Maria Rita, iPods e rancor
(Um dos versos de ‘Ciranda do Mundo’, de Eduardo Krieger,
gravada por Maria Rita em seu álbum ‘Segundo’)
O que leva a crítica brasileira a ser tão raivosa e despropositadamente superficial em suas análises? Em uma busca rápida por respostas, eu diria que ela reflete o que vemos ocorrer hoje em nosso país de leitores bissextos: a falta de uma massa crítica faz com que aceitemos a crítica que não reflete sobre a obra de arte, mas sobre as fofocas que a circundam.
Refiro-me à crítica (?) escrita por Sérgio Martins na edição da revista ‘Veja’ datada de hoje sobre o novo álbum da cantora Maria Rita Mariano. (LEIA O TEXTO COMPLETO ABAIXO)
(Um dos versos de ‘Ciranda do Mundo’, de Eduardo Krieger,
gravada por Maria Rita em seu álbum ‘Segundo’)
O que leva a crítica brasileira a ser tão raivosa e despropositadamente superficial em suas análises? Em uma busca rápida por respostas, eu diria que ela reflete o que vemos ocorrer hoje em nosso país de leitores bissextos: a falta de uma massa crítica faz com que aceitemos a crítica que não reflete sobre a obra de arte, mas sobre as fofocas que a circundam.
Refiro-me à crítica (?) escrita por Sérgio Martins na edição da revista ‘Veja’ datada de hoje sobre o novo álbum da cantora Maria Rita Mariano. Aliás, peço de antemão perdão por chamar o texto de Martins de uma crítica ao novo disco da cantora, pois o dito crítico de música faz apenas uma brevíssima referência ao trabalho de Maria Rita, ao dizer que o CD, ‘aliás, é bem ruim’. O resto do texto, que ocupa dois terços da página 115 da revista, é um desfiar de reclamações de Martins sobre o fato de a gravadora de Maria Rita, a Warner Music, ter enviado ‘a trinta críticos de música de grandes veículos (de comunicação) mini-iPods - tocadores de MP3 cujo preço nas lojas varia entre 600 e 1000 reais’.
Para Sérgio Martins, este fato é suficiente para acusar Maria Rita de, ao contrário de sua mãe, Elis Regina, usar o ‘marketing’ para impulsionar sua carreira. Preciso frisar que a opinião anterior é dele, Martins, e reforçada com frases como ‘a companhia vende a artista como uma espécie de reencarnação da mãe - e ela se prestou a esse papel, emulando o estilo de Elis’, ou ainda ‘a filha de Elis tá iPodendo’.
O que me irrita como reles leitor é que o autointitulado crítico de música de ‘Veja’ perde o seu (e o nosso) tempo destilando acusações sobre os próprios colegas de atividade, os críticos de música de outros jornais e revistas (algumas até da mesma editora de ‘Veja’), de que eles não ‘ousaram fazer comentários negativos sobre o disco’ (escrevendo o que ele chamou de ‘resenhas chapa-branca’) porque receberam de presente o tal mini-iPod da gravadora, que justificou a entrega do aparelho pelo fato de que o álbum não ficaria pronto a tempo de ser distribuído aos críticos com a antecedência por eles solicitada. Claro que, em nenhum momento, parece ter passado pela cabeça tortuosa do crítico de ‘Veja’ que alguns de seus colegas tenham efetivamente gostado do novo álbum de Maria Rita - uma avaliação, aliás, compartilhada por mim e por muitas pessoas de minhas relações que também aprovaram o novo trabalho da cantora. Parece ser mais fácil acreditar que opiniões contrárias à nossa (no caso, à sua opinião de que, para Maria Rita, ‘o marketing é tudo’) só podem ser explicadas por conta de uma possível compra da opinião alheia. E uma compra de consciências bem barata, em tempos como os nossos, de ‘mensalão’ e ‘mensalinho’…
Dizem que, por vezes, costumamos ver na atitude alheia algo que nós mesmos faríamos naquela determinada situação. Mas acusar Sérgio Martins usando este argumento seria agir da mesma forma rancorosa que ele. E não escrevo aqui no papel de advogado de defesa de ninguém, nem me arvoro a crer que minha opinião de fã seja a verdade absoluta.
