Sim ou Não?
Estamos em plena campanha para o referendo sobre o comércio legal de armas de fogo no Brasil e confesso que, ao assistir as peças publicitárias televisivas de ambas as correntes, as frentes parlamentares pelo SIM e pelo NÃO à proibição, estou cada vez mais inclinado a votar no TALVEZ… (LEIA O TEXTO COMPLETO ABAIXO)
Estamos em plena campanha para o referendo sobre o comércio legal de armas de fogo no Brasil e confesso que, ao assistir as peças publicitárias televisivas de ambas as correntes, as frentes parlamentares pelo SIM e pelo NÃO à proibição, estou cada vez mais inclinado a votar no TALVEZ…
Antes de mais nada, assustam-me os custos desse referendo para os cofres públicos - algo em torno de R$ 450 milhões para sua realização, mais uns R$ 150 milhões de gastos com propaganda -, um dinheiro que poderia ser melhor empregado em outras tantas frentes da ação do Estado que necessitam de verba (como, por exemplo, a própria Segurança Pública, filão maior explorado em todo esse auê do referendo). Mas, além desse pequeno escândalo com os cofres públicos - no qual suspeito que há ainda o interesse dos parlamentares de ambos os lados em aparecer em cadeia nacional de televisão menos de um ano antes da próxima eleição -, há uma questão que me inquieta mais - ambos os lados estão a conduzir pessimamente suas campanhas de esclarecimento à população sobre o teor do que será decidido por ela em 23 de outubro de 2005
O que se vê, em verdade, são ambos os lados usando de um sentimentalismo que beira a torpeza, expondo para o país as histórias de vida de famílias que perderam seus entes queridos por mortes com armas de fogo, seja pelas mãos da criminalidade ou do cidadão comum armado, defendendo um ou outro lado da questão. São histórias pontuais, que apelam para o lado emocional da população e tentam comover com relatos cada vez mais chocantes, mas que são pontuais e em nada auxiliam o público a ter uma exata noção do que é a questão do desarmamento e do comércio legal de armas no país.
Ouvindo as celebridades da campanha pelo SIM, tem-se a impressão de que, se tal posição sair vitoriosa do referendo, o Brasil tornar-se-á, de um dia para o outro, em um lugar melhor de se viver porque os brasileiros serão proibidos de comprar armamento leve em comércios legalizados e com registro. Pelo lado do NÃO, a mensagem soa como se a proibição do comércio legal de armas fosse lançar o país em uma noite eterna, na qual todos os delinqüentes do mundo passariam a atacar o cidadão comum em praça pública, sem maiores ações do Estado em combate a tal estado de caos.
O SIM acusa subliminarmente o NÃO de ser a favor da violência, da morte, da barbárie; o NÃO, por sua vez, consegue até vislumbrar na defesa pelo SIM uma ação conspiratória de grupos ligados ao governo e que pretendem, com essa medida, tomar o poder em um futuro próximo sem que a população civil tenha meios, entenda-se armas, para se defender contra o ‘invasor tirânico’.
Creio que há diversas outras questões que cercam a tal escolha do referendo e que precisam ser analisadas com cuidado à hora da votação. Há um controle efetivo de nossas fronteiras, do comércio ilegal de armas praticado em estabelecimentos ali nas cidades fronteiriças do Uruguai, Argentina e Paraguai? Há ações concretas do Estado para a proteção de seus cidadãos no sentido de desarmar quem quer que seja, bandido ou cidadão comum? A proibição do comércio legal de armas refletirá na diminuição das armas no Brasil? Em que proporção isso ocorrerá? Qual é o maior problema do combate à criminalidade nas grandes cidades brasileiras da atualidade: as armas leves ou as armas de maior poder de destruição - fuzis, lança-granadas e afins? Ter uma arma em casa é garantia de segurança? Há medidas legais - que funcionem - para limitar o acesso às armas leves apenas para os que efetivamente sabem usá-las ou delas necessitam para exercício de suas funções? Qual a porcentagem de armas adquiridas legalmente em poder dos criminosos? Quantas vidas são ceifadas no Brasil por crimes passionais, acidentes ou homicídios por razões fúteis (não me agrada esse termo: é como se alguma razão para tal crime fosse válida…) cometidos com armas de fogo em mãos de civis? Há profissões, e quais seriam elas, nas quais o profissional precisa possuir uma arma de fogo fora de seu local de trabalho e horário de expediente (refiro-me ao assassinato do segurança de um supermercado em Sobral, Ceará, pelas mãos de um juiz)?
Penso que há muito que refletir antes de decidir por esta ou aquela posição, e o tempo é escasso, questão de dias, apenas. Lamento apenas que ambos os lados da questão estejam usando argumentos tão fracos, piegas mesmo, aos moldes do que estamos cansados de assistir nas campanhas políticas por cargos eletivos a que somos submetidos de dois em dois anos neste país.
Tudo o que sei é que não há como ignorar o referendo de 23 de outubro de 2005. Ao menos para mim, que serei mesário, será impossível mesmo…