícia comove a cúpula do partido, que se apressa em pedir a ação da polícia para desvendar o paradeiro de um de seus políticos mais importantes em São Paulo;

Na segunda volta da ciranda, Celso Daniel é encontrado morto em uma estrada vicinal e deserta, nos entornos da Grande São Paulo; a Polícia Civil daquele estado apressa-se em fornecer laudos atestando que a morte do prefeito fora um crime comum, ou seja, sem motivações políticas; grande parte da pressa parece ter surgido da pressão exercida sobre a corporação por Luiz Eduardo Greenhalgh, que agia como advogado do Partido dos Trabalhadores no caso;

Na terceira volta, o Ministério Público resolve prosseguir nas investigações, pouco convencido do caráter de “crime comum” impresso pelas primeiras notícias divulgadas; os irmãos de Celso Daniel denunciam que o prefeito havia falado para eles, pouco antes de sua morte, de um grande esquema de extorsão na Prefeitura de Santo André, envolvendo os donos das empresas de transporte urbano da cidade, cujo resultado, ou seja, o dinheiro exigido dos empresários era desviado para o caixa de campanha do Partido dos Trabalhadores, por intermédio de Gilberto Carvalho e José Dirceu;

Na quarta volta da ciranda, surgem testemunhas do caso: o garçom Antônio Palácio de Oliveira, que serviu a última refeição de Celso Daniel, no restaurante Rubayat, em São Paulo, na qual o prefeito estava acompanhado de Sérgio Gomes da Silva (vulgarmente conhecido como Sombra), o qual viria depois ser apontado como um dos suspeitos da morte do prefeito; e Iran Moraes Redua, o primeiro a reconhecer o corpo de Celso Daniel; outras testemunhas secundárias revelam que no sábado, dia seguinte ao seqüestro de Celso Daniel, bandidos entraram em seu apartamento para roubar, mas só subtraíram seu laptop, cuja existência, aliás, é contestada pelos advogados do Partido dos Trabalhadores;

Na quinta volta, a Polícia Civil de São Paulo prende Dionízio Severo, acusado de fazer parte da quadrilha que teria seqüestrado Celso Daniel; ele foi taxativo em afirmar que o crime fora “comum“, ou seja, eles estavam atrás de dinheiro, apenas, dinheiro de um resgate que jamais foi cobrado de nenhum dos familiares de Celso Daniel;

Na sexta volta da ciranda, morre o garçom, em fevereiro de 2003, após dois homens derrubarem a moto em que ele voltava para casa, causando um acidente fatal; testemunhas de suas relações dizem que o garçom recebera R$60.000,00 dias antes de morrer, por razões que ele se recusou a contar aos amigos;

Na sétima volta da ciranda, o médico-legista Carlos Delmonte Printes, que participou da perícia do corpo de Celso Daniel, declara que o prefeito fora torturado antes de morrer, o que depunha contra a versão apressada da polícia de que aquele era um “crime comum”;

Na oitava volta da ciranda macabra, morrem a única testemunha da morte do garçom, com um tiro nas costas, e também Iran Moraes Refua, baleado, Dionízio Severo, esfaqueado, e Sérgio Dias, o homem que teria dado asilo a Severo quando ele fugiu de uma penitenciária, a tiros;

Na nona volta da ciranda, morre, também baleado, Otávio Mercier, o policial civil cuja quebra de sigilo telefônico havia apontado como autor de uma ligação telefônica de meia hora com Severo na véspera do seqüestro do prefeito;

Na décima volta, o caso é trazido à tona depois de três anos pela insistência dos irmãos do prefeito assassinado, que revelam que Gilberto Carvalho confessara o esquema de extorsão para um dos irmãos Daniel pouco antes da morte de Celso e também por conta das declarações do legista Printes, que reafirma sua convicção de que o prefeito de Santo André fora torturado antes de morrer;

Na décima-primeira volta, Luiz Inácio Lula da Silva é eleito pelo voto popular, alçando ao Palácio do Planalto o deputado José Dirceu como Chefe da Casa Civil e Gilberto Carvalho, o mesmo que confessara à família Daniel, em segredo, todo o esquema de extorsão da Prefeitura de Santo André, como chefe do gabinete do Presidente da República;

Na última e apavorante volta da ciranda, morre, em 12 de outubro de 2005, Carlos Delmonte Printes, vítima de causas naturais, pouco depois de ser convocado a depor na Comissão Parlamentar de Inquérito que investiga a máfia dos bingos, na qual o Partido dos Trabalhadores está envolvido até o pescoço; o filho do perito falecido apressa-se em declarar à imprensa que encontrara o pai desfalecido junto à cama que este mantinha em seu escritório, de madrugada, “aparentando estar morto” (estas foram as palavras textuais do jovem, que deu entrevista à televisão com uma calma inesperada para quem acabara de perder o pai, mas sem mostrar o rosto às câmeras); o policial convocado para conduzir as investigações deste falecimento é rápido em concluir que “a princípio, trata-se de uma morte por causas naturais” e que o morto havia contraído “uma gripe nos Estados Unidos, que evoluiu para uma pneumonia que evoluiu para uma miocardia”; curiosamente, a primeira notícia que chegou à imprensa sobre a morte do perito é a de que ele havia sido encontrado em seu escritório, morto, com uma bala alojada próxima da nuca - uma versão desmentida pela polícia logo em seguida; mas ainda hoje, no decorrer do dia, os investigadores descartam a hipótese de morte natural e declaram estar estudando a possibilidade de envenenamento ou suicídio

