Monday, October 31, 2005

Cultura & Elegância

Foi-se o tempo em que ser culto e elegante custava caro. Atualmente, isto custa apenas R$ 53,00, o preço sugerido às livrarias para um volume que pretende ser uma espécie de manual do refinamento para os que desejam “aprimorar sua cultura geral em uma sociedade cada vez mais competitiva“. Parece-me que Bouvard e Pecuchet nunca foram tão atuais. Aos moldes do Dicionário das Idéias Prontas organizado por aqueles personagens do romance homônimo de Gustave Flaubert, o livro Cultura & Elegância pretende mostrar aos leitores o que é importante conhecer em diversas áreas da chamada intelectualidade chique para se transitar bem nos mais importantes ambientes sociais.  Para tal, seu organizador, o historiador Jaime Pinsky, convidou críticos de arte e especialistas diversos em suas áreas para escreverem textos nos quais dão dicas sobre como alguém pode construir-se uma pessoa culta e elegante. (…) O chato de ser culto e elegante é essa necessidade de se manter atualizado… (LEIA O TEXTO COMPLETO ABAIXO)

Foi-se o tempo em que ser culto e elegante custava caro. Atualmente, isto custa apenas R$ 53,00, o preço sugerido às livrarias para um volume que pretende ser uma espécie de manual do refinamento para os que desejam “aprimorar sua cultura geral em uma sociedade cada vez mais competitiva“.

Parece-me que Bouvard e Pecuchet nunca foram tão atuais. Aos moldes do Dicionário das Idéias Prontas organizado por aqueles personagens do romance homônimo de Gustave Flaubert, o livro Cultura & Elegância pretende mostrar aos leitores o que é importante conhecer em diversas áreas da chamada intelectualidade chique para se transitar bem nos mais importantes ambientes sociais. Para tal, seu organizador, o historiador Jaime Pinsky, convidou críticos de arte e especialistas diversos em suas áreas para escreverem textos nos quais dão dicas sobre como alguém pode construir-se uma pessoa culta e elegante.

A idéia, por si só, já é bastante temerária - pois cultura, a meu ver, é uma construção de uma vida inteira, um processo no qual os mais cultos parecem ser aqueles que têm a melhor noção do quanto ainda lhes falta aprender e compreender, e elegância é algo que é composto por um misto de aptidões pessoais no trato com as pessoas, educação bem conduzida na infância e na juventude e oportunidades de aprendizado oferecidas pela vida cotidiana, o que tem uma relação direta com os ambientes que se pode freqüentar e com a vida que, enfim, se pôde levar dentro de suas condições econômicas e sociais. Mas o organizador colocou-se à prova nessa empreitada e o resultado é um livro desigual e questionável. Em um dos artigos, um maestro sugere o repertório ideal para que se conheça a música erudita, mas se posiciona claramente ao lado dos barrocos e dos românticos, citando alguns compositores e obras cujo conhecimento seriam sinal claro de “refinamento musical”. O escritor encarregado de indicar as obras literárias mais importantes, limitou-se a listar alguns romances mais importantes e deixou a cargo do leitor, se for de seu interesse, buscar outros nomes na crônica, no conto e na poesia - aparentemente, não são modalidades literárias que rendam muitos dividendos na matemática do status… O resumista de cinema não quis ousar e baseou-se em uma lista elaborada por um instituto de cinema europeu para recomendar alguns dos filmes mais reconhecidos do século XX como “filmografia básica” para os candidatos a pessoas cultas. Outro co-autor da obra, encarregado de listar os livros não-ficcionais, deixa para o leitor uma recomendação preciosa: “encontre nos livros tão elogiados por tantas pessoas cultas o que pode tê-las atraído“. Tal conselho é um alento, pois ao menos incentiva o candidato a culto a ler obras inteiras em seu texto original, e não pelas interpretações e citações de terceiros.

O organizador do livro aventurou-se a recomendar os museus essenciais - e o que haveria de essencial em suas coleções para uma pessoa culta e elegante conhecer. A idéia de seu texto, aliás, é permitir ao visitante que encurte seu passeio pelos museus recomendados, pois já que “certamente ninguém tem condições de conhecer um museu inteiro em apenas um dia”, pelo menos pode passar os olhos no que mais importa por meio de “um roteiro previamente montado”, o qual ele inclui em seu artigo. O autor cita, certamente, os museus mais famosos, como o Louvre, em Paris, mas ele ou o redator da matéria que me chegou às mãos por um jornal local resolveu colocar São Petesburgo às margens do Rio Tejo, ao recomendar os leitores a visitar o “Hermitage, em Portugal”.

Creio que também é um bom sinal de cultura saber onde ficam localizados, ao certo, os mais importantes museus. Mas eu posso estar errado, reconheço, pois talvez isso passe despercebido nos altos círculos sociais aos quais o leitor pensado para o Cultura & Elegância pretende atingir. Afinal, lê-se muito pouco no Brasil, conhece-se menos ainda, e talvez as pessoas que freqüentam aquelas camadas da sociedade também tenham esmerilhado sua aura de cultura lendo as duas primeiras edições do mesmo manual de finesse que chega agora às livrarias em uma nova tiragem. Como Bouvard e Pecuchet, basta verbalizar o que se espera que uma pessoa culta diga, e o convívio social nas altas rodas estará a salvo e garantido até o lançamento de um novo manual de cultura e elegância.

