Wednesday, October 26, 2005

Jogo duro

“Enquanto Martinha falava, Vô Chico apanhou um livro na estante e abriu-o numa página onde se viam fotografias de vários tipos de macaco. Tinha macaco de pêlo cinza, vermelho, preto, amarelo, branco, marrom. Tinha macaco de nariz comprido, de nariz achatado, de rabo comprido, sem rabo…
- Olhem aqui estes macacos. A maioria não tem os lábios fininhos? Que eu saiba, a maioria dos negros tem lábios grossos, não tem? E o que vocês me dizem do pêlo? Eu nunca vi preto peludo; agora, branco, tem uns que parece que estão com casaco, de tanto pêlo que eles têm!
- Eu tenho um tio que é assim - exclamou Laura. - Quando ele tira a camisa, a gente brinca com ele, diz que parece macaco. Ele sai correndo atrás da gente, andando que nem macaco. É um barato! - Ficou pensativa um momento e continuou: - Mas acho que quando chamam um negro de macaco é pra ofender, não para brincar.

(trecho de Jogo Duro, livro infanto-juvenil de Lia Zatz
- Belo Horizonte: Editora Dimensão, 1996)

Parece significativo que, em uma mesma semana, dois fatos noticiados por nossos jornais remetam a uma reflexão que todo brasileiro deveria fazer sem medo de se surpreender com suas próprias convicções. Falo, primeiramente, do ocorrido em um jogo de futebol no Rio Grande do Sul, onde um juiz de futebol anotou na súmula da partida entre o Juventude, de Caxias do Sul, e Internacional, de Porto Alegre, o fato de a torcida do time caxiense ter tratado de forma racista um dos jogadores mais importantes do time adversário. (…) Suas ofensas colocam-nos no mesmo patamar daqueles que vêem o negro, ainda que lá nos recônditos caminhos de seus inconscientes, como incapazes, desonestos ou indolentes, reproduzindo idéias infundadas e preconcebidas oriundas lá do tempo de seus tataravós. Será que essas pessoas ignoram o que foi a escravidão no Brasil? (…) E este fato lamentável, que corrobora com a visão que o brasileiro médio tem do povo gaúcho como um povo racista, aconteceu na mesma semana em que nos Estados Unidos da América faleceu Rosa Parks. (LEIA O TEXTO COMPLETO ABAIXO)

“Enquanto Martinha falava, Vô Chico apanhou um livro na estante e abriu-o numa página onde se viam fotografias de vários tipos de macaco. Tinha macaco de pêlo cinza, vermelho, preto, amarelo, branco, marrom. Tinha macaco de nariz comprido, de nariz achatado, de rabo comprido, sem rabo…
- Olhem aqui estes macacos. A maioria não tem os lábios fininhos? Que eu saiba, a maioria dos negros tem lábios grossos, não tem? E o que vocês me dizem do pêlo? Eu nunca vi preto peludo; agora, branco, tem uns que parece que estão com casaco, de tanto pêlo que eles têm!
- Eu tenho um tio que é assim - exclamou Laura. - Quando ele tira a camisa, a gente brinca com ele, diz que parece macaco. Ele sai correndo atrás da gente, andando que nem macaco. É um barato! - Ficou pensativa um momento e continuou: - Mas acho que quando chamam um negro de macaco é pra ofender, não para brincar.

(trecho de Jogo Duro, livro infanto-juvenil de Lia Zatz
- Belo Horizonte: Editora Dimensão, 1996)

Parece significativo que, em uma mesma semana, dois fatos noticiados por nossos jornais remetam a uma reflexão que todo brasileiro deveria fazer sem medo de se surpreender com suas próprias convicções. Falo, primeiramente, do ocorrido em um jogo de futebol no Rio Grande do Sul, onde um juiz de futebol anotou na súmula da partida entre o Juventude, de Caxias do Sul, e Internacional, de Porto Alegre, o fato de a torcida do time caxiense ter tratado de forma racista um dos jogadores mais importantes do time adversário. Cada vez que o jogador Tinga, negro, tocava na bola, os torcedores de Caxias do Sul, cidade famosa por ser um dos berços da colonização italiana no estado, enchiam os estádios aos gritos, chamando o atacante de “macaco”.

Parece-me que os torcedores daquela cidade tão progressista estancaram no tempo - ou quiseram ser modernos ao imitar o ato de racismo já sofrido por outros brasileiros em estádios europeus. Suas ofensas colocam-nos no mesmo patamar daqueles que vêem o negro, ainda que lá nos recônditos caminhos de seus inconscientes, como incapazes, desonestos ou indolentes, reproduzindo idéias infundadas e preconcebidas oriundas lá do tempo de seus tataravós. Será que essas pessoas ignoram o que foi a escravidão no Brasil? É possível que alguém no Brasil dos dias de hoje não consiga associar o fato de a maioria de nossa população mais carente ser descendente de africanos com o descaso com que foi promulgada a abolição da escravatura - sem nenhuma preocupação com a inclusão dos recém-libertos à sociedade brasileira da época? Alguém não consegue ainda ver que não há mais espaço em um Brasil que se pretende país do futuro para posições tão ignóbeis como as idéias racistas?

