Pose
(…) Parece que os cacoetes ideológicos daqueles anos de radicalismos de todos os matizes, tão criticados por Nelson Rodrigues, ainda permanecem nos dias de hoje. Atrevo-me a dizer, contudo, que a empáfia que vemos em boa parte da intelectualidade brasileira de hoje não é apenas um resultado daquelas posturas combatidas pelo dramaturgo e cronista, mas algo que é inerente à posição de membro da ‘inteligentzia’ de qualquer país - a pose. (LEIA TEXTO COMPLETO ABAIXO)
‘O leitor, em sua espessa ingenuidade, não imagina como nós, intelectuais, precisamos de poses. Cada frase nossa, ou gesto, ou palavrão é uma pose e, diria mesmo, um quadro plástico. Ah, nossas posturas ideológicas, literárias, éticas, etc. etc. Agimos e reagimos de acordo com os fatos do mundo. Se há o Vietnã nós somos vietcongs; mas se a Rússia invade a Tchecoslováquia, vestimos a pose tcheca mais agressiva. E as variações do nosso histrionismo chegam ao infinito.’
(Nelson Rodrigues - texto ‘El Arzobispo de la Revolución’ (1968), In Rodrigues, Nelson. A Cabra Vadia: Novas Confissões. São Paulo: Cia das Letras, 1995, p.237)
Fui apresentado hoje a algumas crônicas de um de nossos mais interessantes e profícuos dramaturgos, Nelson Rodrigues, e confesso que estou encantado com o que li. Não conhecia sua faceta de cronista, infelizmente era jovem demais para acompanhar sua participação na imprensa carioca à época, mas o que me espantou positivamente nas crônicas de Nelson Rodrigues é a sua atualidade.
Os textos a que tive acesso pela Internet são dos anos de 1968 a 1970, época conturbada de nossa história na qual Nelson Rodrigues teve a corajosa postura de ser um conservador entre seus amigos intelectuais de esquerda em um período no qual ser conservador era um pecado ainda maior do que o é hoje em dia.
Parece que os cacoetes ideológicos daqueles anos de radicalismos de todos os matizes, tão criticados por Nelson Rodrigues, ainda permanecem nos dias de hoje. Atrevo-me a dizer, contudo, que a empáfia que vemos em boa parte da intelectualidade brasileira de hoje não é apenas um resultado daquelas posturas combatidas pelo dramaturgo e cronista, mas algo que é inerente à posição de membro da ‘inteligentzia’ de qualquer país - a pose.
Ao pertencer a uma certa ‘nata intelectual’ da sociedade, parece que cada palavra, cada posição é primeiro pensada como uma pose (permitam-me roubar a metáfora de Nelson), aos moldes das formas estabelecidas pelo estatuário grego dos antigos - que por anos a fio ‘engessaram’ a arte de nossos escultores a um repertório de poucas variações… Fugir da pose, ou seja, dizer ou pensar algo fora da cartilha ideológica exigida pela ‘minoria pensante’ é alijar-se a si mesmo do convívio agradável dos saraus literários, das festas moderninhas, dos corredores da academia e dos segundos cadernos dos jornais.
Tudo isso me faz pensar no quão profético foi Gustave Flaubert ao escrever seu inacabado ‘Bouvard e Pecuchét’. Nesse romance divertidíssimo, se bem me recordo, os dois protagonistas são pobretões que repentinamente herdam uma boa herança e começam a se dedicar à tarefa de se tornar parte da alta sociedade. Para tal, arvoram-se a investir em diversas artes e ofícios - mas nunca indo a fundo e estudando-as nas fontes mais confiáveis, antes preferindo a superficialidade das noções mais conhecidas pelo vulgo sobre o assunto em questão. O resultado, logicamente, era o de insucessos após insucessos. Por fim, os personagens de Flaubert começam a escrever um dicionário - o ‘Dicionário das Idéias Prontas’ - reunindo verbetes que expressavam o pouco que eles deveriam saber sobre cada tema para que pudessem manter uma boa conversa nas reuniões sociais junto aos nobres e abastados.
Flaubert falava de seu tempo, mas sua irônica visão é facilmente aplicável aos dias de hoje, onde recebem a honraria de intelectual pessoas de pouca ou nenhuma leitura, mas que transitam com tranqüilidade pela imprensa e pelos meios mais abastados tendo lido apenas os livros do ‘cânone torto’ de certa ideologia vigente - isso sem falar dos leitores de um único livro, pelo qual parecem ver e analisar toda a realidade ao seu redor. Se perguntado sobre teatro - diga-lhes que ‘teatro é subversão’, que a ‘linguagem teatral deve ser inovadora’, salpique o discurso com palavras como ‘desconstrução’ e ‘releitura’ e tudo bem. Obras de arte não precisam fazer sentido, nem serem belas, e a função da poesia é ser visual, não emotiva. Se o assunto é política - mencione os adjetivos ‘participativo’, ’solidário’ e ‘democrático’, não necessariamente nessa ordem, e tudo se ajeita. Ao falar de controle ou censura (anátema!), seja contrário, mesmo que a coisa a ser controlada faça apologia às drogas, ao crime ou ao sexo sem responsabilidade. Falar qualquer coisa diferente disso pode levar o cidadão a ser crucificado como reacionário, fascista ou ignorante.
Concordo com os que dizem que intelectual autêntico é o que se apavora com o tanto de coisas no mundo que ele ainda não conhece e domina, e usa esse sentimento para movimentá-lo através do mundo do conhecimento. Quem conhece bem uma meia dúzia de livros e vive de fazer pose de filósofo, não é mais que um histriônico ator aos moldes do que Nelson Rodrigues condenava entre os intelectuais de seu tempo.