Monday, October 3, 2005

Pacto de Sangue

blood

Não quero a poesia que não seja
sangria desatada.
Cada poema é, em si,
sufocado grito de dor.
Uns suaves, outros em angústia,
mas cada poema sempre
como uma gota do sangue
mais íntimo do poeta.
A cada poema se esvai
alguma coisa de nós.

Os homens precisam de sangue
não que lhes limpe os pecados
mas que lhes salte aos olhos
com os seus rubros recados
os pecados que hão de vir.

Todo poeta é, em si,
um estranho e involuntário
doador universal.

Da obra

(1996)
(Robertson Frizero Barros)

Posted by Frizero at 16:30:10 | Permalink | Comments (2)

Fazer o quê? Dizer o quê?

“Tudo depende da relação que se consegue estabelecer a partir da relação que se consegue estabelecer com a relação que se consegue estabelecer.”
(Carlos Gallo, marchand e diretor da Galeria Gestual, de Porto Alegre - Brasil, no artigo ‘Não Vi e Já Gostei’, publicado em Zero Hora de 01 de outubro de 2005)

Tenho plena convicção de que o movimento estético mais importante do século XXI será a retomada do sentido e do significado na arte. Faço tal declaração diante da notícia sempre alvissareira da abertura de mais uma Bienal do Mercosul, a quinta edição do evento que transforma por alguns dias Porto Alegre em capital da arte contemporânea dessa ficção política que é o Mercado Comum do Sul. (LEIA O TEXTO COMPLETO ABAIXO)

“Tudo depende da relação que se consegue estabelecer a partir da relação que se consegue estabelecer com a relação que se consegue estabelecer.”
(Carlos Gallo, marchand e diretor da Galeria Gestual, de Porto Alegre - Brasil, no artigo ‘Não Vi e Já Gostei’, publicado em Zero Hora de 01 de outubro de 2005)

Tenho plena convicção de que o movimento estético mais importante do século XXI será a retomada do sentido e do significado na arte. Faço tal declaração diante da notícia sempre alvissareira da abertura de mais uma Bienal do Mercosul, a quinta edição do evento que transforma por alguns dias Porto Alegre em capital da arte contemporânea dessa ficção política que é o Mercado Comum do Sul.

A Bienal, em todas as suas edições, tem sido um repositório do que de mais moderno se produz em termos de arte nos países do Mercosul e em alguns países latino-americanos representados por artistas convidados. E o que se vê, com raríssimas exceções, é uma total falta de sentido na arte que se produz nos dias de hoje. Chamem-me de ignorante quem assim desejar, mas sinto falta de sentir emoções diante de uma obra de arte diferentes de um ‘humpf!’ de indiferença.

Não consigo aceitar uma arte que se propõe totalmente subjetiva ao ponto de não conseguir atingir o público - e, sim, o artista sempre produz para um público, e quem disser algo contrário a isso é tolo ou hipócrita (alguém conhece um escritor que tenha escrito com o sonho de manter sua obra trancada em uma gaveta a sete chaves? Ou um pintor que cubra suas obras com lona negra para que ninguém as veja nunca depois de terminadas?). A arte sempre teve como razão de ser a transcendência, a elevação do homem além de sua vida e de seu mundo, mas parece que o que chamam hoje de arte não cumpre mais tal papel. Para muitos que se enfileiram junto aos artistas contemporâneos, a arte deve chocar e retorcer a realidade - o que tem levado muitos deles a uma certa frustração, já que as experimentações foram tantas que o público raramente se choca hoje em dia, a não ser quando os ‘modernosos’ artistas apelam para o escatológico e para o sadomasoquista, o que tem acontecido ultimamente, para nossa tristeza, com relativa freqüência (não faz muito tempo, no último ‘Porto Alegre Em Cena’, os porto-alegrenses tiveram a oportunidade de ver um ator declamando textos ‘contemporâneos’ enquanto recebia choques elétricos da platéia… seja lá o que isso queria significar).

Há que se desconfiar de uma arte que precisa de memorial descritivo para ser compreendida ou aceita pela curadoria de uma mostra qualquer, de um artista que precisa apresentar currículo com passagens em outras mostras semelhantes para ter sua arte (muitas vezes subvencionada com dinheiro público) exposta ao povo. Por vezes, parece-me, a mim que sou um reles membro do público leigo, que a arte atual é planejada com o intuito de fazer com que nós, platéia, nos sintamos menos inteligentes ou integrados àquele ‘mundinho hermético’ dos autointitulados artistas.

Em termos de arte brasileira contemporânea, o mais tolo parece ser o fato de que estamos destruindo cânones da arte que sequer foram aqui construídos, num eterno ‘macaquear’ do que se faz em termos de arte em outros países nos quais, lá sim, faz algum sentido a ‘desconstrução’ e a ‘rebeldia’. Mas aqui, em um país no qual ‘pulamos’ etapas através de uma Semana de Arte Moderna que, ainda que repleta de méritos, veio ‘importada’ do estrangeiro?

Enquanto aquele movimento estético pelo qual eu e outras pessoas, quero crer, esperam com avidez - o da retomada do sentido na arte - não chega, vou certamente visitar a 5ª Bienal do Mercosul com olhos abertos e coração esperançoso de que, um dia, uma mostra como esta ainda irá me surpreender positivamente. Por enquanto, só tenho visto o discurso vazio ecoado pelas palavras do autor do artigo com que iniciei estas linhas de descrédito (e do qual furtei também o título deste texto) e que, em seu parágrafo final, ainda coloca que ‘nada vale mais a pena do que uma experiência estética’, seja lá o que isso quer dizer.

Posted by Frizero at 14:01:08 | Permalink | No Comments »