Tuesday, October 25, 2005

Passatempo

Por vezes, tenho a impressão de que não há ninguém no mundo que detenha, verdadeiramente, ainda que em algum rincão escondido da alma, a resposta absoluta sobre o sentido da vida. Meus olhos de poeta extemporâneo - que ainda busca rimas e, inconscientemente, conta sílabas métricas - teimam em ver poesia nas coisas simples da vida, em acreditar que há um sentido maior em tudo o que passamos neste mundo… Mas, e se tudo o que construímos foi um mero passatempo para que se ocupasse a mente enquanto não encontramos o real motivo de nossas existências? (LEIA O TEXTO COMPLETO ABAIXO)

Por vezes, tenho a impressão de que não há ninguém no mundo que detenha, verdadeiramente, ainda que em algum rincão escondido da alma, a resposta absoluta sobre o sentido da vida. Meus olhos de poeta extemporâneo - que ainda busca rimas e, inconscientemente, conta sílabas métricas - teimam em ver poesia nas coisas simples da vida, em acreditar que há um sentido maior em tudo o que passamos neste mundo… Mas, e se tudo o que construímos foi um mero passatempo para que se ocupasse a mente enquanto não encontramos o real motivo de nossas existências? Vejo o homem realizar tanto, construir e destruir, discutir os mais diversos temas (como eu tento fazer nesses meus escritos, ainda que de forma tão empobrecida) com o ardor da paixão e a fúria dos coléricos, amar e desamar, viver e morrer por uma causa, por outras pessoas, por dinheiro e por sucesso…mas e se tudo isso for apenas um enorme, imensurável jogo de palavras?

Por via das dúvidas, creio que o melhor é ir vivendo como se tudo fosse, verdadeiramente, um passatempo - uma diversão que não merece a nossa ira, que não merece a nossa entrega total nem o nosso descaso -, um jogo que tem lá suas regras a serem seguidas. Acatá-las é permitir que a diversão prossiga; romper com as regras é ajudar a desmoronar o arranjo das coisas.

Talvez a mais importante das regras seja respeitar a vez dos outros jogadores.

Sim, há lutas valorosas e pelas quais a entrega e o vigor pelo estabelecimento de novos regramentos são também parte do jogo. A mais bela dessas lutas é a de aceitar e promover a entrada de outros jogadores a todos os recursos da partida, em igual medida e em semelhantes possibilidades de jogar. Mas luta nenhuma me parece merecer que se decrete o fim do jogo, o abandono do passatempo ou a expulsão deste ou daquele jogador que não parece compreender as regras. Há sempre o momento certo para que cada folião entenda os passos da ciranda. É aos poucos que se vai formando a roda, peça a peça vai-se montando o quebra-cabeça.

Há tempos a sorte está lançada, nós é que fingimos não perceber. O resto é silêncio - um silêncio de espera pelo próximo mover das peças no tabuleiro.

Posted by Frizero at 22:25:56 | Permalink | Comments (2)

Ulisses

Afogados viemos todos
Dar nesta praia obtusa
Ensurdecidos com o canto
D’alguma obscura musa

E na ancoragem confusa
Neste torrão isolado
Nosso medo e nosso espanto
Relegamos ao passado.

O motivo anunciado
De nossa distante partida
Já não importava tanto,
Já não era a nossa vida

Mas uma herança perdida
Em algum ponto da viagem -
Em tempestades de pranto
Ou n’algum sopro de aragem

Que nos levou a bagagem
Que já não fará mais falta:
Os sonhos e o desencanto
Desta vida de argonauta,

Este navegar sem norte,
Este lançar-se à sorte
De deuses e desenganos
Sobejamente inumanos.

Da obra

(2006)
(Robertson Frizero Barros)

Posted by Frizero at 20:47:06 | Permalink | Comments (3)