Ciranda de todos nós

“Ciranda que vai
Ciranda que vem
Roda na ciranda
que é pro mal virar pro bem”
(Ciranda do Mundo, canção de Eduardo Krieger)
Vejam a ciranda que roda agora, no Brasil, macabra e assustadora, mas que parece não motivar os que têm a força da lei em suas mãos para desvendar talvez o caso mais sinistro já ocorrido nos bastidores de nossa república de faz-de-conta: Na primeira volta desta ciranda, é seqüestrado Celso Daniel, em 18 de janeiro de 2002; sendo ele prefeito de Santo André, uma cidade importante da região do chamado ABCDO paulista, historicamente dominada pelo Partido dos Trabalhadores, a notícia comove a cúpula do partido, que se apressa em pedir a ação da polícia para desvendar o paradeiro de um de seus políticos mais importantes em São Paulo;(…)Na última e apavorante volta da ciranda, morre, em 12 de outubro de 2005, Carlos Delmonte Printes, vítima de causas naturais, pouco depois de ser convocado a depor na Comissão Parlamentar de Inquérito que investiga a máfia dos bingos, na qual o Partido dos Trabalhadores está envolvido até o pescoço. (…)
O que me parece mais urgente em toda essa trama quase inverossímil é que se descubra, nesta ciranda funesta, repleta de coincidências macabras, quem são o mestre, o contra-mestre e os músicos, que ficam no centro da roda, tocando a zabumba para os cirandeiros dançarem conforme sua música. (…)Os cirandeiros somos todos nós, os que ouvem a música, giram, giram, ficam tontos em meio à balbúrdia, mas que também têm o poder de fazer parar a roda, cessar a cantoria, retomar o rumo certo da brincadeira. (LEIA O TEXTO COMPLETO ABAIXO)

“Ciranda que vai
Ciranda que vem
Roda na ciranda
que é pro mal virar pro bem”
(Ciranda do Mundo, canção de Eduardo Krieger)
Vejam a ciranda que roda agora, no Brasil, macabra e assustadora, mas que parece não motivar os que têm a força da lei em suas mãos para desvendar talvez o caso mais sinistro já ocorrido nos bastidores de nossa república de faz-de-conta:
Na primeira volta desta ciranda, é seqüestrado Celso Daniel, em 18 de janeiro de 2002; sendo ele prefeito de Santo André, uma cidade importante da região do chamado ABCDO paulista, historicamente dominada pelo Partido dos Trabalhadores, a notícia comove a cúpula do partido, que se apressa em pedir a ação da polícia para desvendar o paradeiro de um de seus políticos mais importantes em São Paulo;
Na segunda volta da ciranda, Celso Daniel é encontrado morto em uma estrada vicinal e deserta, nos entornos da Grande São Paulo; a Polícia Civil daquele estado apressa-se em fornecer laudos atestando que a morte do prefeito fora um crime comum, ou seja, sem motivações políticas; grande parte da pressa parece ter surgido da pressão exercida sobre a corporação por Luiz Eduardo Greenhalgh, que agia como advogado do Partido dos Trabalhadores no caso;
Na terceira volta, o Ministério Público resolve prosseguir nas investigações, pouco convencido do caráter de “crime comum” impresso pelas primeiras notícias divulgadas; os irmãos de Celso Daniel denunciam que o prefeito havia falado para eles, pouco antes de sua morte, de um grande esquema de extorsão na Prefeitura de Santo André, envolvendo os donos das empresas de transporte urbano da cidade, cujo resultado, ou seja, o dinheiro exigido dos empresários era desviado para o caixa de campanha do Partido dos Trabalhadores, por intermédio de Gilberto Carvalho e José Dirceu;
Na quarta volta da ciranda, surgem testemunhas do caso: o garçom Antônio Palácio de Oliveira, que serviu a última refeição de Celso Daniel, no restaurante Rubayat, em São Paulo, na qual o prefeito estava acompanhado de Sérgio Gomes da Silva (vulgarmente conhecido como Sombra), o qual viria depois ser apontado como um dos suspeitos da morte do prefeito; e Iran Moraes Redua, o primeiro a reconhecer o corpo de Celso Daniel; outras testemunhas secundárias revelam que no sábado, dia seguinte ao seqüestro de Celso Daniel, bandidos entraram em seu apartamento para roubar, mas só subtraíram seu laptop, cuja existência, aliás, é contestada pelos advogados do Partido dos Trabalhadores;
Na quinta volta, a Polícia Civil de São Paulo prende Dionízio Severo, acusado de fazer parte da quadrilha que teria seqüestrado Celso Daniel; ele foi taxativo em afirmar que o crime fora “comum“, ou seja, eles estavam atrás de dinheiro, apenas, dinheiro de um resgate que jamais foi cobrado de nenhum dos familiares de Celso Daniel;