O que me parece mais urgente em toda essa trama quase inverossímil é que se descubra, nesta ciranda funesta, repleta de coincidências macabras, quem são o mestre, o contra-mestre e os músicos, que ficam no centro da roda, tocando a zabumba para os cirandeiros dançarem conforme sua música. Parece que a eles não interessa muito que a poeira repouse e as coisas fiquem às claras. Melhor o escurão da noite, preenchido pela poeira dos passos ritmados ao som de sua ciranda que esconde uma podridão insuportável, sobretudo por rescender a poder (quiçá o poder de dominar a república e suas estruturas), dinheiro e vingança. Afinal, quem continuaria a dançar a sua música se for efetivamente revelada a ligação hedionda entre o crime comum da morte de Celso Daniel e as artimanhas de financiamento da campanha presidencial de Luiz Inácio Lula da Silva?

Os cirandeiros? Ah, os cirandeiros somos todos nós, os que ouvem a música, giram, giram, ficam tontos em meio à balbúrdia, mas que também têm o poder de fazer parar a roda, cessar a cantoria, retomar o rumo certo da brincadeira. 

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Tuesday, October 11, 2005

Floribella no país da manipulação das pesquisas

Surpreendo-me com uma notícia que saiu nos jornais de hoje(…)Floribella , refilmagem brasileira de um dos maiores sucessos da televisão argentina,(…)apesar de seu baixíssimo índice de audiência pelos números do Ibope - algo em torno de cinco pontos -, irá ganhar uma nova temporada em 2006. O que é mais curioso nesta notícia absolutamente sem importância, é que a emissora de televisão tomou esta decisão baseada nos números relativos à franquia da novela - a venda de sapatos, álbuns de figurinhas, CD, toques de celular e todo um leque de produtos licenciados com a marca Floribella tiveram uma vendagem recorde para produtos desse tipo. (…)Por essas e outras é que acredito ser Floribella a mais recente vítima da fúria manipuladora dos institutos de pesquisa no Brasil. (LEIA O TEXTO COMPLETO ABAIXO)

Surpreendo-me com uma notícia que saiu nos jornais de hoje e que pouca ou nenhuma atenção deve ter recebido do grande público, sobretudo em um país como o nosso, no qual o hábito da leitura já não faz parte do cotidiano da maioria dos habitantes: a novela infantil (em todos os sentidos…) Floribella , refilmagem brasileira de um dos maiores sucessos da televisão argentina, lá chamada de Floricienta em referência à história da Gata Borralheira dos contos infantis, apesar de seu baixíssimo índice de audiência pelos números do Ibope - algo em torno de cinco pontos -, irá ganhar uma nova temporada em 2006.

O que é mais curioso nesta notícia absolutamente sem importância, é que a emissora de televisão tomou esta decisão baseada nos números relativos à franquia da novela - a venda de sapatos, álbuns de figurinhas, CD, toques de celular e todo um leque de produtos licenciados com a marca Floribella tiveram uma vendagem recorde para produtos desse tipo: um tênis como o usado pela protagonista vendeu mais de setenta e cinco mil pares em poucos meses; a boneca inspirada na mesma personagem já vendeu mais de sessenta e cinco mil unidades e a expectativa até o Natal é de que as vendas superem as cento e cinqüenta mil unidades; trezentos e dezessete mil “ringtones” com músicas da novela foram baixados e o CD com a trilha sonora ganhou disco de ouro em menos de dois meses, já tendo atingido a marca de cento e vinte e cinco mil cópias; o álbum de figurinhas saiu com uma tiragem de duzentos mil exemplares e já foram vendidos mais de quatro milhões e trezentos mil envelopes de figurinhas.

Mas, ó tempos, ó costumes, por que estaria eu preocupado com o que Floribella vendeu ou deixou de vender? Minha surpresa reside no fato de que estamos falando em números extraordinários de vendas de produtos licenciados em um país como o nosso, um forte candidato a “pátria da pirataria e do contrabando” no cenário mundial - e, sobretudo, de que estes números de modo algum se coadunam com os números de audiência divulgados, o famoso Ibope. Há que se imaginar o quanto a marca Floribella está rendendo ao comércio ilegal em todo o país, um valor talvez em igual ordem de grandeza que os produtos licenciados e legais, mas ainda impossível de mensurar tamanha é a dimensão do mercado do contrabando e do descaminho no Brasil. Portanto, como aceitar que algo de tamanho sucesso comercial tenha pífios cinco pontos de audiência televisiva no Ibope?

Creio que não é “teoria da conspiração” suspeitar que algo está errado em relação a tudo isso. E minhas dúvidas levam-me a meditar sobre o quanto de manipulação existe nas pesquisas de opinião realizadas em nosso país. Em um breve vasculhar de memória, é possível nomear diversas ocasiões, em nossa recente vida política como país democrático, nas quais as pesquisas apontaram caminhos totalmente diversos da realidade das urnas, algumas delas em uma clara tentativa de manipulação da vontade do eleitorado.