O chato de ser culto e elegante é essa necessidade de se manter atualizado…

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Friday, October 28, 2005

Destino macabro

Leio, horrorizado, nos jornais de hoje, que o corpo de uma mulher de quarenta e dois anos, a qual aparentemente cometeu suicídio, ficou por quatorze dias pendurada em uma árvore em frente à sua casa, em uma pequena cidade no estado norte-americano de Delaware, sem que nenhum de seus vizinhos comunicasse à polícia ou tomasse alguma providência. (…) O incidente - se é que podemos chamar tal ocorrência assim - faz-me questionar qual será o destino de nossa sociedade contemporânea, tão distorcida pelo culto ao individualismo e o afastamento dos conceitos mais básicos de solidariedade.  (LEIA O TEXTO COMPLETO ABAIXO)

Leio, horrorizado, nos jornais de hoje, que o corpo de uma mulher de quarenta e dois anos, a qual aparentemente cometeu suicídio, ficou por quatorze dias pendurada em uma árvore em frente à sua casa, em uma pequena cidade no estado norte-americano de Delaware, sem que nenhum de seus vizinhos comunicasse à polícia ou tomasse alguma providência.  Diz a notícia que os vizinhos pensaram, por todo este tempo, que se tratava de um macabro enfeite de Halloween, a festa do Dia das Bruxas, comemorada anualmente naquele país no dia 31 de outubro.

O incidente - se é que podemos chamar tal ocorrência assim - faz-me questionar qual será o destino de nossa sociedade contemporânea, tão distorcida pelo culto ao individualismo e o afastamento dos conceitos mais básicos de solidariedade.  Creio ser difícil imaginar que em uma cidade pequena como esta que foi palco de tamanha bizarrice, as pessoas sejam distantes ao ponto de não reconhecerem uma vizinha morta a balouçar pelo pescoço em uma corda amarrada a uma árvore em plena via pública.  Mas o pensamento atual é o de mind your own business - algo como “cuide da sua própria vida” -, e o pouco que conheço dos Estados Unidos de minha passagem por lá me diz que naquela terra esta máxima é seguida como uma regra absoluta.

Mas os exageros acontecem.  E aqui vemos um deles: uma mulher que se mata e sua falta não é sentida, seu rosto não é reconhecido, seu corpo é tomado por um enfeite qualquer de uma festa que agora me parece bem menos macabra que este desprezo coletivo pelo semelhante. 

Que sentimentos terão motivado esta mulher de apenas quarenta e dois anos a atentar contra a própria vida?  Não é difícil imaginar que um dos motivos tenha sido a solidão.

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Thursday, October 27, 2005

Javanês

“A convite da redação, escrevi no Jornal do Comércio, um artigo de quatro colunas sobre a literatura javanesa antiga e moderna…
- Como, se tu nada sabias? - interrompeu-me o atento Castro.
- Muito simplesmente: primeiramente, descrevi a ilha de Java, com o auxílio de dicionários e umas poucas de geografia, e depois citei a mais não poder.
- E nunca duvidaram? - perguntou-me ainda o meu amigo.
- Nunca.”
(Lima Barreto [1881-1922] in O Homem que Sabia Javanês, do livro ‘Clara dos Anjos e Outras Histórias’)

Parece-me que a crise que observamos em algumas redações de jornais aqui do Rio Grande do Sul é antiga no Brasil, coisa que Lima Barreto já mencionava em tom de opereta antes ainda de nosso primeiro centenário como país (razoavelmente) independente.

Não são poucas as vezes que encontramos, hoje, ao ler as páginas dos diários matinais - foi-se o tempo em que havia jonais impressos nas diferentes frações do dia, coisas da modernidade e da velocidade das informações -, desde informações inverídicas ou erroneamente reportadas até erros crassos de uso da língua portuguesa, sem falar no expediente fácil das citações sem fim, do costurar de clichês e do desfiar de idéias filosóficas de livro de auto-ajuda que repousam entre os nossos cronistas - um meio no qual ainda se pode encontrar bons redatores, ou o qual ao menos se esperava não ser atingido pelo FEBEAPÁ (Festival de Besteira que Assola o País) imaginado por Stanislaw Ponte Preta… (…) (LEIA TEXTO COMPLETO ABAIXO)

“A convite da redação, escrevi no Jornal do Comércio, um artigo de quatro colunas sobre a literatura javanesa antiga e moderna…
- Como, se tu nada sabias? - interrompeu-me o atento Castro.
- Muito simplesmente: primeiramente, descrevi a ilha de Java, com o auxílio de dicionários e umas poucas de geografia, e depois citei a mais não poder.
- E nunca duvidaram? - perguntou-me ainda o meu amigo.
- Nunca.”
(Lima Barreto [1881-1922] in O Homem que Sabia Javanês, do livro ‘Clara dos Anjos e Outras Histórias’)

Parece-me que a crise que observamos em algumas redações de jornais aqui do Rio Grande do Sul é antiga no Brasil, coisa que Lima Barreto já mencionava em tom de opereta antes ainda de nosso primeiro centenário como país (razoavelmente) independente.

Não são poucas as vezes que encontramos, hoje, ao ler as páginas dos diários matinais - foi-se o tempo em que havia jonais impressos nas diferentes frações do dia, coisas da modernidade e da velocidade das informações -, desde informações inverídicas ou erroneamente reportadas até erros crassos de uso da língua portuguesa, sem falar no expediente fácil das citações sem fim, do costurar de clichês e do desfiar de idéias filosóficas de livro de auto-ajuda que repousam entre os nossos cronistas - um meio no qual ainda se pode encontrar bons redatores, ou o qual ao menos se esperava não ser atingido pelo FEBEAPÁ (Festival de Besteira que Assola o País) imaginado por Stanislaw Ponte Preta…

Não quero ser injusto, tampouco desejo que estas palavras soem com um tom de revolta que não quero, em verdade, aqui imprimir. Meu tom é mais de lamento, ou de um muxoxo triste, de quem atesta diariamente a falta que está fazendo a leitura aos nossos estudantes de Comunicação Social.

