Sunday, October 9, 2005

Pérolas aos poucos

naozzetti“Eu jogo pérolas aos poucos…”
(da canção ‘Pérolas aos Poucos’, de José Miguel Wisnik e Paulo Neves)

O público não vai ao teatro porque o teatro não vai ao público, é uma das máximas que já ouvi nesses anos em que vivo em Porto Alegre, onde consigo acompanhar mais de perto a cena teatral graças à proximidade das boas salas de espetáculo e aos amigos fiéis que compactuam comigo o mesmo amor pelas artes em geral e que são sempre ótimas companhias. Em parte, a idéia acima é verdadeira e remete a uns tantos espetáculos que pude assistir recentemente nesta cidade e que, de tão experimentais e herméticos, mais espantavam o público do teatro que os atraiam a voltar para prestigiar futuras empreitadas daqueles mesmos realizadores. (…) (LEIA O TEXTO COMPLETO ABAIXO)

naozzetti“Eu jogo pérolas aos poucos…”
(da canção ‘Pérolas aos Poucos’, de José Miguel Wisnik e Paulo Neves)

O público não vai ao teatro porque o teatro não vai ao público, é uma das máximas que já ouvi nesses anos em que vivo em Porto Alegre, onde consigo acompanhar mais de perto a cena teatral graças à proximidade das boas salas de espetáculo e aos amigos fiéis que compactuam comigo o mesmo amor pelas artes em geral e que são sempre ótimas companhias. Em parte, a idéia acima é verdadeira e remete a uns tantos espetáculos que pude assistir recentemente nesta cidade e que, de tão experimentais e herméticos, mais espantavam o público do teatro que os atraiam a voltar para prestigiar futuras empreitadas daqueles mesmos realizadores. Não foram poucas as vezes em que senti como se os diretores estivessem preocupados em fazer teatro para outros diretores e acadêmicos, sem a menor preocupação com a audiência, muito menos com a formação de público, de futuras gerações que venham a prestigiar seu trabalho no futuro. Era como se eu e boa parte da platéia estivéssemos invadindo uma festa privativa da classe teatral porto-alegrense e, por snão sermos sócios de tal clube, estávamos alijados de compreender e compartilhar daquele momento…

Mas, como tudo na vida, há o outro lado da moeda.

Penso nos motivos pelos quais, em nosso país - e talvez este seja um fenômeno com reflexos de uma realidade mundial maior -, alguns artistas, em que pese seu inconteste talento, jamais alcançam o apoio e o reconhecimento da mídia e, por conta disso, não conseguem atingir um público maior e levar sua arte às partes mais distantes do Brasil. Tenho em mente os dois espetáculos que tive o privilégio de presenciar nos últimos dias aqui em Porto Alegre: o encontro musical da cantora paulistana Ná Ozzetti e do pianista niteroiense André Mehmari, no Teatro São Pedro, e a apresentação da companhia de dança mineira Grupo Corpo, no Teatro do Sesi.

Ná Ozzetti, cantora premiada e aplaudida pela crítica, é talvez umas das melhores vozes da música brasileira atual. Dona de uma afinação acima de qualquer senão, Ozzetti encantou o público que quase lotava o São Pedro, nosso mais tradicional teatro, na companhia de André Mehmari, um músico criativo e com uma técnica pianística de tal modo perfeita que se poderia até dizer que o espetáculo era, em verdade, uma dupla de solistas em plena harmonia e adequação. O repertório, no qual Ná Ozzetti e André Mehmari recriaram preciosidades musicais, desde “Sabiá“, de Tom Jobim a “Because“, de John Lennon e Paul McCartney, com destaque para a delicada e bela “Pérolas aos poucos“, de José Miguel Wisnik e Paulo Neves - canções nas quais a voz e o piano apossavam-se das palavras e das melodias como se elas tivessem sido escritas especialmente para aquele encontro afortunado, nascido de um convite feito pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul para que os dois artistas apresentassem um concerto de voz e piano em 2004, em Porto Alegre, e que agora é confirmado por uma turnê nacional e o lançamento de um novo álbum, Piano e Voz, fruto desta parceria inusitada porém perfeita.

A sensação foi a mesma ao assistir as coreografias de Rodrigo Pederneiras para o Grupo Corpo. A companhia apresentou aos porto-alegrenses duas de suas mais recentes coreografias: Lecuona (2004), um passeio melodramático, sentimental e exageradamente romântico pelas canções do compositor cubano, cujas letras sobre amor e traição foram fielmente traduzidas pelos movimentos dos casais que se revezaram no palco, em pas de deux que brincavam com as hipérboles amorosas dos versos cantados e envolveram de tal forma a platéia que transformaram esta primeira parte do programa da noite em um final emocionante, com um público entusiasmado ao ponto de saudar os artistas com mais de vinte minutos de aplausos de pé.

Onqotô, a coreografia sobre a música de José Miguel Wisnik e Caetano Veloso que encerrou o espetáculo, era um pouco mais hermética em seu entendimento, em verdade uma discussão bem brasileira sobre temas mais complexos como a origem do homem, o surgimento do universo e a metafísica da vida… Mas, como estamos falando do Grupo Corpo, é bom registrar que tudo isso foi mostrado de forma bastante arrojada, bem humorada e criativa, quer seja no mote adotado pelos compositores - um aforismo do dramaturgo Nelson Rodrigues, que dizia que “o fla-flu começou quarenta minutos antes do nada” -, seja na dinâmica da coreografia e em seu uso do cenário e dos figurinos. A música, misto de palavras repetidas e retorcidas, aliadas à força percussiva dos tambores baianos e da música eletrônica, ainda que não seja música para ser ouvida em outras ocasiões e ambientes, serve perfeitamente à proposta estética de Pederneiras e à linguagem corporal da companhia, compondo um espetáculo único e arrebatador.

Mas, quantos brasileiros terão acesso a esses espetáculos? Há, logicamente, a barreira dos preços dos ingressos - que no caso do concerto de Ná Ozzetti e André Mehmari eram até bastante razoáveis -, mas creio firmemente que o problema maior é a dificuldade de divulgar a arte no Brasil. Nossos meios de comunicação estão em mãos de pessoas para as quais palavras como formação, educação, arte e talento parecem ser meras palavras sem sentido em sua visão mercadológica da vida. E essa maneira de ver o mundo acaba reforçando preconceitos como os que pregam que “o povo não gosta desse tipo de programa” ou “a cultura é para quem tem dinheiro” - sem que jamais se tenha pensado firmemente neste país em formação de público, como vi acontecer em vários países pelos quais tive a sorte de passar.

Esses preconceitos estão minando a produção artística nacional, por um lado, fazendo com que só se consiga produzir arte no Brasil por meio de leis de incentivo fiscal e muita força de vontade. A outra face do preconceito é o crescimento de um mercado informal de música que tem surgido dentro de cada realidade regional, um mercado que consegue hoje se firmar graças aos custos baixos de produção de CD, mas que também só consegue atingir a mídia nacional quando se tornam um fenômeno popular com tamanho sucesso que desperta a cobiça dos senhores da comunicação…

Enquanto essa mentalidade tacanha vai se perpetuando no Brasil, artistas com o talento daqueles nossos gênios da música e da dança seguem jogando suas pérolas aos poucos que podem (e querem) delas desfrutar.

Posted by Frizero at 19:31:58 | Permalink | No Comments »