No Brasil, em tempos de campanha política, os números oriundos de tais pesquisas são apresentados como verdades inquestionáveis - vemos isso, por exemplo, no presente momento, em plena campanha pelo referendo pela proibição do comércio legal de armas de fogo, na qual um dos lados tenta nos provar com números pouco detalhados que a maioria das vítimas de armas de fogo no Brasil, um país no qual há localidades dentro das grandes metrópoles que vivem um clima próximo ao de uma guerra civil declarada, morrem nas mãos de civis em brigas de trânsito… É possível aceitar essa nova realidade dos números e ignorar o que vemos na realidade do nosso cotidiano das grandes cidades?

Por essas e outras é que acredito ser Floribella a mais recente vítima da fúria manipuladora dos institutos de pesquisa no Brasil.

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Sunday, October 9, 2005

Pérolas aos poucos

naozzetti“Eu jogo pérolas aos poucos…”
(da canção ‘Pérolas aos Poucos’, de José Miguel Wisnik e Paulo Neves)

O público não vai ao teatro porque o teatro não vai ao público, é uma das máximas que já ouvi nesses anos em que vivo em Porto Alegre, onde consigo acompanhar mais de perto a cena teatral graças à proximidade das boas salas de espetáculo e aos amigos fiéis que compactuam comigo o mesmo amor pelas artes em geral e que são sempre ótimas companhias. Em parte, a idéia acima é verdadeira e remete a uns tantos espetáculos que pude assistir recentemente nesta cidade e que, de tão experimentais e herméticos, mais espantavam o público do teatro que os atraiam a voltar para prestigiar futuras empreitadas daqueles mesmos realizadores. (…) (LEIA O TEXTO COMPLETO ABAIXO)

naozzetti“Eu jogo pérolas aos poucos…”
(da canção ‘Pérolas aos Poucos’, de José Miguel Wisnik e Paulo Neves)

O público não vai ao teatro porque o teatro não vai ao público, é uma das máximas que já ouvi nesses anos em que vivo em Porto Alegre, onde consigo acompanhar mais de perto a cena teatral graças à proximidade das boas salas de espetáculo e aos amigos fiéis que compactuam comigo o mesmo amor pelas artes em geral e que são sempre ótimas companhias. Em parte, a idéia acima é verdadeira e remete a uns tantos espetáculos que pude assistir recentemente nesta cidade e que, de tão experimentais e herméticos, mais espantavam o público do teatro que os atraiam a voltar para prestigiar futuras empreitadas daqueles mesmos realizadores. Não foram poucas as vezes em que senti como se os diretores estivessem preocupados em fazer teatro para outros diretores e acadêmicos, sem a menor preocupação com a audiência, muito menos com a formação de público, de futuras gerações que venham a prestigiar seu trabalho no futuro. Era como se eu e boa parte da platéia estivéssemos invadindo uma festa privativa da classe teatral porto-alegrense e, por snão sermos sócios de tal clube, estávamos alijados de compreender e compartilhar daquele momento…

Mas, como tudo na vida, há o outro lado da moeda.

Penso nos motivos pelos quais, em nosso país - e talvez este seja um fenômeno com reflexos de uma realidade mundial maior -, alguns artistas, em que pese seu inconteste talento, jamais alcançam o apoio e o reconhecimento da mídia e, por conta disso, não conseguem atingir um público maior e levar sua arte às partes mais distantes do Brasil. Tenho em mente os dois espetáculos que tive o privilégio de presenciar nos últimos dias aqui em Porto Alegre: o encontro musical da cantora paulistana Ná Ozzetti e do pianista niteroiense André Mehmari, no Teatro São Pedro, e a apresentação da companhia de dança mineira Grupo Corpo, no Teatro do Sesi.

Ná Ozzetti, cantora premiada e aplaudida pela crítica, é talvez umas das melhores vozes da música brasileira atual. Dona de uma afinação acima de qualquer senão, Ozzetti encantou o público que quase lotava o São Pedro, nosso mais tradicional teatro, na companhia de André Mehmari, um músico criativo e com uma técnica pianística de tal modo perfeita que se poderia até dizer que o espetáculo era, em verdade, uma dupla de solistas em plena harmonia e adequação. O repertório, no qual Ná Ozzetti e André Mehmari recriaram preciosidades musicais, desde “Sabiá“, de Tom Jobim a “Because“, de John Lennon e Paul McCartney, com destaque para a delicada e bela “Pérolas aos poucos“, de José Miguel Wisnik e Paulo Neves - canções nas quais a voz e o piano apossavam-se das palavras e das melodias como se elas tivessem sido escritas especialmente para aquele encontro afortunado, nascido de um convite feito pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul para que os dois artistas apresentassem um concerto de voz e piano em 2004, em Porto Alegre, e que agora é confirmado por uma turnê nacional e o lançamento de um novo álbum, Piano e Voz, fruto desta parceria inusitada porém perfeita.

A sensação foi a mesma ao assistir as coreografias de Rodrigo Pederneiras para o Grupo Corpo. A companhia apresentou aos porto-alegrenses duas de suas mais recentes coreografias: Lecuona (2004), um passeio melodramático, sentimental e exageradamente romântico pelas canções do compositor cubano, cujas letras sobre amor e traição foram fielmente traduzidas pelos movimentos dos casais que se revezaram no palco, em pas de deux que brincavam com as hipérboles amorosas dos versos cantados e envolveram de tal forma a platéia que transformaram esta primeira parte do programa da noite em um final emocionante, com um público entusiasmado ao ponto de saudar os artistas com mais de vinte minutos de aplausos de pé.

