Destino macabro
Leio, horrorizado, nos jornais de hoje, que o corpo de uma mulher de quarenta e dois anos, a qual aparentemente cometeu suicídio, ficou por quatorze dias pendurada em uma árvore em frente à sua casa, em uma pequena cidade no estado norte-americano de Delaware, sem que nenhum de seus vizinhos comunicasse à polícia ou tomasse alguma providência. (…) O incidente - se é que podemos chamar tal ocorrência assim - faz-me questionar qual será o destino de nossa sociedade contemporânea, tão distorcida pelo culto ao individualismo e o afastamento dos conceitos mais básicos de solidariedade. (LEIA O TEXTO COMPLETO ABAIXO)
Leio, horrorizado, nos jornais de hoje, que o corpo de uma mulher de quarenta e dois anos, a qual aparentemente cometeu suicídio, ficou por quatorze dias pendurada em uma árvore em frente à sua casa, em uma pequena cidade no estado norte-americano de Delaware, sem que nenhum de seus vizinhos comunicasse à polícia ou tomasse alguma providência. Diz a notícia que os vizinhos pensaram, por todo este tempo, que se tratava de um macabro enfeite de Halloween, a festa do Dia das Bruxas, comemorada anualmente naquele país no dia 31 de outubro.
O incidente - se é que podemos chamar tal ocorrência assim - faz-me questionar qual será o destino de nossa sociedade contemporânea, tão distorcida pelo culto ao individualismo e o afastamento dos conceitos mais básicos de solidariedade. Creio ser difícil imaginar que em uma cidade pequena como esta que foi palco de tamanha bizarrice, as pessoas sejam distantes ao ponto de não reconhecerem uma vizinha morta a balouçar pelo pescoço em uma corda amarrada a uma árvore em plena via pública. Mas o pensamento atual é o de mind your own business - algo como “cuide da sua própria vida” -, e o pouco que conheço dos Estados Unidos de minha passagem por lá me diz que naquela terra esta máxima é seguida como uma regra absoluta.
Mas os exageros acontecem. E aqui vemos um deles: uma mulher que se mata e sua falta não é sentida, seu rosto não é reconhecido, seu corpo é tomado por um enfeite qualquer de uma festa que agora me parece bem menos macabra que este desprezo coletivo pelo semelhante.
Que sentimentos terão motivado esta mulher de apenas quarenta e dois anos a atentar contra a própria vida? Não é difícil imaginar que um dos motivos tenha sido a solidão.
Li esses dias que um funcionário morreu sentado em sua cadeira, numa sala de trabalho aberta, e ficou três ou quatro dias morto sem que os colegas notassem. Quem se deu conta, no sábado, foi o faxineiro, que não obteve resposta quando perguntou o que o sujeito fazia ali num dia que não era de trabalho. Não consigo lembrar em que país foi isso, talvez num país nórdico, mas poderia muito bem ter sido nos Estados Unidos. Realmente a solidariedade está fora de moda…