Moedas macabras
“A crueldade, como qualquer outro vício, não requer qualquer outro motivo senão ela mesma; ela precisa apenas de oportunidade para surgir.”
(George Eliot, pseudônimo de Mary Ann Evans, escritora inglesa, 1819-1880)
Há os que vêem em nosso tempo um recrudescimento da selvageria, da desumanidade e da barbárie. Creio que eles são alarmistas, em sua quase totalidade - se houve mudanças, essas não foram um aumento das atrocidades cometidas pelo homem; foram, isso sim, apenas dos meios e das oportunidades para que a crueldade se manifeste. (…) Refiro-me às notícias estampadas nos jornais de todo mundo, na data de hoje, sobre o novo escândalo envolvendo a torpeza de alguns militares por ocasião da invasão e dominação estadunidense no Afeganistão e no Iraque. Susan Sontag, a escritora norte-americana falecida em 2004, soa-me agora algo profética - ela dizia, falando da posição da mulher na sociedade, que ‘a pornografia, no fim das contas, não diz respeito ao sexo, mas à morte’. Os soldados estadunidenses ajudaram a consolidar esta relação macabra. (LEIA O TEXTO COMPLETO ABAIXO)
“A crueldade, como qualquer outro vício, não requer qualquer outro motivo senão ela mesma; ela precisa apenas de oportunidade para surgir.”
(George Eliot, pseudônimo de Mary Ann Evans, escritora inglesa, 1819-1880)
Há os que vêem em nosso tempo um recrudescimento da selvageria, da desumanidade e da barbárie. Creio que eles são alarmistas, em sua quase totalidade - se houve mudanças, essas não foram um aumento das atrocidades cometidas pelo homem; foram, isso sim, apenas dos meios e das oportunidades para que a crueldade se manifeste.
Refiro-me às notícias estampadas nos jornais de todo mundo, na data de hoje, sobre o novo escândalo envolvendo a torpeza de alguns militares por ocasião da invasão e dominação estadunidense no Afeganistão e no Iraque. O webmaster de um site na Internet especializado em fotos amadoras revelou à imprensa de seu estado natal, a Califórnia, que militares norte-americanos de diversas patentes estariam enviando para ele fotos de pessoas mortas naqueles países como forma de escambo para receberem acesso gratuito ao conteúdo pornográfico do site. Segundo ele, a idéia de tal moeda macabra de pagamento teria surgido por sugestão dele aos próprios militares em missão no Iraque e no Afeganistão, os quais teriam dificuldades para arcar com os custos de acesso às fotos pornográficas amadoras que o webmaster comprava de outros membros do site (que por sua vez enviavam fotos de suas próprias namoradas, esposas, irmãs e amigas nuas ou em atos libidinosos como pagamento pelo acesso).
De início, contou o webmaster,os militares teriam mandado fotos genéricas do conflito, mas em pouco tempo os soldados ávidos por diversão começaram a enviar fotografias de corpos mutilados, carbonizados e decapitados - em alguns casos, com os próprios militares autores das imagens posando ao lado dos cadáveres.A seção ‘Fotos Escabrosas’, que avisava em sua página de entrada para que ‘pessoas que se chocam facilmente’ não acessassem seu conteúdo, passou a ser uma das mais visitadas do site, segundo seu autor. O que mais repugna de toda essa história é a informação de que tais fotos eram acompanhadas de legendas sarcásticas elaboradas pelos próprios responsáveis por seu envio ao webmaster.
O governo estadunidense, como vem agindo durante todo o conflito, recusa-se a admitir o envolvimento de seus militares em tais práticas, dizendo não haver provas suficientes para tal apesar de todo o acervo de fotografias publicadas na Internet. Os comandantes das tropas atualmente em atuação no Iraque foram orientados a aplicar punições administrativas - e não abrir inquéritos criminais - caso sejam indentificados quaisquer militares envolvidos. Alguns jornais já acusam o Exército norte-americano de atenuar o ocorrido por ter a própria instituição exibido imagens de mortos na invasão do Iraque - das quais as mais famosas foram as dos corpos dos filhos de Saddam Hussein.
Mark Twain, o grande escritor estadunidense, acreditava que ‘toda guerra é apenas o assassínio de estranhos contra os quais não sentimos nenhuma animosidade pessoal; estranhos que, em outras circunstâncias, nós ajudaríamos se os encontrássemos em situação difícil, e que nos ajudariam em caso de necessidade’. Não tenho fortes razões para crer que a verdade seja muito distinta disto - ainda que fatos como a prática acima descrita ou os abusos de Abu Ghraib levem-nos a pensar o oposto. Mas suspeito que há um esforço deliberado dos Senhores da Guerra para desumanizar o inimigo. Se pensarmos em todas as situações de conflito bélico que vivemos em nossa história, veremos que o ser humano no campo oposto de batalha deixa de ser visto como humano e passa a ser o inimigo, o invasor, aquele sobre quem se cria, em geral, uma mitologia muito particular na tentativa de dissolver em sua imagem qualquer traço de humanidade. O assassinato é rechaçado em qualquer sociedade humana que se elevou da barbárie - exceto se é promovido pelo Estado, e se sua prática é contra o outro inumano, e isso seja bom o bastante para merecer uma medalha e um título de herói.
O esforço de desumanizar o inimigo, aliado à sensação de impunidade e de poder, faz com que soldados - sejam eles de qualquer nacionalidade - percam os limites morais que os reteriam no convívio de suas comunidades e usem a imagem da morte do outro, estranho e distante, como moeda de troca para a obtenção do direito de ter acesso à pornografia. Que mal há, enfim, em tirar tais fotos e divulgá-las na Internet, já que os mortos ali retratados não têm quem os reclame, quem por eles lute judicialmente, quem por eles chore na frente de seus algozes-fotógrafos? Eis aí uma perfeita oportunidade para que a crueldade surja, e sem maiores remorsos - nem para eles, nem para os que acessaram tal conteúdo e que, certamente, não se sentem nem um pouco responsáveis pela ignomínia que sua curiosidade alimenta e financia.
E Susan Sontag, a escritora norte-americana falecida em 2004, soa-me agora algo profética - ela dizia, falando da posição da mulher na sociedade, que ‘a pornografia, no fim das contas, não diz respeito ao sexo, mas à morte’. Os soldados estadunidenses ajudaram a consolidar esta relação macabra.