Parece que parte da torcida do Juventude é capaz de ignorar tudo isso. Eles devem se sentir alheios à realidade nacional, porque talvez entre eles haja mesmo quem não tenha antepassados negros, índios ou portugueses - como descendentes de italianos, talvez eles se sintam superiores demais, europeus demais para aceitar um negro que leve o time adversário à vitória. Esquecem-se, porém, da origem humilde dos primeiros colonos italianos, da situação difícil que os fez sair da Europa e vir para o Brasil - e aqui vale lembrar que não houve imigração negra para o Brasil, mas sim um transporte forçado de seres humanos tratados como reles animais para o trabalho mais pesado do campo e das cidades.  Será que aqueles italianos que aqui chegaram teriam construído cidades progressistas como Caxias do Sul se aqui tivessem chegado sob os grilhões da escravidão, sob o estigma de pertencer a um continente tão sofrido como o africano?

E este fato lamentável, que corrobora com a visão que o brasileiro médio tem do povo gaúcho como um povo racista, aconteceu na mesma semana em que nos Estados Unidos da América faleceu Rosa Parks. Talvez o nome desta mulher negra não seja familiar a muitos, mas o que ela desencadeou com seu gesto de indignação teve reflexos na sociedade como um todo: ela foi a mulher que, em 1955, recusou-se a ceder seu lugar em um ônibus para um passageiro branco na cidade de Montgomery, Alabama, como era de praxe ser exigido dos negros naquela região. Por sua recusa, Rosa Parks foi presa e obrigada a pagar uma multa - e a reação da comunidade negra local foi o estopim para o surgimento do movimento dos direitos civis naquele país. Por se negar a ceder seu espaço por conta da cor de sua pele, Parks mudou a vida de milhares de pessoas que viviam como cidadãos de segunda classe em sua própria terra - e pelo critério único da quantidade de melanina em suas epidermes…

Os macacos são seres irracionais, que agridem quando se sentem ameaçados e gritam quando precisam defender seu espaço. Pensando um pouco nisso, quem serão os verdadeiros macacos nessa história de Juventude versus Internacional?

Fazer humor com o preconceito racial já não tem mais graça alguma.

Posted by Frizero at 16:59:50 | Permalink | Comments (1) »

E isto é arte!

“Eu sou o objeto!”
(Marina Abramovic, artista sérvia)

Leio hoje, 26 de outubro, nas páginas de Zero Hora, o nosso arremedo de jornal em formato tablóide aqui de Porto Alegre, mais uma matéria sobre a Bienal do Mercosul, evento que está a acontecer na cidade. E mais uma vez sou surpreendido por minha total ignorância sobre o que seja a arte.(…) (LEIA O TEXTO COMPLETO ABAIXO)

“Eu sou o objeto!”
(Marina Abramovic, artista sérvia)

Leio hoje, 26 de outubro, nas páginas de Zero Hora, o nosso arremedo de jornal em formato tablóide aqui de Porto Alegre, mais uma matéria sobre a Bienal do Mercosul, evento que está a acontecer na cidade. E mais uma vez sou surpreendido por minha total ignorância sobre o que seja a arte.

O jornal ensina-me que Marina Abramovic é uma iugoslava, de ascendência sérvia, que projetou-se internacionalmente como artista a partir de suas performances, segundo ZH, de “caráter radical, em que por mais de uma vez colocou em risco a própria vida”. E isto é arte!

Em Porto Alegre, sua criatividade comparece por meio de uma instalação em vídeo na qual cinco projeções simultâneas mostram um coral de crianças de uma escola chamada “Nações Unidas” regido pela artista vestida de esqueleto, um rosto de menina, um rosto de menino, a artista segurando uma bobina de Tesla e uma imagem das crianças deitadas no chão formando uma estrela de cinco pontas. E isto é arte, mas se você (como eu) não considerou assim, é porque não percebeu a ironia do trabalho: o vídeo foi rodado no Museu de Tesla, uma homenagem ao engenheiro, também sérvio, que deu nome à bobina supracitada, o qual era um pacifista e que morreu na miséria, nos Estados Unidos da América; a escola das crianças chama-se “Nações Unidas”; o esqueleto lembra a morte; a estrela lembra a morte; o negro lembra a morte… Entendeu agora? Isso mesmo: a obra é uma contestação contra a indiferença da Organização das Nações Unidas e dos Estados Unidos da América diante da Guerra dos Bálcãs!

Outras obras (?) da artista merecem ser citadas: em uma delas, ela se colocava ao lado de uma mesa repleta de objetos e segurava um cartaz que dizia algo como “Há 72 objetos sobre a mesa que podem ser usados em mim conforme desejarem. Eu sou o objeto.” - e dentre os utensílios e substâncias havia mel, batom, azeite, tinta, um machado (sic!) e um revólver… E isto é arte!

Quer mais do mesmo? A artista e seu companheiro, também artista, promoveram uma performance em que ela sustentava um arco com o peso do corpo enquanto ele direcionava uma flecha para o coração da mulher… Ah, e nem nos momentos mais íntimos da vida Marina Abramovic perde a chance de brindar o público com suas performances: quando se separaram, ela e o companheiro artista posicionaram-se cada um em uma extremidade da Muralha da China e foram caminhando de encontro um ao outro. Ao se cruzarem no meio da jornada, disseram um para o outro apenas uma palavra: Adeus.

E isto é arte, senhores.

Posted by Frizero at 11:28:06 | Permalink | Comments (5)