Onqotô, a coreografia sobre a música de José Miguel Wisnik e Caetano Veloso que encerrou o espetáculo, era um pouco mais hermética em seu entendimento, em verdade uma discussão bem brasileira sobre temas mais complexos como a origem do homem, o surgimento do universo e a metafísica da vida… Mas, como estamos falando do Grupo Corpo, é bom registrar que tudo isso foi mostrado de forma bastante arrojada, bem humorada e criativa, quer seja no mote adotado pelos compositores - um aforismo do dramaturgo Nelson Rodrigues, que dizia que “o fla-flu começou quarenta minutos antes do nada” -, seja na dinâmica da coreografia e em seu uso do cenário e dos figurinos. A música, misto de palavras repetidas e retorcidas, aliadas à força percussiva dos tambores baianos e da música eletrônica, ainda que não seja música para ser ouvida em outras ocasiões e ambientes, serve perfeitamente à proposta estética de Pederneiras e à linguagem corporal da companhia, compondo um espetáculo único e arrebatador.

Mas, quantos brasileiros terão acesso a esses espetáculos? Há, logicamente, a barreira dos preços dos ingressos - que no caso do concerto de Ná Ozzetti e André Mehmari eram até bastante razoáveis -, mas creio firmemente que o problema maior é a dificuldade de divulgar a arte no Brasil. Nossos meios de comunicação estão em mãos de pessoas para as quais palavras como formação, educação, arte e talento parecem ser meras palavras sem sentido em sua visão mercadológica da vida. E essa maneira de ver o mundo acaba reforçando preconceitos como os que pregam que “o povo não gosta desse tipo de programa” ou “a cultura é para quem tem dinheiro” - sem que jamais se tenha pensado firmemente neste país em formação de público, como vi acontecer em vários países pelos quais tive a sorte de passar.

Esses preconceitos estão minando a produção artística nacional, por um lado, fazendo com que só se consiga produzir arte no Brasil por meio de leis de incentivo fiscal e muita força de vontade. A outra face do preconceito é o crescimento de um mercado informal de música que tem surgido dentro de cada realidade regional, um mercado que consegue hoje se firmar graças aos custos baixos de produção de CD, mas que também só consegue atingir a mídia nacional quando se tornam um fenômeno popular com tamanho sucesso que desperta a cobiça dos senhores da comunicação…

Enquanto essa mentalidade tacanha vai se perpetuando no Brasil, artistas com o talento daqueles nossos gênios da música e da dança seguem jogando suas pérolas aos poucos que podem (e querem) delas desfrutar.

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Thursday, October 6, 2005

Moedas macabras

“A crueldade, como qualquer outro vício, não requer qualquer outro motivo senão ela mesma; ela precisa apenas de oportunidade para surgir.”
(George Eliot, pseudônimo de Mary Ann Evans, escritora inglesa, 1819-1880)

Há os que vêem em nosso tempo um recrudescimento da selvageria, da desumanidade e da barbárie. Creio que eles são alarmistas, em sua quase totalidade - se houve mudanças, essas não foram um aumento das atrocidades cometidas pelo homem; foram, isso sim, apenas dos meios e das oportunidades para que a crueldade se manifeste. (…) Refiro-me às notícias estampadas nos jornais de todo mundo, na data de hoje, sobre o novo escândalo envolvendo a torpeza de alguns militares por ocasião da invasão e dominação estadunidense no Afeganistão e no Iraque. Susan Sontag, a escritora norte-americana falecida em 2004, soa-me agora algo profética - ela dizia, falando da posição da mulher na sociedade, que ‘a pornografia, no fim das contas, não diz respeito ao sexo, mas à morte’. Os soldados estadunidenses ajudaram a consolidar esta relação macabra. (LEIA O TEXTO COMPLETO ABAIXO)

“A crueldade, como qualquer outro vício, não requer qualquer outro motivo senão ela mesma; ela precisa apenas de oportunidade para surgir.”
(George Eliot, pseudônimo de Mary Ann Evans, escritora inglesa, 1819-1880)

Há os que vêem em nosso tempo um recrudescimento da selvageria, da desumanidade e da barbárie. Creio que eles são alarmistas, em sua quase totalidade - se houve mudanças, essas não foram um aumento das atrocidades cometidas pelo homem; foram, isso sim, apenas dos meios e das oportunidades para que a crueldade se manifeste.

Refiro-me às notícias estampadas nos jornais de todo mundo, na data de hoje, sobre o novo escândalo envolvendo a torpeza de alguns militares por ocasião da invasão e dominação estadunidense no Afeganistão e no Iraque. O webmaster de um site na Internet especializado em fotos amadoras revelou à imprensa de seu estado natal, a Califórnia, que militares norte-americanos de diversas patentes estariam enviando para ele fotos de pessoas mortas naqueles países como forma de escambo para receberem acesso gratuito ao conteúdo pornográfico do site. Segundo ele, a idéia de tal moeda macabra de pagamento teria surgido por sugestão dele aos próprios militares em missão no Iraque e no Afeganistão, os quais teriam dificuldades para arcar com os custos de acesso às fotos pornográficas amadoras que o webmaster comprava de outros membros do site (que por sua vez enviavam fotos de suas próprias namoradas, esposas, irmãs e amigas nuas ou em atos libidinosos como pagamento pelo acesso).

