Cultura & Elegância
Foi-se o tempo em que ser culto e elegante custava caro. Atualmente, isto custa apenas R$ 53,00, o preço sugerido às livrarias para um volume que pretende ser uma espécie de manual do refinamento para os que desejam “aprimorar sua cultura geral em uma sociedade cada vez mais competitiva“. Parece-me que Bouvard e Pecuchet nunca foram tão atuais. Aos moldes do Dicionário das Idéias Prontas organizado por aqueles personagens do romance homônimo de Gustave Flaubert, o livro Cultura & Elegância pretende mostrar aos leitores o que é importante conhecer em diversas áreas da chamada intelectualidade chique para se transitar bem nos mais importantes ambientes sociais. Para tal, seu organizador, o historiador Jaime Pinsky, convidou críticos de arte e especialistas diversos em suas áreas para escreverem textos nos quais dão dicas sobre como alguém pode construir-se uma pessoa culta e elegante. (…) O chato de ser culto e elegante é essa necessidade de se manter atualizado… (LEIA O TEXTO COMPLETO ABAIXO)
Foi-se o tempo em que ser culto e elegante custava caro. Atualmente, isto custa apenas R$ 53,00, o preço sugerido às livrarias para um volume que pretende ser uma espécie de manual do refinamento para os que desejam “aprimorar sua cultura geral em uma sociedade cada vez mais competitiva“.
Parece-me que Bouvard e Pecuchet nunca foram tão atuais. Aos moldes do Dicionário das Idéias Prontas organizado por aqueles personagens do romance homônimo de Gustave Flaubert, o livro Cultura & Elegância pretende mostrar aos leitores o que é importante conhecer em diversas áreas da chamada intelectualidade chique para se transitar bem nos mais importantes ambientes sociais. Para tal, seu organizador, o historiador Jaime Pinsky, convidou críticos de arte e especialistas diversos em suas áreas para escreverem textos nos quais dão dicas sobre como alguém pode construir-se uma pessoa culta e elegante.
A idéia, por si só, já é bastante temerária - pois cultura, a meu ver, é uma construção de uma vida inteira, um processo no qual os mais cultos parecem ser aqueles que têm a melhor noção do quanto ainda lhes falta aprender e compreender, e elegância é algo que é composto por um misto de aptidões pessoais no trato com as pessoas, educação bem conduzida na infância e na juventude e oportunidades de aprendizado oferecidas pela vida cotidiana, o que tem uma relação direta com os ambientes que se pode freqüentar e com a vida que, enfim, se pôde levar dentro de suas condições econômicas e sociais. Mas o organizador colocou-se à prova nessa empreitada e o resultado é um livro desigual e questionável. Em um dos artigos, um maestro sugere o repertório ideal para que se conheça a música erudita, mas se posiciona claramente ao lado dos barrocos e dos românticos, citando alguns compositores e obras cujo conhecimento seriam sinal claro de “refinamento musical”. O escritor encarregado de indicar as obras literárias mais importantes, limitou-se a listar alguns romances mais importantes e deixou a cargo do leitor, se for de seu interesse, buscar outros nomes na crônica, no conto e na poesia - aparentemente, não são modalidades literárias que rendam muitos dividendos na matemática do status… O resumista de cinema não quis ousar e baseou-se em uma lista elaborada por um instituto de cinema europeu para recomendar alguns dos filmes mais reconhecidos do século XX como “filmografia básica” para os candidatos a pessoas cultas. Outro co-autor da obra, encarregado de listar os livros não-ficcionais, deixa para o leitor uma recomendação preciosa: “encontre nos livros tão elogiados por tantas pessoas cultas o que pode tê-las atraído“. Tal conselho é um alento, pois ao menos incentiva o candidato a culto a ler obras inteiras em seu texto original, e não pelas interpretações e citações de terceiros.
O organizador do livro aventurou-se a recomendar os museus essenciais - e o que haveria de essencial em suas coleções para uma pessoa culta e elegante conhecer. A idéia de seu texto, aliás, é permitir ao visitante que encurte seu passeio pelos museus recomendados, pois já que “certamente ninguém tem condições de conhecer um museu inteiro em apenas um dia”, pelo menos pode passar os olhos no que mais importa por meio de “um roteiro previamente montado”, o qual ele inclui em seu artigo. O autor cita, certamente, os museus mais famosos, como o Louvre, em Paris, mas ele ou o redator da matéria que me chegou às mãos por um jornal local resolveu colocar São Petesburgo às margens do Rio Tejo, ao recomendar os leitores a visitar o “Hermitage, em Portugal”.
Creio que também é um bom sinal de cultura saber onde ficam localizados, ao certo, os mais importantes museus. Mas eu posso estar errado, reconheço, pois talvez isso passe despercebido nos altos círculos sociais aos quais o leitor pensado para o Cultura & Elegância pretende atingir. Afinal, lê-se muito pouco no Brasil, conhece-se menos ainda, e talvez as pessoas que freqüentam aquelas camadas da sociedade também tenham esmerilhado sua aura de cultura lendo as duas primeiras edições do mesmo manual de finesse que chega agora às livrarias em uma nova tiragem. Como Bouvard e Pecuchet, basta verbalizar o que se espera que uma pessoa culta diga, e o convívio social nas altas rodas estará a salvo e garantido até o lançamento de um novo manual de cultura e elegância.
O chato de ser culto e elegante é essa necessidade de se manter atualizado…
