Friday, October 21, 2005

Mundos Desorbitados

“O trabalho, em um dado momento, adquire uma fala própria e foge de qualquer controle por parte do artista.” (Artur Lescher, artista plástico e filósofo)

Ontem à noite, em meio a uma longa viagem pelo interior do Rio Grande do Sul, despejei-me cansado em meu quarto de hotel e pus-me a visitar descompromissadamente a programação da televisão aberta, em busca de alguma diversão despretensiosa.  Chamou-me a atenção um programa que se iniciava na rede pública de televisão chamado O Mundo da Arte, que naquele dia propunha, sob o título Arte e Matéria, traçar um paralelo entre a produção artística de dois artistas plásticos brasileiros contemporâneos, Artur Lescher e Flávia Ribeiro. (…) Confesso que tenho buscado dar uma chance à arte contemporânea para que ela me cative, de algum modo, mas sou um escravo da beleza e do sentido - coisas que os contemporâneos parecem abominar.  (LEIA O TEXTO COMPLETO ABAIXO)

“O trabalho, em um dado momento, adquire uma fala própria e foge de qualquer controle por parte do artista.” (Artur Lescher, artista plástico e filósofo)

Ontem à noite, em meio a uma longa viagem pelo interior do Rio Grande do Sul, despejei-me cansado em meu quarto de hotel e pus-me a visitar descompromissadamente a programação da televisão aberta, em busca de alguma diversão despretensiosa.  Chamou-me a atenção um programa que se iniciava na rede pública de televisão chamado O Mundo da Arte, que naquele dia propunha, sob o título Arte e Matéria, traçar um paralelo entre a produção artística de dois artistas plásticos brasileiros contemporâneos, Artur Lescher e Flávia Ribeiro.  Os dois são conceituadíssimos artistas, sempre incluídos em exposições internacionais e mostras importantes como a Bienal de São Paulo e, como sou um eterno interessado pela arte em todas as suas expressões - ainda que, confesso, um tanto desconfiado quando esta vem junto ao tal rótulo da contemporaneidade -, interessei-me de pronto pelo programa e deixei que ele me conduzisse pela proposta dos dois artistas.

O trabalho de Lescher era forjado em cálculos matemáticos e na procura por materiais novos e inusitados.  Parafina e pano, ferro e mercúrio, metal e areia prensada, a inovação do uso de matérias-primas como estas eram o início do processo criativo do artista, segundo o próprio.  Ele declarou que abomina a utilidade das coisas e que sua arte vai justamente de encontro a qualquer noção de aplicabilidade - o programa mostrou suas investigações (perdoe-me o jargão tão próprio da arte contemporânea, também o questiono eu) sobre a figura da ponte, refletida em inúmeros objetos construídos em madeira que lembravam pontes pêncil, mas que não serviriam para ligar nada a coisa alguma, o que era visto como positivo pelo artista.  Segundo Lescher, os materiais é que definem o trabalho artístico - mostrou uma luneta curva feita de areia prensada com gás carbônico, formando uma espécie de tubulação sem nenhuma elaboração maior sobre isso, um cone de ferro sobre o qual despejara mercúrio líquido, uma roda de madeira ligada a um eixo do mesmo material e que se apoiava em um pequeno cilindro de alumínio, formas lembrando casas unidas entre si e milimetricamente calculadas para formar uma espécie de cruz de formas fechadas e sem aberturas que pudessem sugerir realmente habitações… Enfim, o material ordena-lhe o trabalho que surgirá - e o ápice de tal conceito para o filósofo-artista é uma caixa vasada de madeira dentro da qual ele colocou um bloco metálico que depois seria banhado por um ácido potente que iria carcomer o metal eternamente, por meio de reações químicas entre a peça e o composto.  Para o artista, o ácido proporcionará uma mutação eterna no trabalho que leva a reflexões sobre a permanente alteração do mundo e sobre a inconstância da memória.  O curioso é que o artista declara-se um confesso desconhecedor das técnicas necessárias para a execução de seus trabalhos, contando, para tal, com a ajuda imprescindível de bons marceneiros e metalúrgicos.

Flávia Ribeiro, por sua vez, dedica-se à gravação quase que totalmente; mas, fugindo do tradicional processo de gravação, ela forra chapas de ferro com folhas de alumínio e sobre estas faz riscos circulares com instrumentos estranhos como pedras recolhidas nas ruas e ferramentas de uso odontológico.  Os desenhos serão, depois, submetidos à ação de ácidos que preparam a chapa para a fase final da gravura.  Ah, sim, com esse ferramental, ela desenha (?) o que chama de mundos desorbitados - na minha reles concepção de admirador leigo das artes, uns círculos disformes que poderiam ser desenhados por qualquer um de nós…   Mas, enfim, o trabalho de Flávia Ribeiro é sua forma de repensar o tempo e a memória - nas palavras da própria artista.  Como Artur Lescher, ela também sente o trabalho artístico escapar-lhe do controle, ao declarar que o resultado de seu trabalho é sempre inimaginável quando ela começa a trabalhar suas peças.  Em outra vertente de seu trabalho, com o que nas artes é chamado de monotipia, ela espalha pigmentos em uma superfície sobre a qual deposita uma folha de papel e, por sobre a folha de papel, faz circular bolas de todos os tipos que costuma fazer em seus momentos criativos - limões secos, bolinhas de papel, emaranhados de galhos e folhas, novelos feitos com seus próprios cabelos… O resultado da monotipia, uma vez mais, é inesperado, inimaginável

Confesso que tenho buscado dar uma chance à arte contemporânea para que ela me cative, de algum modo, mas sou um escravo da beleza e do sentido - coisas que os contemporâneos parecem abominar.  Artur Lescher, por exemplo, reclama que o mundo atual é vítima de um certo exagero de ações construtivas, seja lá o que isso quer dizer.  Mas é difícil conciliar o conceito de arte que tenho comigo, e que deve ser compartilhado ainda com muitos, de tais processos criativos nos quais o artista se declara sem domínio algum sobre o resultado final do trabalho, ou mesmo desconhecedor das técnicas necessárias para transpor suas idéias artísticas do papel para o mundo das concretudes…  Será esta a diferença entre artista e artesão? 

Posted by Frizero at 17:49:03 | Permalink | Comments (1) »