De início, contou o webmaster,os militares teriam mandado fotos genéricas do conflito, mas em pouco tempo os soldados ávidos por diversão começaram a enviar fotografias de corpos mutilados, carbonizados e decapitados - em alguns casos, com os próprios militares autores das imagens posando ao lado dos cadáveres.A seção ‘Fotos Escabrosas’, que avisava em sua página de entrada para que ‘pessoas que se chocam facilmente’ não acessassem seu conteúdo, passou a ser uma das mais visitadas do site, segundo seu autor. O que mais repugna de toda essa história é a informação de que tais fotos eram acompanhadas de legendas sarcásticas elaboradas pelos próprios responsáveis por seu envio ao webmaster.

O governo estadunidense, como vem agindo durante todo o conflito, recusa-se a admitir o envolvimento de seus militares em tais práticas, dizendo não haver provas suficientes para tal apesar de todo o acervo de fotografias publicadas na Internet. Os comandantes das tropas atualmente em atuação no Iraque foram orientados a aplicar punições administrativas - e não abrir inquéritos criminais - caso sejam indentificados quaisquer militares envolvidos. Alguns jornais já acusam o Exército norte-americano de atenuar o ocorrido por ter a própria instituição exibido imagens de mortos na invasão do Iraque - das quais as mais famosas foram as dos corpos dos filhos de Saddam Hussein.

Mark Twain, o grande escritor estadunidense, acreditava que ‘toda guerra é apenas o assassínio de estranhos contra os quais não sentimos nenhuma animosidade pessoal; estranhos que, em outras circunstâncias, nós ajudaríamos se os encontrássemos em situação difícil, e que nos ajudariam em caso de necessidade’. Não tenho fortes razões para crer que a verdade seja muito distinta disto - ainda que fatos como a prática acima descrita ou os abusos de Abu Ghraib levem-nos a pensar o oposto. Mas suspeito que há um esforço deliberado dos Senhores da Guerra para desumanizar o inimigo. Se pensarmos em todas as situações de conflito bélico que vivemos em nossa história, veremos que o ser humano no campo oposto de batalha deixa de ser visto como humano e passa a ser o inimigo, o invasor, aquele sobre quem se cria, em geral, uma mitologia muito particular na tentativa de dissolver em sua imagem qualquer traço de humanidade. O assassinato é rechaçado em qualquer sociedade humana que se elevou da barbárie - exceto se é promovido pelo Estado, e se sua prática é contra o outro inumano, e isso seja bom o bastante para merecer uma medalha e um título de herói.

O esforço de desumanizar o inimigo, aliado à sensação de impunidade e de poder, faz com que soldados - sejam eles de qualquer nacionalidade - percam os limites morais que os reteriam no convívio de suas comunidades e usem a imagem da morte do outro, estranho e distante, como moeda de troca para a obtenção do direito de ter acesso à pornografia. Que mal há, enfim, em tirar tais fotos e divulgá-las na Internet, já que os mortos ali retratados não têm quem os reclame, quem por eles lute judicialmente, quem por eles chore na frente de seus algozes-fotógrafos? Eis aí uma perfeita oportunidade para que a crueldade surja, e sem maiores remorsos - nem para eles, nem para os que acessaram tal conteúdo e que, certamente, não se sentem nem um pouco responsáveis pela ignomínia que sua curiosidade alimenta e financia.

E Susan Sontag, a escritora norte-americana falecida em 2004, soa-me agora algo profética - ela dizia, falando da posição da mulher na sociedade, que ‘a pornografia, no fim das contas, não diz respeito ao sexo, mas à morte’. Os soldados estadunidenses ajudaram a consolidar esta relação macabra.

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Wednesday, October 5, 2005

Maria Rita, iPods e rancor

‘Pelo ser humano, pelo cano o mundo vai…’
(Um dos versos de ‘Ciranda do Mundo’, de Eduardo Krieger,
gravada por Maria Rita em seu álbum ‘Segundo’)

O que leva a crítica brasileira a ser tão raivosa e despropositadamente superficial em suas análises? Em uma busca rápida por respostas, eu diria que ela reflete o que vemos ocorrer hoje em nosso país de leitores bissextos: a falta de uma massa crítica faz com que aceitemos a crítica que não reflete sobre a obra de arte, mas sobre as fofocas que a circundam.

Refiro-me à crítica (?) escrita por Sérgio Martins na edição da revista ‘Veja’ datada de hoje sobre o novo álbum da cantora Maria Rita Mariano. (LEIA O TEXTO COMPLETO ABAIXO)

‘Pelo ser humano, pelo cano o mundo vai…’
(Um dos versos de ‘Ciranda do Mundo’, de Eduardo Krieger,
gravada por Maria Rita em seu álbum ‘Segundo’)

O que leva a crítica brasileira a ser tão raivosa e despropositadamente superficial em suas análises? Em uma busca rápida por respostas, eu diria que ela reflete o que vemos ocorrer hoje em nosso país de leitores bissextos: a falta de uma massa crítica faz com que aceitemos a crítica que não reflete sobre a obra de arte, mas sobre as fofocas que a circundam.