E falo na condição humilde de quem lê, diariamente, todos os jornais de publicação diária em Porto Alegre, por força de ofício. Não tenho conhecimento técnico do Jornalismo e talvez minha situação de leigo faça com que eu cometa injustiça, mas coloco aqui minhas idéias em busca de pensarmos juntos onde está o cerne do problema

Como escrevi há pouco, atualmente os jornais estão à disposição sempre pelas manhãs, e por uma razão simples há esta diferença do passado: hoje, a informação chega à população por dezenas de outras formas mais rápidas (e vívidas) que o jornal - falo dos endereços mais sérios da rede mundial de computadores, das rádios que evoluiram com o tempo e da televisão que ainda se preocupa em informar. Esperava-se que com tal situação o jornal se tornasse - por ser palavra escrita e impressa, e por isso difícil de consertar depois do estrago feito (diferentemente da Internet) - uma espécie de resumo contextualizado e repensado das notícias do dia anterior. O jornal impresso oferece ao jornalista a bênção do relativo prazo para a reflexão antes da publicação, enquanto o mundo cibernético pede urgência e oportunidade de divulgação. Mas o que vemos é um certo empobrecimento dos jornais e, o que é pior, uma aproximação perigosa com o tipo de redação que a era do e-mail insiste em implementar em nossas cabeças…

Há jornais no Rio Grande do Sul que trabalham, quase que exclusivamente, com o material que lhes enviam as agências de notícia das quais são assinantes - e isso não é nenhuma informação confidencial extraída dos lábios de algum funcionário: basta observar os rodapés dos textos, as referências a outras fontes… Mas não há mal absoluto nisso, ou melhor, não haveria se ao menos o editor-chefe ou alguém por ele incumbido lesse antes o jornal e verificasse as possíveis anomalias. Não é raro nesses jornais encontrar notícias repetidas, ou seja, a mesma notícia é publicada mais de uma vez no mesmo jornal, em seções distintas. Também é algo comum encontrar a mesma notícia impressa em dois jornais e escrita com a mesmíssima redação, o que nos leva a crer que não há qualquer trabalho de depuração da notícia que chega de tais fontes, as agências de notícias, que são consideradas pelos jornais como emanadores da verdade dignos de que suas informações sejam estampadas nos jornais sem nenhuma reflexão, sem nenhum conceito editorial a ela incluído. E não falo de deturpar as notícias com seu viés ideológico, mas depurá-la com o cruzamento com outras informações, de outras fontes. Escrever notícia não é só construir um infográfico vistoso, colocar uns dados de enciclopédia em uma caixa de texto e sair citando e citando e citando…há que pensar no que se escreve, e trazer ao leitor o novo em meio ao que ele já sabe e acompanha no cotidiano.

Duro mesmo é constatar os erros terríveis de tradução, frutos da pressa mesma em fechar a edição do jornal ou do descuido das redações em entregar a tarefa de transpor o texto para o português nas mãos de quem não tem formação específica para isso. Um exemplo? Há alguns meses um jornal de Porto Alegre noticiou isto, em letras graúdas: Enxame de crocodilos invade cidade da Flórida (sic!). Confesso que pesquisei antes de reproduzir esta manchete, pois fiquei receoso de estar cometendo uma injustiça. Mas não, não estava - enxame é mesmo coisa de abelhas e vespas, jamais de crocodilos… Pasmem: cerca de uma semana depois, um outro grande jornal da cidade publicou um ataque de um enxame de caranguejos em uma praia do Nordeste… Será que isso é fruto da tal competição predatória, fruto da globalização, de que tanto reclamam uns revolucionários tardios aqui de Porto Alegre? Se os jornais insistirem nessa disputa de erros crassos, quem sairá perdendo mesmo somos nós, leitores. Oxalá isso não se torne de praxe…

Justiça seja feita: há ainda no Rio Grande do Sul algumas tentativas de jornalismo investigativo sérias, artigos de autoridades competentes em sua área de atuação, idéias originais de colunistas preocupados com a informação, gente cujos textos eu espero, algo ansioso, todas as semanas - mas são poucos, e estes bons exemplos correm o risco de estar a se perder no panorama das notícias mal redigidas e mal pesquisadas, dos textos de entretenimento que nada acrescentam à vida do leitor, das críticas tendenciosas e modernosas dos críticos que tudo crêem saber e nada sabem, das colunas de auto-ajuda que mais desserviço prestam ao imbroglio geral. Mas tudo isso vem agora emoldurado por belas e enormes fotografias coloridas, e nossa geração de brasileiros que não lêem, cada vez mais acostumados a voltar seus olhos para as imagens e não para o sentido das coisas, acha tudo normal, talvez até melhor que antes, às vezes até bonito - olhando o desfile de notícias sem conclusão e fotos sem razão de ser com a mesma admiração silenciosa que o Barão de Jacuecanga ouvia as aulas de javanês forjado, mas retumbante, do professor Castelo, o homem que sabia javanês…

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Wednesday, October 26, 2005

Jogo duro

“Enquanto Martinha falava, Vô Chico apanhou um livro na estante e abriu-o numa página onde se viam fotografias de vários tipos de macaco. Tinha macaco de pêlo cinza, vermelho, preto, amarelo, branco, marrom. Tinha macaco de nariz comprido, de nariz achatado, de rabo comprido, sem rabo…
- Olhem aqui estes macacos. A maioria não tem os lábios fininhos? Que eu saiba, a maioria dos negros tem lábios grossos, não tem? E o que vocês me dizem do pêlo? Eu nunca vi preto peludo; agora, branco, tem uns que parece que estão com casaco, de tanto pêlo que eles têm!
- Eu tenho um tio que é assim - exclamou Laura. - Quando ele tira a camisa, a gente brinca com ele, diz que parece macaco. Ele sai correndo atrás da gente, andando que nem macaco. É um barato! - Ficou pensativa um momento e continuou: - Mas acho que quando chamam um negro de macaco é pra ofender, não para brincar.