Ouvi com curiosidade o primeiro álbum de Maria Rita porque sempre fui um grande fã do trabalho de Elis Regina, confesso. Mas essa ligação entre mãe e filha dissipou-se para mim após ter assistido a dois espetáculos de Maria Rita em Porto Alegre. Ela tem luz própria e talento musical suficiente para levar adiante uma carreira própria, e não me pareceu em nenhum momento que a semelhança vocal entre mãe e filha (cuja mente tortuosa do crítico de ‘Veja’ não consegue atribuir a questões genéticas…) fosse algo forçado ou deliberado. Pelo contrário, recordo-me do empenho de Maria Rita em fugir da comparação e em reconhecer a superioridade da mãe em matéria de perfeccionismo vocal. Em seu segundo álbum, Maria Rita tem coragem bastante de fugir ao caminho fácil das regravações, compondo um repertório quase todo de canções inéditas e compositores desconhecidos do grande público. Confesso que o álbum não é empolgante como o primeiro, mas ainda assim é uma raridade no cenário atual, já que foi gravado ‘en ensemble’, sem grandes pirotecnias de estúdio, em um tempo no qual as gravadoras parecem investir apenas em música para fazer pular as massas… Enfim, há canções delicadas e interpretações brilhantes neste novo álbum, como ‘Casa Pré-fabricada’, de Marcelo ‘Los Hermanos’ Camelo, ‘Mal Intento’, do oscarizado Jorge Drexler (e cantada em perfeito espanhol) e a ótima regravação de ‘A Minha Alma’, do grupo carioca O Rappa, sem falar na primeira canção de trabalho, a cativante ‘Caminho das Águas’.
Mas, que idéia a minha de discutir música, quando o crítico de ‘Veja’ acha que todo o sucesso de Maria Rita (quatro prêmios Grammy Latino incluídos) é pura jogada de ‘marketing’! Fico apenas me perguntando se o mesmo Sérgio Martins não acusaria a Warner Music de avareza se a companhia tivesse solicitado aos críticos de música para devolver o aparelhinho depois da audição. Ou será que o rancor todo de Martins deve-se ao fato de ele não ter recebido o mini-iPod dele?
o amor é cego, e o fanatismo mais ainda… Como você não percebe que a carreira toda dessa cantora é um produto de marketing? Que a única coisa que tem de verdadeiro mesmo nessa história é ela ser filha da Elis Regina? Quem “se descobre” cantora aos 24 anos? Sinto informar, mas a Maria Rita não apita nada, não é ela que escolhe se tem ou não guitarrista, não é ela quem faz arranjo, se ela tiver sorte deve dar um ou dois pitacos no repertório… não é a musa que você está pensando. É só a filha da Elis Regina. Ela toca com uma banda ótima e seus albuns soam bem porque tem muito dinheiro investido por mentes empreendedoras. Mas falta aquela gana de cantar, falta verdade no trabalho dela, não basta fazer caretas (como vi ela fazer na Virada Cultural): interpretação é uma coisa que vem de dentro. Tem muita cantora foda de verdade por aí, com conteúdo de verdade, batalhando de verdade… mas o povo acredita em tudo que mostra nos outdoors, nada como uns milhões de reais investidos em marketing. Essa do iPod foi só pra desmascarar, e ainda tem gente que duvida… Você ainda cita o Grammy como se não fosse uma cerimônia “jabá” como é o Oscar, a Fórmula 1, até no Campeonato Brasileiro o juíz é comprado.. O trabalho final é bom de escutar, mas é extremamente anti-ético. Já ao vivo é um tanto patético, pela imagem que fazem dela e a presença de palco que ela (não) tem. Imagino o que a própria Elis, que viveu de forma intensa e verdadeira, falava o que pensava, falaria disso tudo.
-thais