Que não sejam em vão
Já fui questionado - e, por vezes, a mim mesmo me pergunto - qual a valia de escrever estes registros quase diários do que vejo no cotidiano de nossas vidas sob meu pobre prisma de escritor menor, bissexto e amador, com tão pouco a dizer diante de tantas outras pessoas que sabem mais e pensam de forma tão mais translúcida que eu… Consegui consolo nessas palavras de um poeta grego chamado Konstantinos Kaváfis:
“Tenho observado com freqüência a pouca atenção que as pessoas dão às palavras. Explico-me. Um homem simples (com simples não quero dizer parvo, e sim não-eminente) tem uma opinião, critica uma instituição ou crença geral; sabendo que a maioria das pessoas não pensa assim, cala-se, na suposição de que não vale a pena falar, pois o que pudesse dizer não mudaria coisa alguma. Trata-se de um erro grave. Eu ajo de outro modo. Por exemplo, sou contra a pena de morte. Sempre que me aparece uma oportunidade, manifesto-me a respeito, não porque ache que, com isso, o Estado a vá abolir, mas porque estou convencido de que assim contribuo para o triunfo das minhas idéias. Pouco me importa que ninguém concorde comigo. O que eu disse não foi em pura perda. Talvez alguém repita minhas palavras e elas cheguem a ouvidos que as ouçam e as perfilhem. Quem sabe se futuramente algum daqueles que ora discordam de mim não se vai lembrar, numa ocasião propícia, daquilo que eu disse e convencer-se ou pelo menos sentir abalada sua opinião em contrário. O mesmo vale para diversas outras questões sociais, das que exigem ação. Reconheço que sou tímido e não sei agir. Por isso limito-me a falar. Não acho, porém, que minhas palavras sejam em vão. Outro agirá, mas essas palavras - de mim, o tímido, - terão facilitado a ação e limpado o terreno”.
(in Reflexões sobre Poesia e Ética, tradução de José Paulo Paes)
Kaváfis (1863-1933) nasceu e morreu em Alexandria, mas em berço grego e tendo esta língua como sua forma mais emotiva de expressão, a ponto de considerar-se grego também. Para ganhar a vida, foi, como eu sou hoje, funcionário público - no seu caso, do Ministério da Irrigação do então Governo Egípcio, o qual estava à época sob a dominação do Império Britânico - e, como eu, cria ser a literatura seu “pendor natural”… Ele dedicava-se à função burocrática como uma forma que lhe “custava caro (…) para manter os seus pequenos luxos”, uma profissão em que, segundo ele, “gastava em pura perda horas preciosas do seu dia, às quais cumpria acrescentar as horas de desencorajamento e fadiga que se lhes seguiam”. Posso imaginar o que era a burocracia de uma colônia britânica naqueles anos difíceis de entreguerras, e a isso atribuo a diferença entre a desesperança que Kaváfis registrou em seus escritos e a nesga de esperança e utilidade que eu procuro manter em meu labor diário (claro que as coisas para mim são bem mais fáceis: ser burocrata com dois computadores à disposição - e um conectado à Internet - é bem mais suave que o que deve ter passado meu antecessor Kaváfis - qualquer um devia ter uma tendência à depressão sendo burocrata naqueles tempos…imagino). Como eu, o poeta grego quase nada publicou: Kaváfis, em vida, teve editados apenas duas coletâneas pequenas, de quatorze e vinte poemas, além de textos esparsos que no futuro viriam a se tornar uma antologia e dariam a ele o prestígio literário reconhecido pelos gregos, que com ele compartilhavam o idioma e a herança helenística.
Para mim, de sua vida solitária e desencantada, fica mesmo a lição de que a palavra pode e deve servir como um meio de redenção; por isso escrevo aqui essas idéias que vou pensando e tecendo, ao ler algo em um jornal ou a passar pelas ruas de Porto Alegre, ao conversar com amigos ou a ouvir as vozes das pessoas nos lugares por onde passo - na esperança de que a forma com que percebo o mundo possa, de algum modo, colaborar para a mudança de tantas incongruências que criamos e perenizamos com o nosso silêncio tímido e nossa desesperança acomodada. Talvez eu não tenha muito a dizer - mas, quem sabe, o pouco que digo sirva, mais além, a uma boa causa. Que não sejam em vão minhas palavras…é o que espero.