(trecho de Jogo Duro, livro infanto-juvenil de Lia Zatz
- Belo Horizonte: Editora Dimensão, 1996)

Parece significativo que, em uma mesma semana, dois fatos noticiados por nossos jornais remetam a uma reflexão que todo brasileiro deveria fazer sem medo de se surpreender com suas próprias convicções. Falo, primeiramente, do ocorrido em um jogo de futebol no Rio Grande do Sul, onde um juiz de futebol anotou na súmula da partida entre o Juventude, de Caxias do Sul, e Internacional, de Porto Alegre, o fato de a torcida do time caxiense ter tratado de forma racista um dos jogadores mais importantes do time adversário. (…) Suas ofensas colocam-nos no mesmo patamar daqueles que vêem o negro, ainda que lá nos recônditos caminhos de seus inconscientes, como incapazes, desonestos ou indolentes, reproduzindo idéias infundadas e preconcebidas oriundas lá do tempo de seus tataravós. Será que essas pessoas ignoram o que foi a escravidão no Brasil? (…) E este fato lamentável, que corrobora com a visão que o brasileiro médio tem do povo gaúcho como um povo racista, aconteceu na mesma semana em que nos Estados Unidos da América faleceu Rosa Parks. (LEIA O TEXTO COMPLETO ABAIXO)

“Enquanto Martinha falava, Vô Chico apanhou um livro na estante e abriu-o numa página onde se viam fotografias de vários tipos de macaco. Tinha macaco de pêlo cinza, vermelho, preto, amarelo, branco, marrom. Tinha macaco de nariz comprido, de nariz achatado, de rabo comprido, sem rabo…
- Olhem aqui estes macacos. A maioria não tem os lábios fininhos? Que eu saiba, a maioria dos negros tem lábios grossos, não tem? E o que vocês me dizem do pêlo? Eu nunca vi preto peludo; agora, branco, tem uns que parece que estão com casaco, de tanto pêlo que eles têm!
- Eu tenho um tio que é assim - exclamou Laura. - Quando ele tira a camisa, a gente brinca com ele, diz que parece macaco. Ele sai correndo atrás da gente, andando que nem macaco. É um barato! - Ficou pensativa um momento e continuou: - Mas acho que quando chamam um negro de macaco é pra ofender, não para brincar.

(trecho de Jogo Duro, livro infanto-juvenil de Lia Zatz
- Belo Horizonte: Editora Dimensão, 1996)

Parece significativo que, em uma mesma semana, dois fatos noticiados por nossos jornais remetam a uma reflexão que todo brasileiro deveria fazer sem medo de se surpreender com suas próprias convicções. Falo, primeiramente, do ocorrido em um jogo de futebol no Rio Grande do Sul, onde um juiz de futebol anotou na súmula da partida entre o Juventude, de Caxias do Sul, e Internacional, de Porto Alegre, o fato de a torcida do time caxiense ter tratado de forma racista um dos jogadores mais importantes do time adversário. Cada vez que o jogador Tinga, negro, tocava na bola, os torcedores de Caxias do Sul, cidade famosa por ser um dos berços da colonização italiana no estado, enchiam os estádios aos gritos, chamando o atacante de “macaco”.

Parece-me que os torcedores daquela cidade tão progressista estancaram no tempo - ou quiseram ser modernos ao imitar o ato de racismo já sofrido por outros brasileiros em estádios europeus. Suas ofensas colocam-nos no mesmo patamar daqueles que vêem o negro, ainda que lá nos recônditos caminhos de seus inconscientes, como incapazes, desonestos ou indolentes, reproduzindo idéias infundadas e preconcebidas oriundas lá do tempo de seus tataravós. Será que essas pessoas ignoram o que foi a escravidão no Brasil? É possível que alguém no Brasil dos dias de hoje não consiga associar o fato de a maioria de nossa população mais carente ser descendente de africanos com o descaso com que foi promulgada a abolição da escravatura - sem nenhuma preocupação com a inclusão dos recém-libertos à sociedade brasileira da época? Alguém não consegue ainda ver que não há mais espaço em um Brasil que se pretende país do futuro para posições tão ignóbeis como as idéias racistas?

Parece que parte da torcida do Juventude é capaz de ignorar tudo isso. Eles devem se sentir alheios à realidade nacional, porque talvez entre eles haja mesmo quem não tenha antepassados negros, índios ou portugueses - como descendentes de italianos, talvez eles se sintam superiores demais, europeus demais para aceitar um negro que leve o time adversário à vitória. Esquecem-se, porém, da origem humilde dos primeiros colonos italianos, da situação difícil que os fez sair da Europa e vir para o Brasil - e aqui vale lembrar que não houve imigração negra para o Brasil, mas sim um transporte forçado de seres humanos tratados como reles animais para o trabalho mais pesado do campo e das cidades.  Será que aqueles italianos que aqui chegaram teriam construído cidades progressistas como Caxias do Sul se aqui tivessem chegado sob os grilhões da escravidão, sob o estigma de pertencer a um continente tão sofrido como o africano?

E este fato lamentável, que corrobora com a visão que o brasileiro médio tem do povo gaúcho como um povo racista, aconteceu na mesma semana em que nos Estados Unidos da América faleceu Rosa Parks. Talvez o nome desta mulher negra não seja familiar a muitos, mas o que ela desencadeou com seu gesto de indignação teve reflexos na sociedade como um todo: ela foi a mulher que, em 1955, recusou-se a ceder seu lugar em um ônibus para um passageiro branco na cidade de Montgomery, Alabama, como era de praxe ser exigido dos negros naquela região. Por sua recusa, Rosa Parks foi presa e obrigada a pagar uma multa - e a reação da comunidade negra local foi o estopim para o surgimento do movimento dos direitos civis naquele país. Por se negar a ceder seu espaço por conta da cor de sua pele, Parks mudou a vida de milhares de pessoas que viviam como cidadãos de segunda classe em sua própria terra - e pelo critério único da quantidade de melanina em suas epidermes…

Os macacos são seres irracionais, que agridem quando se sentem ameaçados e gritam quando precisam defender seu espaço. Pensando um pouco nisso, quem serão os verdadeiros macacos nessa história de Juventude versus Internacional?