Na sexta volta da ciranda, morre o garçom, em fevereiro de 2003, após dois homens derrubarem a moto em que ele voltava para casa, causando um acidente fatal; testemunhas de suas relações dizem que o garçom recebera R$60.000,00 dias antes de morrer, por razões que ele se recusou a contar aos amigos;
Na sétima volta da ciranda, o médico-legista Carlos Delmonte Printes, que participou da perícia do corpo de Celso Daniel, declara que o prefeito fora torturado antes de morrer, o que depunha contra a versão apressada da polícia de que aquele era um “crime comum”;
Na oitava volta da ciranda macabra, morrem a única testemunha da morte do garçom, com um tiro nas costas, e também Iran Moraes Refua, baleado, Dionízio Severo, esfaqueado, e Sérgio Dias, o homem que teria dado asilo a Severo quando ele fugiu de uma penitenciária, a tiros;
Na nona volta da ciranda, morre, também baleado, Otávio Mercier, o policial civil cuja quebra de sigilo telefônico havia apontado como autor de uma ligação telefônica de meia hora com Severo na véspera do seqüestro do prefeito;
Na décima volta, o caso é trazido à tona depois de três anos pela insistência dos irmãos do prefeito assassinado, que revelam que Gilberto Carvalho confessara o esquema de extorsão para um dos irmãos Daniel pouco antes da morte de Celso e também por conta das declarações do legista Printes, que reafirma sua convicção de que o prefeito de Santo André fora torturado antes de morrer;
Na décima-primeira volta, Luiz Inácio Lula da Silva é eleito pelo voto popular, alçando ao Palácio do Planalto o deputado José Dirceu como Chefe da Casa Civil e Gilberto Carvalho, o mesmo que confessara à família Daniel, em segredo, todo o esquema de extorsão da Prefeitura de Santo André, como chefe do gabinete do Presidente da República;
Na última e apavorante volta da ciranda, morre, em 12 de outubro de 2005, Carlos Delmonte Printes, vítima de causas naturais, pouco depois de ser convocado a depor na Comissão Parlamentar de Inquérito que investiga a máfia dos bingos, na qual o Partido dos Trabalhadores está envolvido até o pescoço; o filho do perito falecido apressa-se em declarar à imprensa que encontrara o pai desfalecido junto à cama que este mantinha em seu escritório, de madrugada, “aparentando estar morto” (estas foram as palavras textuais do jovem, que deu entrevista à televisão com uma calma inesperada para quem acabara de perder o pai, mas sem mostrar o rosto às câmeras); o policial convocado para conduzir as investigações deste falecimento é rápido em concluir que “a princípio, trata-se de uma morte por causas naturais” e que o morto havia contraído “uma gripe nos Estados Unidos, que evoluiu para uma pneumonia que evoluiu para uma miocardia”; curiosamente, a primeira notícia que chegou à imprensa sobre a morte do perito é a de que ele havia sido encontrado em seu escritório, morto, com uma bala alojada próxima da nuca - uma versão desmentida pela polícia logo em seguida; mas ainda hoje, no decorrer do dia, os investigadores descartam a hipótese de morte natural e declaram estar estudando a possibilidade de envenenamento ou suicídio…
O que me parece mais urgente em toda essa trama quase inverossímil é que se descubra, nesta ciranda funesta, repleta de coincidências macabras, quem são o mestre, o contra-mestre e os músicos, que ficam no centro da roda, tocando a zabumba para os cirandeiros dançarem conforme sua música. Parece que a eles não interessa muito que a poeira repouse e as coisas fiquem às claras. Melhor o escurão da noite, preenchido pela poeira dos passos ritmados ao som de sua ciranda que esconde uma podridão insuportável, sobretudo por rescender a poder (quiçá o poder de dominar a república e suas estruturas), dinheiro e vingança. Afinal, quem continuaria a dançar a sua música se for efetivamente revelada a ligação hedionda entre o crime comum da morte de Celso Daniel e as artimanhas de financiamento da campanha presidencial de Luiz Inácio Lula da Silva?
Os cirandeiros? Ah, os cirandeiros somos todos nós, os que ouvem a música, giram, giram, ficam tontos em meio à balbúrdia, mas que também têm o poder de fazer parar a roda, cessar a cantoria, retomar o rumo certo da brincadeira.
Ótima sua visão poética sobre está funesta obra política!
Crime comum… rs…
Essa ciranda dá medo de entrar!
ass.: Cidadão andreense