Humor involuntário
O Referendo sobre o Comércio Legal de Armas de Fogo está despertando um interesse e um posicionamento aberto dos meios de comunicação que é, no mínimo, digno de suspeição. (…)Um outro efeito interessante dessa disputa pela opinião dos eleitores tem sido o humor involuntário que as reportagens e colocações estampadas nos jornais têm trazido. (LEIA O TEXTO COMPLETO ABAIXO)
O Referendo sobre o Comércio Legal de Armas de Fogo está despertando um interesse e um posicionamento aberto dos meios de comunicação que é, no mínimo, digno de suspeição. Em outros países, bem sei, é comum que os jornais e revistas tomem posições claras sobre esta ou aquela questão - o que chamamos de visão editorial, mas tomo a liberdade de questionar os interesses por trás do declarado apoio ao NÃO por parte da Revista Veja e ao SIM por parte de todo o grupo Globo, no qual se incluem a Rede Globo de Televisão e a Revista Época
Um outro efeito interessante dessa disputa pela opinião dos eleitores tem sido o humor involuntário que as reportagens e colocações estampadas nos jornais têm trazido. Hoje, por exemplo, o jornal Zero Hora, de Porto Alegre, publica as declarações de vinte e três detentos, homens e mulheres, sobre o referendo do dia 23 de outubro de 2005. Além do português quase castiço no qual os tais presos se expressam, há pérolas de incogruência como o condenado por roubo a mão armada que se diz “contra o desarmamento (pois) como podem tirar a defesa do povo?“. Para este apenado, ” tem armação por trás dessa proposta, e sei do que falo, porque eu entrava na casa dos outros de arma na mão“. É divertido ler também o traficante que se diz contra o desarmamento porque “não é porque estou aqui enjaulado que vou querer que alguém me pegue desprevenido na rua” e que filosofa, afirmando que “o que mata é a cabeça, não a arma“. A reportagem (?) cita ainda uma condenada por homicídio que diz ser “contra as armas (…) nunca tive, apesar de me acusarem de matar meu ex-marido“, uma traficante que diz que “tem gente que precisa de arma para trabalhar” e um outro condenado por tráfico que diz que “O Estado não defende a população, logo a população deve se armar“. E durma-se com um barulho desses!
O triste de tudo isso é que não é difícil imaginar alguém lendo esta matéria no jornal e reproduzindo seu conteúdo para os amigos, dizendo algo como ” estão vendo? Até os bandidos são contra/a favor do desarmamento…“, sem qualquer senso crítico sobre o que está exposto nos jornais de hoje. Lembro-me de Monteiro Lobato, que preconizava que “um país se faz com homens e livros“, um aforismo duro de ser recordado em tempos nos quais sabemos que a maioria da população brasileira é composta de analfabetos funcionais, ou seja, os que sabem ler mas não compreendem o que lêem.
Quem sabe não fazemos um referendo para decidir sobre a obrigatoriedade do comércio de livors?