Fazer humor com o preconceito racial já não tem mais graça alguma.

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E isto é arte!

“Eu sou o objeto!”
(Marina Abramovic, artista sérvia)

Leio hoje, 26 de outubro, nas páginas de Zero Hora, o nosso arremedo de jornal em formato tablóide aqui de Porto Alegre, mais uma matéria sobre a Bienal do Mercosul, evento que está a acontecer na cidade. E mais uma vez sou surpreendido por minha total ignorância sobre o que seja a arte.(…) (LEIA O TEXTO COMPLETO ABAIXO)

“Eu sou o objeto!”
(Marina Abramovic, artista sérvia)

Leio hoje, 26 de outubro, nas páginas de Zero Hora, o nosso arremedo de jornal em formato tablóide aqui de Porto Alegre, mais uma matéria sobre a Bienal do Mercosul, evento que está a acontecer na cidade. E mais uma vez sou surpreendido por minha total ignorância sobre o que seja a arte.

O jornal ensina-me que Marina Abramovic é uma iugoslava, de ascendência sérvia, que projetou-se internacionalmente como artista a partir de suas performances, segundo ZH, de “caráter radical, em que por mais de uma vez colocou em risco a própria vida”. E isto é arte!

Em Porto Alegre, sua criatividade comparece por meio de uma instalação em vídeo na qual cinco projeções simultâneas mostram um coral de crianças de uma escola chamada “Nações Unidas” regido pela artista vestida de esqueleto, um rosto de menina, um rosto de menino, a artista segurando uma bobina de Tesla e uma imagem das crianças deitadas no chão formando uma estrela de cinco pontas. E isto é arte, mas se você (como eu) não considerou assim, é porque não percebeu a ironia do trabalho: o vídeo foi rodado no Museu de Tesla, uma homenagem ao engenheiro, também sérvio, que deu nome à bobina supracitada, o qual era um pacifista e que morreu na miséria, nos Estados Unidos da América; a escola das crianças chama-se “Nações Unidas”; o esqueleto lembra a morte; a estrela lembra a morte; o negro lembra a morte… Entendeu agora? Isso mesmo: a obra é uma contestação contra a indiferença da Organização das Nações Unidas e dos Estados Unidos da América diante da Guerra dos Bálcãs!

Outras obras (?) da artista merecem ser citadas: em uma delas, ela se colocava ao lado de uma mesa repleta de objetos e segurava um cartaz que dizia algo como “Há 72 objetos sobre a mesa que podem ser usados em mim conforme desejarem. Eu sou o objeto.” - e dentre os utensílios e substâncias havia mel, batom, azeite, tinta, um machado (sic!) e um revólver… E isto é arte!

Quer mais do mesmo? A artista e seu companheiro, também artista, promoveram uma performance em que ela sustentava um arco com o peso do corpo enquanto ele direcionava uma flecha para o coração da mulher… Ah, e nem nos momentos mais íntimos da vida Marina Abramovic perde a chance de brindar o público com suas performances: quando se separaram, ela e o companheiro artista posicionaram-se cada um em uma extremidade da Muralha da China e foram caminhando de encontro um ao outro. Ao se cruzarem no meio da jornada, disseram um para o outro apenas uma palavra: Adeus.

E isto é arte, senhores.

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Tuesday, October 25, 2005

Passatempo

Por vezes, tenho a impressão de que não há ninguém no mundo que detenha, verdadeiramente, ainda que em algum rincão escondido da alma, a resposta absoluta sobre o sentido da vida. Meus olhos de poeta extemporâneo - que ainda busca rimas e, inconscientemente, conta sílabas métricas - teimam em ver poesia nas coisas simples da vida, em acreditar que há um sentido maior em tudo o que passamos neste mundo… Mas, e se tudo o que construímos foi um mero passatempo para que se ocupasse a mente enquanto não encontramos o real motivo de nossas existências? (LEIA O TEXTO COMPLETO ABAIXO)

Por vezes, tenho a impressão de que não há ninguém no mundo que detenha, verdadeiramente, ainda que em algum rincão escondido da alma, a resposta absoluta sobre o sentido da vida. Meus olhos de poeta extemporâneo - que ainda busca rimas e, inconscientemente, conta sílabas métricas - teimam em ver poesia nas coisas simples da vida, em acreditar que há um sentido maior em tudo o que passamos neste mundo… Mas, e se tudo o que construímos foi um mero passatempo para que se ocupasse a mente enquanto não encontramos o real motivo de nossas existências? Vejo o homem realizar tanto, construir e destruir, discutir os mais diversos temas (como eu tento fazer nesses meus escritos, ainda que de forma tão empobrecida) com o ardor da paixão e a fúria dos coléricos, amar e desamar, viver e morrer por uma causa, por outras pessoas, por dinheiro e por sucesso…mas e se tudo isso for apenas um enorme, imensurável jogo de palavras?

Por via das dúvidas, creio que o melhor é ir vivendo como se tudo fosse, verdadeiramente, um passatempo - uma diversão que não merece a nossa ira, que não merece a nossa entrega total nem o nosso descaso -, um jogo que tem lá suas regras a serem seguidas. Acatá-las é permitir que a diversão prossiga; romper com as regras é ajudar a desmoronar o arranjo das coisas.

Talvez a mais importante das regras seja respeitar a vez dos outros jogadores.

Sim, há lutas valorosas e pelas quais a entrega e o vigor pelo estabelecimento de novos regramentos são também parte do jogo. A mais bela dessas lutas é a de aceitar e promover a entrada de outros jogadores a todos os recursos da partida, em igual medida e em semelhantes possibilidades de jogar. Mas luta nenhuma me parece merecer que se decrete o fim do jogo, o abandono do passatempo ou a expulsão deste ou daquele jogador que não parece compreender as regras. Há sempre o momento certo para que cada folião entenda os passos da ciranda. É aos poucos que se vai formando a roda, peça a peça vai-se montando o quebra-cabeça.