Refiro-me à crítica (?) escrita por Sérgio Martins na edição da revista ‘Veja’ datada de hoje sobre o novo álbum da cantora Maria Rita Mariano. Aliás, peço de antemão perdão por chamar o texto de Martins de uma crítica ao novo disco da cantora, pois o dito crítico de música faz apenas uma brevíssima referência ao trabalho de Maria Rita, ao dizer que o CD, ‘aliás, é bem ruim’. O resto do texto, que ocupa dois terços da página 115 da revista, é um desfiar de reclamações de Martins sobre o fato de a gravadora de Maria Rita, a Warner Music, ter enviado ‘a trinta críticos de música de grandes veículos (de comunicação) mini-iPods - tocadores de MP3 cujo preço nas lojas varia entre 600 e 1000 reais’.

Para Sérgio Martins, este fato é suficiente para acusar Maria Rita de, ao contrário de sua mãe, Elis Regina, usar o ‘marketing’ para impulsionar sua carreira. Preciso frisar que a opinião anterior é dele, Martins, e reforçada com frases como ‘a companhia vende a artista como uma espécie de reencarnação da mãe - e ela se prestou a esse papel, emulando o estilo de Elis’, ou ainda ‘a filha de Elis iPodendo’.

O que me irrita como reles leitor é que o autointitulado crítico de música de ‘Veja’ perde o seu (e o nosso) tempo destilando acusações sobre os próprios colegas de atividade, os críticos de música de outros jornais e revistas (algumas até da mesma editora de ‘Veja’), de que eles não ‘ousaram fazer comentários negativos sobre o disco’ (escrevendo o que ele chamou de ‘resenhas chapa-branca’) porque receberam de presente o tal mini-iPod da gravadora, que justificou a entrega do aparelho pelo fato de que o álbum não ficaria pronto a tempo de ser distribuído aos críticos com a antecedência por eles solicitada. Claro que, em nenhum momento, parece ter passado pela cabeça tortuosa do crítico de ‘Veja’ que alguns de seus colegas tenham efetivamente gostado do novo álbum de Maria Rita - uma avaliação, aliás, compartilhada por mim e por muitas pessoas de minhas relações que também aprovaram o novo trabalho da cantora. Parece ser mais fácil acreditar que opiniões contrárias à nossa (no caso, à sua opinião de que, para Maria Rita, ‘o marketing é tudo’) só podem ser explicadas por conta de uma possível compra da opinião alheia. E uma compra de consciências bem barata, em tempos como os nossos, de ‘mensalão’ e ‘mensalinho’…

Dizem que, por vezes, costumamos ver na atitude alheia algo que nós mesmos faríamos naquela determinada situação. Mas acusar Sérgio Martins usando este argumento seria agir da mesma forma rancorosa que ele. E não escrevo aqui no papel de advogado de defesa de ninguém, nem me arvoro a crer que minha opinião de fã seja a verdade absoluta.

Ouvi com curiosidade o primeiro álbum de Maria Rita porque sempre fui um grande fã do trabalho de Elis Regina, confesso. Mas essa ligação entre mãe e filha dissipou-se para mim após ter assistido a dois espetáculos de Maria Rita em Porto Alegre. Ela tem luz própria e talento musical suficiente para levar adiante uma carreira própria, e não me pareceu em nenhum momento que a semelhança vocal entre mãe e filha (cuja mente tortuosa do crítico de ‘Veja’ não consegue atribuir a questões genéticas…) fosse algo forçado ou deliberado. Pelo contrário, recordo-me do empenho de Maria Rita em fugir da comparação e em reconhecer a superioridade da mãe em matéria de perfeccionismo vocal. Em seu segundo álbum, Maria Rita tem coragem bastante de fugir ao caminho fácil das regravações, compondo um repertório quase todo de canções inéditas e compositores desconhecidos do grande público. Confesso que o álbum não é empolgante como o primeiro, mas ainda assim é uma raridade no cenário atual, já que foi gravado ‘en ensemble’, sem grandes pirotecnias de estúdio, em um tempo no qual as gravadoras parecem investir apenas em música para fazer pular as massas… Enfim, há canções delicadas e interpretações brilhantes neste novo álbum, como ‘Casa Pré-fabricada’, de Marcelo ‘Los Hermanos’ Camelo, ‘Mal Intento’, do oscarizado Jorge Drexler (e cantada em perfeito espanhol) e a ótima regravação de ‘A Minha Alma’, do grupo carioca O Rappa, sem falar na primeira canção de trabalho, a cativante ‘Caminho das Águas’.

Mas, que idéia a minha de discutir música, quando o crítico de ‘Veja’ acha que todo o sucesso de Maria Rita (quatro prêmios Grammy Latino incluídos) é pura jogada de ‘marketing’! Fico apenas me perguntando se o mesmo Sérgio Martins não acusaria a Warner Music de avareza se a companhia tivesse solicitado aos críticos de música para devolver o aparelhinho depois da audição. Ou será que o rancor todo de Martins deve-se ao fato de ele não ter recebido o mini-iPod dele?

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Tuesday, October 4, 2005

Sim ou Não?

