Thursday, September 29, 2005

Pose

bouvard

 (…) Parece que os cacoetes ideológicos daqueles anos de radicalismos de todos os matizes, tão criticados por Nelson Rodrigues, ainda permanecem nos dias de hoje. Atrevo-me a dizer, contudo, que a empáfia que vemos em boa parte da intelectualidade brasileira de hoje não é apenas um resultado daquelas posturas combatidas pelo dramaturgo e cronista, mas algo que é inerente à posição de membro da ‘inteligentzia’ de qualquer país - a pose. (LEIA TEXTO COMPLETO ABAIXO)

bouvard ‘O leitor, em sua espessa ingenuidade, não imagina como nós, intelectuais, precisamos de poses. Cada frase nossa, ou gesto, ou palavrão é uma pose e, diria mesmo, um quadro plástico. Ah, nossas posturas ideológicas, literárias, éticas, etc. etc. Agimos e reagimos de acordo com os fatos do mundo. Se há o Vietnã nós somos vietcongs; mas se a Rússia invade a Tchecoslováquia, vestimos a pose tcheca mais agressiva. E as variações do nosso histrionismo chegam ao infinito.’
(Nelson Rodrigues - texto ‘El Arzobispo de la Revolución’ (1968), In Rodrigues, Nelson. A Cabra Vadia: Novas Confissões. São Paulo: Cia das Letras, 1995, p.237)

                          Fui apresentado hoje a algumas crônicas de um de nossos mais interessantes e profícuos dramaturgos, Nelson Rodrigues, e confesso que estou encantado com o que li. Não conhecia sua faceta de cronista, infelizmente era jovem demais para acompanhar sua participação na imprensa carioca à época, mas o que me espantou positivamente nas crônicas de Nelson Rodrigues é a sua atualidade.

                              Os textos a que tive acesso pela Internet são dos anos de 1968 a 1970, época conturbada de nossa história na qual Nelson Rodrigues teve a corajosa postura de ser um conservador entre seus amigos intelectuais de esquerda em um período no qual ser conservador era um pecado ainda maior do que o é hoje em dia.

                              Parece que os cacoetes ideológicos daqueles anos de radicalismos de todos os matizes, tão criticados por Nelson Rodrigues, ainda permanecem nos dias de hoje. Atrevo-me a dizer, contudo, que a empáfia que vemos em boa parte da intelectualidade brasileira de hoje não é apenas um resultado daquelas posturas combatidas pelo dramaturgo e cronista, mas algo que é inerente à posição de membro da ‘inteligentzia’ de qualquer país - a pose.

                                Ao pertencer a uma certa ‘nata intelectual’ da sociedade, parece que cada palavra, cada posição é primeiro pensada como uma pose (permitam-me roubar a metáfora de Nelson), aos moldes das formas estabelecidas pelo estatuário grego dos antigos - que por anos a fio ‘engessaram’ a arte de nossos escultores a um repertório de poucas variações… Fugir da pose, ou seja, dizer ou pensar algo fora da cartilha ideológica exigida pela ‘minoria pensante’ é alijar-se a si mesmo do convívio agradável dos saraus literários, das festas moderninhas, dos corredores da academia e dos segundos cadernos dos jornais.

                                Tudo isso me faz pensar no quão profético foi Gustave Flaubert ao escrever seu inacabado ‘Bouvard e Pecuchét’. Nesse romance divertidíssimo, se bem me recordo, os dois protagonistas são pobretões que repentinamente herdam uma boa herança e começam a se dedicar à tarefa de se tornar parte da alta sociedade. Para tal, arvoram-se a investir em diversas artes e ofícios - mas nunca indo a fundo e estudando-as nas fontes mais confiáveis, antes preferindo a superficialidade das noções mais conhecidas pelo vulgo sobre o assunto em questão. O resultado, logicamente, era o de insucessos após insucessos. Por fim, os personagens de Flaubert começam a escrever um dicionário - o ‘Dicionário das Idéias Prontas’ - reunindo verbetes que expressavam o pouco que eles deveriam saber sobre cada tema para que pudessem manter uma boa conversa nas reuniões sociais junto aos nobres e abastados.

                                Flaubert falava de seu tempo, mas sua irônica visão é facilmente aplicável aos dias de hoje, onde recebem a honraria de intelectual pessoas de pouca ou nenhuma leitura, mas que transitam com tranqüilidade pela imprensa e pelos meios mais abastados tendo lido apenas os livros do ‘cânone torto’ de certa ideologia vigente - isso sem falar dos leitores de um único livro, pelo qual parecem ver e analisar toda a realidade ao seu redor. Se perguntado sobre teatro - diga-lhes que ‘teatro é subversão’, que a ‘linguagem teatral deve ser inovadora’, salpique o discurso com palavras como ‘desconstrução’ e ‘releitura’ e tudo bem. Obras de arte não precisam fazer sentido, nem serem belas, e a função da poesia é ser visual, não emotiva. Se o assunto é política - mencione os adjetivos ‘participativo’, ’solidário’ e ‘democrático’, não necessariamente nessa ordem, e tudo se ajeita. Ao falar de controle ou censura (anátema!), seja contrário, mesmo que a coisa a ser controlada faça apologia às drogas, ao crime ou ao sexo sem responsabilidade. Falar qualquer coisa diferente disso pode levar o cidadão a ser crucificado como reacionário, fascista ou ignorante.

                                Concordo com os que dizem que intelectual autêntico é o que se apavora com o tanto de coisas no mundo que ele ainda não conhece e domina, e usa esse sentimento para movimentá-lo através do mundo do conhecimento. Quem conhece bem uma meia dúzia de livros e vive de fazer pose de filósofo, não é mais que um histriônico ator aos moldes do que Nelson Rodrigues condenava entre os intelectuais de seu tempo.

Posted by Frizero at 19:06:01 | Permalink | No Comments »

No começo, era o verbo…

                                 Não há nestes registros pretensão maior que a de dialogar com os eventuais visitantes sobre os mais diversos temas aos quais temos acesso por intermédio dos livros, da imprensa porto-alegrense e, eventualmente, por outros meios de acesso ao mundo… E se dedico algum espaço em minha conflitada agenda para escrever aqui sob essa perspectiva, é porque acredito que a cidade de Porto Alegre (e o Brasil em geral) merecia uma imprensa com o olhar mais voltado para o mundo, menos engajada nesta ou naquela ideologia, mais aberta ao que de melhor há nesta cidade que tem tudo para ser ainda mais maravilhosa. De algum modo, estes registros também pretendem ser a visão de um “estrangeiro”, de um carioca que adotou o Rio Grande do Sul como seu rincão no mundo, sobre o que há de melhor e pior nesta “nossa” terra, em nosso país e em nosso mundo.

Posted by Frizero at 00:05:58 | Permalink | No Comments »