Há tempos a sorte está lançada, nós é que fingimos não perceber. O resto é silêncio - um silêncio de espera pelo próximo mover das peças no tabuleiro.

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Ulisses

Afogados viemos todos
Dar nesta praia obtusa
Ensurdecidos com o canto
D’alguma obscura musa

E na ancoragem confusa
Neste torrão isolado
Nosso medo e nosso espanto
Relegamos ao passado.

O motivo anunciado
De nossa distante partida
Já não importava tanto,
Já não era a nossa vida

Mas uma herança perdida
Em algum ponto da viagem -
Em tempestades de pranto
Ou n’algum sopro de aragem

Que nos levou a bagagem
Que já não fará mais falta:
Os sonhos e o desencanto
Desta vida de argonauta,

Este navegar sem norte,
Este lançar-se à sorte
De deuses e desenganos
Sobejamente inumanos.

Da obra

(2006)
(Robertson Frizero Barros)

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Monday, October 24, 2005

É referendando que se recebe?

O referendo e toda a balbúrdia em torno dele chegaram ao fim na noite de ontem, 23 de outubro, quando os primeiros boletins de apuração do Tribunal Superior Eleitoral começaram a ser divulgados pela mídia. (…) O que mais me espantou com relação ao referendo, em verdade, foi o número enorme de tolices que foram ditas antes, durante e depois da votação, sinais de que a decisão que tomamos no dia de ontem foi feita sob bases de imprecisão e desconhecimento, de interesses ocultos de ambas as partes e de estranha falta de senso de muitas de nossas autoridades nacionais.Começo pelas palavras do presidente do Tribunal Superior Eleitoral que, ao justificar o gasto de mais de duzentos e cinqüenta milhões de reais para a realização do referendo, disse que o custo era elevado, mas que a votação deveria ser vista como uma homenagem à democracia - como se palavras poéticas de gosto duvidoso pudessem esconder o fato de que se gastou muito dinheiro para que o povo tomasse uma decisão que, no fim das contas, cabia aos deputados federais e senadores, nossos eleitos, tomar. (LEIA O TEXTO COMPLETO ABAIXO)

O referendo e toda a balbúrdia em torno dele chegaram ao fim na noite de ontem, 23 de outubro, quando os primeiros boletins de apuração do Tribunal Superior Eleitoral começaram a ser divulgados pela mídia. O resultado, uma expressiva vitória da Frente Parlamentar pela Legítima Defesa, o pessoal do NÃO, deixou no ar um perfume de contestação popular, a meu ver, contra a situação da Segurança Pública em todo o país e, também, contra a manipulação das emoções do eleitor, caminho erroneamente percorrido pela campanha do SIM ao usar atores televisivos, números manipulados e imprecisos e interpretações errôneas da chamada Lei do Desarmamento para convencer o eleitor - o que só gerou reprovações por parte das autoridades eleitorais e, por consegüinte, a desconfiança de muitos.

O que mais me espantou com relação ao referendo, em verdade, foi o número enorme de tolices que foram ditas antes, durante e depois da votação, sinais de que a decisão que tomamos no dia de ontem foi feita sob bases de imprecisão e desconhecimento, de interesses ocultos de ambas as partes e de estranha falta de senso de muitas de nossas autoridades nacionais.

Começo pelas palavras do presidente do Tribunal Superior Eleitoral que, ao justificar o gasto de mais de duzentos e cinqüenta milhões de reais para a realização do referendo, disse que o custo era elevado, mas que a votação deveria ser vista como uma homenagem à democracia - como se palavras poéticas de gosto duvidoso pudessem esconder o fato de que se gastou muito dinheiro para que o povo tomasse uma decisão que, no fim das contas, cabia aos deputados federais e senadores, nossos eleitos, tomar. Mas a ordem de proibição da venda legal de armas é algo polêmico demais para que os políticos assumam como escolha sua - e por isso já se fala na convocação de referendos futuros sobre temas tão díspares quanto o casamento entre parceiros homossexuais e a legalização do aborto. Em resumo, elegemos representantes para que eles não decidam para nós sobre as questões mais polêmicas, já que é muito melhor colocar nas mãos do povo, diretamente, a responsabilidade sobre tais decisões. No fim das contas, parece que a única questão de importância para nossa classe política é, realmente, a próxima eleição.

Esta minha visão desencantada da classe política encontra como melhor exemplo as palavras do senador Renan Calheiros, partidário do SIM, que ao saber do resultado do referendo declarou, em outras palavras, que “espera que as pessoas, a partir de agora, ao verem na televisão as grandes tragédias causadas por armas de fogo, lembrem-se que o país perdeu sua chance de se colocar à frente de seu tempo”. A fala remete a outro momento histórico famoso, quando um estadista romano declarou, diante da decisão popular, que “lavava as suas mãos”…

Mas não foram somente os políticos e os representantes do Estado que se exacerbaram em suas posturas - poéticas ou acovardadas - em relação ao referendo. No jornal Zero Hora de hoje, 24 de outubro de 2005, o nosso grande cronista Luiz Fernando Veríssimo adotou a postura questionável de comparar os partidários (e os eleitores) do NÃO aos escravagistas que não queriam a abolição da escravatura no final do século XIX e aos populares cariocas que atacaram Osvaldo Cruz e seus vacinadores na revolta da primeira década do século XX. Em outras palavras, Veríssimo diz que os brasileiros são, a partir da vitória do NÃO, também culpados pelos crimes que vierem a acontecer…