Estamos em plena campanha para o referendo sobre o comércio legal de armas de fogo no Brasil e confesso que, ao assistir as peças publicitárias televisivas de ambas as correntes, as frentes parlamentares pelo SIM e pelo NÃO à proibição, estou cada vez mais inclinado a votar no TALVEZ… (LEIA O TEXTO COMPLETO ABAIXO)

Estamos em plena campanha para o referendo sobre o comércio legal de armas de fogo no Brasil e confesso que, ao assistir as peças publicitárias televisivas de ambas as correntes, as frentes parlamentares pelo SIM e pelo NÃO à proibição, estou cada vez mais inclinado a votar no TALVEZ

Antes de mais nada, assustam-me os custos desse referendo para os cofres públicos - algo em torno de R$ 450 milhões para sua realização, mais uns R$ 150 milhões de gastos com propaganda -, um dinheiro que poderia ser melhor empregado em outras tantas frentes da ação do Estado que necessitam de verba (como, por exemplo, a própria Segurança Pública, filão maior explorado em todo esse auê do referendo). Mas, além desse pequeno escândalo com os cofres públicos - no qual suspeito que há ainda o interesse dos parlamentares de ambos os lados em aparecer em cadeia nacional de televisão menos de um ano antes da próxima eleição -, há uma questão que me inquieta mais - ambos os lados estão a conduzir pessimamente suas campanhas de esclarecimento à população sobre o teor do que será decidido por ela em 23 de outubro de 2005

O que se vê, em verdade, são ambos os lados usando de um sentimentalismo que beira a torpeza, expondo para o país as histórias de vida de famílias que perderam seus entes queridos por mortes com armas de fogo, seja pelas mãos da criminalidade ou do cidadão comum armado, defendendo um ou outro lado da questão. São histórias pontuais, que apelam para o lado emocional da população e tentam comover com relatos cada vez mais chocantes, mas que são pontuais e em nada auxiliam o público a ter uma exata noção do que é a questão do desarmamento e do comércio legal de armas no país.

Ouvindo as celebridades da campanha pelo SIM, tem-se a impressão de que, se tal posição sair vitoriosa do referendo, o Brasil tornar-se-á, de um dia para o outro, em um lugar melhor de se viver porque os brasileiros serão proibidos de comprar armamento leve em comércios legalizados e com registro. Pelo lado do NÃO, a mensagem soa como se a proibição do comércio legal de armas fosse lançar o país em uma noite eterna, na qual todos os delinqüentes do mundo passariam a atacar o cidadão comum em praça pública, sem maiores ações do Estado em combate a tal estado de caos.

O SIM acusa subliminarmente o NÃO de ser a favor da violência, da morte, da barbárie; o NÃO, por sua vez, consegue até vislumbrar na defesa pelo SIM uma ação conspiratória de grupos ligados ao governo e que pretendem, com essa medida, tomar o poder em um futuro próximo sem que a população civil tenha meios, entenda-se armas, para se defender contra o ‘invasor tirânico’.

Creio que há diversas outras questões que cercam a tal escolha do referendo e que precisam ser analisadas com cuidado à hora da votação. Há um controle efetivo de nossas fronteiras, do comércio ilegal de armas praticado em estabelecimentos ali nas cidades fronteiriças do Uruguai, Argentina e Paraguai? Há ações concretas do Estado para a proteção de seus cidadãos no sentido de desarmar quem quer que seja, bandido ou cidadão comum? A proibição do comércio legal de armas refletirá na diminuição das armas no Brasil? Em que proporção isso ocorrerá? Qual é o maior problema do combate à criminalidade nas grandes cidades brasileiras da atualidade: as armas leves ou as armas de maior poder de destruição - fuzis, lança-granadas e afins? Ter uma arma em casa é garantia de segurança? Há medidas legais - que funcionem - para limitar o acesso às armas leves apenas para os que efetivamente sabem usá-las ou delas necessitam para exercício de suas funções? Qual a porcentagem de armas adquiridas legalmente em poder dos criminosos? Quantas vidas são ceifadas no Brasil por crimes passionais, acidentes ou homicídios por razões fúteis (não me agrada esse termo: é como se alguma razão para tal crime fosse válida…) cometidos com armas de fogo em mãos de civis? Há profissões, e quais seriam elas, nas quais o profissional precisa possuir uma arma de fogo fora de seu local de trabalho e horário de expediente (refiro-me ao assassinato do segurança de um supermercado em Sobral, Ceará, pelas mãos de um juiz)?

Penso que há muito que refletir antes de decidir por esta ou aquela posição, e o tempo é escasso, questão de dias, apenas. Lamento apenas que ambos os lados da questão estejam usando argumentos tão fracos, piegas mesmo, aos moldes do que estamos cansados de assistir nas campanhas políticas por cargos eletivos a que somos submetidos de dois em dois anos neste país.

Tudo o que sei é que não há como ignorar o referendo de 23 de outubro de 2005. Ao menos para mim, que serei mesário, será impossível mesmo…

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Monday, October 3, 2005

Pacto de Sangue

blood

Não quero a poesia que não seja
sangria desatada.
Cada poema é, em si,
sufocado grito de dor.
Uns suaves, outros em angústia,
mas cada poema sempre
como uma gota do sangue
mais íntimo do poeta.
A cada poema se esvai
alguma coisa de nós.

