Monday, October 24, 2005

É referendando que se recebe?

O referendo e toda a balbúrdia em torno dele chegaram ao fim na noite de ontem, 23 de outubro, quando os primeiros boletins de apuração do Tribunal Superior Eleitoral começaram a ser divulgados pela mídia. (…) O que mais me espantou com relação ao referendo, em verdade, foi o número enorme de tolices que foram ditas antes, durante e depois da votação, sinais de que a decisão que tomamos no dia de ontem foi feita sob bases de imprecisão e desconhecimento, de interesses ocultos de ambas as partes e de estranha falta de senso de muitas de nossas autoridades nacionais.Começo pelas palavras do presidente do Tribunal Superior Eleitoral que, ao justificar o gasto de mais de duzentos e cinqüenta milhões de reais para a realização do referendo, disse que o custo era elevado, mas que a votação deveria ser vista como uma homenagem à democracia - como se palavras poéticas de gosto duvidoso pudessem esconder o fato de que se gastou muito dinheiro para que o povo tomasse uma decisão que, no fim das contas, cabia aos deputados federais e senadores, nossos eleitos, tomar. (LEIA O TEXTO COMPLETO ABAIXO)

O referendo e toda a balbúrdia em torno dele chegaram ao fim na noite de ontem, 23 de outubro, quando os primeiros boletins de apuração do Tribunal Superior Eleitoral começaram a ser divulgados pela mídia. O resultado, uma expressiva vitória da Frente Parlamentar pela Legítima Defesa, o pessoal do NÃO, deixou no ar um perfume de contestação popular, a meu ver, contra a situação da Segurança Pública em todo o país e, também, contra a manipulação das emoções do eleitor, caminho erroneamente percorrido pela campanha do SIM ao usar atores televisivos, números manipulados e imprecisos e interpretações errôneas da chamada Lei do Desarmamento para convencer o eleitor - o que só gerou reprovações por parte das autoridades eleitorais e, por consegüinte, a desconfiança de muitos.

O que mais me espantou com relação ao referendo, em verdade, foi o número enorme de tolices que foram ditas antes, durante e depois da votação, sinais de que a decisão que tomamos no dia de ontem foi feita sob bases de imprecisão e desconhecimento, de interesses ocultos de ambas as partes e de estranha falta de senso de muitas de nossas autoridades nacionais.

Começo pelas palavras do presidente do Tribunal Superior Eleitoral que, ao justificar o gasto de mais de duzentos e cinqüenta milhões de reais para a realização do referendo, disse que o custo era elevado, mas que a votação deveria ser vista como uma homenagem à democracia - como se palavras poéticas de gosto duvidoso pudessem esconder o fato de que se gastou muito dinheiro para que o povo tomasse uma decisão que, no fim das contas, cabia aos deputados federais e senadores, nossos eleitos, tomar. Mas a ordem de proibição da venda legal de armas é algo polêmico demais para que os políticos assumam como escolha sua - e por isso já se fala na convocação de referendos futuros sobre temas tão díspares quanto o casamento entre parceiros homossexuais e a legalização do aborto. Em resumo, elegemos representantes para que eles não decidam para nós sobre as questões mais polêmicas, já que é muito melhor colocar nas mãos do povo, diretamente, a responsabilidade sobre tais decisões. No fim das contas, parece que a única questão de importância para nossa classe política é, realmente, a próxima eleição.

Esta minha visão desencantada da classe política encontra como melhor exemplo as palavras do senador Renan Calheiros, partidário do SIM, que ao saber do resultado do referendo declarou, em outras palavras, que “espera que as pessoas, a partir de agora, ao verem na televisão as grandes tragédias causadas por armas de fogo, lembrem-se que o país perdeu sua chance de se colocar à frente de seu tempo”. A fala remete a outro momento histórico famoso, quando um estadista romano declarou, diante da decisão popular, que “lavava as suas mãos”…

Mas não foram somente os políticos e os representantes do Estado que se exacerbaram em suas posturas - poéticas ou acovardadas - em relação ao referendo. No jornal Zero Hora de hoje, 24 de outubro de 2005, o nosso grande cronista Luiz Fernando Veríssimo adotou a postura questionável de comparar os partidários (e os eleitores) do NÃO aos escravagistas que não queriam a abolição da escravatura no final do século XIX e aos populares cariocas que atacaram Osvaldo Cruz e seus vacinadores na revolta da primeira década do século XX. Em outras palavras, Veríssimo diz que os brasileiros são, a partir da vitória do NÃO, também culpados pelos crimes que vierem a acontecer…

Questiono muito essa postura que coloca os antagonistas de nossas idéias no lado do mal, e todos aqueles que são partidários de nossa filosofia de vida como o bem absoluto. Isso rescende aos escândalos mais recentes de nossa política nacional quando, por terem acontecido no âmbito de certo partido, o Caixa Dois em campanhas políticas passou a ser considerado um erro e não mais um crime por parte de muitos políticos que antes combatiam com fervor a corrupção em seus discursos; rescende às palavras de Marilena Chauí, filósofa intimamente ligada ao mesmo partido dos desmandos e mensalões, a dizer que “ainda não tinha conseguido formar um juízo de valor a partir do que via na imprensa” sobre toda a história do esquema de corrupção na cúpula do Poder Executivo. Mas, há que se lembrar, tudo isso aconteceu do nosso lado e, na lógica das esquerdas tupiniquins, se ocorreu com os nossos é porque é justificável, válido, certo, por uma boa causa…

A última tolice a que gostaria de me reportar em relação ao referendo foi a posição de um de nossos mais radicais partidos de esquerda, o PSTU - exacerbado ao ponto de ser oposição ao primeiro governo de um partido de esquerda no posto mais alto da Nação -, o qual se posicionou a favor, pasmem, do NÃO, segundo se pode verificar nos inúmeros cartazes espalhados em algumas capitais. Em seus dizeres, o tal partido dizia ser contra a proibição do comércio legal de armas porque a medida deixaria “as armas nas mãos apenas das polícias e dos bandidos”, o que, para eles, significa dizer que o povo - perdão, eles sempre usam “os trabalhadores” para se referir ao povo - estaria à mercê “do crime organizado internacional e dos interesses da burguesia repressora”, uma postura que só pode ser compreendida ao lembrarmos que se trata de um partido que defende a luta armada como forma de ascenção ao poder - e com a proibição da venda legal de armas deve ter se sentido ameaçada em seus sonhos de congregar os brasileiros às armas na luta contra o imperialismo, à ALCA, ao FMI e ao que mais estiver na moda no momento do protesto…

Depois do referendo, continuamos com a Lei do Desarmamento em vigor, uma lei já bastante restritiva à compra e porte de armas legais, torcendo para que os governos consigam cumprir ao menos sua parte neste imaginário pacto firmado entre eleitores e políticos no dia de ontem - desarmar os bandidos e garantir que sejam resolvidos os problemas que realmente são o cerne da questão da Segurança Pública no Brasil: a desigualdade social, o desprezo à educação pública, o descaso com o crescimento populacional desordenado e cruel, o uso da máquina estatal em benefício de tão poucos.

Homenagens à democracia, feitas em bronze e expostas em praças públicas, terão mais valor que este referendo de duzentos e cinqüenta milhões de reais caso o povo brasileiro não receba em troca de seu voto um pouco mais de respeito de nossa classe política. Como o bronze em forma de estátua e exposto ao vento, o referendo tornar-se-á metal vazio por dentro se não houver por ele mais que um respeito obtuso por seu alto custo.

Posted by Frizero at 16:01:18
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