Questiono muito essa postura que coloca os antagonistas de nossas idéias no lado do mal, e todos aqueles que são partidários de nossa filosofia de vida como o bem absoluto. Isso rescende aos escândalos mais recentes de nossa política nacional quando, por terem acontecido no âmbito de certo partido, o Caixa Dois em campanhas políticas passou a ser considerado um erro e não mais um crime por parte de muitos políticos que antes combatiam com fervor a corrupção em seus discursos; rescende às palavras de Marilena Chauí, filósofa intimamente ligada ao mesmo partido dos desmandos e mensalões, a dizer que “ainda não tinha conseguido formar um juízo de valor a partir do que via na imprensa” sobre toda a história do esquema de corrupção na cúpula do Poder Executivo. Mas, há que se lembrar, tudo isso aconteceu do nosso lado e, na lógica das esquerdas tupiniquins, se ocorreu com os nossos é porque é justificável, válido, certo, por uma boa causa…

A última tolice a que gostaria de me reportar em relação ao referendo foi a posição de um de nossos mais radicais partidos de esquerda, o PSTU - exacerbado ao ponto de ser oposição ao primeiro governo de um partido de esquerda no posto mais alto da Nação -, o qual se posicionou a favor, pasmem, do NÃO, segundo se pode verificar nos inúmeros cartazes espalhados em algumas capitais. Em seus dizeres, o tal partido dizia ser contra a proibição do comércio legal de armas porque a medida deixaria “as armas nas mãos apenas das polícias e dos bandidos”, o que, para eles, significa dizer que o povo - perdão, eles sempre usam “os trabalhadores” para se referir ao povo - estaria à mercê “do crime organizado internacional e dos interesses da burguesia repressora”, uma postura que só pode ser compreendida ao lembrarmos que se trata de um partido que defende a luta armada como forma de ascenção ao poder - e com a proibição da venda legal de armas deve ter se sentido ameaçada em seus sonhos de congregar os brasileiros às armas na luta contra o imperialismo, à ALCA, ao FMI e ao que mais estiver na moda no momento do protesto…

Depois do referendo, continuamos com a Lei do Desarmamento em vigor, uma lei já bastante restritiva à compra e porte de armas legais, torcendo para que os governos consigam cumprir ao menos sua parte neste imaginário pacto firmado entre eleitores e políticos no dia de ontem - desarmar os bandidos e garantir que sejam resolvidos os problemas que realmente são o cerne da questão da Segurança Pública no Brasil: a desigualdade social, o desprezo à educação pública, o descaso com o crescimento populacional desordenado e cruel, o uso da máquina estatal em benefício de tão poucos.

Homenagens à democracia, feitas em bronze e expostas em praças públicas, terão mais valor que este referendo de duzentos e cinqüenta milhões de reais caso o povo brasileiro não receba em troca de seu voto um pouco mais de respeito de nossa classe política. Como o bronze em forma de estátua e exposto ao vento, o referendo tornar-se-á metal vazio por dentro se não houver por ele mais que um respeito obtuso por seu alto custo.

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Friday, October 21, 2005

Mundos Desorbitados

“O trabalho, em um dado momento, adquire uma fala própria e foge de qualquer controle por parte do artista.” (Artur Lescher, artista plástico e filósofo)

Ontem à noite, em meio a uma longa viagem pelo interior do Rio Grande do Sul, despejei-me cansado em meu quarto de hotel e pus-me a visitar descompromissadamente a programação da televisão aberta, em busca de alguma diversão despretensiosa.  Chamou-me a atenção um programa que se iniciava na rede pública de televisão chamado O Mundo da Arte, que naquele dia propunha, sob o título Arte e Matéria, traçar um paralelo entre a produção artística de dois artistas plásticos brasileiros contemporâneos, Artur Lescher e Flávia Ribeiro. (…) Confesso que tenho buscado dar uma chance à arte contemporânea para que ela me cative, de algum modo, mas sou um escravo da beleza e do sentido - coisas que os contemporâneos parecem abominar.  (LEIA O TEXTO COMPLETO ABAIXO)

“O trabalho, em um dado momento, adquire uma fala própria e foge de qualquer controle por parte do artista.” (Artur Lescher, artista plástico e filósofo)

Ontem à noite, em meio a uma longa viagem pelo interior do Rio Grande do Sul, despejei-me cansado em meu quarto de hotel e pus-me a visitar descompromissadamente a programação da televisão aberta, em busca de alguma diversão despretensiosa.  Chamou-me a atenção um programa que se iniciava na rede pública de televisão chamado O Mundo da Arte, que naquele dia propunha, sob o título Arte e Matéria, traçar um paralelo entre a produção artística de dois artistas plásticos brasileiros contemporâneos, Artur Lescher e Flávia Ribeiro.  Os dois são conceituadíssimos artistas, sempre incluídos em exposições internacionais e mostras importantes como a Bienal de São Paulo e, como sou um eterno interessado pela arte em todas as suas expressões - ainda que, confesso, um tanto desconfiado quando esta vem junto ao tal rótulo da contemporaneidade -, interessei-me de pronto pelo programa e deixei que ele me conduzisse pela proposta dos dois artistas.

O trabalho de Lescher era forjado em cálculos matemáticos e na procura por materiais novos e inusitados.  Parafina e pano, ferro e mercúrio, metal e areia prensada, a inovação do uso de matérias-primas como estas eram o início do processo criativo do artista, segundo o próprio.  Ele declarou que abomina a utilidade das coisas e que sua arte vai justamente de encontro a qualquer noção de aplicabilidade - o programa mostrou suas investigações (perdoe-me o jargão tão próprio da arte contemporânea, também o questiono eu) sobre a figura da ponte, refletida em inúmeros objetos construídos em madeira que lembravam pontes pêncil, mas que não serviriam para ligar nada a coisa alguma, o que era visto como positivo pelo artista.  Segundo Lescher, os materiais é que definem o trabalho artístico - mostrou uma luneta curva feita de areia prensada com gás carbônico, formando uma espécie de tubulação sem nenhuma elaboração maior sobre isso, um cone de ferro sobre o qual despejara mercúrio líquido, uma roda de madeira ligada a um eixo do mesmo material e que se apoiava em um pequeno cilindro de alumínio, formas lembrando casas unidas entre si e milimetricamente calculadas para formar uma espécie de cruz de formas fechadas e sem aberturas que pudessem sugerir realmente habitações… Enfim, o material ordena-lhe o trabalho que surgirá - e o ápice de tal conceito para o filósofo-artista é uma caixa vasada de madeira dentro da qual ele colocou um bloco metálico que depois seria banhado por um ácido potente que iria carcomer o metal eternamente, por meio de reações químicas entre a peça e o composto.  Para o artista, o ácido proporcionará uma mutação eterna no trabalho que leva a reflexões sobre a permanente alteração do mundo e sobre a inconstância da memória.  O curioso é que o artista declara-se um confesso desconhecedor das técnicas necessárias para a execução de seus trabalhos, contando, para tal, com a ajuda imprescindível de bons marceneiros e metalúrgicos.