Os homens precisam de sangue
não que lhes limpe os pecados
mas que lhes salte aos olhos
com os seus rubros recados
os pecados que hão de vir.

Todo poeta é, em si,
um estranho e involuntário
doador universal.

Da obra

(1996)
(Robertson Frizero Barros)

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Fazer o quê? Dizer o quê?

“Tudo depende da relação que se consegue estabelecer a partir da relação que se consegue estabelecer com a relação que se consegue estabelecer.”
(Carlos Gallo, marchand e diretor da Galeria Gestual, de Porto Alegre - Brasil, no artigo ‘Não Vi e Já Gostei’, publicado em Zero Hora de 01 de outubro de 2005)

Tenho plena convicção de que o movimento estético mais importante do século XXI será a retomada do sentido e do significado na arte. Faço tal declaração diante da notícia sempre alvissareira da abertura de mais uma Bienal do Mercosul, a quinta edição do evento que transforma por alguns dias Porto Alegre em capital da arte contemporânea dessa ficção política que é o Mercado Comum do Sul. (LEIA O TEXTO COMPLETO ABAIXO)

“Tudo depende da relação que se consegue estabelecer a partir da relação que se consegue estabelecer com a relação que se consegue estabelecer.”
(Carlos Gallo, marchand e diretor da Galeria Gestual, de Porto Alegre - Brasil, no artigo ‘Não Vi e Já Gostei’, publicado em Zero Hora de 01 de outubro de 2005)

Tenho plena convicção de que o movimento estético mais importante do século XXI será a retomada do sentido e do significado na arte. Faço tal declaração diante da notícia sempre alvissareira da abertura de mais uma Bienal do Mercosul, a quinta edição do evento que transforma por alguns dias Porto Alegre em capital da arte contemporânea dessa ficção política que é o Mercado Comum do Sul.

A Bienal, em todas as suas edições, tem sido um repositório do que de mais moderno se produz em termos de arte nos países do Mercosul e em alguns países latino-americanos representados por artistas convidados. E o que se vê, com raríssimas exceções, é uma total falta de sentido na arte que se produz nos dias de hoje. Chamem-me de ignorante quem assim desejar, mas sinto falta de sentir emoções diante de uma obra de arte diferentes de um ‘humpf!’ de indiferença.

Não consigo aceitar uma arte que se propõe totalmente subjetiva ao ponto de não conseguir atingir o público - e, sim, o artista sempre produz para um público, e quem disser algo contrário a isso é tolo ou hipócrita (alguém conhece um escritor que tenha escrito com o sonho de manter sua obra trancada em uma gaveta a sete chaves? Ou um pintor que cubra suas obras com lona negra para que ninguém as veja nunca depois de terminadas?). A arte sempre teve como razão de ser a transcendência, a elevação do homem além de sua vida e de seu mundo, mas parece que o que chamam hoje de arte não cumpre mais tal papel. Para muitos que se enfileiram junto aos artistas contemporâneos, a arte deve chocar e retorcer a realidade - o que tem levado muitos deles a uma certa frustração, já que as experimentações foram tantas que o público raramente se choca hoje em dia, a não ser quando os ‘modernosos’ artistas apelam para o escatológico e para o sadomasoquista, o que tem acontecido ultimamente, para nossa tristeza, com relativa freqüência (não faz muito tempo, no último ‘Porto Alegre Em Cena’, os porto-alegrenses tiveram a oportunidade de ver um ator declamando textos ‘contemporâneos’ enquanto recebia choques elétricos da platéia… seja lá o que isso queria significar).

Há que se desconfiar de uma arte que precisa de memorial descritivo para ser compreendida ou aceita pela curadoria de uma mostra qualquer, de um artista que precisa apresentar currículo com passagens em outras mostras semelhantes para ter sua arte (muitas vezes subvencionada com dinheiro público) exposta ao povo. Por vezes, parece-me, a mim que sou um reles membro do público leigo, que a arte atual é planejada com o intuito de fazer com que nós, platéia, nos sintamos menos inteligentes ou integrados àquele ‘mundinho hermético’ dos autointitulados artistas.

Em termos de arte brasileira contemporânea, o mais tolo parece ser o fato de que estamos destruindo cânones da arte que sequer foram aqui construídos, num eterno ‘macaquear’ do que se faz em termos de arte em outros países nos quais, lá sim, faz algum sentido a ‘desconstrução’ e a ‘rebeldia’. Mas aqui, em um país no qual ‘pulamos’ etapas através de uma Semana de Arte Moderna que, ainda que repleta de méritos, veio ‘importada’ do estrangeiro?

Enquanto aquele movimento estético pelo qual eu e outras pessoas, quero crer, esperam com avidez - o da retomada do sentido na arte - não chega, vou certamente visitar a 5ª Bienal do Mercosul com olhos abertos e coração esperançoso de que, um dia, uma mostra como esta ainda irá me surpreender positivamente. Por enquanto, só tenho visto o discurso vazio ecoado pelas palavras do autor do artigo com que iniciei estas linhas de descrédito (e do qual furtei também o título deste texto) e que, em seu parágrafo final, ainda coloca que ‘nada vale mais a pena do que uma experiência estética’, seja lá o que isso quer dizer.

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