Flávia Ribeiro, por sua vez, dedica-se à gravação quase que totalmente; mas, fugindo do tradicional processo de gravação, ela forra chapas de ferro com folhas de alumínio e sobre estas faz riscos circulares com instrumentos estranhos como pedras recolhidas nas ruas e ferramentas de uso odontológico.  Os desenhos serão, depois, submetidos à ação de ácidos que preparam a chapa para a fase final da gravura.  Ah, sim, com esse ferramental, ela desenha (?) o que chama de mundos desorbitados - na minha reles concepção de admirador leigo das artes, uns círculos disformes que poderiam ser desenhados por qualquer um de nós…   Mas, enfim, o trabalho de Flávia Ribeiro é sua forma de repensar o tempo e a memória - nas palavras da própria artista.  Como Artur Lescher, ela também sente o trabalho artístico escapar-lhe do controle, ao declarar que o resultado de seu trabalho é sempre inimaginável quando ela começa a trabalhar suas peças.  Em outra vertente de seu trabalho, com o que nas artes é chamado de monotipia, ela espalha pigmentos em uma superfície sobre a qual deposita uma folha de papel e, por sobre a folha de papel, faz circular bolas de todos os tipos que costuma fazer em seus momentos criativos - limões secos, bolinhas de papel, emaranhados de galhos e folhas, novelos feitos com seus próprios cabelos… O resultado da monotipia, uma vez mais, é inesperado, inimaginável

Confesso que tenho buscado dar uma chance à arte contemporânea para que ela me cative, de algum modo, mas sou um escravo da beleza e do sentido - coisas que os contemporâneos parecem abominar.  Artur Lescher, por exemplo, reclama que o mundo atual é vítima de um certo exagero de ações construtivas, seja lá o que isso quer dizer.  Mas é difícil conciliar o conceito de arte que tenho comigo, e que deve ser compartilhado ainda com muitos, de tais processos criativos nos quais o artista se declara sem domínio algum sobre o resultado final do trabalho, ou mesmo desconhecedor das técnicas necessárias para transpor suas idéias artísticas do papel para o mundo das concretudes…  Será esta a diferença entre artista e artesão? 

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Monday, October 17, 2005

Humor involuntário

O Referendo sobre o Comércio Legal de Armas de Fogo está despertando um interesse e um posicionamento aberto dos meios de comunicação que é, no mínimo, digno de suspeição. (…)Um outro efeito interessante dessa disputa pela opinião dos eleitores tem sido o humor involuntário que as reportagens e colocações estampadas nos jornais têm trazido. (LEIA O TEXTO COMPLETO ABAIXO)

O Referendo sobre o Comércio Legal de Armas de Fogo está despertando um interesse e um posicionamento aberto dos meios de comunicação que é, no mínimo, digno de suspeição. Em outros países, bem sei, é comum que os jornais e revistas tomem posições claras sobre esta ou aquela questão - o que chamamos de visão editorial, mas tomo a liberdade de questionar os interesses por trás do declarado apoio ao NÃO por parte da Revista Veja e ao SIM por parte de todo o grupo Globo, no qual se incluem a Rede Globo de Televisão e a Revista Época

Um outro efeito interessante dessa disputa pela opinião dos eleitores tem sido o humor involuntário que as reportagens e colocações estampadas nos jornais têm trazido. Hoje, por exemplo, o jornal Zero Hora, de Porto Alegre, publica as declarações de vinte e três detentos, homens e mulheres, sobre o referendo do dia 23 de outubro de 2005. Além do português quase castiço no qual os tais presos se expressam, há pérolas de incogruência como o condenado por roubo a mão armada que se diz “contra o desarmamento (pois) como podem tirar a defesa do povo?“. Para este apenado, ” tem armação por trás dessa proposta, e sei do que falo, porque eu entrava na casa dos outros de arma na mão“. É divertido ler também o traficante que se diz contra o desarmamento porque “não é porque estou aqui enjaulado que vou querer que alguém me pegue desprevenido na rua” e que filosofa, afirmando que “o que mata é a cabeça, não a arma“. A reportagem (?) cita ainda uma condenada por homicídio que diz ser “contra as armas (…) nunca tive, apesar de me acusarem de matar meu ex-marido“, uma traficante que diz que “tem gente que precisa de arma para trabalhar” e um outro condenado por tráfico que diz que “O Estado não defende a população, logo a população deve se armar“. E durma-se com um barulho desses!

O triste de tudo isso é que não é difícil imaginar alguém lendo esta matéria no jornal e reproduzindo seu conteúdo para os amigos, dizendo algo como ” estão vendo? Até os bandidos são contra/a favor do desarmamento…“, sem qualquer senso crítico sobre o que está exposto nos jornais de hoje. Lembro-me de Monteiro Lobato, que preconizava que “um país se faz com homens e livros“, um aforismo duro de ser recordado em tempos nos quais sabemos que a maioria da população brasileira é composta de analfabetos funcionais, ou seja, os que sabem ler mas não compreendem o que lêem.

Quem sabe não fazemos um referendo para decidir sobre a obrigatoriedade do comércio de livors?

Posted by Frizero in 11:49:42 | Permalink | No Comments »